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quinta-feira, 5 de maio de 2022

Encarando seus medos - Crítica - Filmes: Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022)


Caótico caleidoscópio cósmico

por Alexandre César

Sam Raimi firma o pé direito no MCU em grande estilo
 

 
 
Desde os seu surgimento no Universo Cinematográfico Marvel em 2016, Stephen Strange (Benedict Cumberbatch, de Ataque dos Cães, mostrando ser o maior ator do UCM) ou Doutor Estranho, o Mestre das Artes Místicas, foi gradativamente mostrando o seu valor enquanto personagem, ganhando o público com sua postura cerimoniosa, temperada com ironia e uma sutil e arrogante vaidade. Seu estilo é contrabalançado pelo bom senso do fiel, mas não subserviente Wong (Benedict Wong, de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis), que agora é o Mago Supremo - cargo que ele passou a ocupar nos cinco anos em que Stephen (e metade do universo) havia sido desmaterializado pelo “estalar de dedos” de Thanos


A jovem America Chavez (Xochitl Gomez) é auxiliada por Wong (Benedict Wong) e Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) contra a grande ameaça que a persegue


Comparecendo ao casamento de Christine Palmer (Rachel McAdams, de A Noite do Jogo), seu antigo amor de juventude, ele tem de encarar o fato de tudo que perdeu pelo somatório de suas escolhas de vida, como é bem apontado na cerimônia pelo Dr. Nicodemus West (Michael Stuhlbarg, de A Forma da Água), o seu antigo concorrente dos tempos de medicina. Logo o Doutor conhece a jovem America Chavez (Xochitl Gomez, de O Clube das Babás), que é perseguida por um monstro lovecraftiano*1. A garota possui o poder de viajar por entre os planos dimensionai - um poder cobiçado por Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen, de Terra Selvagem
dando vida e emoção a cada cena que aparece), a Feiticeira Escarlateque, após os eventos de Westview em WandaVision, mergulhou de cabeça nos estudos do Darkhold*2 pois assim poderia ter acesso a seus filhos Billy (Julian Hilliard, de Penny Dreadful: Cidade dos Anjos) e Tommy Maximoff (Jett Klyne, de WandaVision)*3, frutos e sua união com o finado Visão, e inexistentes nesta realidade, mas não em outros universos. 
 

Strange vai ao casamento de Christine Palmer (Rachel McAdams) e tem de reconhecer que a perdeu por conta das escolhas de sua vida

 
Uma vez que se fica evidenciado sua obsessão por esta ideia, Wanda não desistirá deste plano e resta a Stephen e Wong organizar as defesas do santuário de Kamar Taj*4, para proteger America Chavez. Durante esta jornada Estranho passa por várias realidades, conhecendo versões distintas de si mesmo e de entes queridos seus e dos fãs do Universo Marvel... 
 
 
Gargantus, como nos quadrinhos, é apenas um "Pau-mandado" e não a esperada versão do temível Shuma-Gorath

Logo se descobre que quem está por trás disso é Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) ,a Feiticeira Escarlate, possuída pelo Darkhold, o Livro maligno


Dirigido por Sam Raimi (Trilogia Homem-Aranha, Darkman: Vingança sem Rosto), Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022) firma os dois pés do diretor no Universo Cinematográfico Marvel com a segurança narrativa que ele domina como poucos, aliando a sua vivência no terror dos tempos de Evil Dead, adaptando-a de forma a forçar os limites do PG-13. Raimi entrega uma aventura divertida que, graças ao roteiro de Michael Waldron (Loki) e Jade Halley Bartlett, sabe honrar o histórico do personagem criado pela dupla Stan Lee e Steve Ditko (que Raimi já havia referenciado anteriormente*5), e que, mesmo ainda envelopado na Fórmula Marvel, transpira em cada fotograma a sua assinatura autoral. 
 
 
Billy (Julian Hilliard) e Tommy Maximoff (Jett Klyne), os filhos de Wanda não existem no seu universo, mas em vários outros, o que a leva à querer tomar o poder de America Chavez

 
Começando de forma vertiginosa, graças à edição de Bob Murawski (Oz: Mágico e Poderoso) e Tia Nolan (Sexy por Acidente) - que impõem um ritmo de urgência, mesmo nos momentos de respiro -, o filme nos leva a conhecer várias realidades e variantes de personagens conhecidos, como Karl Mordo (Chiwetel Ejiofor, de 12 Anos de Escravidão), que apresenta Strange aos Iluminati*6, equipe de seres notáveis que haviam sido reunidos pelo próprio Strange daquele mundo. Todos são bem caracterizados pelos figurinos de Graham Churchyard (Grotesque: Mistério e Assassinato), que materializa e reinterpreta os conceitos dos personagens nos quadrinhos e das animações para o live-action.
 

Logo Wanda ataca Kamar-Taj, enfrentando todos os magos, mostrando a que veio

 
Como todo filme de Sam Raimi, temos uma participação especial de seu parceiro e amigo Bruce Campbell (Ash vs. The Evil Dead) nesta narrativa vertiginosa onde o humor é dosado de forma orgânica, não saindo da dose certa - o que é um grande mérito considerando-se as alterações ocorridas pela mudança da ordem de lançamento do filme e de seu anterior *7
 
Numa das realidades alternativas Stephen encontra Karl Mordo (Chiwetel Ejiofor)

Mordo leva Strange perante os Iluminati para ser julgado. A direção de arte é muito criativa no desenvolvimento dos universos altternativos


A inspirada música de Danny Elfman (Dolittle) mostra saber (como poucas) a arte da criação de uma trilha sonora de filme de super-herói, com vários temas à serviço da trama, destacando a “batalha sinfônica”, que remete aos experimentalismos visuais de Fantasia (1940) da Disney, demonstrando uma criatividade ímpar.
 
 
Em certo momento, Stephen tem de encarar uma versão alternativa sua que perdeu o rumo


A bela e variada fotografia de John Mathieson (Pokémon – Detetive Pikachu) valoriza as locações na Columbia Britânica (Canadá), Surrey e Somerset (Inglaterra), Islândia e Noruega e, é claro, Nova York. O rico desenho de produção é de Charles Wood (Viúva Negra), com grande influência surrealista na sua transposição dos elementos do vocabulário formal do gênero terror.  A decoração de sets de John Bush (MIB: Homens de Preto Internacional
detalha com os elementos de cena o Sanctum Sanctorum como uma casa mal-assombrada. A direção de arte de Julian Ashby (Vingadores: Ultimato), Thomas Brown (Vingadores: Guerra Infinita). Alice Biddle, Peter James (Liga da Justiça de Zack Snyder), Patrick Harris (Eternos), Julia Dehoff (Silent Witness), Mike Stallion (Artemis Fowl: O Mundo Secreto) e Mark Swain (Viúva Negra) criam ambientes saídos de sonhos e pesadelos, mesclando estilos arquitetônicos e históricos diversos em sua criação de mundos. 
 
 
Em certa altura Stephen "dobra a aposta" a um grande preço


Visualmente rico, tanto na beleza quanto na feiura, os efeitos visuais de Capital T, Digital Domain, Framestore, Industrial Light & Magic (ILM), Luma Pictures, Perception, Proof, Snow Business International, Sony Pictures Imageworks, Crafty Apes e Trixter, supervisionados por Janek Sirrs (Homem-Aranha: De Volta ao Lar), Joel Behrens (Morbius) e Alexandre Cancado (Homem-Aranha: Sem Volta para Casa), dão sentido ao espírito do título do filme 
*8 ao ilustrar rapidamente as grandes possibilidades do conceito de multiverso - algo que, se bem explorado, poderá servir para se contar grandes e ricas histórias. Desde que que este conceito não se torne uma muleta narrativa, como muitas vezes fazem com o conceito da viagem no tempo. 
 
Os efeitos visuais, mantendo o padrão Marvel de qualidade, criam mundos fantásticos e palpáveis, plenos de realismo...

...contrastando com outros psicodélicos, dignos de uma viagem de ácido


Embora não seja a enxurrada de fanservice pelo fanservice, que o marketing fez meio mundo acreditar, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura entrega grandes e bem colocadas referências à mitologia dos quadrinhos, aos livros de poder da Marvel, e à mitologia da Feiticeira Escarlate, que aparentemente conclui aqui seu ciclo trágico de forma digna e satisfatória (mas como é a Marvel sempre poderemos esperar um retorno) e ainda aponta ao final os novos rumos que o Mestre da Magia poderá tomar. Não perca uma das cenas de pós-créditos, que já pisa no acelerador apostando nisso e nos fazendo esperar que não demore a chegada de sua próxima aventura... 
 
 
Em vários momentos o "Sanctum Sanctorum" assume o aspecto de uma casa mau-assombrada


 

Notas: 
 

*1: Muitos fãs acreditavam que o monstro tentacular de um olho só no filme, com tanto destaque nos trailers, seria uma versão da criatura dos quadrinhos da Marvel, que é um dos grandes vilões clássicos do Dr. Estranho conhecida como Shuma-Gorath, que ganhou este nome a partir de uma frase do conto de Robert E. Howard: A Maldição da Caveira de Ouro. Nos anos 90, chegou a ser um dos destaques nos video games da Marvel lançados pela Capcom. Talvez devido a questões de direitos entre a Marvel e o espólio de Howard, o monstro foi tenha sido renomeado como Gargantos, um outro monstro marinho nos quadrinhos da editora que apareceu apenas uma vez em uma aventura de Namor, o Príncipe Submarino. Curiosamente,  no cinema o monstro é um vilão secundário, de menor importância, tal como o Gargantos dos quadrinhos. 
 


*2: A primeira aparição do Darkhold nas HQS aconteceu no ano de 1972, no número 4 da revista Marvel Spotlight. O livro foi escrito por Chthon, o Deus Ancião que aprendeu os segredos da Magia do Caos há bilhões de anos, Após ele ser banido para outra dimensão, o livro como um “presente de grego” para a humanidade (e que pode como uma porta de retorno do velho deus ao nosso mundo). O tomo amaldiçoado já foi apresentado, logo de cara, como uma das mais poderosas ferramentas do mundo sobrenatural. Por esse motivo, o Doutor Estranho o mantinha guardado a sete chaves. Na quarta de temporada de Marvel´s Agents of S.H.I.E.L.D. o livro teve participação crucial na trama, num dos melhores arcos da Marvel fora do cinema. 


*3: Nos quadrinhos, Billy Maximoff se torna o herói Wiccano com poderes similares aos de sua mãe e Tommy Maximof se torna o herói Célere, um velocista tal qual seu tio Pietro. Ambos estão entre os fundadores do grupo de heróis adolescentes Jovens Vingadores.
 
 

*4: Nas HQs,  Kamar-Taj foi uma cidade criada como um lugar para feiticeiros e feiticeiras treinarem e controlarem seus poderes. As pessoas muitas vezes vão lá depois de serem quebradas ou danificadas, física e psicologicamente. Uma vez curados de suas feridas, eles podem escolher entre ingressar como Mestres das Artes Místicas ou retornar às suas vidas anteriores. ela surgiu pela primeira vez  edição 110 da revista Strange Tales, nas HQs do Dr Estranho, ainda sob a batuta da dupla Stan Lee e Steve Ditko.
 

*5: Em Homem-Aranha 2 (2004), nos filmes antes do surgimento do MCU, Sam Raimi adicionou duas referências ao personagem Doutor Estranho: Joe's Pizza (onde Peter Parker está trabalhando no início da história) e o outdoor que mostra Mary Jane estão localizados na Bleecker Street - a rua onde o Sanctum Santorum está localizado nos quadrinhos. O título de “Doutor Estranho” para o vilão foi sugerido a J. Jonah Jameson como um possível nome para o Dr. Octavius, ao qual Jameson responde: "Já está registrado!"
 


*6: Nos quadrinhos, Os Illuminati era um grupo secreto originalmente composto do Senhor Fantástico, Homem de Ferro, Professor X, Doutor Estranho, Raio Negro e Namor. Eles se encontraram em segredo por vários anos, compartilhando informações e estratégias, além de agir de forma pontual, com o objetivo de evitar ou reduzir ações que poderiam causar perigo a toda a toda a Humanidade. O grupo foi relativamente bem sucedida inicialmente, apesar das características únicas e diferenças consideráveis em quase todos os sentidos dos membros do grupo. O Pantera Negra foi convidado a integrar a equipe, mas recusou dizendo que todos eles estavam sendo hipócritas por terem visões distintas de como deveria ser o futuro da Humanidade e que eles não tinham o direito de tomar para si o futuro do mundo. 

 

*7: O filme, que é o 28° do Universo Cinematográfico Marvel, originalmente era para ser o 27°. A ordem de lançamento foi mudada por conta da pandemia da COVID-19. Por conta disso, muitos elementos do seu roteiro foram transportados para Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, havendo mudanças da causalidade da fratura entre os universos, entre outros eventos.
 
 

*8: O título do filme No Multiverso da Loucura é uma brincadeira com o romance de terror de H.P. Lovecraft Nas Montanhas da Loucura, servindo como uma oportunidade de usar no título original  em inglês (Doctor Strange in the Multiverse of Madness) um
a aliteração, recurso que é marca registrada de Stan Lee (Stephen Strange, Bruce Banner, Matt Murdock, Peter Parker, Reed Richards, Susan Storm, etc.).


"- Até que eu fiquei bonito no metal fundido..."

sexta-feira, 4 de março de 2022

Auto-repressão, toxidade e tristeza - Crítica - Filmes: Ataque dos Cães (2021)

E o oeste nunca mais foi o mesmo

por Alexandre César


Jane Campion discute os ícones da masculinidade 
 
 

Obs: Alguns spoilers

#Oscar 2022

 
Montana 1925, uma terra agreste, onde o avanço do progresso gradativamente se faz sentir

Quando meu pai faleceu, eu só queria a felicidade de minha mãe. Que tipo de homem eu seria se não ajudasse a minha mãe? Se não a salvasse?”
 
 
Com essa reminiscência do jovem Peter Gordon (Kodi Smit-McPhee de X-Men: Fênix Negra, em grande performance) se inicia Ataque dos Cães (2021) pungente drama produzido pela Netflix, escrito e dirigido por Jane Campion (O Piano) baseado no livro The Power of Dog de Thomas Savage, que discute em meio a vastas paisagens, plenamente captadas em sua solitária beleza pela fotógrafa Ari Wegner (Lady Macbeth) temas como auto repressão, masculinidade tóxica, aceitação e, acima de tudo, a solidão...
 
 
Os irmãos George Burbank (Jesse Plemons) e Phil Burbank (Benedict Cumberbatch) cuidam do rancho e dos negócios, desde que os pais se retiraram para a cidade
 
 
Montana 1925, os irmãos Phil (o sempre ótimo Benedict Cumberbatch de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa) e George Burbank (Jesse Plemons de Judas e o Messias Negro destilando calma e resignação) administram a fazenda de gado da família há bastante tempo, desde que seus pais idosos se retiraram para viver confortavelmente na cidade. Os dois irmãos basicamente vivem a rotina de administrar a fazenda, convivendo quase que só com seus empregados, os vaqueiros, a Sra. Lewis, a cozinheira/ “governanta” (Geneviève Lemon de Eden) e Lola, a jovem empregada (Thomasin McKenzie de Jojo Rabbit) que ainda está aprendendo o ofício.
 
 
 
A casa dos Burbank, embora grande e vistosa, é escura e fechada,, como que assombrada
 
Mito: O finado Bronco Henry, ensinou Phil Burbank "a ser um homem", e ele  escova e guarda a  sua sela num local reservado, com uma placa metálica, quase como se fosse um altar.


George cuida da parte administrativa, e burocrática, enquanto Phil, embora seja um indivíduo culto, de nível universitário, cuida da parte prática, convivendo com os vaqueiros ( de cuja liderança é inquestionável) e cuidando dos rebanhos, realizando toda a sorte de trabalho manual com destreza invejável. Um perfeito cowboy de maneiras rústicas e atitude firme...
 
 
George se casa com a doce Rose Gordon (Kirsten Dunst) para a irritação de Phil


 
Aqui, que se evidencia a maior diferença pois George é um indivíduo reservado e gentil, enquanto Phil é autoritário e dominador, sendo sempre desagradável, e tiranizando a todos à sua volta, fazendo questão de ter pouco cuidado com a sua higiene pessoal (embora água para o banho não falte) e não cansa de chamar George de “gordo”, estendendo a sua hostilidade a Rose Gordon (Kirsten Dunst de Melancolia em sensível atuação) a viúva, dona de uma estalagem onde os vaqueiros almoçam quando conduzem o gado para pastar. Phil particularmente implica com o jovem Peter (Smit-McPhee), filho de Rose, por causa de seus modos delicados, afirmando que ela “vai tornar o garoto um maricas!”
 
 
  A frágil Rose,é mãe de Peter Gordon (Kodi Smit-McPhee) rapaz sensível, inteligente e mais capaz do que todos imaginam
  Após algum tempo no internato, onde pretende estudar medicina,, Peter Gordon vai passar as férias com a mãe no rancho dos Burbanks
 
 
 
George e Rose acabam por se casar, o que leva Phil a uma constante rotina de hostilidade contra a viúva (que vai gradualmente levando-a à depressão e ao alcoolismo) e inicialmente a seu filho, até que ele resolve orientar o garoto a como ser um cowboy e a lidar com o mundo, tal qual no passado, ele foi ensinado pelo falecido Bronco Henry, uma figura quase mítica, de quem Phil guarda a sela (escovando-a todos os dias) e guardando-a num local reservado com uma placa metálica, quase como se fosse um altar. Deste embate de forças temos um drama pungente cujo clima de tensão é palpável, graças aos acordes da música de Jonny Greenwood (Trama Fantasma) e a edição de Peter Sciberras (O Rei) que mantém um clima de tensão, sempre nos deixa esperando por alguma vilania que paira no ar, e que vai nos angustiando por parecer nunca chegar...
 

Peter constata que Rose está se entregando ao alcoolismo, graças a hostilidade de Phil


 
Muito já se falou sobre Ataque dos Cães, e sobre suas conotações bíblicas*1, sua simbologia*2, estudo de personalidade*3, e etc... por pessoas melhor embasadas do que eu, portanto tentarei não acrescentar mais elementos, pois estes já foram explanados.
 
George convida seus pais, para apresentar Rose à família...
... além do Governador (Keith Carradine) e sua esposa (Alison Bruce)

 
Campion enfatiza aqui, tal qual em O Piano (1993 - filme a tornou na primeira diretora vencedora da Palma de Ouro no Festival de Cannes) nas relações trianguladas num filme de fronteira, aproveitando as paisagens inóspitas como reflexo das situações limite encenadas na história, e no caso de Ataque dos Cães, aborda-se isso de maneira mais incisiva, partindo do mesmo princípio de sentimentalismo represado, alimentado tanto por questões de cenário (em O Piano, a inexplorada Nova Zelândia, e aqui a expansão para o Oeste norte-americano) quanto das próprias relações que se criam entre os personagens. Fica claro também a transição de um estilo de vida para outro, pois enquanto o gentil George traz no comportamento educado o perfil mais próximo dos modos das grandes cidades, o dominador Phil é fiel à vida de cowboy, contente em passar os dias cuidando do gado, confraternizando com os trabalhadores e se atentando aos detalhes do ganhar-a-vida, a despeito de sua educação universitária. 
 

Phil decide orientar Peter a "como ser um homem". A fotografia e o s figurinos enfatizam as peças de couro e o uso das mãos, em sequências plenas de simbolismo



O grande trunfo da narrativa de Campion, é traduzir o tempo passado na história, não demarcando o andar dos dias (apesar de uma cena mostrando a passagem de Peter por um internato), jogando tudo em cima das relações entre os personagens, pois é a partir daí que o espectador é submetido às tensões de Rose e Phil, que a vê como uma invasora de seu espaço, e mais um sinal da civilização o qual se aproxima a cada dia passado. Sentimos a opressão de sua presença nos olhares, assovios, tiradas sarcásticas e toda sorte de iniciativa dele para fazer da vida dela um inferno, como na cena em que George quer apresentar Rose a família, convidando seu Pai (Peter Caroll de Podres de Ricos) e Mãe (Frances Conroy de Coringa), além do Governador (Keith Carradine de Deadwood) e sua esposa (Alison Bruce de One Lane Bridge) para que Rose exiba suas habilidades no piano, o que Phil acaba por sabotar. A partir daí, Peter toma um rumo de ação...
 
 
 
O aprendizado de Peter é duro, mas não insuportável

As locações em Dunedin, na Nova Zelândia convincem como o Oeste norte-americano

 
 
O desenho de produção de Grant Major (Megatubarão) cria junto com a direção de arte de Mark Robins (Até o Último Homem), Matt Austin (Máquinas Mortais), Nick Connor (Ash vs. The Evil Dead), George Hamilton (Mulan) e a decoração de sets de Amber Richards (Megatubarão), Gareth Edwards (Sweet Tooth) e Tony Rush, ambientes que refletem o estado de espírito de seus personagens, como a enorme casa dos irmãos Burbank, que embora sobriamente luxuosa, é escura no geral, como a grande sala (decorada com cabeças e animais empalhados) que tem um aspecto fechado, como a personalidade de Phil. Em contraste, com o aspecto meio mórbido da casa (talvez refletindo a presença do onipresente Bronco Henry, ou do que Phil considera como sendo esta lembrança). Em oposição, temos o único cômodo realmente luminoso: A cozinha, repleta de utensílios domésticos que refletem a transição da entrada da industrialização no modo e preparar a comida, facilitando a vida das empregadas, que dialoga com a estalagem de Rose, que embora simples é um ambiente onde as pessoas se reúnem para comer, conversar, cantar e dançar.
 
 
A cozinha é o local mais luminoso (e feminino) da casa mostrando a evolução do ferramental doméstico do período

 
Os figurinos de Kirsty Cameron (Encantadora de Baleias) sublinham o contraste entre os modos de ser da vida da cidade, basicamente composto de paletós, calças, camisas sociais, vestidos, sapatos e tênis, em contraponto ao estilo de vida dos cowboys de uma Montana ainda não civilizada, com seus macacões e calças jeans, botas com esporas, lenços no pescoço, chapéus de grandes abas, e muito couro, enfatizando uma certa fetichização da figura do cowboy, presente no imaginário coletivo, que se reflete na cena em que uma Rose desesperançada doa uma leva de couro cru (que ia ser queimado) para o índio Edward Nappo, (Adam Beach de A Conquista da Honra) e ganha deste um par de luvas de sua confecção, e ela fica maravilhada com a suavidade ao toque destas.
 
 
O desenho de produção e a direção de arte recriam o período de transição do "velho oeste" para algo mais "civilizado", quando os carros já se estabeleceram

o mobiliário foi enviado para a Nova Zelândia de de muitas casas de adereços em Los Angeles, pois os móveis locais desse período são bem diferentes e de madeiras mais quentes, menos decorativas e menores, pois as casas não eram construídas na escala dos ranchos americanos

 
 
Aqui o uso dos efeitos visuais, supervisionados por Charlie McClelan (Cowboy Bebop) é muito sutil, basicamente acertando a cor entre os takes, ampliando os cenários quando necessário para integrá-los à paisagem e, revelando na paisagem das montanhas o “cão”*4 do título, e que só Phil enxerga, fazendo que por isso ele se julge superior aos demais... 
 
 
Lola, a empregada (Thomasin McKenzie) junto com Peter, são os dois únicos jovens no filme

 
Ao final, Ataque dos Cães não deixa de dialogar (ainda que de uma maneira tangencial) com O Segredo de Brokeback Mountain (2005) de Ang Lee, onde a solidão oriunda da auto negação de si mesmo produz efeitos tão tóxicos e destrutivos quanto o antraz*5 naqueles que o praticam, como nos que orbitam à sua volta, seja na intenção de suas ações quanto no peso de suas almas...
 
 

Phil espera se tornar o mentor de Peter, como Bronco Henry foi o seu no passado



Notas:
 
 

*1: Tanto o filme de Jane Campion quanto o livro de Thomas Savage referenciam um versículo bíblico no título. No final do longa, Peter lê o verso do Salmo 22 em voz alta: “Livra-me da espada, livra minha vida do “poder do cão.”.(”Poder do cão” teria sido um título melhor do que “Ataque dos cães”)
 
 
 
*2: O livro de Thomas Savage deixa claro que Phil, que com seus maus tratos, faz Rose beber.é o “cão”, independente da perspectiva bíblica: (“Graças ao sacrifício de seu pai e ao sacrifício que ele próprio fez a partir do conhecimento obtido nos grandes livros pretos de seu pai, o cão finalmente morre”, no livro).
 
 

 
3*: Phil é realmente como um “cão”, pois ele “late” para George e faz de tudo para irritar Rose. Como um cão com um osso, ele protege ferozmente os itens pelos quais se importa: o lenço e a sela de Bronco Henry, seu mentor, e discutivelmente seu amante.
 
 

 
*4: O termo “cão” também se refere à criatura feita de sombras, (a qual Bronco Henry treinou Phil para reconhecer nas montanhas) imediatamente reconhecido por Peter quando ele o questiona, pegando-o de surpresa, pois como a maioria dos colegas cowboys de Phil não conseguem enxergar essa criatura, Peter utiliza sua suposta existência para provar a própria superioridade, e sua habilidade (de ver o que Phil acreditava que aparecia apenas para ele) lhe dá uma grande vantagem.
 
 
 
*5: Antraz é uma doença bacteriana rara, mas grave, causada por uma bactéria formadora de esporos. Ele afeta principalmente animais. No gado é causada pela bactéria Bacillus anthracis, sendo uma doença infecto-contagiosa de origem animal, conhecida vulgarmente por Peste da Manqueira ou mal de ano. Ataca principalmente animais ruminantes herbívoros que pastam em áreas com solo contaminado.
Os seres humanos podem ser infectados pelo contato com um animal infectado ou por inalação de esporos oriundos de tecidos de animais mortos. Seus sintomas dependem da via de infecção, e podem variar de uma úlcera de pele com uma crosta escura a dificuldade respiratória. O tratamento antibiótico cura a maioria das infecções. O antraz inalado é mais difícil de tratar e pode ser fatal.




"- Cês tão vendo o cachorro???"
"- Ali embaixo do dragão???"
"- Só tô vendo duas girafas..."