Polícia do Tempo à Brasileira.

Qudrinhos através do espaço-tempo.

O Homem da Fronteira

Um homem e seu chapéu de guaxinim.

Um manto sobre o mundo.

Especial Homem-Morcego

Jornada em família.

A Família Robinson no Espaço.

Os primeiros Caça-Fantasmas

Trio de charme mambembe.

Mostrando postagens com marcador Angelina Jolie. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Angelina Jolie. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Honrando o legado de Jack Kirby - Crítica - Filmes: Eternos (2021)


Cósmico e sereno

por Alexandre César


Chloé Zhao se aventura com sucesso no UCM

 

Podemos considerar "Os Eternos" como  "O Velho Testamento do Universo Marvel"
 
 
Criado em 1976 por Jack Kirby, em sua segunda fase na Marvel Comics*1, e inspirado na premissa do livro “Eram os Deuses Astronautas?” de Erich von Däniken*2, Os Eternos, que originalmente apresentava o conflito de duas raças: Os poderosos Eternos e os brutais Deviantes, criações de uma raça de gigantes alienígenas inescrutáveis, os Celestiais, que também criaram os humanos, além das duas raças beligerantes. Esses seres, ao longo dos séculos, foram tomados pelos humanos primitivos como “deuses” (os Celestiais) e “demônios” (os Deviantes) e, manteriam essa guerra secreta, cuja intervenção nos bastidores da humanidade primordial (evitando interferir na sua evolução natural), acabaria por se tornar um elemento central da continuidade do Universo Marvel.
 
Origens: -"No princípio, eram os OVNIs..."

 
Dirigido por Chloé Zhao (Nomadland) Eternos (2021) se propõe a, dentro da “fórmula Marvel” (ou adaptando esta à suas necessidades narrativas), contar esta fábula de indivíduos únicos, que vivem no meio dos humanos comuns, se relacionando, mas nunca podendo se apegar de fato a eles, por conta de seu principal diferencial: A inevitabilidade do tempo, que consome à todos nós, mas não a eles, coisa marcada pela inclusão na abertura de “Time” do Pink Floyd (do icônico álbum “The Dark Side of the Moon”).

 
Amor sem fim... ?: Ikaris (Richard Madden) e Sersi (Gemma Chan) tem um "rolo" de mlhares de anos, mas ele "deu um tempo" há alguns séculos e voltou quando ela resolveu fazer "a fila andar"

 
O roteiro, escrito por Zhao, Patrick Burleigh (Pedro Coelho 2: O Fugitivo) , Ryan Firpo (Luckboxes) e Kaz Firpo (The Vigilante) a partir dos personagens criados por Jack Kirby (e posteriormente retrabalhados por Neil Gaiman e John Romita Jr.) mudando alguns elementos da história original dos quadrinhos (que poderiam ser considerados por alguns de cunho eugenista*3) e nos brinda com 10 superseres (e alguns mortais) como personagens principais (uns mais desenvolvidos do que outros) que já não se reúnem há quase 500 anos, tendo um ou outro se relacionando ocasionalmente, e que tem de se reunir novamente por conta da volta dos Deviantes, que eles julgavam extintos há séculos, e da eminência de um evento cataclísmico que se avizinha. 
 
 
Sprite (Lia McHugh) há mais de 7mil anos que é "a caçula da família", pois não cresce ou envelhece, o que a impede de ser a mulher que é por dentro

 
 
Apesar de citações aos eventos de Vingadores: Guerra Infinita e Vingadores: Ultimato, e à outros personagens é dada uma desculpa razoável para o fato desses indivíduos não terem interferido em episódios mais dramáticos da história humana.
 
 
A Direção de arte junto com os efeitos visuais reconstituem locais importantes para a história como o Portal de Ishtar na Babilônia, palco de um combate dos Eternos com os Deviantes

 
No filme, intercalando o momento atual, com flashbacks que vão mostrando momentos-chaves da trajetória dos Eternos na Terra, conhecemos Sersi (Gemma Chan de Capitã Marvel aqui despontando como protagonista) tem a habilidade de manipular matéria não senciente e, ao contrário de alguns dos Eternos, tem um verdadeiro amor e respeito pela humanidade, sendo inclusive viciada em redes sociais. Ela teve um relacionamento de milhares de anos com Ikaris (Richard Madden de 1917), um dos Eternos mais poderosos, que tem a habilidade de voar e disparar raios de luz de seus olhos. Eles se separaram há séculos mas agora ele retorna devido à volta dos Deviantes, ficando um “climão” estranho, pois Sersi, agora está se relacionando com o humano Dane Whitman (Kit Harrington de Game of Thrones em participação menor do que o esperado). Temos indicações do futuro do personagem no UCM*4
 
 
Celebridade: Kingo (Kumail Nanjiani), diferente dos outros Celestiais, é um astro de Bollywood, simulando sua passagem de bisavô para avô, para pai, para filho, etc... (não me pergunte como) tendo ótimos momentos cômicos

 
Juntos com Sprite (Lia McHugh de O Chalé) que pode parecer uma pré-adolescente, mas como os outros heróis, ela na verdade tem milhares de anos (tendo servido de inspiração para Peter Pan); Sersi e Ikaris partem para reunir o grupo disperso, que inclui Ajak (Salma Hayek de Frida) a líder sábia e espiritual dos Eternos, que também tem a habilidade de curar a si e aos outros; Kingo (Kumail Nanjiani de Silicon Valley) que é movido pela energia cósmica e, ao contrário da maioria dos Eternos que permaneceram escondidos, ele ganha a vida como uma estrela de Bollywood, sendo o alívio cômico do filme junto com Karun (Harish Patel de Maratona do Amor) seu mordomo que os acompanha fazendo um vlog. Logo eles encontram Gilgamesh (Ma Dong-seok de Invasão Zumbi) o extremamente poderoso e mais forte guerreiro dos Eternos, que protege aos seus com um caráter sólido e confiável, que está cuidando de Thena (a diva Angelina Jolie de Malévola: Dona do Mal) uma poderosa guerreira e, por isso, uma das mais importantes dos Eternos, que pode materializar armas do nada, tendo inspirado a deusa Athena, que está com um distúrbio de personalidade, precisando de cuidados.
 
 
Thena (Angelina Jolie) é a maior guerreira do grupo, tendo ótimas e elegantes cenas de luta

 
Finalizando o grupo, eles encontram Phastos (Brian Tyree Henry de As Viúvas) um inventor brilhante para a criação de armas e tecnologia; pai dedicado e primeiro herói gay do UCM, casado com Bem (Haaz Sleiman de Breaking Fast) com quem cria o garoto Jack (Esai Daniel Cross); Makkari (Lauren Ridloff de O Som do Silêncio) que é a primeira heroína surda (como a atriz) no UCM, que é uma personagem super-rápida e, Druig (Barry Keoghan de Dunkirk) inicialmente um Eterno indiferente e um pouco solitário, com a habilidade de manipular as mentes de outras pessoas, sendo aqui um personagem bem distinto de sua versão dos quadrinhos (que é bem sinistra e até vilanesca).
 
 
A velocista Makkari (Lauren Ridloff) é a primeira heroína muda do UCM

 
Algo que salta aos olhos é seu elenco diverso e representativo, com representantes asiáticos, negros e latinos, com mudanças de gênero e a inclusão de elementos, outrora considerados “deficientes”*5; além de divertidas menções a heróis da DC Comics, o que é uma coisa coerente, pois se um dos pontos do argumento do filme são as várias mitologias humanas, é válido que exista aqui a mitologia dos quadrinhos, e que no Universo Cinematográfico Marvel a “distinta concorrência” seja apenas uma editora de quadrinhos, pois alguns dos Eternos lembram arquétipos de membros da Liga da Justiça, pois Ikaris seria o “Superman” do grupo, Thena, a guerreira feroz, seria a “Mulher-Maravilha”, e a veloz Makkari, seria a “Flash” da equipe e por aí vai... tendo como ponto chave os figurinos de Sammy Sheldon (Jurassic World: Reino Ameaçado) que reimagina o look extravagante de Jack Kirby, tendo cada personagem uma palheta de cores individual, que os define de forma a não se poder confundir um com outro.
 
 
Bons modos à mesa: Sersi, Sprite, e Ikaris visitam o carismático Gilgamesh (Ma Dong-seok), que cuida de Thena, além de ser ótimo cozinheiro, o que Kingo, e seu mordomo Karun (Harish Patel), sabem apreciar

 
A música de Ramin Djawadi (Game of Thrones) sublinha de forma sutil a ação e a subjetividade de seus personagens, seus anseios e pontos de virada eficientemente, ainda que não seja inesquecível, intercalando hits como “Friends” do BTS e “Juice” na voz de Lizzo, sendo bem associada à fotografia de Bem Davis (Capitã Marvel) que capta a beleza e a atmosfera das locações nas Ilhas Canárias, com muitas cenas de por de sol (assinatura de Zhao), dialogando com a edição de Dylan Tichenor (Sangue Negro) e Craig Wood (Homem-Formiga e a Vespa) que dá o tempo necessário para que os personagens se construam e possamos nos relacionar com eles, seja nos momentos mais contemplativos, que se intercalam com os momentos de ação, com os cortes necessários para dinamizar a narrativa mas, sem apelar em picotar a cena.
 
 
A fotografia, aliada aos efeitos visuais propiciam momentos belíssimos de magia narrativa

 
O ponto de virada vem da real natureza dos experimentos dos Celestiais (que revelam dimensões lovecraftianas), quando alianças se desfazem e por mágoas individuais, rachando o grupo, mas graças à direção de atores e seu elenco afiado, acabamos tendo antagonistas, mas não realmente vilões, nos permitindo entender os seus pontos de vista e entender as suas escolhas.
 
 
"É um pássaro? É um avião?" a analogia que o roteiro faz entre a natureza mitológica e os quadrinhos da rival DC Comics é um achado

 
Agora um ponto falho do filme é o pouco desenvolvimento dos Deviantes (um ponto crônico na Marvel, desenvolvendo pouco seus vilões) aqui basicamente predadores irracionais, cujo único que revela algum raciocínio seria Kro, mas quando este começa a se tornar de fato um personagem, é removido da trama, inclusive quando se esboça o arco que compartilha nos quadrinhos com Thena*6.
 
 
Ciclópicos: Os Celestiais são imponentes, poderiam ter mais tempo de cena

 
O desenho de produção de Eve Stewart (A Garota Dinamarquesa) e Clint Wallace (Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis), junto com a direção de arte de Matthew Gray (Alexandria), Patrick Harris (Artemis Fowl: O Mundo Secreto), Oliver Hodge (Missão Impossível – Efeito Fallout), Aja Kai Rowley (Westworld), Jonathan Marin Socas (Fundação); Tom Weaving (Han Solo: Uma História Star Wars), Susannah Brough (Millennium: A Garota da Teia de Aranha) e Todd Ellis (The Witcher), aliada à decoração de sets de Pancho Chamorro (Postais Mortíferos), Michael Standish (A Garota Dinamarquesa) e Megan Jones (Cats) recriam ambientes históricos como o Portal de Ishtar na Babilônia, ou as ruínas de Hiroshima, graças à colaboração dos efeitos visuais de Industrial Light & Magic (ILM),Luma Pictures, Monsters Aliens Robots Zombies, RISE Visual Effects Studios, Scanline VFX, Stereo D, Weta Digital, supervisionados por Stephane Ceretti (Vingadores: Ultimato), Evrim Akyilmaz (Viúva Negra), Daniele Bigi (Jogador N°1), Mathieu Vig (Gravidade), que usam soluções gráficas elegantes para representar as manifestações dos poderes dos Eternos, entre eles, a Unimente, quando eles se tornam como que um único indivíduo, além da impactante presença dos Celestiais, cujo tamanho colossal reflete a noção de grandiosidade opressiva do universo face a insignificância humana.
 
 
Decepção: Os Deviantes são o ponto fraco do filme, inclusive quando se esboça o arco entre Kro e Thena, o personagem sai de cena


Ao final, Eternos se revela um filme desigual, mas com personalidade, que deverá dividir o público entre aqueles que preferiam algo mais próximo da “Fórmula Marvel” e os que abraçaram a tentativa de se ampliar este paradigma. Embora não tenha totalmente alcançado o seu potencial, ainda sim, se mostra bem acima da média do senso comum, ampliando as possibilidades do que seria “contar uma história de super-heróis”
 
Obs: O filme apresenta duas cenas pós-créditos, ampliando o lado cósmico do Universo Cinematográfico Marvel.

 

Um elenco vasto, diverso e inclusivo, que dividirá opiniões

 

 

Notas:
 
 
O Rei dos Quadrinhos Jack Kirby
 
*1: Jacob Kurtzberg, mais conhecido como Jack Kirby, (28/ 08/ 1917 – 06/ 02/ 1994) foi um dos maiores criadores, junto com Stan Lee, do Universo Marvel , saindo em 1970, desiludido por não ter o reconhecimento adequado de seu trabalho (profissional e financeiramente) para trabalhar para a rival DC Comics. Após vários dissabores, retornou em 1975 de volta à Marvel, escrevendo e desenhando a série mensal Capitão América, bem como o one-shot Captain America's Bicentennial Battle em formato treasury. Ele criou a série Os Eternos; uma adaptação e expansão do filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, que na edição 8, trouxe o personagem Homem-Máquina, um robô humanoide dotado de consciência, bem como uma tentativa fra-cassada de fazer o mesmo para a série de televisão clássica The Prisoner. Ele escreveu e desenhou Pantera Negra e desenhou numerosas capas através da linha e em abril de 1978, lançou Devil Dinosaur, a série narra as aventuras em tempos pré-históricos de um jovem antropóide montando um tiranossauro vermelho com quem fez amizade. A última colaboração de quadrinhos de Kirby com Stan Lee, The Silver Surfer: The Ultimate Cosmic Experience, foi publicada em 1978 como parte da série Marvel Fireside Books e é conside-rada a primeira Graphic Novel da Marvel
 
Fonte Wikipédia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Jack_Kirby)
 
 
 
O clássico das pseudo-teorias ufológicas

*2: “Eram os Deuses Astronautas?” (Erinnerungen an die Zukunft) é um livro escrito em 1968 pelo suíço Erich von Däniken, em que o autor teoriza a possibilidade das antigas civilizações terrestres serem resultados de alienígenas (ou astronautas) que para as épocas relatadas teriam se deslocado, apresentando como provas ligações entre as colossais pirâmides egípcias e incas, as quilométricas linhas de Nazca, os misteriosos moais da Ilha de Páscoa, entre outros grandes mistérios arquitetônicos. Ele também cria uma teoria de cruzamentos entre os "extraterrestres" e espécies primatas, gerando a espécie humana, sendo considerados divindades pelos antigos povos (daí vem a explicação do título do livro). Naturalmente, levando o pensamento há 1000 ou 2000 anos atrás, é impossível definir um objeto voador com 30 metros de comprimento - que hoje chamamos de avião ou ônibus espacial - portanto correlações próximas à realidade da época foram feitas: "Deus", "Anúbis", "Itzmná" ou "Salvador". 
 
Fonte: Wikipédia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Eram_os_Deuses_Astronautas%3F)
 
 
 
Capa de "Eternals" nº 1 de 1976
 
*3: Nos quadrinhos os Eternos têm um número fixo pois não são capazes de se reproduzir, ao contrário dos Deviantes, que certa vez se tornaram numericamente hegemônicos, sendo exterminados pelos Celestiais, que quase os extinguiram. Na versão cinematográfica, os humanos não são produto das experiências dos Celestiais, e os Eternos são alienígenas imortais de um planeta chamado Olympia – que foram solicitados pelos Celestiais para livrar a Terra dos Deviantes, que aqui são alienígenas parasitas que vão de planeta em planeta e, conforme matam os predadores, tomando as suas características e exterminando a vida inteligente destes mundos.
 
 
Kit Harrington como Dane Whitman, o Cavaleiro Negro

*4: Nas HQs, Dane Whitman é o herói conhecido como Cavaleiro Negro, sendo sobrinho do vilão Nathan Garrett, o Cavaleiro Negro original. Dane foi chamado por seu tio quando ele foi mortalmente ferido na sequência de uma batalha com o Homem de Ferro. Com suas últimas palavras, o tio confessou a sua vida de crimes, e Dane na tentativa de restaurar a honra de seu legado tornou-se o Cavaleiro Negro, empunhando a Espada de Ébano de seus ancestrais. Ao longo de sua trajetória, integrou entre outras equipes os Vingadores, os Defensores e Excalibur.
 
 
Do alto para baixo: Ajak, Makkari e Kingo
,

*5: Ajak, na história original é um personagem masculino, aqui é uma mulher (Salma Hayek), sendo a líder do grupo; Makkari é também  no original, um homem branco, sendo vivido pela atriz surda-muda Lauren Ridloff.Kingo, originalmente japonês, aqui é indiano (Kumail Nanjiani),
 

Kro e Thena trocaram tapas e beijos, ao longo dos séculos
 
 
*6: Nas HQs, nascida na cidade grega Olympia, Thena recebeu o nome de Azura. Contudo, seu pai, Zuras, exigiu por decreto real que seu nome fosse trocado para Thena. Dessa forma, ele se assemelharia ao nome da filha de Zeus, Athena, sendo esta medida tomada como forma de selar o acordo entre os deuses olimpianos com os Eternos, que passaram a atuar como os deuses representantes na Terra e Thena se tornou, então, a representante pessoal de Athena (deusa da sabedoria na mitologia grega) e a líder dos Eternos na Terra, e embora criada como uma estudiosa e uma guerreira, sua vida tomaria um novo rumo, após conhecer Kro, o líder dos Deviantes (e um dos primeiros a ser criados pelos celestiais). Kro é imortal com a capacidade de alterar sua forma. Considerado um vilão, ele chegou a atuar como o Diabo, tentando influenciar e apavorar humanos. Mas a sua sede por maldades, começou a mudar ao conhecer Thena, pois embora tenha tido a oportunidade de matá-la, coisa que ele não fêz, e acabou se aproximando da guerreira Eterna, chegando a exercer controle mental sobre ela. Posteriormente, a guerreira se une novamente ao Eternos para combater o Deviante. Ao longo dos milênios, os dois tiveram um relacionamento (que Kro escondeu dos outros Deviantes) cheio de idas e vindas, resultando durante a Guerra do Vietnam na gravidez da guerreira, que gerou dois filhos (Donald e Débora) e para proteger seus filhos da guerra entre Eternos e Deviantes, ela usou seus poderes para implantar os próprios embriões em uma mulher infértil, que os criou sem saber de sua origem. Kro e Thena em vários momentos se uniram para proteger seus filhos.
 
 


 

- "Esyávamos aqui desde o início, e estaremos provavelmente também no fim. Mas enquanto o fim não chega, aproveitemos mais esse lindo dia de sol..."


terça-feira, 15 de outubro de 2019

O retorno da bela de chifres - Crítica - Filmes: Malévola: Dona do Mal (2019)

Flertando com Game of Thrones...

 

por Alexandre César 

(Originalmente postado em 17/ 10/ 2019)


 Angelina Jolie e Michelle Pfeifer em duelo de divas


O primeiro filme de 2014 provou que uma mulher de chifres pode (e muito!) ser linda e cativante!!!

 
Nestes tempos de luta violenta por reafirmar as suas propriedades intelectuais em franquias lucrativas a Disney tem se deparado com as seguintes alternativas: Refilmar os seus clássicos mais populares da animação, muitas vezes sacrificando a expressividade da animação em função do uso de atores conhecidos encarnando seus personagens e de um fotorrealismo via CGI e captura de movimentos que, dependendo das forças criativas no roteiro e direção produziram resultados bem diversos fosse pelo mergulho no conceito clássico original (Cinderela de 2015 de Kenneth Branagh) fosse pela mera submissão à`tecnologia (O Rei Leão de 2019 de Jon Favreau), ou então, procurar criar uma linha narrativa distinta, como se fosse passado num universo paralelo ao dos clássicos da animação (como os elseworlds dos quadrinhos da Marvel e DC) subvertendo os cânones para olhar a trama sobre uma nova ótica, pautada em valores e problematizações mais contemporâneos, muitas vezes para horror dos mais puristas. Dentro desta linha posicionam-se Alice no País das Maravilhas (2010) de Tim Burton e Malévola (2014) de Robert Stromberg.


Passados 5 anos, a filhinha vai virando mulher, para o desespero da "mãe" (Angelina Jolie)

 
Fruto da roteirista Linda Woolverton (que roteirizou Alice, A Bela e a Fera, e O Rei Leão original) que reinterpretou a históra da “feiticeira má, muito má, muito má” que enfeitiçou “a linda rosa juvenil” (como dizia a musiquinha de roda da nossa infância caros velhos nerds...) tirando o peso do nome da protagonista como determinante de seu caráter*1, ficando este apenas por sua sonoridade, como se fosse um nome como outro qualquer e aliando de forma sutil a questão da pauta feminista às relações da cultura cristã e patriarcal que reescreve as narrativas, se apropriando de temas de origem pagã, determinando quem é bom ou mal de acordo com suas necessidades.


A bela Rainha Ingrith (Michelle Pfeifer) mãe de Felipe (Harris Dickinson) que ficaria mais à vontade em Westeros

 
Em que pese uma série de falhas estruturais do roteiro, a sua espetacular direção de arte, figurino e ótimos valores de produção caíram no gosto popular graças sobretudo ao carisma de sua protagonista , Angelina Jolie e a sua entrega ao papel que mostraram a toda uma geração de meninas que uma mulher, se for confiante de seu valor, pode seguir o seu caminho superando problemas como violência, o estupro e outros impedimentos colocados em seu caminho, sem ter de se sujeitar à vontade de um homem (a cena em que Stefan corta as suas asas, após lhe dar um boa noite cinderela” é uma ótima alegoria não só do estupro, como da mutilação genital praticada em muitos países islâmicos) e seguir em frente não tendo vergonha dos seus chifres, que aqui se tornaram um símbolo do seu orgulho e beleza. Parte da crítica e do público fundamentalista detestou, mas o sucesso, e seus U$ 758,5 milhões de bilheteria regaram a semente e era só uma questão de tempo até encontrarem uma forma de fazer a continuação de uma história que parecia fechada... ou não?


Aurora (Elle Fanning), Malévola e Diávolo (Sam Riley): Os representantes de Mohrs

 
 Dirigido por Joachim Rønning (Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar de 2017 e Expedição Kon Tiki de 2012, ambos com Espen Sandberg) Malévola: Dona do Mal (2019) traz novamente Angelina Jolie, cada vez mais diva e segura de si, ao papel que consagrou e cuja beleza para lá de exótica a toda uma legião conquistou, colocando a anti-heroína face a questões pontuais como a imposição da submissão da mulher à sociedade, o avanço do reacionarismo, a intolerância a até, as fake news que espalham o medo entre os povos, dividindo-os para depois, conquistá-los. É claro que como é um blockbuster da Disney não devemos esperar algo demasiadamente profundo e impactante, mas que a alegoria está lá, olha com atenção espectador, que está...



Como diz o título de um filme clássico: "Adivinhe quem vem para jantar?"

 
No roteiro de Woolverton (reescrito por Jez Butterworth em colaboração com Micah Fitzerman-Blue e Noah Harpster) já se passaram cindo anos, e a lenda da Bela Adormecida se espalhou por todos os reinos e para surpresa de Malévola, apesar de sua redenção pessoal, ela continua a ser retratada como uma bruxa maligna, indigna de simpatia. Neste contexto, a Princesa Aurora (Elle Fanning, fofa e cativante) regente do reino mágico de Mohrs é pedida em casamento pelo Príncipe Felipe (Harris Dickinson, substituindo Brenton Thwaites) e... finalmente ela aceita, para preocupação da super-protetora madrinha, por ainda não confiar plenamente nos humanos. Os regentes do reino vizinho, pais do noivo são o bonachão gente boa Rei John (Robert Lindsay) e a bela e ambiciosa Rainha Ingrith (Michelle Pfeifer, ótima no “modo Cersei Lannister de Game of Thrones) que rancorosa por confrontos passados de sua dinastia com Malévola, não vê a hora de por as mãos nas terras e recursos de Mohrs, depois é claro, de se livrar de todos as fadas e aqueles outros seres elementais incômodos, os “povos da floresta”... Familiar não???


O "tempo fecha" paraa a Senhora de Mohrs, graças às maquinações da Rainha

 
Auxiliada pelo fiel escudeiro Diávolo (Sam Riley) Malévola tenta polir seu trato social para causar um boa impressão na corte do noivo. Durante o jantar de apresentação, fica evidente o conflito iminente entre as duas casas, refletidos nos impecáveis trajes, atestando aqui a competência da figurinista Ellen Mirojnick (O Rei do Show, Minha Vida com Liberace, Tropas Estelares) que captam o luxo e ostentação com um toque demodê da nobreza, em contraste com a elegância sóbria e despojada dos povos mágicos. Apesar de seu esforço “diplomático” (de não “cair matando”...) tudo dá errado, colocando Malévola contra Aurora, e incriminando-a em um atentado para logo em seguida ser ferida em fuga, e depois ser resgatada inconsciente e levada a descobrir o santuário do seu povo, que há muito ela julgava perdido.
 


As aparências enganam: Conall (Chiwetel Ejiofor) o pacífico líder do povo alado, de onde Malévola se origina

 
Surge aqui uma interessantíssima adição à mitologia da personagem, que esperamos ser futuramente mais expandida: Os auto intitulados “Filhos das Trevas”, liderados pelo pacífico Conall (Chiwetel Ejiofor de O Rei Leão e Doutor Estranho) se constituem uma união de seres alados de várias partes do mundo, com grande diversidade racial nos traços, cor de pele, olhos, cabelos e formatos de chifres, que foram se afastando à medida que os reinos dos homens cresciam e se expandiam, sendo descendentes de um ser mítico chamado “Ave Fênix” (Bom, agora a Marvel é Disney não?!) da qual, por seus poderes de transmutação, Malévola é a descendente direta. Aqui devemos ressaltar a incrível trabalho do Design de Produção de Patrick Tatopoulos (Liga da Justiça, Eu, Robô, Cidade das Sombras) e da equipe de direção de arte e de caracterização dos personagens, bastante similares em termos de estrutura social aos Navihs de Avatar (2009) de James Cameron, e também tendo um quê”de O Paraíso Perdido de John Milton, pois estes seres alados tem o seu refúgio numa grande caverna subterrânea, parecendo uma reinterpretação do conceito de “anjos caídos” (os neopentecostais vão “adorar”...) temperados com um toque de ”United Colors of Bennethon”. Inclusão é pauta de ordem.
 


O guarda-roupas real é uma boa analogia aos "bons modos" que escondem atos e interesses escusos

 
 Aurora é acolhida pela futura sogra, e vai se submetendo às imposições dela para se tornar uma “bela e recatada do lar” até chegar o ponto de descobrir as maquinações da Rainha, cuja corrida armamentista e a campanha de caluniar a reputação de Malévola tem como objetivo a expansão territorial e dominar do reino de Mohrs, com direito inclusive a uma paródia (mais branda é claro...) do ”casamento vermelho” de Game of Thrones.
 


feminilidade tóxica: em contraste com a relação Malévola-Aurora, a Rainha Ingrith e Gerda (Jenn Murray) representam o lado negro das alianças femininas

 
Obviamente Malévola recupera sua força e há uma grande batalha entre os homens e sua tecnologia bélica e os “Seres das Trevas” alados e, tendo ao final a vitória das forças da justiça e do entendimento, culminando no casamento do príncipe e da princesa e, na fusão dos reinos estabelecendo a convivência pacífica dos povos (e você duvidava de que isso não fosse acontecer, não?).
 


Tal qual Felipe, O seu pai Rei John (Robert Lindsay) mostra um modelo de masculinidade mais acolhedora e amorosa

 
Os personagens falam e fazem o que o roteiro pede de forma básica, sendo assim, Felipe é o príncipe galante de boa índole numa mostra de masculinidade gentil, Diávolo, que agora tem menos espaço em cena do que no filme anterior continua sendo o equivalente ao amigo gay da heroína, caso estivéssemos diante de uma comédia de Julia Roberts ou Sandra Bullock, da mesma forma que o trio das fadas atrapalhadas Flittle (Lesley Manville), Thistlewit (Juno Temple) e Knotgrass (Imelda Stauton) são meros alívios cômicos, o Rei John é um regente amoroso que contrasta com a sua ambiciosa esposa (o que nos leva a questionar a sua competência por não notar as intrigas da Rainha correndo enbaixo de seu nariz...), embora outros deixem interrogações no ar como Gerda (Jenn Murray) a fiel escudeira da rainha, cujo visual um tanto andrógino remete à jovem Tilda Swinton em Orlando, A Mulher Imortal(1992) de Sally Potter ou Borra (Ed Skrein de Alita: Anjo de Combate e Deadpool) o impetuoso guerreiro alado com toques de William Wallace de Coração Valente (1995) de Mel Gibson cujas trocadas rápidas de olhar sugerem que futuramente, caso haja um terceiro filme, poderá haver match para Malévola, a solitária Senhora de Morhs.
 

Os "Seres das Trevas" são uma ótima adição à mitologia da história, pedindo um maior desenvolvimento futuro

 
A música de Geoff Zanelli (Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar) embala a trama eficientemente, e a fotografia de Henry Brahan (Guardiões da Galáxia Vol. 2, A Lenda de Tarzan) valoriza em belos closes a beleza de suas atrizes e os seus incríveis ambientes, aliada à edição de Laura Jennings (No Limite do Amanhã, 007 – Operação Skyfall) e Craig Wood (Homem-Formiga e a Vespa, A Grande Muralha) acertam o ritmo das cenas de ação eficientemente, aliados aos efeitos visuais da Moving Picture Conpany e da Mill Film que mostram bem a diferença de combate entre um povo avançado em tecnologia bélica e estratégia e de um que guerreia de forma instintiva, ainda que com maior força física e capacidade de vôo.
 

A Rainha vai a guerra com tudo!!!

Ao final, entre erros e acertos podemos afirmar sem sombra de dúvida, nestes tempos de personagens femininas fortes e de universos de super-heróis a seguinte frase:

Malévola, no auge da luta mostra porque é descendente da "Ave Fênix"...

- A Marvel têm a Viúva negra, a Vespa, a Capitã Marvel e a Feiticeira Escarlate (entre muitas outras...), A DC têm a Mulher-Maravilha, a Supergirl, a Batgirl, a Zatanna e a Mulher-Gato (entre muitas outras também...) e a Disney

- Ah! A Disney tem a Malévola, e está de bom tamanho!!!”

Ao final, só amor entre mãe e filha é o que conta...


"- Nos vemos em breve na sequência meus súditos!!!"

Notas:

*1: Malévola: Feminino de malévolo (Que possui uma péssima índole; que é mau; malvado. Que causa o mal a alguém; que tende a ser pernicioso;...) . O mesmo que: maia, perversa, malvada, maldosa, maléfica, malfazeja, maliciosa. Que possui... adj. (do dicionário online de Português)