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sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Bang bang à Italiana com muito spaghetti - In Memorian: Ennio Morricone

 


O Bom, o Mau, o Feio.... E a MÚSICA.

por Ronald Lima
(Postado originalmente em 10/ 11/ 2018)

Uma das maiores estrelas das trilhas musicais


 

Na passagem do cinema clássico para o cinema moderno, ocorrida entre os anos 1950 e 1960 o compositor italiano Ennio Morricone ( Roma, 10 de novembro de 1928  — , Universidade Campus Biomédico. Selcetta, Itália,  06 de julho de 2020) desempenha nessa transição um papel efetivo. Introduzindo elementos da música pop e da musica concreta em seus arranjos e composições. Vamos nos deter aqui nos processos iniciais de criação de suas músicas e para o gênero western, Ennio Morricone é prolífico, foram 108 produções nos anos 60, 141 durante os anos 70, 65 durante os anos 80, 55 produções nos anos 90 e 32 produções após o ano 2000. Morricone desenvolveu seu pensamento musical em diversos outros gêneros cinematográficos que trabalhou: drama, comédia, terror, bélico, denúncia social, thrillers, erótico, policial, gângster, histórico, muita coisa não? Tentar dividir tudo isso em 3 incluindo sua atuação mais recente como orquestrador e regente, profissão em que ele sempre se considerou e não como “músico de trilhas sonoras”.

Clique nos links que irá lhe proporcionar uma imersão melhor nesses métodos de criação.

Filho de um trompetista que ganhava a vida tocando jazz em clubes noturnos da capital italiana, e logo demonstrou interesse e talento musical.

 

Ennio Morricone a esquerda e seu trompete em estúdio em 1965


Aos seis anos, já tocava trompete, porém Morricone revela que seu pai forçou bastante esse contato musical quando percebeu uma aptidão nata no filho. Na adolescência estudava durante o dia no Conservatório de Santa Cecília em Roma e a noite junto com o pai tocava em boates, e desenvolveu um gosto musical bastante eclético com esse convívio entre o acadêmico e o popular. Depois de completar os estudos, desejou estudar mais a fundo o fenômeno da música concreta*1, que se tornava popular entre os jovens compositores e tornar-se ele mesmo, quem sabe, um professor.

(https://www.youtube.com/watch?v=c4ea0sBrw6M. - Uma pequena aula prática sobre Música Concreta)

 

"Cinema Paradiso" (1988), "Era uma Vez no Oeste" (1968), "Por Um Punhado de Dólares" (1964) "A Missão" (1986). Tantas e tão variadas trilhas ao longo de uma longa carreira...

 

Mas o casamento com Maria Travia, e o nascimento de seu 1º filho, Marco, o fizeram cair na realidade e procurar um emprego e deixar os estudos, foi contratado como arranjador de estúdio da emissora de televisão italiana RTI e ocasionalmente como um compositor ghost writer*2. Como free-lancer*3 Morricone escreveu peças orquestrais e de câmara*4 e começou a compor para filmes em 1959, quase sempre de forma não-creditada. O exercício repetido de organizar centenas de peças curtas para produções mais baratas e populares, sem perceber, lhe serviria de base para toda sua carreira. Ennio conheceu Maria Travia em 1950 e essa o acompanhou durante toda sua vida. Tiveram 4 filhos, 3 meninos e uma menina: Marco, Alessandra, Andrea e Giovanni . Andrea Morricone iria trabalhar futuramente com o pai em Cinema Paradiso em 1988.

 

Nos imensos estúdios da Cinecittá um bairro inteiro poderia caber facilmente


 

O cinema italiano ferveu entre os anos 50 e 70, desejosos em mostrar uma Itália antenada com o Mundo Moderno e disposta a superar os horrores da Guerra e do Fascismo com uma narrativa realista e lírica ao mesmo tempo. A produção resultava em mais de 100 longas metragens lançados por ano, muitos de custo baixo e gosto popular é verdade. É lembrar que a famosa casa do cinema italiano, a Cinecittá em Roma, fora fundada por Benito Mussolini,  e assim algo melhor precisava ser realizado ali. A Cinecittá é de fato como uma pequena cidade com enormes estúdios e teatros construídos entre 1936 e 37 na periferia de Roma na época. Serviu inclusive como estúdio para grandes produções norte americanas, entres tantas merece destaque Ben Hur de 1959. 

 

E na área externa um imenso hipódromo também encontra lugar. Filmagens de Ben Hur 1958/59.


A produção do cinema italiano nesse período foi tão intensa que atraiu atores de várias partes do Mundo. Do cinema italiano desses anos surgem nomes que até hoje nos transmite encanto, arrojo e inovação com atrizes, atores e principalmente diretores ainda fortes na história do cinema mundial, nomes como: Sophia Loren, Claudia Cardinale, Gina Lollobrigida e Marcelo Mastroianni e diretores tais como Vittorio de Sica (Ladrões de Bicicleta), Federico Fellini (A Doce Vida), Pier Paolo Pasolini (Mamma Roma), Franco Zeffirelli (Romeu e Julieta), Luchino Visconti (Morte em Veneza), Michelangelo Antonioni (As Amigas), Roberto Rossellini (Roma, Cidade Aberta) e e Sergio Leone (os 3 filmes que irão compor a A Trilogia dos Dólares). Esse último citado em especial pois seria através dele que Ennio Morricone entraria nessa constelação de nomes do cinema italiano e depois mundial.

“Depois da guerra, a indústria de filmes era muito forte aqui na Itália, e o neo-realismo no cinema italiano era realmente maravilhoso, porém esses filmes neo-realistas não tinham uma grande música. Eu precisava de dinheiro e achei que seria uma coisa boa escrever para filmes."

                                                                                                        Ennio Morricone

 

Clint Eastwood e Sergio Leone durante as gravações de Per un Pugno di Dollari.


Em seu dia-a-dia compondo para todo tipo de produção que surgisse, Ennio conhece o diretor Luciano Salce que trabalhava para TV e teatro e tinha grandes contatos por conta disso. Surge através dessa amizade em 1960 uma chance para trabalhar em uma grande produção, porém prematuramente cortada pois o produtor Dino de Laurentiis não queria arriscar colocar a produção musical do filme Le Pillole di Ercole nas mãos de um desconhecido arranjador de estúdio e mesmo com um início dessa produção concluído Morricone sequer recebeu um pagamento pois todo seu trabalho foi descartado. Luciano Salce consegue obter a direção para um filme Il Federale e convida Morricone para compor a trilha, e seria o primeiro contato com um grande público e, segundo o próprio, essa resposta de público se tornou a principal razão de seu trabalho. Salce consegue em 1964 colocar Ennio em contato com o diretor Sergio Leone, o que seria de fato sua 1ª oportunidade para algo maior e um pouco de reconhecimento quando reencontrou aquele que seria seu parceiro mais famoso. Reencontrou porque os dois haviam estudado juntos no ginásio (embora Leone não lembrasse disso), e se reuniram profissionalmente pela primeira vez quando o cineasta montava a equipe que realizaria a pós-produção de Por um Punhado de Dólares (A Fistful of Dollars). Leone lhe pediu então algumas ideias para a trilha. O trabalho de Ennio não chegou a impressionar de início pois lembrava os westerns norte americanos grandiloquentes ou melodiosos demais.

https://www.youtube.com/watch?v=1uuAjwvtxEM&list=RD9m_MnpciQe4&index=2. “

Rio Bravo” de 1959.

 

O neo realismo italiano ainda influenciava nos anos 60 e inovar em todos os aspectos da produção de um filme era importante, nos cartazes inclusive. Arte de Michelangelo Papuzza


Leone desejava algo mais rude, pois sua ideia de cinema servia-se de ironia e certo humor negro, e era desse modo que encarava a vida dura do western, e não uma bravura indômita e redundante. A música tema deveria mostrar isso. Morricone viu nesse ideal a possibilidade de incorporar o conceito básico da música concreta onde qualquer som pode ser música, mas ele não pretendia romper completamente com a música que o público em geral estava acostumado a ouvir, e com receio de não surgir uma identificação com o filme, por outro lado Leone não aceitava que o western tivesse arranjos de cordas pois suavizavam a brutalidade do ambiente em que viviam os pistoleiros. Mas cordas combinam perfeitamente com vaqueiros, o que fazer? Morricone fez portanto uso de guitarras acústicas e não violões, e um coral masculino onde depois em estúdio equalizou as vozes, vale lembrar que a guitarra elétrica era um instrumento pop/ rock em nada considerada erudita e a música de cinema ainda se encontrava muito presa aos cânones clássicos. Na edição foi introduzido o que seria a maior inovação no cinema em relação a música até então: Sons e ruídos da narrativa do filme foram incorporados à música, chicotes, tiros, galopes e tudo quanto foi possível de barulho (barulho mesmo) que havia nas filmagens foi colocado para dar ambiente. 

O trabalho de estúdio não se restringiria mais a simples corte e edição, agora faz parte da obra também, de sobra Ennio preparou uma composição de 3 minutos em resumo para tocar nas rádios e ajudar na divulgação do filme (https://www.youtube.com/watch?v=sbEEKVFEeHI). 

A silhueta do cowboy em seu cavalo nessa apresentação em estilo cartoon certamente está associada a duas influências de Sergio Leone: Os quadrinhos de Tex Willer de Gian Luigi Bonelli e Aurelio Gallepini publicada na Itália desde 1948, e a Eadweard Muybridge com o seu cavalo em movimento de 1878 (https://www.youtube.com/watch?v=yWyCrOgDOfk). 

A técnica usada pela equipe italiana em 1964 nessa introdução animada é a rotoscopia *5.

 

Tex - 30 de setembro de 1948


Por um Punhado de Dólares contém uma das primeiras experiências de fusão entre a música do período clássico do cinema e o que de mais moderno e tecnológico os anos 60 poderiam oferecer. O ecletismo e o sincretismo de Morricone nas composições permitiram que elas fossem também percebidas como música pop de fácil assimilação, mesmo utilizando de timbres incomuns elas são memorizáveis e evocativas, e contribuíram muito para o grande sucesso do filme.

 

"Por Um Punhado de Dólares" (1964) e "Por Uns Dólares A Mais" (1965) duas das trilhas de Ennio Morricone para o que seria a "Trilogia dos Dólares" de Sergio Leone


 

Esse sucesso obtido na Itália foi avassalador. Em 1967 estreou nos Estados Unidos com sucesso de público mas não da crítica por achar o filme violento e por isso, uma certa brincadeira de mau gosto com um gênero ainda tão caro ao norte americano, contudo a América do Norte não se aventurava em uma grande produção de western desde os finais dos anos 50 e o tema estava restrito somente aos seriados de TV e esses seguindo os cânones do faroeste estilo norte americano onde o “mocinho usa chapéu branco e o vilão um chapéu preto”.

No Festival de Cannes de 2014 comemorou-se o "50º aniversário de nascimento do Spaghetti Western". Quentin Tarantino o descreveu como "a maior conquista na história do Cinema". Por um Punhado de Dólares alcançou 98% de aprovação e foi colocado no 8º lugar entre os 100 maiores Westerns do Cinema.

 

Em 2007 um Oscar honorário pelo conjunto da obra


Voltando aos anos 60, a parceria entre Sergio Leone e Ennio Morricone estava de fato consolidada e novos rumos se apresentavam. Morricone ampliou o conceito de música concreta para acrescentar não somente ruídos como também música a esses sons extras, em um duelo dentro de uma igreja, explicitamente trechos da ampliou o conceito de música concreta para acrescentar não somente ruídos como também música a esses sons extras, em um duelo dentro de uma igreja, explicitamente trechos da Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach fazem parte da trilha. A igreja estava semi destruída mas ainda era um lugar santo e com um sermão inclusive. https://www.youtube.com/watch?v=LjFVOuYShp0. Sergio e Morricone nomeiam esse recurso: nomeiam esse recurso: “alusionismo” que é na verdade uma intervenção na narrativa. Na concepção do alusionismo, Morricone também acrescenta trechos musicais do filme anterior, uma metalinguagem. Mas como ele prefere o termo criado, uma alusão*6 o que basicamente é a mesma coisa, quem somos nós para discordar. 

 

“Nesse momento brotara as sementes da minha vingança. Lhes disse: Não sei se realmente desejo fazer outro western. Porém, vou fazer somente para conseguir com que se sintam mal. Ele se chamará Per Qualche Dollaro in Più.” - “Por uns Dólares a Mais”

                                                                                                                         Sergio Leone

 

No filme Por uns Dólares a Mais, Sergio Leone também faz uso da alusão em várias imagens e cenas que remetem ao western de filmes norte americanos com saloons, bancos e carroças mas também com forcas, currais bastante tortos e duelos tensos, violentos em que o tempo parece parar e a música estimula a tensão que faz o espectador não saber quando de fato o último disparo será dado.

 

El Índio e seu relógio de bolso. O tema em suas mãos. Gian Maria Volonté interpreta o complexo bandoleiro.

  

É acrescentado ao assovio (7) do 1º filme, o uso de um instrumento peculiar da Sicília conhecido como marranzano, porém é um instrumento de origem bem primitiva e presente nas mais diversas culturas pelo Mundo afora, descoberto isso foi motivo mais que suficiente para ser utilizado na trilha do filme.

https://www.youtube.com/watch?v=gPr9EmGuIAA&t=2s - a Jaw Harp ou Marranzano ou Guimbarda ou Harpa de Boca ou...

As experiências não param. A música irá transmitir uma textura psicológica aos personagens e o vilão El Índio é escolhido para comunicar emoções ao público através de seu relógio de bolso (carrilhão). El Índio será interpretado pelo ator será interpretado pelo ator Gian Maria Volonté que chamou a atenção de Sergio Leone por sua interpretação em uma novela de rádio. Seu tema comunica várias emoções diferentes. Pode ser frio e cruel, pode ser triste ou inteligente e também triunfante, de acordo com a cena e ação do personagem, um grande trabalho de edição, função sempre valorizada por Ennio Morricone. O instrumento usado para o som do relógio de bolso é a celesta. (https://www.youtube.com/watch?v=faHXQugcz9A) - aqui a celesta.

O som semelhante a de uma caixinha de música vai sendo envolvido por outros instrumentos e o espectador não sabe ao certo se o bando de El Índio também ouvem seu tilintar ou somente o personagem a escuta ou os dois momentos e Morricone desejava criar justamente esse estranhamento.

(https://www.youtube.com/watch?v=9fEndGSMu_c) e aqui o tema de El Índio.

Ennio Morricone combinou música com o andamento da narrativa do personagem transmitindo personalidade a ambos.

 

"il maestro"


Morricone por essa obra recebeu as mais duras críticas como: “trair o som genuíno do western americano”, “inovações pegajosas e torpes” e foi considerado “um compositor destituído de qualquer talento” cuja maior contribuição à música de cinema “consiste em repetir até o limite do insuportável as mesmas melodias aplicadas no primeiro filme” e por ter utilizado Bach como apêndice para seu “experimento egocêntrico”. Pelo visto nenhum dos críticos imaginou que metalinguagem poderia ser usada em trilhas de filmes e não só isso, que um filme poderia ser baseado em uma narrativa do anterior como em um seriado, filmes seriados exibidos para cinema era considerado algo menor.

Sergio Leone e Ennio Morricone elaboraram um universo tão pessoal em torno de suas obras que culminou por transcender ao que seria um simples “cinema de gênero” no caso a temática Western. As inovações ali colocadas, não só as musicais, foram absorvidas por todos as demais temáticas além de renovar o próprio tema.

O sucesso de público foi mais uma vez arrasador, o filme mesmo com todas as experimentações inovadoras e estranhas atingia seu propósito que era falar ao espectador comum (afinal foi concebido para isso) ocorre a percepção de seriado por conta do personagem recorrente de Clint Eastwood. E Por um Punhado de Dólares também agrada ao mais exigente em uma 2ª leitura, mais refinada, por citar Johann Sebastian Bach e também na pregação dúbia sobre vantagens e desvantagens de uma vida de crimes feita por um bandoleiro desalmado de cima do púlpito de uma igreja em ruínas. O sucesso fez os mais críticos se calarem, e de fato, algo novo para o cinema surgiu desde o 1º filme da dupla e se consolidou. Faltava ler, entender e absorver; mudanças quando ocorrem são assim, somente percebidas depois.

 


Em Três Homens em Conflito ou se preferirem, ou se preferirem, O Bom, O Mau e O Feio serão utilizados mais instrumentos rústicos e exóticos na experiência musical iniciada em Por um Punhado de Dólares. Mais experientes, os dois dessa vez decidiram inverter o processo e realizar primeiro os temas antes do início das filmagens, para que a música ajudasse a inspirar as gravações. Leone tocou a música no set e coordenou os movimentos da câmera para combinar com a música. As composições contendo galopes, assobios e tiros, permeiam o filme como uma ideia já cristalizada. O tema principal tem como base um uivo semelhante a de um coiote, uma melodia de dois tons. O famoso “ua ua uaahh”, o cinema também cria onomatopeias. O som é trabalhado com um equalizador.

 

"- Aqui suas recompensas muchachos. Terão mais em El Paso!"


https://www.youtube.com/watch?v=kccafOf4O6Q - O Tema de abertura de Três Homens em Conflito

Essa base será motivo recorrente ao ser usada para os três personagens principais como funcionou em El Índio. Será mais curta e são 3 personagens portanto será necessário 3 andamentos diferentes. O tema de El Índio teve mais nuances é verdade. Dois instrumentos musicais diferentes foram usados para cada um: flauta doce e a harpa de boca para o personagem de Clint Eastwood, a ocarina e guitarra elétrica para Lee Van Cleef e o grito equalizado para Eli Wallach e assim, pareceria que vozes soassem como instrumentos. A ocarina é mais um desses instrumentos rústicos e universais que soma à harpa de boca o inusitado:

https://www.youtube.com/watch?v=Nad5AJaIcBI - a ocarina.


 


O personagem de Clint Eastwood, por ser o mais ético e menos sanguinário dos três pistoleiros, só matando outra pessoa como último recurso, é o Bom, porém possui algumas características do Mau, por ser um pistoleiro caçador de recompensas, o anti-herói por total características. Lee Van Cleef (Matar ou Morrer) interpreta o pistoleiro "Angel Eyes" (também chamado de "Sentenza", na versão italiana), ele é o único completamente o Mau de fato pois o personagem não apresenta nenhuma virtude, um mercenário sem o menor escrúpulo. Eli Wallach (Sete Homens e Um Destino) faz o papel do rude e nada requintado Tuco, o Feio, onde sua ambição o coloca também como um sujeito nem um pouco correto. Sua ambição é retratada musicalmente com um tema específico: The Ecstasy of Gold.

 

Clint Eastwood em Rawhide - Série de Tv de 1959 a 1965 onde Clint interpretou o galante vaqueiro Rowdy Yates. Alguns adereços usados por Clint nos filmes de Sergio Leone vieram do seriado. O colt, o cinturão e as esporas. Lembram dos Irmãos Cara de Pau interpretando o tema de Rawhide?



https://www.youtube.com/watch?v=ubVc2MQwMkg - The Ecstasy of Gold.

“Uma idéia temática se transformou no som do coiote em “Il buono, Il brutto, Il cattivo”. Permeia o episódio da guerra, o episódio dos créditos iniciais. Há cinco ou seis trompetes que ressoam no tempo de poucos segundos fazendo uma algazarra incrível. Depois de escolhas similares fui acusado de não ter controlado bem a partitura, porque aquelas intervenções sonoras resultavam efetivamente “fora” da imagem. Posso entender o motivo das críticas, mas não é absolutamente verdade que isso significasse uma incapacidade de controle de minha parte."                                                                                                               Ennio Morricone

O “Yodel Cowboy” seria a ponte musical entre o uivo do coiote e a clássica temática country. https://www.youtube.com/watch?v=BrouFOHhiG8 - “iodeleiiil”

 

“No final do processo de composição, uma vez que todos os fragmentos estão colocados no lugar certo, é possível obter uma idéia da atmosfera sonora global do filme, uma idéia unificada pelo ponto de vista musical. Poderiam me perguntar se a música do filme tem, em minha opinião, uma coerência interna comparável, por exemplo, ao da forma sonata ou qualquer outra peça musical? Nunca encontrei uma resposta definitiva para responder a esta questão. No geral, parece que em muitos dos meus filmes existe uma coerência musical, mas, em alguns casos, é mais difícil de ser detectada.” 

                                                                                                         Ennio Morricone

 

Aqui Ennio Morricone conduz a Aqui Ennio Morricone conduz a The Munich Radio Orchestra no Tema de no Tema de 3 Homens em Conflito - O Bom, O Mau e o Feio. (https://www.youtube.com/watch?v=cZVBzQh1K7E)

Ennio Morricone morreu no dia 6 de julho de 2020 em Roma, aos 91 anos, devido a complicações recorrentes de uma queda em sua casa. 

Seu legado permanecerá sempre que existir o cinema, e quem amar o cinema, e a música.

 

Notas:

*1 - Música Concreta: A música concreta tem por característica a utilização de fragmentos de sons naturais ou industriais, as inovações da tecnologia nos estúdios de gravação permitiram melhor captação de sons.

*2 - Ghost-writer: Quando alguém é contratado para executar uma obra artística e não recebe os créditos de autoria - ficando estes com aquele que o contrata ou compra o trabalho.

*3 - Free-lancer: Captar um trabalho de forma autônoma.

*4: - Música de Câmara: Música erudita para poucos instrumentos portanto ocupariam pouco espaço nas câmaras de um palácio.

*5: - Rotoscopia: Técnica que consiste em redesenhar os quadros de um filme para realizar uma animação. Utiliza-se um aparelho complexo chamado rotoscópio. Atualmente as técnicas digitais se utilizam do mesmo nome para criar o mesmo efeito.

*6: - Alusão: Figura de linguagem caracterizada pelo uso de uma referência ou citação a um fato, obra ou pessoa.

*7: - O assovio na Trilogia dos Dólares foram todos executados por Allessandro Alessandroni - https://www.youtube.com/watch?v=CDwmIhmKTA8

“Com Ennio Morricone a música se torna mais um personagem”

 

Uma jornada pela música e pelo cinema numa carreira, e vida, únicas


 

sábado, 23 de setembro de 2023

O Paladino Mexicano e Eu - Perfil: Santo, o Mascarado de Prata

 


Duro na queda!!!

por Alexandre César 
(Postado originalmente em 16/07/2018)

“El Santo, El Enmascarado de la Plata”: um marco na cultura pop
 
 
Cinemas de bairro, como o Cine Guaraci, no subúrbio de Rocha Miranda, no Rio de Janeiro (RJ) exibiam programa duplo. Eram os nossos equivalentes aos "grindhouses" americanos

Lembro que quando menino, no início dos anos 1970, eu morava em Barros Filho (subúrbio da Zona Oeste do Rio de Janeiro) e fazia o meu primário (atual ensino fundamental) no Instituto Kennedy, no bairro de Madureira. Minha mãe (que Deus a tenha!) levava eu e minhas irmãs para o colégio de ônibus.
 
 
"Santo contra a Filha de Frankenstein" (1971): uma das 52
 películas do paladino mexicano

 Na altura do bairro de Rocha Miranda o ônibus passava por um pequeno cinema, o Cine São Francisco, e lá eu lia no letreiro os títulos dos filmes exibidos. Era o típico programa duplo dos “poeirinhas” (apelido dos pequenos cinemas de bairro, já em decadência), que normalmente passava dois filmes - Em geral era um farwest italiano com um filme de Kung fu ou uma pornochanchada ou um filme que no ano anterior havia sido veiculado no circuito comercial e em breve iria para a TV.
 
 
Luta-livre: uso de calções sobre collants e roupas de malha, como artistas de circo e super-heróis

Comecei a reparar, entre os títulos que lia, uns que me chamavam a atenção: Santo contra Drácula, Santo e os Invasores de Marte ou Santo contra o Lobisomem. Eu ficava me perguntando: “Quem, raios me partam, é este tal de Santo???”.


El Santo e sua verdadeira face Rodolfo Guzmán Huerta. Durante décadas só aparecia em público com a sua máscara e, dizem, dormia com ela
Segui a vida e só muitos anos depois descobri quem ele era, que a julgar por seus adversários, devia ser “O” cara!! E vi o quanto somos alienados em relação aos nossos vizinhos da América Latina. Aquele era talvez maior super-herói folclórico latino-americano e só vim a conhecê-lo muito tempo depois de sua morte.
 
Alguma das váras identidads de Rodolfo Guzmán Huerta, até encontrar a que o definiria 

Os Estados Unidos sempre tiveram uma sólida tradição nos heróis e super-heróis, seres poderosos, muitos deles maiores do que a vida. Foi naquele país que o gênero surgiu, muito imitado mundo a fora, mas nunca igualado. As tentativas feitas por outros países ficam muito aquém, em geral pouco mais do que pastiches. Uma das poucas exceções foi o Japão, que conseguiu adaptar o conceito à sua própria cultura, gerando personagens únicos e distintos das matrizes ianques.
 
 
A luta-livre mexicana se caracteriza pelo amplo uso de máscaras entre seus lutadores, tal qual os super-heróis americanos

Um dos principais fãs da luta-livre mexicana são as crianças, que adoram os lutadores como super-heróis

Na América Latina o peso da influência cultural norte-americana sempre foi grande, limitando o surgimento de ícones culturais de massa que competissem em pé de igualdade com os caras das cuecas por cima das ceroulas - os típicos trajes de super-heróis que surgiram a partir das roupas de artistas de circo. Dessa mesma matriz circense surgiria uma figura que cativaria o imaginário popular mexicano, atingindo proporções míticas: Os lutadores de wrestling - a popular luta-livre.
 
 
Aqui no Brasil, nos primórdios da Rede Globo, havia o Telecatch, que entre outras estrelas tinha Ted Boy Marino, que durante um tempo integrou "Os Trapalhões"


Tendo se tornado extremamente popular a partir dos anos de 1930, a lucha libre mexicana se caracteriza por movimentos ágeis e pelo uso de máscaras coloridas dos seus lutadores, talvez remontando às suas festas populares como El Dia dos Muertos. Elas criam uma aura de mistério à cerca de suas identidades e permitia que o empresário marcasse duas, três lutas no mesmo dia e na mesma hora em cidades diferentes com o mesmo lutador (o autêntico na luta principal e os dublês nas outras), num verdadeiro “milagre” da logística...
 
 
Os lutadores (graças ao seu visual teatral) naturalmente assumiam ares "super-heróicos"

 
Neste panorama surgiram várias figuras que ganharam o mundo, tornando-se lendas nos ringues, indo para as histórias em quadrinhos e o cinema. Figuras como Blue Demon e Mil Máscaras tornaram-se lendários, mas nenhum deles tornou-se tão mítico como El Santo, El Enmascarado de la Plata.
 
 
Blue Demon e El Santo. Uma amizade longa e duradoura, tendo atuado juntos nos ringues e nas telas

Nascido Rodolfo Guzmán Huerta, em 23 de setembro de 1917 em Tulacingo, México, era o quinto de sete filhos. Ele e sua família de origem humilde chegou à Cidade do México nos anos 20. Praticou beisebol e futebol americano, até tomar gosto pela luta. Começou com jiu-jitsu e depois luta greco-romana. Alguns relatos inclusive dizem que ele chegou a também fazer aulas de pintura.
 
 
Carteira de registro de Rodolfo Guzmán Huerta na Associação Nacional de Atores do México

 
Por volta de 1933 a 34, quando trabalhava como operário têxtil, aprendeu luta-livre, treinando com seus irmãos Miguel e Jesús, no Casino de la Policía de la Ciudad de México. Na época o esporte ganhava público, impulsionado pelo empresário Salvador Lutheroth. Os três tornaram-se lutadores. Miguel virou Black Guzmán e Jesús El Pantera Negra. Mas este último morreu numa luta em Puebla em 13 de agosto de 1934.
 
 
El Santo não dava mole para ninguém quando o assunto era lutar

Estima-se que Rodolfo tenha começado como lutador entre 1934/35 usando seu verdadeiro nome. Numa entrevista disse ter debutado numa arena já extinta, em Anáhuac, contra um lutador chamado Eduardo Palau, que era referência na época. Após lutas usando vários nomes, como Rudy Guzmán, El Hombre Rojo, Elenmascarado, El Incógnito, El Demonio Negro, e , e El Murciélago Enmascarado II (nome que teve de abandonar por uma questão judicial), casou-se com Maria de los Ángeles Rodríguez Montaño por volta de 1940. União para toda a vida que lhe deu dez filhos, sendo um deles, Jorge Guzmán Rodríguez, também lutador (El Hijo del Santo). Finalmente em 1942, seu treinador don Jesús Lomeli montou uma nova equipe de lutadores, todos usando trajes prateados, e o convidou para integrá-la. Após avaliar três nomes (El Santo, El Diablo e e El Angel), em 26 de abril lutou na Arena México como  El Santo pela primeira vez, iniciando a lenda.
 
 
A luta-livre se iniciou em ambientes improvisados baseando-se na luta greco-romana e nas regras de pugilismo do Marquês de Queensberry


Aos poucos ele desenvolveu seu estilo que, aliado a sua agilidade e versatilidade, tornou-o muito popular. Em meados da década de 1950 começou a treinar na Arena Coliseo de Guadalajara, na cidade de Jalisco, onde conheceu El Diablo Velasco, fundador da primeira escola de luta livre profissional, refinando ainda mais o seu estilo. Logo El Santo começaria voos maiores.
 
 
Os quadrinhos, aqui já com o "S" na máscara 
para diferenciá-lo do modelo original.


Em 1952, o editor e artista José Guadalupe Cruz começou a publicar o gibi Santo, el Enmascarado de Plata, tornando-o no primeiro personagem lutador das HQs mexicanas. Seu sucesso levou outros lutadores  (Black Shadow, Huracán Ramirez, El Solitario, Tinieblas) a licenciarem publicações com a mesma técnica de Guadalupe Cruz (cor sépia e fotomontagem em fundos desenhados). Inicialmente o próprio Santo posava para as fotos da revista, sendo depois substituído após alguns anos (e questões legais...) por Héctor Pliego, o Mister México 1969. Houve pequenas diferenciações no design do personagem em relação ao original (entre elas um “S” sobre um círculo negro na frente da máscara). Apesar disso, a publicação seguiu até os anos 80.
 
 
Aqui é nítida a diferença de físico do Mister México Héctor Pliego, em relação a Guzman.

No final da década de 1950, o lutador e ator Fernando Osés convidou-o a trabalhar em filmes, o que ele de bom grado aceitou, mas sem abandonar a sua carreira nos ringues, coordenando as duas atividades. Os roteiros dos dois primeiros filmes ( Santo contra Cerebro del Mal e e Santo contra los Hombres Infernales) foram escritos por Fernando Osés e Enrique Zambrano em co-produção, e rodados em Cuba em 1958. As filmagens terminaram um dia antes de Fidel Castro entrar em Havana e declarar a vitória da Revolução Cubana (isto sim teria dado um filme e tanto, tipo Santo contra el Barbudo Comunista ).
 
 
 
Em suas películas El Santo sempre dirige um possante carro esporte. Poderíamos chamá-lo de "Santomóvel"...


A despeito da produção mambembe e improvisada, os dois filmes saíram-se muito bem nas bilheterias, iniciando a filmografia de 52 películas protagonizadas pelo herói dos ringues e lançando as bases estruturais de todos os roteiros da franquia, que pouco mudou ao longo de seu trajeto. Vemos El Santo sempre atuando como um super-herói contra monstros sobrenaturais (vampiros, lobisomens, zumbis), alienígenas, cientistas loucos ou o crime organizado. Um misto de Batman com James Bond, ele sempre aparecia pilotando o seu carro esporte sem camisa, com a capa do ringue a esvoaçar. Para disfarçar, Rodolfo usava sapatos plataforma alguns planos para parecer mais alto do que os seus 1,68m.
 
 
Juan Orol; O "Ed Wood" mexicano, que teve sucesso e reconhecimento em vida. Já o Ed...

 
O aspecto trash era patente ao tentar criar histórias de horror com visual gótico ambientadas no México, o que criava uma comédia involuntária e a crítica não perdoava. Mas os filmes foram muito bem nas bilheterias - uns mais do que outros, mas nunca dando prejuízo - e ultrapassavam as fronteiras do México, sendo muito populares em todo o continente, na Europa e, em especial, no Líbano e na Turquia.


"El Santo contra las Mujeres Vampiro" (1962), um dos meus favoritos por ter uma ambientação que lembra (guardadas as devidas proporções) os clássicos da Hammer Films

Em alguns círculos da intelectualidade européia, os filmes de El Santo foram considerados verdadeiras pérolas de um certo “cinema surrealista mexicano”, pois acreditavam que a ingenuidade das histórias e o extremo descuido da produção eram propositais, sendo comparadas aos filmes do célebre diretor e ator Juan Orol (1897-1988), considerado “o surrealista involuntário” por alguns e o “Ed Wood mexicano” por outros (coisa questionável porque, a despeito da escassez de recursos, Orol teve grande filmografia e sucesso de público em vida enquanto Wood só encarou uma sucessão de fracassos, morrendo no anonimato).
 
 
Não importa a natureza do inimigo: Seja vampiro, marciano, zumbi, lobisomem ou 
o raio-que-o-parta. Todos tentarão estrangular o nosso herói

 
A estrutura narrativa básica dos filmes de El Santo é a mesma, apenas mudando a ordem de alguns elementos e sequências: Surge uma ameaça (sobrenatural, extraterrestre, criminal) delimitando a sua área de atuação no México; as forças do mal ameaçam ou cercam o seu alvo (a população, uma jovem donzela, uma família etc); uma autoridade (um inspetor ou um cientista, que use óculos e jaleco e fume cachimbo) entra em contato com ElSanto, chamando-o; El Santo surge no ringue lutando, ou treinando no ginásio ou num parque público ensinando os valores do esporte às crianças; acontece um primeiro confronto do herói com as forças do mal, que logo bate em retirada; El Santo se encontrar com o inspetor (ou cientista) que lhe instrui sobre o adversário; as forças do mal planejam um ataque; Após receber a instrução El Santo chega a uma conclusão e pede licença que terá de se ausentar para treinar ou comparecer a uma luta pois “precisará estar na sua melhor forma para enfrentar o inimigo”; na luta, um inimigo tomará o lugar de um lutador e tentará matar El Santo no ringue, se for no treino, hipnotizará ou drogará amigos do herói para que o matem (nos dois casos obviamente nosso herói vencerá); uma perseguição com El Santo dirigindo o seu carro esporte (sempre com a roupa de lutador, sem camisa); após uma luta, o inimigo propõe que El Santo se una a ele/a (que recusa); uma vítima é capturada enquanto El Santo luta por sua vida; o herói vence a luta desigual e salva a vítima; o inimigo é destruído, preso ou foge após a derrota; todos agradecem a El Santo, que vai embora acenando para todos em seu conversível.

"Santo el Enmascarado de Plata vs. la Invasíon de los Marcianos" (1966). Reparem nos cabelos esculpidos com laquê...


É claro que quando o tempo e os filmes foram passando ele foi usando mais roupas civis ao invés dos trajes de luta que só usava no ringue, pois ele com a idade foi ficando mais “parrudinho”. Alguns filmes apresentavam cenas de nudez moderada nas cópias exibidas fora do México, para torná-las mais comerciais.
 
 
El Santo & Blue Demon: contra tantos monstros um só lutador mascarado não é suficiente
 
Estrutura bem básica, comum a trilhões de histórias já vistas, mas de facílima compreensão, não muito diferente de um roteiro de filme de Os Trapalhões ou da dupla de Trinity (Terence Hill e Bud Spencer). Isto assegurou a perfeita comunicação com o seu público-alvo. 
 
 
El Santo e Blue Demon. Amizade nas arenas e nas várias películas que compartilharam

 
Observa-se também elementos bem característicos que vemos nas novelas mexicanas que passam no SBT, como todos estarem sempre (não importa quão coloquial seja a situação) super produzidos como se fossem sair - os homens sempre de paletó e gravata e as mulheres sempre maquiadas com jóias e vestido de noite, mesmo que apenas jantem em casa e vejam TV com a família. A estrutura de família apresentada é tipicamente conservadora e patriarcal, católica apostólica romana. Depois de alguns filmes você reconhece entre os fortões - sejam eles vampiros, alienígenas, etc - um bom número de rostos, pois não deveria ser abundante o número de grandões parrudos no México da época.
 
 
A nova série em quadrinhos. Padrão que lembra as revistas da Image Comics

As vilãs, não importa a origem, sempre são extremamente maquiadas; tem os cabelos esculpidos por laquê e permanente, além de serem bonitonas, tentadoras e, voluptuosas de seios fartos. Tudo para realçar a sensualidade delas que domina os fracos de espírito, mas não o nosso herói Macho-Alfa, que sempre controla cada situação com os seus punhos, seus camelclutchs e saltos aéreos (flying somersault headbutt), mas tem uma atitude protetora frente aos fracos e às crianças.
 
 
   Bonecos de Santo e de Blue Demon

 
Dentro de sua extensa filmografia, podemos citar Dentro de sua extensa filmografia, podemos citar Santo Contra las Mujeres Vampiro (1962), Santo, el Enmascarado de Plata vs. la Invasíon de los Marcianos (1966), Santo en el Tesoro de Drácula (1968), Santo vs. la Hija de Frankenstein (1971), Santo vs. las Lobas (1972), Santo Contra el Doctor Muerte (1973), entre tantos filmes solo ou em parceria com outros colegas de ringue, como  Blue Demon. Opções não faltam.
 
 
José Mojica Marins (Zé do Caixão) no Brasil e Ajay Devgn (Action Jackson), na Índia: reinvenções regionais para paladares específicos

Após uma longa carreira de sucesso, nosso herói se despediu dos ringues em 1982, mas continuou aparecendo na TV em entrevistas e em eventos. Como durante a sua carreira nunca retiraram a sua máscara, acreditava-se que ele nunca se afastava dela (usando-a inclusive em casa), sendo que, num programa de entrevistas, chegou a mostrar parte do rosto. Pouco depois de sua aposentadoria, em 5 de fevereiro de 1984, teve um enfarte após uma apresentação no Teatro Blanquita, vindo a falecer aos 66 anos. Foi sepultado no dia seguinte, usando a sua máscara inseparável, no Mausoleos del Ángel, acompanhado por cerca de dez mil pessoas que vieram despedir-se, entre elas, os lutadores  Black Shadow e e Blue Demon que carregaram o caixão. Uma estátua sua foi posteriormente erguida em sua cidade natal.
 
 
"-Sou elegante e alinhado não?"

 
Seu legado de mais de quatro décadas nos ringues, onde nunca deixou de lutar uma única vez, lhe conferiu o reconhecimento como o maior de todos os desportistas mexicanos. Sua presença midiática marcou indelevelmente a cultura de massa, tendo servido de inspiração a personagens de quadrinhos, desenhos animados e a outros lutadores. 
 
 
O enterro, com a presença de personalidades do meio
 
Acho que, se algum dia, pretendessem homenagear e atualizar o personagem a pessoa mais indicada para isso seria o diretor Robert Rodriguez (Um Drink no Inferno, Machete, Sin City), pois ele saberia escolher um intérprete à altura do mítico personagem e, com esperteza, tirar partido do espirito Trash que El Santo sempre incutiu em seus filmes, pois, como disse o nosso Michel Serdan no documentário Monstros do Ringue (2017): “Luta livre têm que ser brega!!!”
 
 
A estátua em Tulacingo do filho ilustre

Personagens como Personagens como El Santo, o nosso Zé do Caixão ou os heróis dos filmes de Bollywood refletem o imaginário coletivo de seus povos, dialogando e reciclando o cinema mainstream numa versão regional, própria daquele segmento, mostrando a sua personalidade e criatividade, não aceitando ser apenas consumidor passivo do produto importado. 
 
 
O túmulo de Rodolfo Guzman Huerta

 
Eu só lamento ter tomado conhecimento da sua existência quase vinte anos depois da sua morte graças à internet, e ter tido a ideia de levantar a sua biografia durante as comemorações do centenário de seu nascimento. Acabei inadvertidamente, refletindo a típica e histórica postura brasileira de olhar sempre para o mar, dando as costas para o seu próprio país e continente, não se identificando como latino-americano.
 
 
"-É isso amigos. Nos vemos no Telecatch Montilla!!!"