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sexta-feira, 9 de junho de 2023

Escultor Cósmico de Seres Vibrantes - In Memorian: George Pérez

 


O Rei das Multidões 

por Carlos Vinicius Marins & Alexandre César

Da Marvel à DC, juntas e misturadas simultaneamente

 

 "Não espere a oportunidade, crie a oportunidade"

(George Perez ✰ New York, 09/ 06/1954 – ✝ Los Angeles, 06/ 05/ 2022)

 

Quando jovem na F.O.O.M. (fanzine da Marvel), como uma estrela em potencial

Um artista de traço limpo e detalhado - EXTREMAMENTE DETALHADO - e que, ainda sim, dificilmente atrasava nos prazos de entrega dos trabalhos. O sonho de consumo de qualquer editora no mercado ultra competitivo dos comics americanos. Uma luz que brilhou intensamente por quase 50 anos, tal qual um farol que iluminava a tudo que desenhava ou arte-finalizava.

 

Não importava o tamanho da página ou do quadrinho, o nível do detalhamento se mantinha

Nesta sexta-feira (06/05) faleceu um dos mais admirados artistas do mercado de quadrinhos - George Pérez, com 67 anos - em decorrência de um câncer pancreático no estágio 3. Perez anunciou sua condição nas suas redes sociais em dezembro do ano passado, quando disse também que não pretendia se submeter a tratamento indicado, que seria muito agressivo e não tinha grandes possibilidades de êxito. Preferiu ficar o tempo que lhe restava - de seis meses a um ano - ao lado de sua família e em contato com seus fãs, participando da maior quantidade de eventos de quadrinhos e cultura pop que pudesse para se despedir dos que o admiravam.  

 

O jovem Pérez fez história ao trabalhar simultaneamente para as duas grandes editoras concorrentes do mercado norte-americano 

Nascido em Nova York, numa família porto-riquenha, George já havia definido que a profissão que iria seguir seria a de desenhista muito cedo, aos cinco anos de idade. Seu primeiro trabalho de peso nos quadrinhos foi pela Marvel, quando se tornou responsável pela arte da revista dos Vingadores, em 1975. Está fase será relançada aqui no Brasil em breve pela Panini Comics. Não demorou para pegar outro grande título no mesmo período: o Quarteto Fantástico, cuidando das duas revistas ao mesmo tempo. 

 

Os Novos Titâs: Destaque da grande parceria com Marv Wolfman

Com uma fama já estabelecida de trabalhar bem com super grupos, em 1980 George começou a trabalhar também o para a DC Comics, cuidando da arte da revista dos Novos Titãs, um antigo grupo de jovens heróis da editora. A ideia era fazer do título um rival a altura do novo grande sucesso da Marvel: os X-Men, outro grupo de heróis que estava no limbo e foi de revitalizado. Para Perez era a oportunidade de ir para editora e talvez pegar seu título dos sonhos da editora: a Liga da Justiça. Ele conseguiu realizar seu desejo: com o falecimento de Dick Dillin, que estava a frente das ilustrações da revista a anos, George passou a acumular a arte das duas grandes equipes da casa - que chegaram a se encontrar numa história ilustrada por ele na revista dos Titãs. Durante um tempo, para seu deleite, ele chegou a desenhar ao mesmo tempo HQs da Liga e dos Vingadores. O sucesso da jovem equipe, porém, foi tão arrebatador que ele acabou deixando de lado a Liga, dedicando-se quase exclusivamente a eles. 

 

A morte da Supergirl, num dos momentos-chaves de "Crise nas Infinitas Terras"

Como George cuidou muito bem da arte dos Vingadores e da Liga da Justiça, se tornou o artista perfeito para a desenhar um crossover entre as duas. Marvel e DC já haviam publicado desde a década anterior alguns encontros entre seus heróis e essas histórias se tornavam grandes eventos. George chegou a desenhar mais de 20 páginas da HQ quando o acordo para o projeto foi desfeito devido a desavenças editoriais. O sonho foi adiado, mas Pérez acreditava que ele um dia iria acontecer.  

 

A reformulação da Mulher-Maravilha: Maior fidelidade à mitologia grega, um empoderamento real e um perfil mais atlético condizente com uma guerreira amazona

Em 1984 George deixou de desenhar os Titãs para cuidar de uma empreitada de fôlego, sem precedentes no seu alcance. Com o mesmo roteirista dos Titãs, Marv Wolfman, ele desenvolveu Crise nas Infinitas Terras, uma longa HQ que reunia praticamente todo o elenco de personagens da DC Comics e que reestruturou drasticamente todo o seu universo ficcional, procurando atualizá-lo para os novos tempos. A série se tornou a maior referência para para mega sagas que se tornariam lugares-comuns desde então nas editoras norte-americanas.  


 

No Brasil, na FIQ de 2013, parodiando com uma cosplayer sua icônica capa de "Crise nas Infinitas Terras"

Ao término da saga, as histórias de quase todos personagens da editora passaram a ser recontadas do zero. Grandes artistas ficaram responsáveis por cuidar dessa renovação, cada um cuidando de um herói. Com o sucesso da minissérie O Cavaleiro das Trevas, Frank Miller cuidou do Batman. John Byrne veio da Marvel, onde fez sucesso com seu trabalho em X-Men e Quarteto Fantástico, para trabalhar com o Superman. Coube a George Pérez revitalizar a mais conhecida das super-heroínas: a Mulher-Maravilha. 

Apesar de ser a mais conhecida super-heroína dos quadrinhos - muito devido ao popular seriado de TV dos anos 70, protagonizado por Lynda Carter -, a Mulher-Maravilha nunca tinha passado por uma fase verdadeiramente memorável nas HQs, sendo mais lembrada até então pelo que ela representava do que por suas histórias - Diana sempre foi um ícone do feminismo desde sua criação, ainda nos anos 40.

Mulher-Maravilha. Após a fase inicial da personagem, em 1941, a sua fase mais marcante é a de George Pérez

Pérez pegou uma proposta do escritor Greg Potter e reinventou a personagem-tipo , com o auxílio dos roteiristas Len Wein e Mindy Newell, deixando a Mulher-Maravilha com mais profundidade e personalidade, trabalhando sua dualidade de Guerreira e Embaixadora da Paz, lhe dando um background mais coeso e interessante, cimentando de forma mais eficaz sua relação com a mitologia grega, criando personagens secundários com os quais nos importarmos e finalmente lhe dando um elenco de vilões de primeira grandeza: Ares, o Deus da Guerra; Circe, a lendária Feiticeira Grega (que se tornou sua maior inimiga); e as revisadas e melhoradas Cisne de Prata e Mulher Leopardo

    Ares: o Deus grego se torna um dos maiores vilões da Princesa Amazona e torna-se o antagonista de seu primeiro filme  


Seu trabalho de cinco anos com a Mulher-Maravilha  reverbera até hoje, tanto nos quadrinhos quanto em outras mídias. É de longe o artista mais associado a personagem.

Nos anos 90, George deixou a DC, voltando a trabalhar para a Marvel na reinvenção do lado cósmico do universo da editora, desenhando a minissérie principal da mega saga Desafio Infinito, escrita por Jim Starlin.

Capa da primeira edição de “Desafio Infinito”: Quando as Joias do Infinito demonstram seu poder pela primeira vez nos quadrinhos 


Esta saga, onde Thanos recolhe pela primeira vez as Joias do Infinito, serviu de base para a principal trama desenvolvida nos  filmes do Universo Cinematográfico Marvel. 

Pérez também é responsável pela arte de outra minissérie chave da época. Lançada em 1992, Futuro Imperfeito é uma história do Hulk escrita por Peter David, onde Hulk era comendado pela mente do Dr. Banner, tal como é visto no filme Vingadores: Ultimato.

Hulk viaja a um futuro devastado por um evento nuclear, onde encontra Maestro, sua versão com bem mais idade, poderoso e maligno, que passou a governar o restante da raça humana onde antes existiu os EUA. Inicialmente criado apenas para aquela história, Maestro se tornou um vilão popular e rapidamente se tornou um dos grandes vilões da editora, voltando a aparecer em diversas outras ocasiões e sendo destaque em outras mídias, como vídeo games e desenhos animados.

Maestro: o vilão ocasional de “Futuro Imperfeito” veio a para ficar

Após vários projetos para editoras menores, George volta a Marvel para cuidar novamente da arte dos Vingadores, em fase elogiada pela crítica e pelo público. Os roteiros de Kurt Busiek destacavam a já conhecida capacidade de Pérez utilizar diversos personagens em uma única cena, criando cenas memoráveis e possibilitando que a equipe tenha mais membros do que o normal sem que a subtramas se percam. E então finalmente aconteceu. Marvel e DC Comics haviam retornado aos crossovers entre as editoras nos anos 90 e, em 2002, finalmente decidiram que chegara a hora de fazerem o adiado confronto entre as duas lendárias equipes das duas casas: Liga da Justiça e Vingadores. E, claro, o artista indicado para o trabalho ainda era George Pérez.

George Pérez de volta aos Vingadores: fase elogiada por crítica e público 

Durante todo esse tempo ele sempre deixara uma porta aberta para isso acontecer. Naquela época, Pérez tinha um contrato de exclusividade com uma editora menor, a CroosGen Comics. Mas em seu contrato havia uma cláusula que abria uma única exceção nesta exclusividade: desenhar o crossover da Liga da Justiça com os Vingadores. E, para melhorar, o escritor seria seu parceiro Kurt Busiek. A minissérie foi um sucesso, com um roteiro que presta uma sincera homenagem às duas equipes, dando espaço para todo mundo que havia sido membro dos dois grupos - tanto entre os vivos quanto aos mortos. Até a diferença de estilo das duas editoras e de seus universos ficcionais são destaques no roteiro. E o que não faltou foram easter eggs para os fãs de longa data, mostrando que Busiek era mesmo um profundo estudioso das HQs das duas editoras. Liga da Justiça Versus Vingadores ainda é o melhor crossover entre as duas editoras.


A primeira versão inacabada do confronto entre Vingadores e Liga da Justiça 


 

No seu estúdio de sua casa

Uma coisa interessante em George Pérez era a maneira como desenhava a figura humana referenciando o seu período histórico. A forma como delineava a anatomia: Esguia e musculosa, com boa definição, dava aos seus heróis, um físico de praticantes de aeróbica/fitness. Jack Kirby parecia ter como referencial boxeadores, levantadores de peso, quaterbacks de futebol americano e estivadores. Já John Buscema parecia ter halterofilistas e lutadores de luta livre como modelos (Buscema, em sua juventude, chegou a praticar pugilismo). De forma diferente, Neal Adams e José Garcia Lopez pareciam desenhar seus heróis como atletas olímpicos ou malabaristas... Já George Pérez desenhava corpos que pareciam saídos das academias de aeróbica de baixo impacto, ou fitness (talvez se iniciasse hoje em dia a sua carreira, seus heróis teriam um perfil mais aparentado com o crossfit). Com ele Diana Prince deixou de ser apenas uma bonitona curvilínea, para ser uma guerreira atlética, que poderia estrelar aquelas fitas de workout bem populares nos anos 80, como Jane Fonda entre outras estrelas...


Sua concepção da Mulher-Maravilha, aqui retrabalhada como uma Pin-Up


“Eu optei por deixar a natureza seguir seu rumo e eu vou aproveitar o tempo que me resta o máximo o possível com minha bela esposa de 40 anos, minha família, meus amigos e meus fãs”.  

(sobre quando descobriu ter câncer, cujo tratamento só adiaria o inevitável)

 

Mulher-Maravilha: A sua passagem serviu de base para o filme de 2017


Ao ser diagnosticado como portador de câncer pancreático no estágio 3 (e inoperável), George Pérez tencionava maximizar seu tempo restante com o máximo de lucidez possível, pois caso fizesse o tratamento com quimioterapia e a radioterapia apenas iria adiar o seu final, além de debilitar suas faculdades. Para facilitar sua interação com os seus fãs ele criou uma página no facebook, @TheGeorgePerez, para melhor receber noticias, conversar com os fãs e receber atualizações; além disso, pedir que a privacidade de sua família e da sua esposa fossem respeitadas nesse momento, permitindo que os fãs usassem a página para se conectar à ele, ao invés de outros meios.

 

Uma longa e proveitosa trajetória no mundo dos super-heróis

 

 “Espero poder coordenar uma ultima assinatura em massa para ajudar a fazer com que meu falecimento seja mais fácil. Eu também espero poder fazer uma última aparição pública na qual eu possa tirar fotos com o máximo de fãs o possível, com a condição de que eu possa abraçar cada um de vocês. Eu apenas quero dizer adeus com sorrisos, assim como com lágrimas”.

(Uma de suas últimas declarações, procurando ainda um contato mais direto com os fãs )

 
Em 2019 George anunciou a sua aposentadoria devido a diversos problemas de saúde - diabetes e doenças do coração e de visão, entre outros. Havia encerrado uma prolífica carreira que marcou mais de uma geração e deixou um legado que ainda vai reverberar por muito tempo. Com o anúncio do câncer e a eminente morte do artista, Marvel e DC Comics, que novamente tinham interrompido a parceria, anunciaram a republicação do crossover dos Vingadores com a Liga da Justiça - que estava fora de estoque há anos. George adorou a homenagem. Nestes últimos meses o artista foi elogiado e homenageado por diversão artistas e fãs por todas as alegrias e inspiração que ele lhes deu em suas vidas e carreiras.

Agora, apagadas as luzes, só podemos agradecer por termos tido a oportunidade de acompanhar a trajetória deste artista único, que nos impactou com seu talento e cuja lembrança será constante em todos nós sempre que nos referirmos ao panteão da Marvel e da DC Comics e de quem foi crucial no momento em que as suas principais superequipes se uniram. 


Obrigado por tudo, George Pérez. Sua passagem foi significante em nossas vidas.

 

Uma homenagem da DC Comics ao grande artista que tantos personagens ilustrou

 

 

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Visionário cósmico - In Memorian: Jean "Moebius" Giraud

 


Passageiro do universo e além...

por Carlos Vinicius Marins
(Postado originalmente em 08/ 05/ 2018)

Uma unanimidade mundial na história das HQs


Moebius: quadrinista revolucionário



Uma unanimidade nos quadrinhos, sempre ao pensarmos tanto nas vastas paisagens do oeste americano, quanto em mundos oníricos e fantásticos, tendo estes dois mundo distintos em comum, a amplidão de seus horizontes. Amado por desenhistas, diretores de cinema e é claro, leitores, por seu traço elegante, ora limpo, ora carregado (dependendo do projeto) e pleno de inventividade. Marca de Jean Giraud, o Moebius (   08 de maio de 1938 - 10 de março de 2012) um dos mais revolucionários quadrinistas da França e do mundo, tendo grande atuação também no cinema.

Na sua vasta obra, ele também é conhecido pelos pseudônimos que usou: Gir e - principalmente - Moebius. É considerado o segundo quadrinista franco-belga mais influente de todos os tempos, perdendo apenas para Hergé, o criador de Tintim. No cinema ele contribuiu com design conceitual e storyboards para filmes, como Alien, Tron e O Quinto Elemento (este último, claramente inspirado em sua produção de HQs de ficção científica).

Ele começou sua carreira antes mesmo de completar 18 anos. Sua primeira HQ publicada foi Frank et Jeremie em 1956 para a revista em 1956 para a revista Far West. Não demorou para publicar seu trabalho em outras revistas da época, como Sitting Bull, Fripounet et Marisette, Âmes Vaillantes e Coeurs Vaillants. Mas interrompeu sua trajetória artística para prestar serviço militar. Quando deu baixa conseguiu vaga como aprendiz no estúdio de Joseph Gillain, o Jijé - um dos maiores autores do mercado franco-belga de quadrinhos e criador do Fantásio da dupla Spirou Et Fantasio

 

Tenente Blueberry, de Gir: faroeste da melhor qualidade


 

Na década seguinte, o roteirista de HQs Jean-Michael Charlier estava a procura de um ilustrador para uma nova série de western que pretendia desenvolver para a Pilote, revista da qual era um dos fundadores e que se tornara uma das maiores referências de quadrinhos na Europa. Jijé então lhe indica seu jovem assistente Jean Giraud, que tinha lhe auxiliado com HQs do cowboy Jerry Spring para a lendária revista para a lendária revista Spirou. Assim surgia as aventuras do Tenente Blueberry nos quadrinhos, intituladas inicialmente como Fort Navajo. Considerada uma das melhores HQs de faroeste de todos os tempos, a série começa a ser lançada em 1963, mas começa a se destacar de fato depois de 1968, quando começam a afrouxar as rígidas regras instituídas na França pela Lei de 1949 sobre publicações destinadas a jovens. A série acaba assumindo o nome de seu personagem principal, prossegue mesmo após o falecimento de seu roteirista original e se desdobra em outras séries que mostram a juventude e o envelhecimento de Mike S. Blueberry no Velho Oeste Norte-Americano - nem todas com a presença de Jean Giraud. 

 

Major Fatal, de Moebius: Divisor de águas na ficção científica


 

Nestas aventuras de Blueberry, Jean Giraud utiliza Gir como pseudônimo. Apesar de ter surgido ainda nos anos 60, a alcunha Moebius começa a ser realmente conhecida a partir de 1974, quando ele funda a editora Les Humanoïdes Associés com o escritor Jean-Pierre Dionnet, o quadrinista Phelippe Druillet e o empresário Bernard Farkas. Inicialmente o foco da editora era HQs de ficção científica e lança a revista Metal Hurlant, revolucionado o gênero nas HQs e inspirando autores e publicações em todo o mundo (a revista ganhou uma versão oficial norte-americana que se tornou ainda mais conhecida mundialmente que a original: a Heavy Metal). Como Moebius, Jean Giraud assinou a capa da primeira edição, que já contava com uma aventura de Arzarch e as primeira páginas de uma de suas maiores obras: A Garagem Hermética de Jerry Cornellius ou As Aventuras do Major Fatal. Enquanto Jean Giraud usava o pseudônimo Gir para suas aventuras de faroeste, Moebius - utilizado na nova revista - se tornou sinônimo de HQs transcendentais de ficção científica e fantasia. 

 

Incal: saga alucinante e desmedida


O destaque seguinte de sua trajetória artística ocorre após ser convidado pelo escritor, dramaturgo, músico, filósofo, ensaísta e cineasta chileno Alejandro Jodorowsky para participar de um dos mais ambiciosos projetos cinematográficos já concebidos: uma versão para tela grande dirigida por Jodorowsky do clássico romance de SciFi Duna, de Frank Herbert. O filme contaria também com gente do quilate de H.R. Giger, Dan O'Bannon, Pink Floyd, Orson Welles, Mick Jagger, Salvador Dalí e David Carradine. Sem conseguir financiamento dos grandes estúdios de Hollywood, que consideraram a obra megalomaníaca e hermética demais, Jodorowsky decidiu dar vasão as suas ideias e criatividade através dos quadrinhos, capitaneados por Jean Giraud. Assim surgiu a alucinante e desmedida saga do Incal, uma obra-prima da FC que, assim como ocorreu com Blueberry, se desdobra em novas sagas que ocorrem antes e depois da história inicial, além de um complexo universo ficcional que apresenta outras sagas estreladas por personagens coadjuvantes da saga original e que também se desdobram através do tempo em novas aventuras. O Incal foi o ponto alto da parceria Jodorowsky/Moebius, mas não foi a primeira grande obra que fizeram juntos. Criada antes pela dupla, existe a genial graphic novel Olhos de Gato. Também como ocorreu com Blueberry, Jean Giraud não se envolveu em todos os desdobramentos da série Incal. Na realidade ele se sentia esgotado com as demandas das duas sagas e chegou a cogitar parar de fazer quadrinhos. Para nossa sorte, isso não se concretizou. Ele acabou inclusive voltando a trabalhar mais tarde com ambas as séries. 

 

Surfista Prateado: Moebius made U.S.A.


 

A saga do Incal também foi publicada originalmente na Metal Hurlant, já nos anos 80. Nessa época seu trabalho já era bastante popular nos Estados Unidos devido a publicação dos trabalhos que assinava como Moebius na Heavy Metal. Ele se mudou para a Califórnia e tentou abrir uma nova frente de divulgação de sua obra se associando a Marvel Comics, que publicou uma boa parcela de sua obra através de seu selo autoral, o Epic. O artista então decidiu produzir uma mini-série em duas edições para a Marvel em colaboração com seu mais emblemático roteirista: Stan Lee. Ao saber que iria fazer uma HQ desenhada por Moebius, Lee não teve dúvidas: a história seria estrelada pelo Surfista Prateado, o personagem da Casa de Ideias criado por ele que melhor se enquadraria na arte do francês. Moebius gostou da experiência, tinha grande vontade de produzir através do chamado “Método Marvel”. A HQ ganhou o Prêmio Eisner em 1989 de melhor mini-série. 

 

O Mundo de Edena: a última grande saga de Moebius


 

Seu último ambicioso trabalho nos quadrinhos foi O Mundo de Edena. Criado inicialmente com o nome de The Star como uma encomenda da Citroën, que queria um brinde criativo de fim de ano para seus clientes, a história acompanha dois protagonistas sem gênero definido numa jornada pelo espaço em um Citroën até alcançarem um estranho mundo descrito como um “Jardim do Éden” em outra galáxia. A história acabou estimulando o autor, que se perguntou o que ocorreria a seguir com aqueles dois. A partir daí ele desenvolveu outro complexo universo, que inclusive colide com o que desenvolvera para A Garagem Hermética de Jerry Cornellius, contando inclusive com a presença disfarçada do próprio protagonista daquela obra, Major Grubert ou Major Fatal.

Idolatrado no mundo todo, com admiradores como Federico Felini e Hayao Miyasaki, sua obra continua influenciando artistas dos mais diversos gêneros no mundo. 

 

Arzach: uma das séries mais longevas de Moebius


 

domingo, 19 de março de 2023

Agora, com menos enchimento na malha!!! - Crítica – Filmes: Shazam! Fúria dos Deuses (2023)

 


Oh deus! Deusas!!!


por Alexandre César

E o Adeus aos últimos vestígios do DCU prossegue...







Shazam! (2019) resgatou, numa aventura lúdica e divertida, o espírito do personagem, que embora em nenhum momento use o nome de Capitão Marvel (por causa das questões jurídicas cobrindo o nome*1) e usando de sua ingenuidade e esperança num tratamento mais solar aos personagens deste universo, destoando  dos tons sombrios e carregados até vigentes (até porque, esta ruptura era o que o personagem pedia!) o que o tornou um bem sucedido azarão do Universo Cinematográfico DC.

 

A família dos Vasquez: Pedro Pena (Jovan Armand), Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), Billy Batson (Asher Angel), Darla Dudley (Faithe Herman), Mary Bromfield (Grace Caroline Currey) e Eugene Choi (Ian Chen). Cada um num ponto entre infância-adolescência



Agora, dirigido novamente por David F. Sandberg (Annabelle 2: A Criação do Mal) com roteiro de Henry Gayden (Tem Alguém na Sua Casa) e Chris Morgan (Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw) , baseados nos personagens da DC criados por Bill Parker e C.C. Beck, Shazam! Fúria dos Deuses (2023) da New Line Cinema, traz a continuação da história do adolescente Billy Batson que, ao invocar a palavra mágica “SHAZAM!”, que se transforma no seu alter ego adulto, o super-herói, Shazam, e agora à despeito de suas qualidades e despretensão, enfrenta o maior dos desafios: O clima de encerramento do Universo Cinematográfico DC, cujas mudanças decorrentes da fusão Warner Bros-Discovery capitaneada por David Zaslav, reverberam mais do que um raio, cancelando filmes e, pelo eminente reboot de todo universo narrativo da DC Comics nas telas, por James Gunn e Peter Safram, vem fazendo com que filmes sejam abandonados pelo público, uma vez que este acaba perdendo a vontade de acompanhar um universo narrativo que não terá continuidade, cujo maior sacrificado foi Adão Negro, e seu protagonista Dwayne Johnson, cuja baixa performance nas bilheterias já o tornaram uma “carta fora do baralho”...

 

Adversárias: As Fúrias Kalypso (Lucy Liu), Hespera (Helen Mirren) e Anthea (Rachel Zegler), filha de Atlas, resolvem retomar os seus poderes


 O filme (o décimo segundo filme do Universo Estendido da DC) foi originalmente programado para ser lançado em 1º de abril de 2022, mas devido à pandemia de COVID-19, a data de lançamento foi adiada para 4 de novembro de 2022 e novamente para 2 de junho de 2023, sendo finalmente agora lançado, em março.

 

Anthea, se aproxima de Freddy Freeman, passando-se por uma estudante e testemunhando a coragem deste frente aos bullyies da escola
Hespera é uma líder determinada e uma oponente formidável

 

Desde o filme anterior, o grupo, foi tentando encontrar, sem muito sucesso, seu lugar no mundo, e na comunidade heroica, sendo (à despeito de seus esforços) chamado pela mídia de “o Fracasso da Filadélfia” apresentando cada um características de suas próprias fases da vida: Billy Batson (Asher Angel de Andi Mack) vive os dilemas e angústias do crescimento, às vésperas de fazer 18 anos, e sair do programa de auxílio do estado, enquanto seu alter-ego heroico SHAZAM (Zachary Levi de Thor: Ragnarok) continua uma criança em corpo de adulto, apesar de estar sofrendo da “síndrome do impostor*2” e de sua insegurança como líder, contrastando com a mais centrada e madura Mary Bromfield / Super Mary (Grace Caroline Currey de Annabelle 2: A Criação do Mal) que quer fazer universidade, assumindo já ser uma jovem mulher*3. Diferente dos dois mais velhos, o deficiente alto-astral Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer de It: Capítulo Dois) continua roubando a cena, usando seu Super-Freddy (Adam Brody de Bela Vingança) como potencializador de sua persona mais descolada e juvenil. Dentre os mais jovens, o calado Pedro Pena (Jovan Armand de Second Chances) encara auto-descobertas, enquanto seu eu-heróico Super-Peter (D.J. Cotrona de G.I. Joe: Retaliação) faz bonito na ação; o hacker-mirim Eugene Choi (Ian Chen de Juntos para Sempre) e seu Super-Eugene (Ross Butler de Raya e o Último Dragão) continua analítico, e a caçula Darla Dudley (Faithe Herman de This Is Us) e sua contraparte Super-Darla (Meagan Good de Turno do Dia) são basicamente a mesma pessoa fofa que ama gatinhos e unicórnios.

 

O Mago Shazam (Djimon Hounsou) cresce e aparece como personagem cômico

 


O acolhedor lar adotivo de Rosa (Marta Milans de White Lines) e Victor Vasquez (Cooper Andrews de The Walking Dead) continua apesar das fraturas dos raios, o porto seguro do supergrupo, e que terá a sua força desafiada pelo surgimento das Fúrias*4 Hespera (Helen Mirren de Velozes e Furiosos 9), Anthea (Rachel Zegler de Amor, Sublime Amor), e Kalypso (Lucy Liu de Kung Fu Panda) que aprisionaram o Mago SHAZAM (Djimon Hounsou de Um Lugar Silencioso Parte II, agora assumindo o lado humorístico do personagem) para recuperar os poderes dos deuses que ele tomou, para ‘turbinar’ os seus campeões.

 

Hespera e Kalypso são as adversárias de fato, dando trabalho aos heróis

 

 Narrativamente, a edição de Michel Aller (A Freira) mantém um ritmo ora mais lento, quando nos permite espaço para sentirmos os dilemas de seus personagens, e mais frenético, quando se entrega à ação escapista, que no fundo é o que esperamos desse tipo de filme, que a música de Christophe Beck (Free Guy - Assumindo o Controle, Frozen 2) com supervisão musical de Season Kent (DC Liga dos Superpets, A Família Addams 2: Pé na Estrada) ao inserir hits como “Holding Out for a Hero” por Bonnie Tyler, entre outros, procura alcançar o divertimento certo.

 

A família Shazam: Super-Eugene (Ross Butler), Super-Freddy (Adam Brody), SHAZAM (Zachary Levi, Super Mary (Grace Caroline Currey,  Super-Darla (Meagan Good) e Super-Peter (D.J. Cotrona)

Shazam tenta (sem muito sucesso) negociar com Hespera uma solução pacífica

 
O filme é visualmente rico, com o criativo desenho de produção de Paul Kirby (Jason Bourne) recriando os ambientes deste universo ficcional, como a Pedra da Eternidade (transformada num ‘muquifo’ adolescente) e o Reino do Olimpo, bem desgastado pelo abandono, que auxiliado pela direção de arte de Audra Avery (Samaritano); Cameron Beasley (Pantera Negra: Wakanda para Sempre); Shawn D. Bronson (Gavião Arqueiro); Laura C. Cox (Red One); Brittany Hites (The First Lady) entre outros, aproxima a ambientação com os universos fantásticos da Warner Bros como Harry Potter, Game of Thrones, O Senhor dos Anéis, entre outros, que a decoração de sets de Danielle Berman (Alerta Vermelho) personaliza com vários easter-eggs dos filmes do estúdio.

 

Kalypso (tendo um dragão) infelizmente, logo se revela uma vilã formulaica

 
Os figurinos de Louise Mingenbach (Godzilla II: Rei dos Monstros) são eficientes ao definir os trajes básicos da família Vasquez, em contraste com os estilosos trajes da família Shazam (que agora parecem ter menos enchimento de borracha do que no filme anterior) e os trajes das Fúrias, que dão imponência às suas intérpretes, embora Helen Mirren se imponha, até com os farrapos de uma mendiga se fosse necessário, como quando ela diz a Shazam: -“Crianças roubaram o poder de TODOS os deuses! Isso é muito pessoal, Billy.”

 

Os efeitos visuais sofreram um upgrade em relação ao filme anterior


 Mantendo essa premissa, a colorida fotografia de Gyula Pados (da franquia Jumanji) complementa-se com os efeitos visuais da RISE Visual Effects Studios, Double Negative (DNEG), Direct Dimensions (DDI), Big Flick Rentals e OPSIS, supervisionados por Bruce Jones (Aquaman) e Raymond Chen (Alita: Anjo de Combate) que nos brindam inclusive com visuais fantásticos e nostálgicos em seus ambientes e seres, como os monstros, que homenageiam o mestre Ray Harryhausen.

 

Homenagem: Os monstros mitológicos do filme são calcados em designs do mestre do Stop-Motion Ray Harryhausen

No final Shazam supera as suas inseguranças e mostra ser um herói no sentido amplo da palavra

 

 Pesados os prós e contras, Shazam! Fúria dos Deuses continua seguindo a premissa do filme original de ser despretensioso, e que não se ressente de ser bobo, e assumidamente para a família ou, para qualquer público mais emotivo (e de bom coração) em duas horas e dez minutos de diversão escapista, com uma nítida diferença entre o bem e o mal. E é isso. Infelizmente o momento em que está sendo lançado condenou-o a ser deixado de lado pelo próprio estúdio, que não executou um marketing adequado para vendê-lo ao público (inclusive tendo vazado de forma patética sua cena surpresa com um personagem clássico da DC), gerando mais desconfiança do que expectativa, lançando grandes dúvidas sobre seu futuro no novo universo cinematográfico a ser reiniciado. É um pena.

 

Obs: Há duas cenas pós-créditos. Uma lançando uma vaga possibilidade de retorno do personagem, e outra (a mais engraçada) brincando com o final do filme original.



Notas:

 


*1: Após uma longa batalha nos tribunais com a National Periodical Comics (futura DC Comics), que acusava o personagem de ser um plágio do Superman, e a queda das vendas do pós-segunda guerra (que eclipsou a maioria dos super-heróis) o personagem (que tinha fãs célebres como Elvis Presley) foi em 1953 cedido pela Fawcett Comics (em crise financeira) para a National Periodical Comics findando o processo, colocando em seguida, o herói no limbo, para assim garantir o reinado do kryptoniano; mas aproveitando-se disso, Stan Lee, que trabalhava na Marvel Comics (surgida nos anos de 1960) resolveu registrar a marca “Capitão Marvel”, antes que a agora DC a renovasse, mesmo não tendo um personagem ainda para usar o nome (o Capitão Marvel da Marvel só surgiria em 1967...) o que obrigou a DC a rebatizar a revista para Shazam! e depois para The Power of Shazam, só usando o nome do personagem Capitão Marvel no miolo da revista. 

 



*2: Síndrome do Impostor: O principal sintoma que os portadores dessa crítica apresentam, é o medo de ser “desmascarado”, devido à insegurança na própria capacidade, acreditando ser uma fraude sempre prestes a ser descoberta. Isso desencadeia outros sintomas, como ansiedade e angústia. 




*3: Dessa vez Mary Bromfield é vivida nas suas duas versões por Grace Caroline Currey. No filme anterior Grace Fulton (Annabelle 2 - A Criação do Mal) vivia sua versão adolescente. 



*4: As Fúrias se originam da mitologia Grega e são filhas de Atlas (um dos deuses que deram seus poderes à Shazam ):

- Hespera recebeu o nome das Hespérides, os espíritos do pôr do sol, que cuidavam de um jardim de maçãs douradas. Hespera também é a forma feminina de Hesperus, irmão de Atlas e o deus da Estrela Vespertina Vênus.

- Kalypso recebeu o nome da feiticeira que cuidou de Ulisses em seu caminho para casa. 

- Anthea é a deusa dos jardins, pântanos, das flores, e do amor humano.

Há também dois membros das Hespérides (primitivas deusas primaveris que representavam o espírito fertilizador da natureza) chamados Calypso e Antheia (outra grafia do nome de Anthea). Donas do jardim das Hespérides, situado no extremo ocidental do mundo. A rigor, o termo "hespérides" designa dois grupos distintos de divindades, que com frequência são confundidos.


-"Valeu galera por terem vindo aos cinemas! Espero que a bilheteria permita que voltemos a nos ver nas telas!!!"