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quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Sonhar é preciso - Crítica - Séries: The Sandman - 1ª Temporada


Tirando a areia dos olhos

por Alexandre César 


Adaptação é um dos grandes acertos da Netflix do ano

 


Surgido a 34 anos desde a sua primeira edição, Sandman, Clássico absoluto de Neil Gaiman (Belas Maldições), passou por inúmeras tentativas de adaptação em live-action ao longo dos anos. Gaiman, extremamente protetor em relação à trama que criou para a Vertigo (antigo selo adulto da DC Comics) passou décadas dispensando e sendo dispensado por estúdios e produtores interessados na história de Morpheus (ou Sonho) e seus irmãos Perpétuos*1

 

Sandman, no traço de Sam Kieth, com sua algibeira, contendo a poeira mágica que nos põe a sonhar


Ao final, a equipe coordenada pelo próprio Gaiman, ao lado de David S. Goyer (Fundação) e Allan Heinberg (The Catch), fez jus ao material, numa primeira temporada extremamente positiva, apesar de algumas mudanças poderem incomodar os fãs mais radicais do material-raiz. Essas pequenas, mas pertinentes mudanças, (inclusive desconectando-o da continuidade do Universo DC*2) atualizam e permitem que a história se traduza com naturalidade para a TV e (em quase nada) alteram a história de Sandman, limitando-se a dar uma personalidade mais marcante a alguns dos personagens que cercam o protagonista.


Sonho, ou Morpheus (Tom Sturridge) é capturado por um culto de feiticeiros e amarga 103 anos de cativeiro

 

A série conta com 10 episódios e aborda os dois primeiros arcos da HQ: Prelúdios & Noturnos (episódios de 1 a 6) e Casa das Bonecas (episódios de 7 A 10) e segue a mesma trama que os quadrinhos: Sonho dos Perpétuos (Tom Sturridge de Irma Vep em sutil e eficiente performance e com o tom de voz certo) é capturado num ritual de magia das trevas por Roderick Burgess (Charles Dance de Game of Thrones sempre ótimo), que o aprisiona por mais de um século. Quando escapa, o debilitado Morpheus, o Rei dos Sonhos sai em uma jornada para recuperar seu poder e restaurar seu reino, que se estagnou por sua ausência, e trazer de volta as entidades que escaparam, dentre eles um pesadelo particularmente perigoso chamado Coríntio (o ótimo Boyd Holbrook de O Predador), que saiu pelo mundo, se tornando um assassino serial. Morpheus, em sua jornada para recuperar seus artefatos, cruzará com personagens díspares como Johanna Constantine (Jenna Coleman de Doctor Who), John Dee (David Thewlis de Mulher-Maravilha arrepiante em sua composição) culminando numa ida para o meio do Inferno, duelando com Lúcifer Estrela da Manhã (Gwendoline Christie de Game of Thrones). 

 

Muitas cenas da série são perfeitas transcrições das imagens dos quadrinhos


Após recuperar seus artefatos, Morpheus (ou Sonho) retoma a busca pelo Coríntio, tendo que lidar com os estragos que sua ausência causou aos seres humanos, pois, qual é a importância dos sonhos? Eles mantêm o equilíbrio entre nossas esperanças e medos, anseios e terrores, memórias e dores. É durante a sua ausência, que ocorreu uma moléstia, a Doença do Sono, que fazia as pessoas dormirem, e não acordarem, enquanto outras enlouqueciam por não dormirem (e sonhar). Desse fato, se origina Rose Walker (Vanesu Samunyai) bisneta de Unity Kincaid (Sandra James-Young de His Dark Materials: Fronteiras do Universo) vítima da Doença do Sono, e que busca seu irmão Jed Walker (Eddie Karanja de Jack and the Beanstalk: After Ever After) pois desde o divórcio de seus pais, sua família foi desmembrada. Em meio a isto ainda ocorrem as maquinações de Desejo (Mason Alexander Park de Cowboy Bebop com um visual Lady Gaga vitaminado), que assumem um papel antagônico mais explícito, com seus “joguinhos” com Sonho dando o tom de uma rivalidade em família ausente da HQ original. 

 

Lucienne (Vivienne Acheampong) a bibliotecária do Sonhar, revela a Morpheus como está o seu reino, que tem como ilustres moradores, os irmãos Cain (Sanjeev Bhaskar) e Abel (Asim Chaudhry), protagonistas da"Primeira História Contada"


Da galeria de personagens da série, se destacam Hob Gadling, o imortal (Ferdinand Kingsley de Mank), que mostra a Morpheus a importância de se ter um amigo; Matthew, o corvo (voz de Patton Oswalt de The Boys), e Lucienne (Vivienne Acheampong de The One) a bibliotecária do Sonhar, que têm mais espaço para manter Morpheus “na linha”; os irmãos Cain (Sanjeev Bhaskar de Belas Maldições) e Abel (Asim Chaudhry de Mulher-Maravilha 1984) e em pequena participação, Merv Pumpkinhead (Mark Hamill de Star Wars: Os Últimos Jedi) zelador do Sonhar, e Gilbert (o sempre ótimo Stephen Fry de V de Vingança) um tipo pitoresco. 

 

Johanna Constantine (Jenna Coleman) está de posse de um dos itens de Morpheus, e o entrega a pós um dramático desenlace pessoal 

 

Mas como o maior de todos personagens, e com destaque no melhor episódio, temos a Morte (a ótima Kirby Howell-Baptiste de Cruella) que é uma personagem tocante, sendo uma Perpétua forte, porém doce e compreensiva, que nunca esconde seu fascínio pelo amor dos humanos pela vida. 

 

Procurando seu elmo, Morpheus acaba indo para o Inferno...

...onde duela com Lúcifer Estrela da Manhã (Gwendoline Christie) para reavê-lo

Os antagonistas de Sandman funcionam, cada um à sua maneira, como espelhos distorcidos da humanidade, bem delineados pelos figurinos de Sarah Arthur (Sherlock) que enfatiza a elegância do Coríntio, que exala charme e perigo, o aspecto perturbado de John Dee, que em seu fanatismo vê sempre o pior do homem, levando sua visão ao limite durante o tenso quinto episódio, o mais gore da temporada, além do aspecto etéreo de Lúcifer, afinal antes de cair no Inferno ele/ela era um anjo...


Tédio: Após reaver suas coisas e "arrumar a casa" Morpheus se sente-se sem rumo, sendo aconselhado por sua irmã mais velha, a Morte (Kirby Howell-Baptiste)



Mas, por melhores que sejam as atuações e adaptações à tela, a série infelizmente sofre com um claro problema de ritmo, sendo que a edição de Kely Stuyvesant (Helstrom), Shoshanah Tanzer (Jessica Jones) e Jamin Bricker (The Game), oscila na passagem de tempo entre as cenas e a não-lineariedade da história. tendo alguns momentos cortados de forma abrupta, para serem continuados posteriormente, quase como se fosse um parêntese na história. No quadrinho, o ritmo de leitura dessas quebras de cena ou “vai e volta” do roteiro são mais suaves e sutis, mas na série, os cortes secos e sem explicação, deixam uma incômoda sensação de “ué?! Acabou?” e que dificulta ao espectador refletir sobre o significado da história, ao final de cada arco. Várias vezes é citado que Morpheus (ou Sonho) ficou preso “por mais de um século”, não havendo um envelhecimento correspondente dos personagens, ficando só um pouco melhor contado (mas ainda meio mal explicado) no terceiro episódio. 

 

Após escapar do Sonhar, Coríntio (Boyd Holbrook) deixa de ser apenas um pesadelo, e prospera como Serial Killer



A fotografia de Will Baldy (The Pact), Sam Heasman (Doctor Who) e George Steel (Os Aeronautas) acerta o tom da narrativa em sua palheta de cores e uso de luz e sombras, indo do onírico, passando ao lúdico, e caindo no tenebrista (e até gore). 


Os gêmeos Desespero (Donna Preston) e Desejo (Mason Alexander Park) tramam contra Morpheus

John Dee (David Thewlis) originalmente era um vilão da DC



A música de David Buckley (Evil: Contatos Sobrenaturais) é boa, com passagens líricas e sinuosas em seu tema principal, incluindo em sua trilha, hits como ”Skeletons” de Brothers Osborne, “Together” (Wherever We Go) com Judy Garland e Liza Minelli, ‘’Sweat Dreams“ de Patsy Cline, "Red Comes in Many Shades” de U.S.Girls, “She Drives Me Crazy” de Fine Young Cannibals entre outros, coisa que a obra original nos anos oitenta já antecipava, sempre fazendo citação a alguma música ao longo de seu texto, chegando quase que a fazer uma playlist a cada revista. 

 

Hob Gadling, o imortal (Ferdinand Kingsley) constrói uma amizade com Morpheus ao longo dos séculos

 

O desenho de produção de Jon Gary Steele (Outlander), junto com a direção de arte de Nicki McCallum (Outlander), Lydia Farrel (Murder), Sandra Phillips (007: Sem Tempo Para Morrer), Luke Whitelock (Cruella), Patricia Johnson (Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw) Danny Rogers (Avenue 5) e Kevin Timon Hill (A Crônica Francesa) geralmente são eficientes na criação de seus ambientes como o Sonhar, valorizado pela decoração de sets de Lisa Chugg (Enola Holmes) e Liz Griffiths (Avenue 5) e o Inferno (aqui calcado nas descrições de Dante Alighieri*3 em A Divina Comédia) acertando o clima necessário de sua caracterização, embora em alguns momentos, tais ambientações sejam demasiadamente “limpas”, tirando um pouco o peso dessas imagens, fazendo falta o tom mais sujo que a HQ entrega. 

 

Gilbert (Stephen Fry) é um personagem excêntrico de origem misteriosa

 

Os efeitos visuais de Industrial Light & Magic, Important Looking Pirates, Rodeo FX, Framestore VFX, One of Us, Union VFX, Resonance Digital Inc.,Untold Studios, Chicken Bone FX, supervisionados por Ian Markiewicz (Krypton) flutuam em seu aspecto estético, apesar do orçamento generoso da série (cerca de US$165 milhões), variando o CGI tanto quanto seu ritmo narrativo, alternando entre criaturas fantásticas belíssimas com cenários digitais claramente artificiais, mas que pessoalmente não me incomodou tanto assim, dando um certo charme cafona à série tal qual Doctor Who, série para a qual Gaiman já escreveu um episódio. 

 

Lucienne, Matthew, o corvo (voz de Patton Oswalt) e Merv Pumpkinhead (voz de Mark Hamill) zelador do Sonhar dão suporte à Morpheus

O Inferno. O CGI da série varia do altamente realista ao artificial, a despeito do bom orçamento


Um espetáculo à parte é ter o lendário Dave McKean (o capista do quadrinho original) nos créditos dos episódios, que reforça a noção de familiaridade desse universo narrativo. 


O capista Dave McKean, é responsável pelos créditos da série


Ao final, a primeira temporada de Sandman, embora seja menos reflexiva e não provoque o mesmo impacto que o quadrinho original de 1988, consegue corresponder a boa parte das expectativas que a cercavam, e mostra que a espera de Gaiman e dos fãs não foi à toa, entregando momentos intrigantes e emocionantes, graças a seu elenco engajado, sendo a oportunidade ideal para que, por conta da série, uma nova geração de leitores se disponha a conhecer a obra (e se encantar) com o trabalho original do autor.


Direção de arte: O castelo de Desejo reflete a sua personalidade narcisista



Obs: Talvez o maior problema da série seja devido à forma como a Netflix promove seus lançamentos. Ao liberar toda a temporada de uma vez só, a plataforma sugere uma maratona que, embora pareça divertida no papel, é exaustiva na prática. É claro, que lançar os episódios semanalmente não resolveria o problema, mas tornaria a experiência de assistir - e digerir - a série menos desgastante.

A série alterna momentos líricos com o horror, indo ao gore,


 

Notas:




*1: Na mitologia da série, os Perpétuos são entidades antropomórficas de vários aspectos da existência, sendo a sua existência anterior à dos próprios deuses, compondo esta família Destino (Destiny), Morte (Death), Sonho (Dream), Destruição (Destruction), os gêmeos Desejo (Desire), e Desespero (Despair), e a caçula Delírio (Delirium), sendo todos filhos das entidades Dia e Noite



*2: Originalmente o personagem fazia parte da continuidade do universo regular da editora, inclusive havendo participações do Caçador de Marte, citações à Liga da Justiça, e inclusive John Dee era originalmente um vilão recorrente, chamado Doutor Destino (Doctor Destiny, diferente do vilão da Marvel, que é Doctor Doon) internado no Asilo Arkhan, e na série virou o filho renegado de Roderick Burgess com sua amante Ethel Cripps (Joely Richardson de Operação Red Sparrow),
sendo estas referências removidas na adaptação, por questões contratuais e também por que o próprio Gaiman já nos quadrinhos havia optado por cortar este vínculo.



*3: Dante Alighieri (Florença, entre 21 de maio e 20 de junho de 1265, - 13 ou 14 de setembro de 1321) foi um escritor, poeta e político florentino, nascido na atual Itália. É considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana, definido como il sommo poeta ("o sumo poeta"). Disse o escritor e poeta francês Victor Hugo (1802-1885) que o pensamento humano atinge em certos homens a sua completa intensidade, e cita Dante como um dos que "marcam os cem graus de gênio". E tal é a sua grandeza que a literatura ocidental está impregnada de sua poderosa influência, sendo extraordinário o verdadeiro culto que lhe dedica a consciência literária ocidental sendo a sua obra máxima A Divina Comédia (La Divina Commedia, originalmente Comedìa e, mais tarde, denominada Divina Comédia por Giovanni Boccaccio) é um poema de viés épico e teológico da literatura italiana e mundial, escrito no século XIV e dividido em três partes: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. 

 

"♪♫ I´m so sexy for my mother ♪♫ so sexy for my shoes...♪♫"


 

quarta-feira, 27 de abril de 2022

O dilema democrático - Crítica - Séries: O Expresso do Amanhã - 3ª Temporada

 

Reconectar, desconectar, seguir adiante...

por Alexandre César

Série contextualiza a necessidade do consenso


 

Obs: Spoilers

Alguns meses se passaram desde que o revoltosos desengataram o Snowpiercer do resto da composição, tornando-o um trem rápido e de  maior manobrabilidade


Desde que o despótico Joseph Wilford (Sean Bean de As Crônicas de Frankenstein) reassumiu o Snowpiercer na temporada passada, reimpondo o antigo regime draconiano, onde os fundistas são sufocados à ferro e fogo, que O Expresso do Amanhã, deixou pra trás suas dificuldades iniciais*1, entrando de vez nos trilhos. 


Ícone da extrema direita: Joseph Wilford (Sean Bean) governa o trem com mão de ferro

Agora, em sua terceira temporada, absérie veiculada pela Netflix, que é a adaptação do filme de 2013 do diretor sul-coreano Bong Joon-Ho (O Hospedeiro, Parasita) baseado na graphic novel francesa Le Transperceneige (O Perfuraneve) de Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jen-Marc Rochette de 1982*2 segue mostrando os percalços de Andre Layon (Daveed Diggs de Black-ish) o líder fundista em formação, que ao final da temporada anterior, havia desengatado o Snowpiercer, e se separado da composição principal, ficando o seu grupo com um trem menor e veloz, como uma nau pirata, para traçar um plano de retomar o poder. 

 

Líder indeciso: Andre Layon (Daveed Diggs) tem que superar suas limitações para retomar o trem e manter a democracia funcionando. Ou não?


Num complexo abandonado, Layton encontra uma sobrevivente e ele tem uma visão

 

Passados alguns meses desde o desengate, Layton, com seus aliados, a segurança Bess Till (Mickey Sumner de Where Are You); o maquinista Bennett Knox (Iddo Goldberg de Westworld); a fundista Josie Wellstead (Katie McGuinness de Hollywood) e Alexandra Cavill (Rowan Blanchard de Em Um Mundo Distante) dispõem dos dados científicos do legado da desaparecida Melanie Cavill (Jennifer Connelly de Alita: Anjo de Combate) mãe de Alexandra, e descobrem numa instalação nuclear abandonada, Asha (Archie Panjabi de Ponto Cego) uma sobrevivente traumatizada e ao resgatá-la Layton sofre um acidente e tem um vislumbre de um destino para os sobreviventes, no Chifre da África*3, e partem para o ataque, dispondo de um trunfo: Miss Audrey (Lena Hall de Nature Cat) amante de Wilford. 

 

A segurança Bess Till (Mickey Sumner) e a prisioneira Miss Audrey (Lena Hall) passam a limpo suas diferenças e encontram afinidades 



No trem principal, puxado pelo robusto Big Alice, Wilford prossegue mantendo a sua “ordem”, racionando os alimentos, a luz e o aquecimento, pouco se importando que para isso, mantenha buracos para congelar os braços dos revoltosos e mutilá-los (e manter as classes baixas no “seu lugar”) intimidando toda a 2ª e 3ª Classe e gerando medo e ressentimento, cabendo a Pyke (Steven Ogg de Westworld) e a Ruth Wardell (Alison Wright de Castle Rock) organizar a resistência, fazendo um jogo de gato e rato com a segurança nos recantos de manutenção do trem. A proximidade acabe unindo-os de forma improvável. 

 

Melanie Cavill (Jennifer Connelly) dada como morta, aparece nos sonhos de sua filha Alexandra (Rowan Blanchard)


Zarah Ferami (Sheila Vand de Garota Sombria Caminha pela Noite) grávida de Layton, é mantida como “hóspede” de Wilford, e o vagão boate, agora é administrado pela lindinha psicopata L. J. Folger (Annalise Basso de Camp) e pelo ex-operador e segurança John Osweiller (Sam Otto de Refugiado) que se casam com as bençãos de Wilford, como símbolo da “nova ordem” (embora ela esteja a postos para virar a casaca no momento certo) enquanto a rebelião começa a confrontar mais abertamente o plutocrata, pagando o seu preço em sangue. 

 

Bess Till, Josie Wellstead (Katie McGuinness),Alexandra Cavill e Andre Layton traçam um plano para interceptar o trem de Wilford

A sobrevivente Asha (Archie Panjabi) guarda muitos traumas, mas reacende a esperança de Layton de encontrar um refúgio



Após embates dos fundistas com os guardas wilfordistas e uma “batalha naval” entre os trens Layton consegue depor Wilford, lhe dando uma liberdade vigiada em troca da rendição, mas é claro que (Wilford, sendo Wilford) ele irá esperar o momento certo para tentar dar um novo bote. Uma das primeiras iniciativas de Layton é libertar os dissidentes que haviam ido para as gavetas criogênicas, entre eles, Sam Roche (Mike O´Malley de O Bom Lugar) e sua filha Carly (Esther Ming Li de O Projeto Adam) mas sua esposa não tem tanta sorte, deixando o chefe operador amargurado e querendo vingança. Para unir o trem em torno de um ideal de esperança, Layton vende a ideia do novo Éden no Chifre da África apesar de ser mais uma decisão intuitiva do que algo baseado em fatos científicos mensuráveis. Surge uma discordância entre Layton e Pyke, pois este acredita que Ruth seria uma líder mais competente do trem, ao invés de uma segunda em comando (coisa que ela aceita de bom grado) gerando um conflito que abala os fundistas e a tênue (e bota tênue nisso!!!) liderança de Layton, que entra em coma e em seu delírio enxerga a verdade de sua visão... 

 

O "Big Alice" segue carregando a composição, em seu jogo de gato-e-rato com o  "Snowpiercer" em meio a paisagem congelada

 

Enquanto alguns personagens perecem (Wilford menciona ter havido um surto de “uma gripe” que matou alguns deles, entre outros passageiros), outros ressurgem, como o maquinista Javier de La Torre (Roberto Urbina de Louco Por Ela) o “ravi” que lida com as suas cicatrizes do ataque pelos cães de Wilford, fazendo uma boa dupla com Sykes (Chelsea Harris de Ambulância – Um Dia de Crime) que o ajuda a encarar o trauma. Revemos o jovem Miles Miles (Jaylin Fletcher de Clickbait) “filho” de Josie, que cresceu (e muito!) e segue em seu aprendizado de maquinista, e o engenheiro sobrevivente Boscovic (Aleks Paunovic de Van Helsing) se torna o novo “Icy Bob” graças aos serviços da Mengueliana Dra. Headwood (Sakina Jaffrey de Perdidos no Espaço), que tem uma curiosa discussão sobre ética médica com a Dr. Pelton (Karin Konoval da trilogia Planeta dos Macacos) durante o parto de Zarah. 

 

Zarah Ferami (Sheila Van) é o trunfo de Wilford, que obriga o maquinista " Ravi"(Roberto Urbina) a pilotar o trem

Apesar de quase descarrilhar, Layton acaba fazendo valer seus trunfos


Wilford descobre, um sinal numa linha auxiliar indicando, para alegria da equipe (e para seu ganho pessoal...) que Melanie Cavill está viva, tendo convertido um pequeno módulo de manutenção dos trilhos num pod de hibernação, atestando a sua engenhosidade. Resgatada, em poucos dias após se recuperar, ela vai a público denunciando a pouca confiabilidade do plano de Layton, causando um ‘racha’ no trem, o que Wilford esperava que fosse acontecer. 

 

A "visão" de Layton assume um tom visionário



Aqui vemos um paralelo entre os passageiros que após oito anos fechados naquele claustrofóbico trem e querendo voltar a sentir o ar livre, mesmo que correndo riscos, com as pessoas ansiosas pelo afrouxamento das normas de isolamento social da pandemia de COVID-19, e essa ânsia é até compreensível no caso dos fundistas, que como diz Layton sempre sofrem as perdas mais pesadas, tendo vivido na miséria e insalubridade nestes oito anos dentro daquela caixa de metal sobre trilhos.

Os maquinistas " Ravi" e Bennett Knox (Iddo Goldberg, sentado) avaliam os danos. A direção de arte mostra a gradual deterioração do trem decorrente do uso

 

Wilford faz uma aliança com Melanie, visando reaver o poder pelas suas costas, mas ela o conhece, e ao dialogar com Layton, ambos reconhecem que o confronto só destruirá os dois lados e numa grande virada a série mostra que a despeito do que se fala, a política uma ferramenta de solução de problemas, com cada lado aceitando regras e cedendo em ponto para ganhar em outro e vice-versa para todas as partes caminharem juntas. Uma escolha é feita e cada parte toma um rumo, havendo a possibilidade de um reencontro adiante, havendo depois um salto no tempo de três meses... 

 

Após prender Wilford, Layton e Pyke (Steven Ogg) entram em gradual oposição

  Carly (Esther Ming Li) e seu pai Sam Roche (Mike O´Malley) enfrentam uma tragédia cujo responsável é Wilford



A fotografia de Jaime Reynoso (O Método Kominsky) e Trig Singer (Megadream) seguem o bom trabalho dos seus predecessores, contrastando os tons cinzas e azulados das entranhas do Snowpiercer e do Big Alice, cujo aspecto frio, impessoal e inóspito reflete a divisão verticalizada de classes, adquirindo tons solares no episódio do delírio de Layton, acompanhado pela edição de Jay Prychidny (Altered Carbon) Erin Deck (Into the Badlands) e Nicholas Wong (The Expanse) mantém o ritmo e o tom narrativo na medida certa, acelerando nos momentos tensos como no confronto de Layton com Pyke ou na travessia da ponte em direção ao “Chifre da África”, que a trilha musical de The Haxan Cloak - Bobby Krlic (Midsommar: O Mal Não Espera a Noite) prossegue no seu tom atmosférico, incorporando os sons mecânicos na música, ora sublinhando, ora num crescendo nas horas mais explosivas. 

 

Ferido, Layton tem um sonho onde Sykes (Chelsea Harris) e Wilford são espiões. A direção de arte transforma o trem num cenário caribenho de espionagem



O desenho de produção de Stephen Geaghan (Outra Vida) segue expandindo o universo do interior do Snowpiercer, com novos elementos como o pequeno trem que manteve Melanie viva, e a direção de arte de Susan Parker (Take Two) e Ainsley Barteluk (Reel Women Seen) vai detalhando mostrando a deterioração gradativa do trem, que ainda consegue se transformar, como no delírio de Layton, que a decoração de sets de Roger Trory (Era Uma Vez) transforma num cenário de filme de espionagem de ares caribenhos, onde os figurinos de Caroline Cranstoun (Um Match Surpresa) brincam com os clichês, mantendo no resto da temporada, a palheta de cores dos trajes chiques e decadentes de Wilford, o tom vintage dos trajes de Audrey (refletindo o seu passado de atriz Burlesca), e os com os trajes padronizados, sóbrios, mas elegantes da Segunda Classe, os meramente funcionais da Terceira e dos soldados e, os fundistas com seus trapos de tons pretos, cinzas, terrosos e sujos mostrando o “seu lugar” no construto social. 

 

Os efeitos visuais continuam de alto nível criando belas e tristes cenas como a das pirâmides do Egito congeladas


Prosseguindo no trabalho de expandir esse gélido, rico e hostil universo narrativo, os efeitos visuais de Fuse FX, Method Studios, Zoic Studios, Torpedo Pictures, Mr. X, Image Engine Design Inc., supervisionados por Geoff D. E. Scott (Orphan Black) e Jamie Barty (The Orville) entregando belas e tristes cenas como o Egito e suas pirâmides congelados, ou plenas de dinamismo como quando Snowpiercer e o Big Alice se confrontam como numa batalha de navios piratas, ou o trem precisa atravessar uma nuvem vulcânica ácida e corrosiva. 

 

Retorno triunfal: Melanie Cavill havia convertido um trenzinho de manutenção de trilhos num módulo de sobrevivência, sendo resgatada pelo Snowpiercer

Discordando de Layton (?) Melanie faz uma aliança com Wilford, que esperava isso, mas Melanie tem seus planos também

 

Ao final, O Expresso do Amanhã termina com a grande mensagem de que por piores que as coisas possam ser, somente com a decisão política dos lados beligerantes, se chega a uma forma negociada que permitirá que ambos os lados sobrevivam. Mesmo que a série terminasse aqui, terminaria bem, em grande estilo, mas ela ainda abre caminho para a próxima temporada, já confirmada, que trará Clak Greg (Marvel´s agentes of S.H.I.E.LD.) além de outras dinâmicas que deverão trazer novos desafios a Layton, Melanie, e até mesmo a Wilford, que continua como uma carta que pode retornar ao baralho desse jogo...


Ao final rumos são traçados e destinos alcançados mas ainda não chegamos ao final de fato




Notas:

 

*1: Produzida pela TNT e aqui veiculada no streaming pela Netflix, a série teve várias dificuldades na primeira temporada oriunda da troca de showrunners, e de emissoras (originalmente pela TNT, foi para a TBS, retornando depois para a TNT), roteiros reescritos, novas direções entre outras coisas. 



*2: Que apresentava uma distopia com ótima alegoria sobre a luta de classes ao mostrar um mundo glacial, onde os remanescentes da espécie humana habitam um gigantesco trem em movimento contínuo numa volta ao mundo (num moto perpétuo) vivendo num sistema de castas em que os ricos têm ótimas acomodações, alimentação, e à medida que vamos descendo de classe social, o espaço, comida, etc... vão decaindo até chegarmos nos últimos vagões, onde os fundistas vivem como párias na fome, miséria e desesperança. 

 



*3: O “Chifre da África” (ou “Corno de África”) é a região também conhecida como Nordeste Africano e algumas vezes como Península Somali, é uma designação da região nordeste do continente africano, que compreende a Somália, a Etiópia, a Eritreia e o Djibouti. Tem uma área de aproximadamente 2 milhões de km² e uma população de cerca de 116 milhões de pessoas (Etiópia: 94,3 mi, Somália: 14,7 mi; Eritreia: 5 mi; Djibuti: 956 mil).



"Foi um prazer estar com vocês, brincar com vocês,mas agora é hora de dar tchau! Até a próxima temporada!!!"