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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Mantendo e, inovando a tradição - Crítica – Filmes: A Tragédia de Macbeth (2021)

 

Teatralmente sólido

por Alexandre César


Denzel Washington mergulha em Shakespeare
 

Matriz expressionista: Orson Welles como o protagonista em "Macbeth – Reinado de Sangue" (1948) com Jeanette Nolan como Lady Macbeth

#Oscar 2022

 
Sendo uma das mais conhecidas tragédias de William Shakespeare, ao lado de Hamlet, Ricardo III, Rei Lear ou Titus Andronicus, Macbeth é uma obra particularmente interessante sobre o como uma semente de ambição pode rapidamente germinar, levando um indivíduo correto a entrar rapidamente numa espiral decadente de traição, crime e morte até um ponto sem volta levando à sua própria destruição.
 
Sangue e porrada: "Macbeth" (1971) de Roman Polanski com Jon Finch e Francesca Annis como o casal protagonista

A última versão: Michael Fassbender e Marion Cotillard em "Macbeth: Ambição e Guerra" (2015) de Justin Kurzel


 
As mais célebres versões são a expressionista de Orson Welles( Macbeth – Reinado de Sangue – 1948) com Welles como Macbeth e Jeanette Nolan a como sua ambiciosa esposa, Macbeth (1971) a crua e sanguinolenta versão de Roman Polanski, com Jon Finch e Francesca Annis; além de outras abordagens da obra, sendo a melhor Trono manchado de sangue (1957) de Akira Kurosawa (que fêz a transposição da trama para o Japão feudal) ou Homens de Respeito (1990) de William Reily com John Turturro e Peter Boyle que ambientava a trama no contexto da máfia nova-iorquina. A mais recente versão, a de de Justin Kurzel (Macbeth: Ambição e Guerra - 2015) com Michael Fassbender e Marion Cotillard como o casal ambicioso.
 
 
Agora é a vez de Denzel Washington e Frances McDormand em "A Tragédia de Macbeth" (2021) de Joel Coen em visual ricamente teatralizado   

Malcolm (Harry Melling) e seu pai o rei Duncan (Brendan Gleeson) promovem Macbeth por seus serviços contra o traidor MacDonald


Escrito, dirigido e produzido por Joel Coen (Bravura Indômita) baseado na obra de William Shakespeare e produzido pela A24 e a IAC Films e sendo veiculado no streaming pela Apple TV, além dos cinemas, A Tragédia de Macbeth (2021) é um magnífico trabalho de adaptação do clássico que ao mesmo tempo que é dinâmico tecnicamente, é assumidamente teatral, sem pretensões de ser um filme realista (mas não é teatro filmado!), dialogando visualmente com a versão de Welles ,e até com Os Nibelungos – A Morte de Siegfried (1924) de Fritz Lang. 

 
Na charneca, três Feiticeiras (Kathryn Hunter) saúdam Banquo (Bertie Carvel) e Macbeth (Denzel Washington) e predizem o seu futuro

 
Um grande acerto de Joel, em sua primeira grande obra (após terminar a parceria com seu irmão Ethan*1) é a escalação de elenco que evita escalar rostos jovens à todo custo, optando por atores veteranos como Denzel Washington (de Dia de Treinamento) e Frances McDormand (de Nomadland) entregando ao texto a força que só a experiência pode dar, e optando por um viés não-realista, isto facilita a submersão de seus atores nos personagens independente de sua etnia. Enxergamos no contexto do filme os escoceses medievais Macbeth e Macduff, e não, os afro-americanos Denzel Washington e Corey Hawkins (de Em um Bairro de Nova York) interpretando escoceses medievais.
 
 
Instigado por sua esposa Lady Macbeth (Frances McDormand) o novo Barão de Cawdor decide por um novo e sangrento plano em prática 

Hospedando Ducan, à noite, Macbeth após embebedar os guardas, executa o rei


Assim, numa charneca, após uma batalha, à serviço de Duncan (Brendan Gleeson de A Balada de Buster Scruggs) Rei da Escócia, o honrado Macbeth, (Denzel Washington, trabalhando as dúvidas, mesquinharias e racionalizações do personagem) Barão de Glamis, e seu capitão, o sensato Banquo (Bertie Carvel de Dalgliesh), ao retornarem, são saudados por três Feiticeiras (Kathryn Hunter de Roma em ótima performance corporal) que preveem que ele será o novo Barão de Cawdor, e que ele será rei; e Banquo, pai de um rei que haverá de o suceder.
Ao retornar ao acampamento Macbeth recebe a notícia de que o rebelde McDonald (e seus aliado noruegueses) Barão de Cawdor foi vencido, e em reconhecimento por seus serviços, Macbeth é agraciado como o novo Barão de Cawdor, ficando próximo da linha de sucessão. Ao tomar conhecimento da profecia, Lady Macbeth (Frances McDormand, soberba nos estratagemas) sua esposa, se contamina pela ambição, instigando-o a matar Duncan, que se hospedará em seu castelo. 
 
 
No dia seguinte uma encenação é feita, e os suspeitos executados

O trono vago,, gera um vácuo de poder, que Macbeth e sua Lady logo ocupam

 
O estratagema é bem concluído à princípio, mas logo se estabelecem divergências, e os filhos de Duncan, Malcolm (Harry Melling de O Gambito da Rainha) Príncipe de Cumberland e o sucessor legítimo, e Donalbain (Matt Helm de Greyhound: Na Mira do Inimigo) fogem para a Inglaterra e Macbeth os acusa de mandantes do crime, tomando a coroa e se nomeando rei, e as alianças vão se formando, com Ross (Alex Hessell de Cowboy Bebop) ao lado de Macbeth (mas jogando em seu próprio favor), e Macduff (Corey Hawkins) Barão de Fife, no outro extremo. Banquo despacha seu filho Fleance (Lucas Barker de Jimmy Kimmel Live!) para longe, prevendo o pior, e mais sangue vai tendo de ser derramado para manter a posição do casal real, que rapidamente perde a paz de espírito, se consumindo no remorso e na paranoia. Assim a situação se mantém, com Lady Macbeth sonâmbula, lavando as mãos de sangue que só ela vê, e o tirano seguro de que nenhum “homem nascido de mulher” *2 o ameaçará, e de tudo estará estável “enquanto o Bosque de Dirnam não avançar ao seu encontro em Dunsinane”*3 mas, as coisas mudam...
 
 
"Final Feliz": O  ambicioso casal ocupa o trono e prospera. Só que não...
 
 
Entre vários outros personagens, ainda temos Lennox (Miles Anderson de Radioflash); Lady Macduff (Moses Ingram de Candace), que ilustra a situação das famílias tragadas na luta pelo poder; Porter (Stephen Root de Perry Mason) o porteiro bêbado e Seyton (Jaes Udom de Judas e o Messias Negro) um capanga leva-e-traz...
 
 
Entre traições e execuções para assegurar sua posição, Macbeth recebe uma visita...
 
...de três conhecidas que o aconselham sobre o que fazer

 
Filmado nos imensos estúdios da Warner Bros em Los Angeles, California, o desenho de produção de Stefan Dechant (O Chamado da Floresta) junto com a direção de arte de Jason T.Clark (Capitã Marvel) e a decoração de sets de Nancy Haigh (Era Uma Vez Em... Hollywood!) criam espaços ao mesmo tempo maciços e brutalistas, mas de aspecto clean, de poucas texturas, dialogando com um estruturalismo arquitetônico, apesar de um ou outro elemento mais expressionista, além do mobiliário espartano. 

 
Ross (Alex Hessell)é aliado de Macbeth, mas secretamente, segue uma agenda própria
 
Lady Mackbeth gradativamente vai cedendo ao peso do remorso por suas ações

 
Os figurinos de Mary Zophres (Interestelar) mescla um realismo funcional com a praticidade. Todos os trajes são fáceis de seus personagens trocar, de uma cena para outra, como seria num palco ao vivo, com intervalos de poucos minutos, com adereços mínimos e delicados, como a coroa de Macbeth.
 

A influência expressionista se faz notar em ambientes como as ruínas da encruzilhada

 
A belíssima fotografia de Bruno Delbonnel (O Lar das Crianças Peculiares) trabalha o preto e branco em luminosos tons de cinza, lembrando a fase inicial dos filmes de Ingmar Bergman, que conjugada com os efeitos visuais da Framestore supervisionados por Michael Ralla (Sucker Punch: Mundo Surreal) ampliam os ambientes e cenários, mantendo o aspecto visual de ilustração de livro de várias cenas, cujo tom é sublinhado pela música de Carter Burwell (Space Force) profundamente atmosférica, cujos acordes de cordas, sublinham os estados mentais de seus protagonistas e dão toques de sobrenatural e fantástico ao filme.
 

Existe a alegoria mística das encruzilhadas como a intersecção de mundos espirituais

A direção de arte optou por grandes superfícies sem texturas com mobiliário mínimo
 
 
A edição do próprio Coen, e Lucian Johnston (Midsommar: O Mal Não Espera a Noite) condensam a trama em 1 hora e 45 minutos dando um bom pique narrativo que não o deixa cair num tom arrastado, o que sempre periga de acontecer na adaptação de um texto shakespeariano, cujos diálogos foram adaptados de forma serem fluidos, embora não neguem sua origem-raiz.
 
 
O uso dos  efeitos visuais criou  imagens que realçam a teatralidade do filme
 
A fotografia em preto e branco marca o clima que remonta à filmes clássicos
 
 
Ao final, A Tragédia de Macbeth é um espetáculo belíssimo que mostra o quanto o bardo inglês ainda é atual, à despeito do preconceito de que suas obras seriam “datadas” não falando ao grande público, mas sempre sendo capaz de refletir sobre alguma faceta do ser humano, das mais sublimes aspirações, passando pelo ridículo e chegando ao seu lado mais mesquinho e patético, refletindo sobre as vãs ambições do homem, que muitas vezes oprime e esmaga o seu semelhante, mas ao final, vê tudo pelo que lutou desvanecer-se na poeira do tempo como diz o próprio Macbeth ao final, preste a ter sua batalha derradeira: 

 
As cenas noturnas remetem ao expressionismo alemão, diferente das cenas diurnas
 
“A vida é uma sombra que caminha... pobre ator que, em pleno palco, num breve instante em que se contorce e se pavoneia, para nunca mais se ouvir... É uma história contada por um tolo... toda ela som e fúria, nas que nada significa...”
 
 
O tom geral das imagens do filme remetem à ilustrações de livro
 
A performance corporal da veterana Kathryn Hunter no triplo papel das Feiticeiras surpreende


 
Quantos tolos até agora, conduziram nossos destinos, seja no Brasil ou no mundo, e agora estão na derrocada de seus castelos de areia? E quantos tolos ainda estão dando ouvidos às profecias das três Feiticeiras???
 

As belas imagens do filme permanecerão na memória dos cinéfilos



Notas:
 
 
*1: Joel e Ethan Coen realizaram juntos (inicialmente no cinema independente) um das mais criativas parcerias do cinema americano, como Gosto de Sangue (1984), Arizona Nunca Mais (1987), Fargo (1996), Onde Os Fracos Não Têm Vez (2007) entre vários outros. Agora a parceria se desfez pois Ethan admitiu “não ter mais saco com o cinema e seu pessoal”, se dedicando apenas ao teatro, cabendo a Joel seguir em carreira solo.
 
 

*2: “homem nascido de mulher” - Na época de Shakespeare era uma expressão usada para designar os prematuros, que não tiveram o tempo de gestação normal de nove meses.
 

*3: “enquanto o Bosque de Dirnam não avançar ao seu encontro em Dunsinane” – no texto de Shakespeare, os homens de Malcolm e Macduff escondidos embaixo da árvores do bosque, cortam galhos com folhas e os carregam à frente para se camuflar durante o seu avanço, o que pareceria aos olhos de alguém do alto de uma torre do castelo de Dunsinane, de que a floresta ganhara vida.
 
 

 

"- Estou me afogando nas turbulentas águas da vilania. Logo estarei num mar de lama!!!"

 

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Misturando o cascalho, o cimento... - Crítica - Séries: Fundação - 1ᵃ Temporada

 


Construindo o prédio narrativo (?)

por Alexandre César


Série da Apple TV é visualmente rica mas controversa

 

Publicada entre maio de1942 e janeiro de 1950 na revista Astouding Magazine, e depois reunidas (juntas com uma história adicional que se passava antes das quatro originais) num volume único pela editora Gnome Press em 1951, Fundação veio a tornar-se ao longo do tempo uma das maiores criações de Isaac Asimov*1 (1920-1992), rivalizando com a sua série relacionada aos robôs*2, e que posteriormente ele fez a junção, num mesmo universo compartilhado, digno dos universos Marvel e DC, mas dentro dos seus parâmetros narrativos.
 

"Era uma vez, um Império Galáctico que se espalhava pelo cosmos há 12 mil anos..."
 
 
Ambientado num futuro longínquo, quando a espécie humana se espalhou por milhões de planetas na galáxia, sendo a Terra uma esquecida lenda, o pilar administrativo da civilização é o Império Galáctico, que ora foi opressor, ora benevolente, mas sempre foi a base de estabilidade da raça humana há mais de 12 mil anos, quando ele foi fundado. Mas, como nada é eterno, o cientista Dr. Hari Seldon, criador da Psico-história*3 descobre com seus estudos, que o Império está em declínio irreversível, e que 30 mil anos de barbárie se seguirão, ao que ele propõe um plano: Criar uma Fundação (na verdade, duas), cujo objetivo será a coleta e catalogação de todo o conhecimento na Enciclopédia Galáctica, que servirá de base para reduzir este período para apenas mil anos, e assim, lançar as bases para a criação de um novo Império Galáctico. Simples, não?
 
 
Caindo numa roubada: A jovem Gaal Dornick (Lou Llobell) e o Dr. Hari Seldon (Jared Harris) são acusados de alta traição logo no primeiro dia dela em Trantor, a capital do Império
Logo as previsões de Seldon começam a se tornarem palpáveis, levando o Império e lhe dar algum crédito


Na verdade, o Império manda Seldon, e seus seguidores, para o ponto mais longínquo da orla exterior da galáxia, no planeta Terminus, na esperança que eles sejam esquecidos e assim, cessem essas histórias de “fim do império”. Os políticos sempre são políticos, e sua visão sempre é imediatista e de curto prazo...
 
 
A fiel preceptora Demerzel (Laura Birn) e o Imperador, um triunvirato, composto por três versões (com faixas etárias diversas) do mesmo indivíduo: Irmão Alvorecer (Cassian Bilton), Irmão Dia (Lee Pace) e Irmão Crepúsculo (Terrence Mann),

Na realidade o banimento estava nos planos e projeções de Seldon, que dessa forma, teria mais liberdade e autonomia para criar e gerir a Fundação, e assim, nos livros seguintes, vemos o desenvolvimento da trama, que vai dando saltos temporais, e de geração a geração, o Império vai entrando em colapso, enquanto a Fundação vai emergindo como potência comercial e tecnológica, influenciando os mundos periféricos. Curiosamente o próprio Asimov em seus livros, só conseguiu cobrir quinhentos anos deste período, morrendo em 1992, e deixando em aberto a conclusão desta saga, que ganhou o Prêmio Hugo de Ficção-Científica, sendo considerada a melhor série literária de fantasia e ficção-científica de todos os tempos desbancando obras como as séries Duna de Frank Herbert , O Senhor dos Anéis de J.R.R.Tolkien e As Crônicas de Nárnia de C.S.Lewis. Adaptar tal trama para o audiovisual sempre se mostrou algo para lá de desafiante, que fosse qual fosse o rumo tomado, iria provocar a ira de fãs apaixonados...  
 

Demerzel serve à Dinastia Genética dos Cleons a séculos, ajudando a formar os regentes
As ações do Império costumam ser implacáveis contra os mundos que se rebelam


Criada por Josh Friedman (Exterminador do Futuro: Destino Sombrio) e David S.Goyer (Krypton) tendo entre os produtores Robyn Asimov, filha do autor, Fundação se propõe a ser a tradução da ideia central dos livros, para o formato seriado, produzido pela Apple TV+, com suntuosos valores de produção e algumas escolhas questionáveis no desenvolvimento de alguns personagens, visando gerar identificação no público médio casual, mais afeito a séries com personagens relacionáveis em função de seus dramas pessoais, ficando aqui o maior dos desafios, uma vez que a trama de Asimov é direcionada a conceitos, e não à personagens; sendo os personagens, principalmente nos livros iniciais, apenas a verbalização desses conceitos.
 
 
Assim, os adeptos de Seldon são banidos para os cafundós da Galáxia enviados para o Planeta Terminus, a fim de que sejam esquecidos
 
 
Então, neste contexto, temos o Dr. Hari Seldon (o ótimo Jared Harris de Chernobyl) um acadêmico que conhece bem “as regras” do jogo do poder palaciano, que recruta a jovem Gaal Dornick*4 (Lou Llobell de Viajantes- Instinto e Desejo) personagem que possui uma matemática intuitiva, banida de Synnax, seu mundo natal, Planeta que abraçando o fundamentalismo religioso, destruiu todas as universidades e matou os acadêmicos (executados por sacerdotes com um sorriso beato nos lábios digno de muita gente conhecida por aqui...). Embarcando para Terminus com os colonos, Dornick se envolve com Raych Foss (Alfred Enoch de Tigers) protegido de Seldon, sendo envolvida numa série de eventos bizarros tanto na lógica interna quanto na divergência com a própria narrativa original de Asimov.
 
 
E os enciclopedistas vão catalogando e armazenando o conhecimento na esperança de seu uso pelas gerações futuras

 Três décadas depois, Hugo (Daniel McPherson) e Salvor Hardin (Lea Harvey) encaram o que virá a ser a "Primeira Crise Seldon"
 
 
Trinta anos depois, Salvor Hardin (Lea Harvey de Lutando pela Família) é a Guardiã de Terminus e, quem deveria ser o melhor personagem da série, é reduzida ao mero clichê de ser a “a escolhida”, praticamente a temporada inteira não alcançando o real potencial que tinha no livro*5, reduzida ao estereótipo de “mulher guerreira” fazendo par romântico com Hugo (Daniel McPherson de Strike Back), mercador espacial, quase um ‘Han Solo’ desse arco.
 
 
Um comando de anacreontinos liderados pela implacável Phara (Kubbra Sait) cerca a Fundação

 
O grande desafio de Hardin é enfrentar um destacamento de soldados do planeta Anacreon, chefiados pela irrascível Phara (Kubbra Sait de Jogos Sagrados) e seus tenentes Freestone (Nikhil Parmar de Brassic) e Rowan (Pravessh Rana de O Paraíso e a Serpente) na verdade, um grupo violento e genérico, não muito diferente de outros vistos em outras séries. Esta facção pretende tomar posse de qualquer vantagem estratégica que a Fundação possa oferecer, uma vez que o Império devastou seu mundo após uma revolta. Dos envolvidos neste imbróglio se destacam Abbas (Clarke Peters de Os Irregulares de Baker Street) e Mari (Sasha Behar de Unforgotten), os pais de Hardin, e o administrador Lewis Pirenne (Elliot Cowan de Death em Paradise) num dos arcos menos atraentes da série, que deveria ser justamente o oposto. 
 
 
O conflito iminente afeta as vidas dos enciclopedistas como Abbas (Clarke Peters) e Mari (Sasha Behar), os pais de Hardin,
 
E, enquanto o "cofre" de Seldon permanece alheio à tudo...


E então finalmente chegamos no melhor arco da série, que engloba o Império, que justamente por ser um elemento pouco visto nos livros, teve suas lacunas preenchidas magistralmente, sendo a figura do Imperador, na realidade um triunvirato, composto de clones de Creon I, o Imperador original, em momentos diferentes da vida: Irmão Alvorecer (Cooper Carter de Beyond The After quando menino e Cassian Bilton de Shoal quando rapaz), Irmão Dia (Lee Pace de Capitã Marvel na fase adulta) e Irmão Ocaso (Terence Mann de Lista Negra quando idoso). Esta casta vai se sucedendo século após século, o que é uma ótima alegoria sobre a estagnação, a incapacidade de mudar, pois na temporada vemos o mesmo indivíduo quando criança, se horrorizar com as atitudes de sua versão adulta tentando inclusive (anos depois já adulto) ousar uma nova abordagem quando questionado por Zephyr Halima (T´Nia Miller de Years and Years) uma religiosa que indaga se "um clone tem alma", ele faz incógnito a peregrinação espiritual do Caminho da Donzela, num território insalubre, numa jogada política (apesar dele não admitir o impacto emocional da jornada), e ter, ao final, uma atitude super cruel com uma dissidente no último episódio. Outro dado da dinastia é que um clone que não seja uma ‘cópia perfeita de Creon I’ caso apresente características como daltonismo, ou simplesmente ser canhoto, é considerado uma abominação e deve ser erradicado. Uma boa alegoria sobre as casas reais europeias do passado, cujos casamentos consanguíneos levaram a doenças degenerativas*6.
 
 
... paralelo à isso, temos um vislumbre de sucessão quando um Irmão Ocaso vira Trevas (e pouco depois perece)  Alvorecer se torna Dia e Dia se torna Ocaso, quando ocorre o nascimento de um novo bebê Alvorecer

 
Um personagem enigmático neste arco é Eto Demerzel*7 (Laura Birn de Eden) a preceptora e braço direito da família real, na verdade um robô, provavelmente não programado com as 3 leis, ou obedecendo à uma interpretação bem ‘elástica’ da Lei Zero da Robótica*8, que junto ao sinistro Mestre das Sombras Obrecht (Mido Hamada de Wildcat) realizam os ‘trabalhos sujos’ para o imperador, quando solicitados.
 
 
Superada a crise, Salvor confronta sua mãe quanto às suas verdadeiras origens
Ao mesmo tempo, o Imperador, (Irmão Dia) numa jogada política faz uma peregrinação espiritual para satisfazer religiosos incômodos
 
 
A produção suntuosa se reflete em cada cena, pontilhada pela música de Bear McCreary (Battlestar Galactica) cujo suntuoso tema principal é marcante, adornando a bela fotografia de Owen McPolin (Sombra e Ossos), Tico Poulakakis (Star Trek: Discovery), Danny Ruhlmann (O Legado de Júpiter), Cathal Watters (O Alienista), Steve Annis (A Cor que Caiu do Espaço), Thomas Kloss (Treadstone) e Darran Tiernan (Perry Mason) que funciona bem com a edição de Paul Trejo (Carnival Row), Miklos Wright (For All Mankind), Emily Greene (Mrs. America) e Skip Macdonald (Breaking Bad) que vai oscilando no pique narrativo, ora no ponto certo, ora mais arrastado.
 
 
O desenho de produção e a direção de arte criaram mundos contrastantes em vários aspectos, como o luxuoso Palácio Imperial em Trantor...

...e a Fundação em Terminus, ainda em sua construção, essencialmente de aspecto funcional

 
Visualmente rica, a supervisão de efeitos visuais de Chris Maclean (Deuses Americanos) enriquece a narrativa do seriado, que se apoia nos efeitos visuais da Double Negative (DNEG), NVIZ, Outpost VFX, e Rodeo FX, ao criar mundos surreais, high-techs e brutalistas que expandem o desenho de produção de Rory Cheyne (Locke & Key) nesta criação, que graças ao trabalho das as equipes de direção de arte chefiadas por William Cheng (A Colina Escarlate), Conor Dennison (Penny Dreadful), Adorjan Portik (Duna) e Jens Lockmann (Morte Negra), e da decoração de sets de John Neligan (Darklands) e Ingeborg Heinemann (O Gambito da Rainha) que dialogam com várias linhas conceituais do imaginário da ficção-científica, daí o aspecto “genérico”, que alguns criticam na série, pois Terminus, com seu jeitão de cidade de faroeste, remete à Mos Eisley, e Trantor, sendo um planeta-cidade ecoa Coruscant, ambos de Star Wars (que copiou de Asimov por sinal!) e outras que remetem `a Game of Thrones, como o Caminho da Donzela ou às ilustrações de Moebius e Juan Gimenez, fonte que os figurinos de Eimer Ni Mhaoldomhaigh (O Ritmo da Vingança) e Kurt and Bart (Jogos Vorazes: A Esperança – Partes I & II) bebem de bom grado, mantendo certas semelhanças com Raised by Wolves.
 
Os efeitos visuais, de qualidade excepcional refletem todo o imaginário Sci-Fi, lembrando o trabalho de ilustradores...

... e até paisagens de filmes e série que tiveram a obra de Asimov como fonte inspiradora

 
Ao final, se ainda não atingiu o seu pleno potencial, Fundação ainda instiga e merece um crédito (que esperemos seja bem aproveitado) para corrigir seus erros e conseguir cumprir a sua missão principal, que é induzir o grande público a querer conhecer a obra original e no seu bojo, a visão de Isaac Asimov. 
 
"Tenho que correr com esse landspedeer para chegar em Mos Espa antes que comece a corrida de Podracers! "

 

Notas: 

*1: Isaac Asimov (1920-1992) é um dos mestres da Ficção Científica e, junto com Robert A. Heinlein Arthur C. Clarke, foi considerado um dos "três grandes" da ficção científica em sua Era de Ouro. A obra mais famosa de Asimov é a série Fundação, também conhecida como Trilogia da Fundação, que faz parte da série do Império Galáctico e que logo combinou com Robôs, a sua outra série mais famosa. Também escreveu obras de mistério e fantasia, assim como uma grande quantidade de livros de divulgação científica e histórica. No total, escreveu ou editou mais de 500 volumes, aproximadamente 90 000 cartas ou postais, e tem obras em cada categoria importante do sistema de classificação bibliográfica de Dewey, exceto em filosofia.
 

*2: Robôs: A sua série de livros sobre os robôs, é ambientada num futuro quase imediato, visto que a Psicóloga de Robôs, Susan Calvin teria se formado em Robô Psicologia em 2001.Ao longo dos livros. os robôs ajudam a humanidade a inventar o motor hiper atômico, e os pilotos Donovam e Powell realizam a primeira viagem no hiperespaço, na qual se alimentam somente de ervilhas. Como dano colateral da invenção do salto no hiperespaço, há a quase destruição do cérebro positrônico que o criou, pois ele não consegue distinguir entre a desmaterialização de um ser humano e a morte, implicando em quebra da Primeira Lei da Robótica.
 


*3: A Psico-história seria um misto de sociologia e matemática. Aplicando fórmulas matemáticas a acontecimentos de seu presente, Seldon conseguia calcular acontecimentos futuros e assim permitir ou tentar evitar que viessem a se confirmar. Suas previsões eram todas baseadas em estatísticas e probabilidades. A Psico-história usava desses elementos matemáticos aplicados às massas. Funcionava apenas para sociedades inteiras. Para uma elaboração matemática precisa, era necessário que fosse feita a avaliação sociológica, cultural e econômica de sociedades com muitos milhões, ou bilhões de indivíduos. Era totalmente ineficaz a tentativa de aplicar a Psico-história a indivíduos, porque o indivíduo é imprevisível. Já uma população na casa dos quintilhões, como a do Império Galáctico tinha um comportamento bem mais fácil de se prever.
 
 

*4: No livro original, Gaal Dornick é um homem, oriundo de um planeta bem mais desenvolvido e evoluído, tendo feito doutorado. Um background bem diferente do que o vimos na série no mundo aquático de Synnax.
 
 



*5: Salvor Hardin foi outro personagem que teve mudança de sexo, já que nos livros Salvor era o Prefeito de Terminus, algo mais administrativo do que militar, sendo um líder pragmático e objetivo. Nos livros, Hardin era conhecido pela sua frase “a violência é o último refúgio do incompetente”, e curiosamente, Eu, autor desta resenha, sempre que lia Fundação, visualizava Salvor Hardin como um equivalente de Fidel Castro...


*6: Diversas casas reais tiveram problemas com doenças degenerativas, como os Habsburgos, da Espanha, cujos enlaces entre primos geraram uma concentração de doenças genéticas, mortalidade infantil terminando a dinastia ao final do séc. XVII, ou a hemofilia que a Rainha Vitória dos Bourbons, passou para a sua longa descendência, entre eles, os Romanoff, da Rússia Czarista.
 

*7: Eto Demerzel também teve seu sexo trocado, sendo uma mudança importante no universo de Asimov, pois nos livros, é um robô, chamado R Daneel Olivaw. Olivaw se tornou um dos protagonistas da série de livros “Robôs” e assim, o autor conectou seu universo de livros voltados à robótica com o universo de Fundação.
 
 

*8: Três Leis da Robótica são, na verdade, três regras e/ou princípios idealizados por Asimov a fim de permitir o controle e limitar os comportamentos dos robôs, sendo:

1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.

2ª Lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que entrem em conflito com a Primeira Lei.

3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

Mais tarde Asimov acrescentou a “Lei Zero”, acima de todas as outras: um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal.