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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

E o "Estilo Marvel" encontra o cinema chinês - Crítica - Filmes: Shang-Chi e a Lenda dos Dez anéis (2021)

 

Ação, ritmo e narrativa

por Carlos Vinicius Marins


Marvel joga com todas as armas para conquistar o mercado chinês 

 

#Oscar 2022

A Disney tem uma antiga obsessão de conquistar o lucrativo mercado asiático de entretenimento. Principalmente a China. O país de maior população do mundo pode, sozinho, garantir o sucesso de qualquer produto se este cair em suas  graças e não tiver implicância de seu governo. A empresa já produziu algumas tentativas fracassadas (que até foram sucesso em outras partes do mundo), mas agora parece que a coisa vai. Chegou aos cinemas de todo mundo o mais novo filme do Universo Cinematográfico Marvel (UCM): Shang-Chi e a Lenda dos 10 Anéis.  
 
 
A nova aposta da Marvel: Agora a coisa é séria
 
 
O filme nos trás as aventuras e os conflitos de Shang-Chi (Simu Liu, de The Expanse), jovem chinês treinado desde a infância para ser um assassino letal e assim tornar-se perfeito para substituir seu pai, Xu Wenwu (Tony Leung, de Amor à Flor da Pele, O Grande Mestre), um criminoso tão milenar como sua própria organização, chamada de Os Dez Anéis, mencionada pela primeira vez em Homem de Ferro (2008),o primeiro filme do UCM. Ele, porém, foge de seu destino e migra clandestinamente para os Estados Unidos, onde procura levar uma vida pacata de manobrista de carros ao lado de sua melhor amiga, Katy (Awkwafina, de A Despedida). Mas o destino vai ao seu encontro, levando-o a confrontar seu passado e a conturbada relação com seu pai.  

 

 Romance Chinês: Katy (Awkwafina) e Shang-Chi (Simu Liu) são mais parceiros do que namorados no sentido convencional


 
 
Dirigido e co-roteirizado por Destin Daniel Cretton (Luta Por Justiça), um premiado cineasta de ascendência asiática, o longa-metragem foi pensado em ser uma mescla dos típicos filmes de super-herói da Marvel com vários elementos da cultura chinesa - tanto a popular quanto a tradicional -, procurando ter o máximo respeito por elas. Os elementos ligados a artes marciais, por exemplo, evocam tanto os filmes épicos com confrontos de exércitos na China antiga (chamados de Wuxia), como os que popularizaram o gênero no mundo todo a partir dos anos 70, que se passam na atualidade. Também temos referências ao outro gênero consagrado do cinema chinês: os filmes policiais, com seu ritmo frenético e típica coreografia nas brigas.  

Os dez anéis: artefatos com poder para conquistar o mundo 
 

Em relação a tradição, temos presentes: a cidade mística perdida, o mal primordial que devemos impedir que retorne e criaturas lendárias, como o dragão e as raposas de sete caudas. Outros cuidados foram o fato de boa parte do filme ser falado em mandarim, a língua oficial da China, e a escolha para papéis importantes de atores chineses consagrados - como os premiados Tony Leung e Michele Yeoh (O Tigre e o Dragão e Star Trek: Discovery). Mais um detalhe importante: o romance no filme não inclui beijos quentes e é demonstrado mais pelo carinho e pelos olhares dos casais, refletindo o pudor das produções do cinema chinês.  

Fúria de Titãs?: não espere muito da briga de Wong (Benedict  Wong) com o Abominável

Como é dito sobre Shang-Chi em uma passagem do filme por sua tia, Jiang Nen (Michelle Yeoh), “você é um produto de tudo que veio antes de você”. O filme é a prova disso. Ele não trás nada de absolutamente novo - tudo que está ali você já viu (ou poderia ver) em produções do cinema chinês -, mas é apresentado aqui numa excelente roupagem: é bem dirigido, tem um roteiro coeso e equilibrado no que se esperar de uma produção chinesa e da Marvel, possui ótimos efeitos especiais e competentes atuações. Há, porém, ressalvas. Os fãs de filmes de ação ficarão sonolentos na segunda parte do filme, que se estende mais em discutir as relações dos personagens. Recheados de plot twists, alguns deles precisariam ser trabalhados para tornarem-se convincentes. O mais difícil deles de engolir envolve o vilão Wenwu, que deveria estar tomado muito pela loucura para ser verossímil. E, para quem viu os trailers e acompanha de perto o UCM, não espere muito do tão falado confronto entre o Abominável e Wong (Benedict Wong de Vingadores: Guerra Infinita), o parceiro do Dr. Estranho. 

 

E eis ele! Fu Man...Wenwu!!! (Tony Leung): ele quer o filho do seu lado no Império

A escolha de Shang-Chi para protagonizar um filme que alcançasse o público chinês foi perfeita. Mas algumas grandes concessões ao material original dos quadrinhos da Marvel precisaram ser feitas para isso acontecer. Surgido nos anos 70 do século passado no rastro dos filmes marciais de Hong Kong popularizados no Ocidente pelo astro Bruce Lee, Shang-Chi, chamado então de o Mestre do Kung Fu foi um produto totalmente original da editora. Para seu background, a editora adquiriu os direitos dos livros de Fu Manchu, um personagem protagonista de diversos livros do inglês Sax Rohmer, que fora muito popular no passado, quando foi adaptado inúmeras vezes para cinema, TV, teatro e quadrinhos.  

Shang-Chi nas páginas das revistas da Marvel

Se tivessem tido mais cuidado ao escolher o material em que se basear seu personagem, a Marvel provavelmente não teria escolhido Fu Manchu. O personagem tinha um viés claramente racista, se apresentando como uma visão estereotipada dos orientais em seu visual, sua indumentária e na sua personalidade. Ele foi um elemento importante para difundir a ideia do “perigo chinês”, com sua fixação em dominação mundial, pretensa superioridade da China em relação aos outros povos e na ideia de que os orientais são maus por definição. Após um longo período, a Marvel não renovou a concessão que tinha dos direitos da obra de Sax Rohmer, eliminando as referências ao material em suas HQs e reduzindo vários dos elementos estereotipados e racistas que haviam nas histórias. Shang-Chi deixou de ter revista própria e passou a aparecer apenas como convidado em outras publicações, chegando pnclusive a ter uma passagem como integrante dos Vingadores

"A Máscara de Fu Manchu", 1932: personagem era interpretado por Boris Karloff


Assim como Shang-Chi, seu pai mudou o visual, fugindo de estereótipos. Além disso,  trocou de nome - passou a se chamar Zheng Zu. Com a desculpa de que ele foi conhecido por muitos nomes desde a antiguidade (o personagem tinha o dom de viver bem mais que os comuns mortais), ele passou a usar um novo nome e o antigo nunca mais foi mencionado. 


Mas as concessões feitas para adaptar Shang-Chi ao cinema, não são referentes a isso. Como dito, estas mudanças já o ocorreram nos quadrinhos. Os fãs das antigas devem ficar possessos pelo personagem agora lidar com super artefatos - ele era conhecido nos bons tempos como uma arma viva, que dependia quase sempre apenas de sua agilidade, força e treinamento para vencer o inimigo (ok, ele já tinha ganho superpoderes mais recentemente nos quadrinhos, mas diga isso para os fãs das antigas...). Além disso, no cinema ele nunca lidou com o serviço secreto inglês ou com espionagem internacional (deixemos isso para James Bond...). Eu sou fã das antigas, mas não desgosto com concessões feitas pela Marvel para adaptar seus personagens para o cinema. Basta ver as excelentes escolhas do estúdio para as adaptações de Homem de Ferro e Guardiões da Galáxia, por exemplo.  


Shang-Chi: agora com lasers

E, apesar do filme poder ser apreciado por quem não acompanha os filmes da Marvel, ele é um ótimo acréscimo ao UCM. Há alguns easter eggs no decorrer do longa demonstrando que o filme se passa no UCM e as cenas pós-créditos (são duas) preparam o terreno para associar ainda mais os elementos presentes neste filme com o que vai rolar nessa Fase 4 do estúdio. Como um dos questionamentos não respondidos, eu deixo uma dúvida: porque os artefatos usados por Wenwu são chamados de “anéis” que de tão grandes são usados como pulseiras?  



 

Resenha: O Mestre do Kung Fu e Eu




 O Mestre do Kung Fu e Eu 


por Carlos Vinícius Marins


 De como a moda passageira dos filmes de Kung Fu criou um marco longevo nos quadrinhos


E a Marvel nos surpreende de novo com a produção de mais um filme que os leitores e fãs das antigas acreditavam que só existiria nos reinos de suas imaginações. Estreia no dia 02 de setembro o primeiro filme do Universo Cinematográfico Marvel (UCM) protagonizado por um personagem asiático: Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis

 


É óbvio o motivo do investimento da Disney, atual detentora da Editora Marvel e seus personagens. O mercado chinês é o o mais rentável atualmente para as produções de Hollywood. Isso já era verdade há algum tempo, com o público de boa parte do mundo deixando de ir ao cinema para ver filmes na comodidade de casa, devido ao crescimento dos serviços de streaming - tanto na quantidade de opções de operadoras como no número de filmes lançados por mês. Mas a tendência piorou com a chegada da pandemia de Covid-19. Depois do longo período de quarentena em boa parte do mundo, a China foi um dos primeiros países a abrir suas salas de cinema. Seu imenso público estava ávido por entretenimento. E que forma melhor da Disney cativar esse público do que oferecer um filme dentro do UCM protagonizado por um personagem nativo daquele país e levando em conta, com respeito, a sua cultura? A Marvel tinha um grande personagem para esse papel: Shang-Chi. Só que ele tinha alguns problemas que precisavam ser contornados. Falamos sobre isso na nossa crítica do filme, que você pode ver aqui. Neste texto vamos responder a uma pergunta: quem é esse personagem, antigamente conhecido como o Mestre do Kung Fu, que é desconhecido da grande maioria dos que irão assistir seu primeiro filme? 


Bom, não me encaixo na maioria do público. Mas, mesmo entre os fãs das antigas, eu faço parte de uma minoria ainda maior: aqueles que leram suas histórias na época em que foram lançadas pela primeira vez no Brasil, pela lendária Editora Brasil-América Ltda. (EBAL).


Estávamos em 1974, quando os filmes de artes marciais estavam no ápice do sucesso. Bruce Lee, seu grande divulgador, havia morrido no ano anterior, após o lançamento daquele que seria seu maior filme: Operação Dragão, de Robert Clouse. Com isso, aquele que levou a fama de maior lutador de todos os tempos seguiu os mesmos passos de James Dean e tornou-se um mito - talvez maior do que ele poderia ter sido se continuasse vivo e fazendo mais filmes. Nunca saberemos. 


Bruce Lee: a lenda. Shang-Chi teve suas feições em boa parte das suas HQs

Com novos fãs do gênero em busca de novidades, alguns atores tentaram preencher o vácuo deixado por Bruce - Sonny Chiba, Jim Kelly... - e os antigos filmes feitos em Hong Kong estrelados por ele ganharam destaque nas TVs e nos cinemas do ocidente. Na TV também havia a série Kung Fu, cujo conceito inicial muitos afirmam ter sido criado pelo próprio Bruce Lee e não ter sido estrelado por ele por motivos diferentes, dependendo de quem conta a história. Uma das razões seria o fato da Warner, produtora da série, ter receio de ser criticada pelo público médio norte-americano por lançar um programa em que um chinês era o herói, mais forte, inteligente e honesto que os norte-americanos que ele enfrentaria (puro racismo e preconceito). Outro motivo para Lee ter abandonado o projeto seria para se dedicar ao cinema em Hong Kong após o sucesso devastador nos cinemas norte-americanos do filme que ele protagonizara na China - A Fúria do Dragão (1972, de Lo Wei). 


A série foi um grande sucesso por todo o mundo, inclusive no Brasil. Querendo navegar naquela onda, surgiu na Marvel  a ideia de fazer uma adaptação do programa para os quadrinhos. Só que o seriado era produzido pela Warner, empresa que também era dona da maior concorrente da Marvel: a DC Comics. Claro que não houve negócio. A Marvel então buscou um caminho alternativo: negociou os diretos de adaptação de parte significativa da obra literária de Sax Rohmer, um escritor inglês de grande sucesso nos anos 20. O interesse da Marvel estava nos livros de Rohmer em que o vilão era Fu Manchu, o gênio chinês do crime e da intriga. Líder de uma lendária seita que o viam como uma encarnação divina, Fu Manchu queria dominar o mundo. Era o protótipo do cientista louco, do inimigo número um, do próprio mal encarnado. O personagem já havia protagonizado diversos filmes, seriados, programas de rádio e até quadrinhos - aliás, a citada DC Comics já criara HQs com o vilão na Era de Ouro do gênero. Ele era o personagem que estampou a capa da edição número 1 da revista Dectetive Comics - a publicação que mais tarde daria nome a editora (dela vem as iniciais DC) e onde surgiria pela primeira vez, em sua edição 27, um certo morcego de Gotham City. 


Na proposta pra as histórias da Marvel, seria utilizado todo o background e personagens do universo literário de Fu Manchu, mas o protagonista seria um personagem inédito: o filho do vilão, que havia sido criado para ser seu sucessor, mas se volta contra o pai, não concordando com seus propósitos maléficos e tornando-se seu maior inimigo. Era o jovem Shang-Chi, um artista marcial completo, versado não só em diversos tipos de luta usando apenas seu corpo, como também com o manejo de variadas armas: nunchakus, espadas, bastões Kali, shurikiens... 



O personagem surgiu em Dezembro de 1973 na edição 15 da Special Marvel Edition, uma revista que então era usada para republicar material antigo da editora. Com roteiros de Steve Englehart e desenhos de Jim Starlin, a proposta deu tão certo que, duas edições depois, a revista mudou o nome para The Hands of Shang-Chi: Master of Kung Fu. Com o sucesso, a editora decidiu investir ainda mais e lançou uma outra revista: Deadly Hands of Kung Fu. A revista se encaixava no projeto da editora de publicações em formato maior, com páginas em preto e branco, focado em um público mais velho que buscavam revistas que não se encaixavam no rígido Código de Ética dos quadrinhos que controlava o que era lançado no mercado desde os anos 50. Seu título mais consagrado nesse formato e que durou mais tempo é a lendária Espada Selvagem de Conan. O formato da revista e suas páginas em preto em branco, não se encaixavam no conceito de gibis estabelecido pelo Código, por isso não era regido por ele. Além de quadrinhos, a revista tinha matérias sobre artes marciais, aulas para iniciantes na prática delas e críticas sobre filmes com este tema lançados no período. E seus quadrinhos não eram restritos as aventuras de Shang-Chi: a revista serviu também de tubo de ensaio para o lançamento de histórias de outros heróis praticantes de artes marciais: os Filhos do Tigre, Tigre Branco, as Filhas do Dragão e o Punho de Ferro - este último já adaptado para um seriado pela Netflix


Kung Fu, da EBAL
A EBAL publicou em 1974 uma versão dessa revista num formato bem parecido, mas chamou-a apenas de Kung Fu, sem nenhum pudor em demonstrar que estava pegando carona no famoso seriado de TV.  Mas, curiosamente, as histórias do Shang-Chi que ela publicou foram as primeiras, que saíram nos gibis tradicionais. Originalmente coloridas, as aventuras saíram em preto e branco - aliás, uma praxe da maioria das publicações da editora. 


Naquela época meu pai comprava quase tudo de quadrinhos que saia nas bancas e me surpreendi com um gibi naquele formato de revistas de notícias, como as semanais Isto É e a Veja. Até chamada para as matérias na capa a revista tinha - entre elas, claro, havia uma biografia de Bruce Lee. Eu me entusiasmei ao ver um negro na equipe de protagonistas de Os Filhos do Tigre, uma criação de Gerry Conway e Dick Giordano. Personagens negros em destaque nos quadrinhos era raro naquela época (ainda hoje não é um elemento comum). Mas foi a HQ de Shang-Chi que mais gostei. Hoje podemos dizer que o personagem sempre foi bem genérico - uma mistura do que se via nos filmes de Kung Fu e filosofia oriental de botequim, com ele falando máximas que encontramos em biscoitos da sorte. Seus criadores eram norte-americanos que estavam criando um produto sem conhecimento profundo da cultura em que se baseia, usando o pouco do que tinham ouvido falar apenas para aproveitar a onda do momento. Ainda assim aquilo me encantou, talvez por ser algo novo e cativante para um garoto de sete anos. Além disso, a arte de Starlin era dinâmica, demonstrando seu grande conhecimento de narrativa e diagramação que, associados a seus roteiros elaborados e psicodélicos, o tornariam um mestre das HQs. 



Arte de Jim Starlin

As histórias de Shang-Chi, porém, não foram muito longe na revista. Poucos meses após seu lançamento, a EBAL perdeu os diretos dos personagens da Marvel para a Bloch Editores. Mas, como a revista era um sucesso, a editora incumbiu seu cast de artistas de preencher as páginas da revista com algum herói do gênero. Em dois tempos eles fizeram um personagem que seguia a falta de pudor da revista, um chinês chamado apenas de Kung Fu - sim, esse o seu nome de batismo - que era a cara do David Carradine, o ator que protagonizava o seriado Kung Fu, e tinha a personalidade de Shang-Chi, emulando até suas roupas. Mas aquele herói que chamou minha atenção em apenas duas ou três histórias não ia passar muito tempo longe das bancas. No ano seguinte a Bloch o traria de volta, desta vez em sua própria revista. 


Mestre do Kung Fu, da Bloch
Como ocorreu com outros personagens, Shang-Chi não foi criado para durar. Quando a moda passasse, suas histórias naturalmente se encerrariam. É o que provavelmente teria acontecido, se a equipe criativa da revista não tivesse mudado pouco depois do surgimento do herói. O desenhista Paul Gulacy começou a desenhar as histórias e, algum tempo depois, o escritor Doug Moench passou a cuidar dos roteiros. A dupla prosseguiu de forma quase ininterrupta no título por oito anos e a passagem de ambos pela revista tornou-se a obra mais elogiada da carreira deles. Até hoje esta é considerada a melhor fase do personagem. Moench ampliou o leque de personagens coadjuvantes, aproximou ainda mais os roteiros das intrigas da espionagem internacional - outro tema que era febre naquele período - e aprofundou os questionamentos filósofos de Shang-Chi, um homem em eterno conflito pela sua relação com seu pai, por renegar o seu destino e por suas críticas ao modo de vida ocidental, marcado pelo consumismo, pela aparente superficialidade das relações, pelo preconceito e pela hipocrisia. Ao mesmo tempo suas histórias eram recheadas de ação, com algumas das melhores sequências de conflitos envolvendo artes marciais nos quadrinhos - isso graças a arte de Gulacy, com uma dinâmica narrativa ainda mais envolvente que a de Starlin e que também é marcado pela psicodelia. Sua inspiração nessa área e em sua própria arte vinha, porém, de outro gênio dos quadrinhos: Jim Steranko, que, em sua rápida passagem pela Marvel, deixou sua marca em outro gibi com foco em tramas de espionagem: Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D


Arte de Paul Gulacy

A Espada Selvagem de Conan: A
publicação não sujeita ao
Comics Code de maior destaque da Marvel 

Com Moench e Gulacy, a revista manteve-se como uma espécie de oásis na Marvel. Apesar de suas histórias se passarem no mesmo universo ficcional em que convivem os Vingadores, os X-Men e o Quarteto Fantástico, Shang-Chi raramente se encontrava com algum dos super-heróis da editora. Quando isso ocorria não era nas páginas de sua revista, mas quando ele aparecia como convidado em outras publicações. Ele também cruzou o caminho de outros lutadores de artes marciais da editora, como o citado Punho de Ferro, aventuras editadas na maioria das vezes na Deadly Hands of Kung Fu, que continuou lançando histórias do personagem enquanto durou - a única publicação naquele formato, que burlava o Comics Code, que teve sucesso duradouro foi Espada Selvagem de Conan. A dupla criativa conseguiu um raro controle criativo que permitiu que levasse com sucesso as histórias de um lutador de Kung fu muito além do modismo dos anos 70 e que escapava ao gênero que dominou - e ainda domina - as publicações das grandes editoras americanas desde a segunda metade dos anos 50. 


O longo período da dupla criativa no título culmina com a aparente morte de Fu Manchu na edição 50 da revista. Tudo isso foi publicado pela Editora Bloch, com suas cores equivocadas, suas traduções excessivamente reducionistas do material original.
 A redução do formato da revista em relação ao original norte-americano pode explicar parte dessa mutilação de texto, mas quando lemos estas mesmas histórias na Editora Abril, que as republicou num formato parecido, vemos que essa desculpa não cola. E, sim, acompanhei de novo boa parte desse material quando a Abril republicou. E mais recentemente, quando esse material foi republicado mais uma vez - agora pela Panini e no formato original, na Coleção Histórica Marvel -, acompanhei mais uma vez. Sim, esse material vale tudo isso, ainda mais que a qualidade das edições tem melhorado a cada publicação. 


Paul Gulacy deixa a revista após a aparente morte de Fu Manchu, mas Moench prossegue nos roteiros acompanhado de outros ilustradores - alguns ótimos, como Gene Day. Em sua reta final, Mike Zeck consegue impor seu próprio estilo de ilustração no título. Mas algo importante se perdeu quando a principal dupla criativa do título se desfez. Como ocorre com aqueles seriados que prosseguem, mesmo quando a história que tinham para contar já se concluiu. A revista ainda teve uma longa sobrevida até a edição 125. Moench esteve presente nos roteiros até quase o final - a última edição escrita por ele foi a 122. Talvez, se tivesse sido dado espaço mais cedo para outro escritor criativo, com novas ideias e uma proposta diferente, a revista pudesse ter sido sucesso por mais tempo. 


Pelo que se vê no trailer do filme que estreia agora, visualmente ele será calcado nas versões mais recentes do personagem. Sua revista foi cancelada, mas o personagem continuou a existir no Universo Marvel, passando a interagir cada vez mais com os super-heróis da editora - até porque agora ele quase sempre só dá as caras como convidado. Está muito diferente atuamente - até passou a ter superpoderes. Mas ainda vejo algo da essência do personagem no trailer. O seu pai não se chama mais Fu Manchu, mas a complexa relação entre eles permanece. Seu pai ainda é um líder criminoso e Shang-Chi renega seu destino de sucedê-lo e vai em busca de si mesmo no Ocidente. Torço para que, mais uma vez, a Marvel consiga fazer diferente sem renegar as raízes da sua obra original. Estarei lá para conferir. E, claro, se me agradar como fez no passado, pode ter certeza que, como8 fiz nos quadrinhos, verei o fime mais de uma vez.