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quinta-feira, 14 de julho de 2022

Pais & Filhos sempre... - Crítica - Séries: The Boys - 3ª Temporada

 


O apogeu narrativo

por Alexandre César

Série da Prime Video supera a si mesma e à concorrência 

Obs: Alguns spoilers

“A Origem dos Sete”: Vemos Charlize Theron como Storm Front/ Tempesta, num filme que distorce os fatos que aconteceram na temporada anterior

 

Produzida por Seth Rogen, Evan Goldberg (Preacher) e Eric Kripke (Supernatural), The Boys, entra agora em sua terceira e explosiva temporada, mantendo o tom ácido e ampliando o universo narrativo da obra. Sem perder a sua coerência interna, ela investe na crítica feroz ao mundo corporativo e nos paralelos com o mundo contemporâneo, onde a manipulação midiática e a difusão de discursos de ódio pelos grupos conservadores são relativizados relativiza para  que se alcance metas estabelecidas. 

 

Billy Butcher/ Blly Bruto (Karl Urban) e Hughie Campbell (Jack Quaid) encontram no Composto V-24, uma forma de 'nivelar o jogo' contra os super-seres



A série, baseada nos quadrinhos de Garth Ennis (Preacher, O Justiceiro) e Darick Robertson (Transmetropolitan) publicados pela Dynamite Entertainment entre 2006 e 2008, se consagrou na mais bem-sucedida aposta da Amazon Prime Video, superando (e muito!) o seu material matriz. Aprofundando os personagens e suas relações, ela se mantém como a melhor obra do gênero, superando as rivais de streaming: Netflix, que ‘quebrou a cara’ com a adaptação mequetrefe de O Legado de Júpiter, de Mark Millar e Frank Quitely, e Marvel/Disney, que neste último ano tem entregado séries até boas, mas abaixo de seu verdadeiro potencial... 

 

Homelander/ Capitão-Pátria (Antony Starr) gradativamente vai mergulhando na paranoia, assumindo comportamentos esquizofrênicos

No programa "American Hero" Starlight / Luz-Estrela (Erin Moriarty) reencontra supersônico (Miles Gaston Villanueva), antigo "crush" que entra na mira de Homelander / Capitão-Pátria


Reencontramos o grupo de Billy Butcher / Billy Bruto (Karl Urban, da cinesérie Star Trek, cada vez melhor) e Francês (Tomer Capon, de 7 Dias em Entebbe), o especialista em armas e traquitanas que agora forma um casal com Kimiko (Karen Fukuhara, de Esquadrão Suicida), a “Wolverine” da equipe. Também revemos Milk MotherLeitinho (Laz Alonso, de Armed), o “pau-para-toda-obra” do grupo e o “irmãozão” de todos que lida com o fato de sua esposa o ter trocado por Todd (Matthew Gorman, de Supermães), um fã desmiolado dos super-seres que acredita em tudo que a mídia lhe diz, refletindo bem o perfil dos apoiadores de Trump e de Bolsonaro. Se você leitor, acha que eu não devia falar de política na crítica de uma série baseada em quadrinhos, fica a dica: TUDO NA VIDA É POLÍTICA. SEU CORTE DE CABELO, À COR DO SEU CARRO (quando as forças econômicas lhe permitem ter um, e mantê-lo...) OU O CHEIRO DO SEU DESODORANTE!!! Posto isso continuemos...

Rainha Maeve (Dominique McElligott) se prepara para ter com Homelander / Capitão Pátria um acerto de contas por uma vida de abusos


O grupo de Butcher / Bruto agora responde à Hughie Campbell (Jack Quaid, de Pânico), que passou a integrar o departamento da Senadora Victoria Newman (Claudia Doumit, de Cadê Você, Bernadette?), que está de olho nas atividades dos supers desde que ela pressionou e conseguiu que a Vought International permitisse uma maior fiscalização nas ações dos super-seres. Tudo isso devido às consequências nefastas dos atos de Storm Front / Tempesta (Aya Cash, de Fosse/Verdon em rápida aparição nesta temporada) que abalaram as estruturas do grupo (e da própria Vought ao apoiá-la) com sua capacidade de lidar com as redes sociais e induzir as massas com discursos de ódio )“as pessoas gostam de ouvir o que falo, só não gostam da palavra fascista”). Vemos que no universo da série, como aqui, a vida não é para amadores ...


Vemos a psiquê fraturada de Black Noir (Nathan Mitchell) num momento que revela parte de seu passado traumático


Para quem está chegando agora, no universo ficcional da série a Vought International é um conglomerado multinacional que cuida do merchandising, filmes, séries de TV, brinquedos e toda a sorte de produtos de cada super equipe e super-seres dos EUA. Para isso a empresa os gerencia via redes sociais, ficando de olho em quem é popular, quem está nos trending topics, qual a demografia de likes de cada um... S
ua “jóia da coroa” corporativa é o grupo conhecido como Os Sete (uma paródia corrupta da Liga da Justiça), formado por Homelander / Capitão-Pátria (o brilhante Antony Starr, de Banshee, no papel de sua vida), o ”Superman” da série e o “sonho molhado” dos supremacistas; Black Noir (Nathan Mitchell, de Scorched Earth), o “Batman” que tem parte de seu passado revelado nesta temporada; Rainha Maeve (Dominique McElligott de House of Cards), a “Mulher-Maravilha” que, embora agora apareça menos (durante as filmagens a atriz estava na Irlanda, limitada pelo lockdown devido a COVID-19), tem um arco de redenção; A-Train / Trem-Bala, (Jessie T. Usher, de Mentiras Perigosas), o ”Flash” que tenta se reinventar como alguém preocupado com sua ancestralidade em momentos questionáveis *1; e o reabilitado The Deep / Profundo (Chace Crawford, de Casual), o “Aquaman” que é orientado a como voltar a ganahr espaço na mídia por sua esposa Cassandra Schwartz (Katy Breier, de Moonfall: Ameaça Lunar) que conheceu na Igreja da Coletividade (uma paródia da Cientologia*2). Mas logo ele põe tudo à perder por conta de seu ego e suas bizarrices sexuais... 

 

Oportunismo 1: A-Train / Tren-Bala, (Jessie T. Usher) procura usar a sua ancestralidade negra para resgatar a sua popularidade

Oportunismo 2: The Deep/ Profundo (Chace Crawford) recupera o seu status graças à orientação de sua esposa Cassandra Schwartz (Katy Breier)

 
O grupo ainda tem Annie January, a Starlight / Luz-Estrela (Erin Moriarty, de Berserk) a "Supergirl / Mary Marvel" da série, que nesta temporada cresce (e muito!) como personagem, mostrando saber lidar com Os Sete e com a tirania corporativa da Vought. Ela volta a usar o seu uniforme mais recatado, descartando de vez o modelito padrão 
mais sexualizado “heroína da Image Comics”. Ela agora está vivendo um relacionamento secreto (mas estável) com Hughie, que se ressente de ser um indivíduo comum, incapaz de protegê-la de ameaças super-poderosas... Uma das tônicas desta temporada é justamente a masculinidade frágil, que leva indivíduos a tomarem rumos duvidosos por conta de suas inseguranças. 

 

Reviravoltas: Homelander / Capitão-Pátria promove a submissa Ashley Barrett (Colby Minifie) a CEO da Vought e o incompetente The Deep / Profundo a chefe da segurança


O grande desafio da temporada leva o grupo a se deslocar para o outro lado do oceano, pois acredita-se que os russos tem uma arma que teria matado Soldier Boy (Jensen Ackles, de Supernatural, em ótima performance), o "Capitão América" da Vought, e que poderia também matar Homelander / Capitão-Pátria. Grace Mallory (Laila Robins, de Lista Negra) lhes confessa que ela chefiou uma operação conjunta com a Vought e com o seu grupo, o Payback ,na Nicarágua nos anos 1980*3

 

A equipe "Payback" nos anos 1980, chefiada por Soldier Boy (Jensen Ackles ao centro), Condessa Carmesin (Laurie Holden) e Black Noir

 

Chegando na Rússia, eles descobrem que Soldier Boy está vivo e é mantido prisioneiro, sendo usado como cobaia de experimentos pelos russos. Neste arco, o Francês, tem de pagar um débito com a chefe da máfia russa Little Nina (Katia Winter, de The Catch) para salvar a sua ex-amante Cherie (Jordana Lajoie, de Ride or Die), envolvendo Kimiko nisso. 

 

Na Rússia, Francês (Tomer Capon) tem de acertar as contas com a chefe da máfia russa Little Nina (Katia Winter)

Para ajudar Francês, Kimiko (Karen Fukuhara) mostra toda a sua habilidade de usar armas pouco convencionais com resultados letais


Nesta temporada Butcher / Bruto descobre uma forma de nivelar o combate usando a droga experimental Composto V-24, que concede poderes a seu usuário por 24 horas. Por sua natureza viciante, a droga causa uma cisma no grupo, uma vez que Bruto e o inseguro Hughie passam a usá-la. Butcher / Bruto acaba fazendo um acordo com Soldier Boy, que quer acertar as contas com o seu antigo grupo (que na realidade o entregou aos russos). 

 

Ao libertarem Soldier Boy, o grupo descobre o seu novo poder


Existem espelhamentos nos relacionamentos tóxicos, sejam os de natureza sexual - como nos casos de Homelander / Capitão-Pátria com a Rainha Maeve e de Soldier Boy com sua amante, a Condessa Carmesin (Laurie Holden, de Arquivo X) -,  nos que envolvem questões de parentesco - como no caso de Butcher / Bruto com Hughie, que lhe remete a seu irmão falecido -  como nas questões de paternidade de Soldier Boy (cuja história de ‘Herói de Guerra’ é pura propaganda da Vought) e do próprio Homelander / Capitão-Pátria, que se reaproxima de Ryan (Cameron Crovetti, de Big Little Lies,) seu filho (via estupro) com a falecida mulher de Butcher / Bruto. Ele se oferece como um pai que sempre o apoiará independente das consequências de seus atos (e quem morra nisso)... 


Francês, Hughie, Butcher / Bruto e Milk Mother / Leitinho (Laz Alonso) enfrentam uma treta maior ainda


Antony Starr cresce nas mudanças de ânimo instantâneas de seu super paranoico personagem, que camufla suas inseguranças atrás de bullying e agressividade. Em um tom de voz ou um olhar (as cenas em que dialoga com seu reflexo no espelho são um show à parte) reflete toda a sua masculinidade frágil e tóxica. Seu sorriso luminoso esconde o desprezo que sente por toda a humanidade (ou por outros supers). Ele consegue numa virada inesperada, descartar o todo-poderoso Stan Edgar (o estiloso Giancarlo Esposito, de O Mandaloriano), CEO da Vought que em certa altura lhe diz: “Você não é um deus, mas sim um produto defeituoso!”. Em seu lugar, coloca Ashley Barrett (Colby Minifie, de Lemons), mas ela não passa de um capacho dele, que a humilha (bem como ao resto dos Sete) sempre que pode. Ashley transfere essa forma de humilhação aos seus amantes, mostrando que os ciclos de violência se reproduzem em escala hierárquica, como no experimento da hierarquia do galinheiro *4

 

De volta aos EUA, Soldier Boy começa a caçar aqueles que o traíram

Correndo por fora, a Senadora Victoria Newman (Claudia Doumi) também faz as suas jogadas pelo poder


Temos ainda críticas à cultura pop e ao negacionismo, como na cena inicial da temporada, quando o diretor do filme “A Origem dos Sete”, Adam Bourke (P.J. Byrne, de Rampage: Destruição Total), lança o seu corte (Snydercut?!?) com direito a uma ponta de Charlize Theron (Doutor Estranho no Multiverso da Loucura) como Storm Front / Tempesta, distorcendo os fatos que aconteceram na temporada anterior. Da mesma forma os noticiários enfatizam que Soldier Boy é ‘naturalizado russo’, tirando a responsabilidade americana por seus atos destrutivos.


Billy Butcher / Bruto encara seus fantasmas, revivendo a relação com seu irmão caçula


O Desenho de Produção de Jeffrey Mossa (Panic) e Arvinder Greywal (Genius), a Direção de Arte de William Cheng (Fundação) e David Best (Waco) e a Decoração de Sets de Cheryl Dorsey (Taken) expandem esse mundo colorido (hightech, mas palpável), não devendo nada às séries ou filmes do Universo Cinematográfico Marvel, ou da DC. Da mesma forma, os Figurinos de Michael Ground (Frontier) acertam no tom casual de seus personagens. 
Laura Jean Shannon (Patrulha do Destinocontinua fazendo um trabalho competente com seus supertrajes

 

Starlight / Luz-Estrela e Milk Mother / Leitinho avisam a Vazz, o Salsicha do Amor (Derek John), e os demais participantes da "festa" sobre a ameaça que se aproxima


A fotografia de Dan Stoloff (Julia) é complementada pelos efeitos visuais das empresas BOT VFX, Double Negative (DNEG), Folks, Framestore, Mavericks VFX, Method Studios, Monsters Aliens Robots Zombies, Mr. X, Outopost VFX, Pixomondo, Rocket Science VFX, Rodeo FX e Soho VFX. Supervisionados por Rian McNamara (See), Stephan Szpak-Fleet (Timeless: Guardiões da História) e Tristan Zerafa (Alita: Anjo de Combate), continuam tornando críveis as extrapolações dos supers, por mais bizarras e gore que sejam, como quando, no melhor episódio da temporada, que adapta o arco Herogasm dos quadrinhos*5, quando temos um rápido e hilário retorno de Vazz, o Salsicha do Amor (Derek Johns, de Moonfall: Ameaça Lunar), além dos grandes combates de Homelander / Capitão-Pátria com Soldier Boy e com um Billy Butcher / Bruto, turbinado por Composto V-24

 

Combate de Titãs: Os dois oponentes saem no braço...

...revelando similaridades que trazem novas dinâmicas à trama



A edição de David Kaldor (Perdidos no Espaço), Wlliam W. Rubenstein (Timeless: Guardiões da História), Ian Kezbom (Future Man) e Tom Wilson (Candy) mantém o ritmo narrativo, ora frenético, ora mais compassado, sendo acompanhado e bem sublinhado pela seleção musical da trilha de Christopher Lennertz (Perdidos no Espaço) e Matt Bowen (Blood Road), que inclui Hits clássicos para enfatizar momentos de carga emocional. 

 

Num momento idílico, Kimiko fantasia um musical com o Francês, celebrando o seu amor



Finalizando sua terceira e melhor temporada, The Boys supera de forma mais do que satisfatória as expectativas que gerou, abrindo novos rumos para a sua próxima (e provavelmente derradeira), que deverá se pautar na batalha de Bruto / Butcher pelo coração e a alma de Ryan, o que deverá render momentos de alto teor dramático. Esta temporada reflete muita coisa que vemos ao longo de nossas vidas, quando, quem têm poder, o usa de forma indiscriminada, procurando passar a seus descendentes essa ideologia do “quem pode, faz e manda, e quem não pode, obedece”. Independentemente disso ser certo ou errado, pois considerações éticas são demasiadamente intelectuais para o poder...


  Notas:

 



*1: Em uma cena marcante, vemos A-Train / Trem-Bala fazer um comercial de seu energético Turbo Rush, tomando para si uma manifestação popular, parodiando o Black Lives Matter. Uma atitude similar ao comercial que a Pepsi fêz em 2017 com a top model Kendall Jenner. O comercial teve uma repercussão tão negativa (passando uma mensagem sem-noção sobre os movimentos de cunho social), que a Pepsi o retirou do ar e teve de se retratar. Ele ainda tenta mediar as atividades do vigilante Blue Hawk (Nick Wechsler, de This Is Us), que espanca a comunidade negra de forma arbitrária, levando-o a um confronto que prejudica ao seu próprio irmão, Nathan (Christian Keyes,de All Rise). 

 


*2: Religião criada por L. Ron Hubbard, alvo de várias investigações por suas práticas controversas. 

 



*3: Durante a administração de Ronald Reagan, a CIA patrocinou operações para combater o governo sandinista da Nicarágua (pró-Cuba e pró-União Soviética), apoiando seus adversários, chamados de "contras". Para financiar essas operações de desestabilização, a CIA criou uma rede de tráfico de cocaína nos próprios Estados Unidos. Detalhe: A droga só era comercializada nos bairros negros e latinos para não prejudicar a elite branca americana. 

 


*4: Neste experimento, ao ser analisado a estrutura social de um galinheiro, os pesquisadores constataram existir entre as galinhas, uma hierarquia. No topo estava a “Galinha A”, que bica à todas e não é bicada por nenhuma; seguida pela “Galinha B”, que bica à todas e não é bicada por nenhuma (exceto a A); a “Galinha C”, que bica à todas e não é bicada por nenhuma (exceto a A e a B); a “Galinha D”, que bica à todas e não é bicada por nenhuma (exceto a A,B, e C) indo assim até a última galinha, que é bicada por todas e não bica nenhuma, atestando a sua posição de inferioridade frente às outras. 

 


*5: Neste arco dos quadrinhos, Herogasm seria um evento anual em que os supers anunciam a todo o planeta de que "uma ameaça de proporções cósmicas se avizinha da Terra" (parodiando as ‘Crises’ da DC Comics ou as super-sagas da Marvel) e que, "para a nossa proteção, eles todos vão se unir e levar o combate para fora do planeta." Na realidade todos os supers, para evitarem o stress, se mandam para uma ilha paradisíaca da Vought, cheia de garotas e garotos de programa, ficando por lá cerca de uma semana ou mais, se dedicando a toda a sorte de orgias e devassidão para voltarem relaxados ao nosso convívio e não causarem problemas.




E ao final, amídia transforma o perigoso Soldier Boy em "naturalizado russo"


quarta-feira, 27 de abril de 2022

O dilema democrático - Crítica - Séries: O Expresso do Amanhã - 3ª Temporada

 

Reconectar, desconectar, seguir adiante...

por Alexandre César

Série contextualiza a necessidade do consenso


 

Obs: Spoilers

Alguns meses se passaram desde que o revoltosos desengataram o Snowpiercer do resto da composição, tornando-o um trem rápido e de  maior manobrabilidade


Desde que o despótico Joseph Wilford (Sean Bean de As Crônicas de Frankenstein) reassumiu o Snowpiercer na temporada passada, reimpondo o antigo regime draconiano, onde os fundistas são sufocados à ferro e fogo, que O Expresso do Amanhã, deixou pra trás suas dificuldades iniciais*1, entrando de vez nos trilhos. 


Ícone da extrema direita: Joseph Wilford (Sean Bean) governa o trem com mão de ferro

Agora, em sua terceira temporada, absérie veiculada pela Netflix, que é a adaptação do filme de 2013 do diretor sul-coreano Bong Joon-Ho (O Hospedeiro, Parasita) baseado na graphic novel francesa Le Transperceneige (O Perfuraneve) de Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jen-Marc Rochette de 1982*2 segue mostrando os percalços de Andre Layon (Daveed Diggs de Black-ish) o líder fundista em formação, que ao final da temporada anterior, havia desengatado o Snowpiercer, e se separado da composição principal, ficando o seu grupo com um trem menor e veloz, como uma nau pirata, para traçar um plano de retomar o poder. 

 

Líder indeciso: Andre Layon (Daveed Diggs) tem que superar suas limitações para retomar o trem e manter a democracia funcionando. Ou não?


Num complexo abandonado, Layton encontra uma sobrevivente e ele tem uma visão

 

Passados alguns meses desde o desengate, Layton, com seus aliados, a segurança Bess Till (Mickey Sumner de Where Are You); o maquinista Bennett Knox (Iddo Goldberg de Westworld); a fundista Josie Wellstead (Katie McGuinness de Hollywood) e Alexandra Cavill (Rowan Blanchard de Em Um Mundo Distante) dispõem dos dados científicos do legado da desaparecida Melanie Cavill (Jennifer Connelly de Alita: Anjo de Combate) mãe de Alexandra, e descobrem numa instalação nuclear abandonada, Asha (Archie Panjabi de Ponto Cego) uma sobrevivente traumatizada e ao resgatá-la Layton sofre um acidente e tem um vislumbre de um destino para os sobreviventes, no Chifre da África*3, e partem para o ataque, dispondo de um trunfo: Miss Audrey (Lena Hall de Nature Cat) amante de Wilford. 

 

A segurança Bess Till (Mickey Sumner) e a prisioneira Miss Audrey (Lena Hall) passam a limpo suas diferenças e encontram afinidades 



No trem principal, puxado pelo robusto Big Alice, Wilford prossegue mantendo a sua “ordem”, racionando os alimentos, a luz e o aquecimento, pouco se importando que para isso, mantenha buracos para congelar os braços dos revoltosos e mutilá-los (e manter as classes baixas no “seu lugar”) intimidando toda a 2ª e 3ª Classe e gerando medo e ressentimento, cabendo a Pyke (Steven Ogg de Westworld) e a Ruth Wardell (Alison Wright de Castle Rock) organizar a resistência, fazendo um jogo de gato e rato com a segurança nos recantos de manutenção do trem. A proximidade acabe unindo-os de forma improvável. 

 

Melanie Cavill (Jennifer Connelly) dada como morta, aparece nos sonhos de sua filha Alexandra (Rowan Blanchard)


Zarah Ferami (Sheila Vand de Garota Sombria Caminha pela Noite) grávida de Layton, é mantida como “hóspede” de Wilford, e o vagão boate, agora é administrado pela lindinha psicopata L. J. Folger (Annalise Basso de Camp) e pelo ex-operador e segurança John Osweiller (Sam Otto de Refugiado) que se casam com as bençãos de Wilford, como símbolo da “nova ordem” (embora ela esteja a postos para virar a casaca no momento certo) enquanto a rebelião começa a confrontar mais abertamente o plutocrata, pagando o seu preço em sangue. 

 

Bess Till, Josie Wellstead (Katie McGuinness),Alexandra Cavill e Andre Layton traçam um plano para interceptar o trem de Wilford

A sobrevivente Asha (Archie Panjabi) guarda muitos traumas, mas reacende a esperança de Layton de encontrar um refúgio



Após embates dos fundistas com os guardas wilfordistas e uma “batalha naval” entre os trens Layton consegue depor Wilford, lhe dando uma liberdade vigiada em troca da rendição, mas é claro que (Wilford, sendo Wilford) ele irá esperar o momento certo para tentar dar um novo bote. Uma das primeiras iniciativas de Layton é libertar os dissidentes que haviam ido para as gavetas criogênicas, entre eles, Sam Roche (Mike O´Malley de O Bom Lugar) e sua filha Carly (Esther Ming Li de O Projeto Adam) mas sua esposa não tem tanta sorte, deixando o chefe operador amargurado e querendo vingança. Para unir o trem em torno de um ideal de esperança, Layton vende a ideia do novo Éden no Chifre da África apesar de ser mais uma decisão intuitiva do que algo baseado em fatos científicos mensuráveis. Surge uma discordância entre Layton e Pyke, pois este acredita que Ruth seria uma líder mais competente do trem, ao invés de uma segunda em comando (coisa que ela aceita de bom grado) gerando um conflito que abala os fundistas e a tênue (e bota tênue nisso!!!) liderança de Layton, que entra em coma e em seu delírio enxerga a verdade de sua visão... 

 

O "Big Alice" segue carregando a composição, em seu jogo de gato-e-rato com o  "Snowpiercer" em meio a paisagem congelada

 

Enquanto alguns personagens perecem (Wilford menciona ter havido um surto de “uma gripe” que matou alguns deles, entre outros passageiros), outros ressurgem, como o maquinista Javier de La Torre (Roberto Urbina de Louco Por Ela) o “ravi” que lida com as suas cicatrizes do ataque pelos cães de Wilford, fazendo uma boa dupla com Sykes (Chelsea Harris de Ambulância – Um Dia de Crime) que o ajuda a encarar o trauma. Revemos o jovem Miles Miles (Jaylin Fletcher de Clickbait) “filho” de Josie, que cresceu (e muito!) e segue em seu aprendizado de maquinista, e o engenheiro sobrevivente Boscovic (Aleks Paunovic de Van Helsing) se torna o novo “Icy Bob” graças aos serviços da Mengueliana Dra. Headwood (Sakina Jaffrey de Perdidos no Espaço), que tem uma curiosa discussão sobre ética médica com a Dr. Pelton (Karin Konoval da trilogia Planeta dos Macacos) durante o parto de Zarah. 

 

Zarah Ferami (Sheila Van) é o trunfo de Wilford, que obriga o maquinista " Ravi"(Roberto Urbina) a pilotar o trem

Apesar de quase descarrilhar, Layton acaba fazendo valer seus trunfos


Wilford descobre, um sinal numa linha auxiliar indicando, para alegria da equipe (e para seu ganho pessoal...) que Melanie Cavill está viva, tendo convertido um pequeno módulo de manutenção dos trilhos num pod de hibernação, atestando a sua engenhosidade. Resgatada, em poucos dias após se recuperar, ela vai a público denunciando a pouca confiabilidade do plano de Layton, causando um ‘racha’ no trem, o que Wilford esperava que fosse acontecer. 

 

A "visão" de Layton assume um tom visionário



Aqui vemos um paralelo entre os passageiros que após oito anos fechados naquele claustrofóbico trem e querendo voltar a sentir o ar livre, mesmo que correndo riscos, com as pessoas ansiosas pelo afrouxamento das normas de isolamento social da pandemia de COVID-19, e essa ânsia é até compreensível no caso dos fundistas, que como diz Layton sempre sofrem as perdas mais pesadas, tendo vivido na miséria e insalubridade nestes oito anos dentro daquela caixa de metal sobre trilhos.

Os maquinistas " Ravi" e Bennett Knox (Iddo Goldberg, sentado) avaliam os danos. A direção de arte mostra a gradual deterioração do trem decorrente do uso

 

Wilford faz uma aliança com Melanie, visando reaver o poder pelas suas costas, mas ela o conhece, e ao dialogar com Layton, ambos reconhecem que o confronto só destruirá os dois lados e numa grande virada a série mostra que a despeito do que se fala, a política uma ferramenta de solução de problemas, com cada lado aceitando regras e cedendo em ponto para ganhar em outro e vice-versa para todas as partes caminharem juntas. Uma escolha é feita e cada parte toma um rumo, havendo a possibilidade de um reencontro adiante, havendo depois um salto no tempo de três meses... 

 

Após prender Wilford, Layton e Pyke (Steven Ogg) entram em gradual oposição

  Carly (Esther Ming Li) e seu pai Sam Roche (Mike O´Malley) enfrentam uma tragédia cujo responsável é Wilford



A fotografia de Jaime Reynoso (O Método Kominsky) e Trig Singer (Megadream) seguem o bom trabalho dos seus predecessores, contrastando os tons cinzas e azulados das entranhas do Snowpiercer e do Big Alice, cujo aspecto frio, impessoal e inóspito reflete a divisão verticalizada de classes, adquirindo tons solares no episódio do delírio de Layton, acompanhado pela edição de Jay Prychidny (Altered Carbon) Erin Deck (Into the Badlands) e Nicholas Wong (The Expanse) mantém o ritmo e o tom narrativo na medida certa, acelerando nos momentos tensos como no confronto de Layton com Pyke ou na travessia da ponte em direção ao “Chifre da África”, que a trilha musical de The Haxan Cloak - Bobby Krlic (Midsommar: O Mal Não Espera a Noite) prossegue no seu tom atmosférico, incorporando os sons mecânicos na música, ora sublinhando, ora num crescendo nas horas mais explosivas. 

 

Ferido, Layton tem um sonho onde Sykes (Chelsea Harris) e Wilford são espiões. A direção de arte transforma o trem num cenário caribenho de espionagem



O desenho de produção de Stephen Geaghan (Outra Vida) segue expandindo o universo do interior do Snowpiercer, com novos elementos como o pequeno trem que manteve Melanie viva, e a direção de arte de Susan Parker (Take Two) e Ainsley Barteluk (Reel Women Seen) vai detalhando mostrando a deterioração gradativa do trem, que ainda consegue se transformar, como no delírio de Layton, que a decoração de sets de Roger Trory (Era Uma Vez) transforma num cenário de filme de espionagem de ares caribenhos, onde os figurinos de Caroline Cranstoun (Um Match Surpresa) brincam com os clichês, mantendo no resto da temporada, a palheta de cores dos trajes chiques e decadentes de Wilford, o tom vintage dos trajes de Audrey (refletindo o seu passado de atriz Burlesca), e os com os trajes padronizados, sóbrios, mas elegantes da Segunda Classe, os meramente funcionais da Terceira e dos soldados e, os fundistas com seus trapos de tons pretos, cinzas, terrosos e sujos mostrando o “seu lugar” no construto social. 

 

Os efeitos visuais continuam de alto nível criando belas e tristes cenas como a das pirâmides do Egito congeladas


Prosseguindo no trabalho de expandir esse gélido, rico e hostil universo narrativo, os efeitos visuais de Fuse FX, Method Studios, Zoic Studios, Torpedo Pictures, Mr. X, Image Engine Design Inc., supervisionados por Geoff D. E. Scott (Orphan Black) e Jamie Barty (The Orville) entregando belas e tristes cenas como o Egito e suas pirâmides congelados, ou plenas de dinamismo como quando Snowpiercer e o Big Alice se confrontam como numa batalha de navios piratas, ou o trem precisa atravessar uma nuvem vulcânica ácida e corrosiva. 

 

Retorno triunfal: Melanie Cavill havia convertido um trenzinho de manutenção de trilhos num módulo de sobrevivência, sendo resgatada pelo Snowpiercer

Discordando de Layton (?) Melanie faz uma aliança com Wilford, que esperava isso, mas Melanie tem seus planos também

 

Ao final, O Expresso do Amanhã termina com a grande mensagem de que por piores que as coisas possam ser, somente com a decisão política dos lados beligerantes, se chega a uma forma negociada que permitirá que ambos os lados sobrevivam. Mesmo que a série terminasse aqui, terminaria bem, em grande estilo, mas ela ainda abre caminho para a próxima temporada, já confirmada, que trará Clak Greg (Marvel´s agentes of S.H.I.E.LD.) além de outras dinâmicas que deverão trazer novos desafios a Layton, Melanie, e até mesmo a Wilford, que continua como uma carta que pode retornar ao baralho desse jogo...


Ao final rumos são traçados e destinos alcançados mas ainda não chegamos ao final de fato




Notas:

 

*1: Produzida pela TNT e aqui veiculada no streaming pela Netflix, a série teve várias dificuldades na primeira temporada oriunda da troca de showrunners, e de emissoras (originalmente pela TNT, foi para a TBS, retornando depois para a TNT), roteiros reescritos, novas direções entre outras coisas. 



*2: Que apresentava uma distopia com ótima alegoria sobre a luta de classes ao mostrar um mundo glacial, onde os remanescentes da espécie humana habitam um gigantesco trem em movimento contínuo numa volta ao mundo (num moto perpétuo) vivendo num sistema de castas em que os ricos têm ótimas acomodações, alimentação, e à medida que vamos descendo de classe social, o espaço, comida, etc... vão decaindo até chegarmos nos últimos vagões, onde os fundistas vivem como párias na fome, miséria e desesperança. 

 



*3: O “Chifre da África” (ou “Corno de África”) é a região também conhecida como Nordeste Africano e algumas vezes como Península Somali, é uma designação da região nordeste do continente africano, que compreende a Somália, a Etiópia, a Eritreia e o Djibouti. Tem uma área de aproximadamente 2 milhões de km² e uma população de cerca de 116 milhões de pessoas (Etiópia: 94,3 mi, Somália: 14,7 mi; Eritreia: 5 mi; Djibuti: 956 mil).



"Foi um prazer estar com vocês, brincar com vocês,mas agora é hora de dar tchau! Até a próxima temporada!!!"