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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

"Dexter" e a metalinguagem - Crítica - Filmes: Pânico (2022)


Regras são regras...

por Alexandre César


Quinta sequência é correta e divertida e só
 
 
Bem vindos a Woodsboro, de novo!!!


 
Escrito por Kevin Williamson (Dawson´s Creek) e dirigido por Wes Craven (A Hora do Pesadelo), Pânico (Scream 1996) trouxe um novo fôlego ao gênero Slasher Movie, que vinha fazendo água há bastante tempo em função do esgotamento da fórmula desde que os já longínquos O Massacre da Serra Elétrica (1974) de Tobe Hooper, Halloween: A Noite do Terror (1978) de John Carpenter e Sexta-Feira 13 (1980) de Sean S. Cunningham estabeleceram as regras dos filmes de assassinos psicopatas indestrutíveis em série que fatiavam adolescentes à rodo, gerando mais imitadores e sequências caça-níqueis do que baratas num esgoto intocado.
 
 

Como todo filme "Pânico" se inicia: Tara (Jenna Ortega) recebe um telefonema perguntando se ela gosta de filmes de terror


Partindo da inspiração num caso real *1, o filme investia pesadamente em metalinguagem tanto para homenagear o gênero Slasher, quanto o cinema de horror como um todo, e propunha subversões espertas e certeiras na narrativa, e trouxe como protagonistas, a doce mas corajosa Scream Queen Teen Sidney Prescott (Neve Campbell de Garotas Selvagens) bem como aos seus colegas Gale Weathers (Courteney Cox de Friends) a repórter destemida e a Dewey Riley (David Arquette de Nunca Fui Beijada) o policial “almofada de alfinetes”, que junto com a destemida Sidney tornaram-se os últimos sobreviventes do filme original, ao longo das quatro sequências da franquia.
 
 
Após errar uma das perguntas, Tara recebe a "visita" de Ghostface e sua faca


Ao longo dessas sequências, a série alternou altos e baixos, mantendo o mesmo elenco e diretor, (até a morte de Wes Craven em 2015) a trama foi da fictícia cidade de Woodsboro, Califórnia, passando por Ohio, Los Angeles, até retornar a seu ponto de origem, e desde então não saiu mais de lá.
 

Sam Carpenter (Melissa Barrera) e seu namorado Richie Kirsch (Jack Quaid) retornam à Woodsboro, após receber a notícia do ataque a Tara

 Dirigido por Matt Bertnelli-Olpin e Tyler Gillet (Casamento Sangrento) e escrito por James Vanderbilt (Zodíaco) e Guy Busik (Castle Rock) baseado nos personagens criados por Kevin Williamson (que se manteve na produção), Pânico (2022) se propõe a atualizar a franquia nesta época das redes sociais, da cultura das celebridades, e do culto doentio que certos fãs têm sobre seus filmes e séries. 
 
 

Sam procura Dewey Riley (David Arquette), que explica as regras de um "Filme Stab"

 Somos apresentados à jovem Sam Carpenter (Melissa Barrera de Em Um Bairro de Nova York) natural de Woodsboro, que Junto com seu namorado, Richie Kirsch (Jack Quaid de The Boys) retorna à cidade por conta de um brutal atentado sofrido por sua irmã Tara (Jenna Ortega de Dia do Sim) esfaqueada por um indivíduo vestido de Ghostface. 
 
 

Dewey previne Sidney Prescott (Neve Campbell) de que há um novo pirado vestido de "Ghostface" no circuito

A moça tem traumas decorrentes de fatos de seu passado, que a ligam indelevelmente aos eventos do primeiro filme de 1996. Como uma das sobreviventes do filme anterior temos a Delegada Judy Hicks (Marley Shelton de Rampage: Destruição Total) mãe superprotetora do jovem Wes (Dylan Minnette de 13 Reasons Why) que junto com a simpática Mindy Meeks-Martin (Jasmin Savoy Brown de Yellowjackets); o casal Liv McKenzie (Sonia Ammar de Petit Biscuit: Drivin Thru the Night), a patricinha, e Chad Meeks-Martin (Mason Gooding de Deixe a Neve Cair) o atleta irmão de Mindy*2; a esperta Amber Freeman (Mikey Madison de Era Uma Vez... em Hollywood!); Vince Schneider (Kyle Gallner de Horas Decisivas) o stalker que não “pega” ninguém, que entre outros, integra o novo núcleo de jovens que serão alvo de Ghostface e sua faca, que retorna com a marcante voz de Roger Jackson (Red Dead Redemption).

Novos rostos: Mindy Meeks-Martin (Jasmin Savoy Brow), Amber Freeman (Mikey Madison),Chad Meeks-Martin (Mason Gooding),Wes (Dylan Minnette) e Liv McKenzie (Sonia Ammar). Quem será o assassino???

Em vista do que está acontecendo os jovens recorrem ao sequelado Dewey Riley (David Arquette), que os alerta sobre as regras para sobreviverem neste caso (e que obviamente eles não obedecerão...). Dewey previne Sidney Prescott (Neve Campbell), já com família feita, e que avisa à Gale Weathers (Courteney Cox, bastante esticada pelas plásticas) que há um novo maníaco repetindo o padrão e... elas retornam a Woodsboro para ajudar a nova geração de alvos, numa trama que resgata elementos da trama original, com a trama da série Stab (Facada), o filme-dentro-do-filme da série (que já está no 8...) que ilustra as regras do gênero e a tendência à diluição e descaracterização que as contínuas sequências inpõem.
 
 

Sidney junta esforços com Gale Weathers (Courteney Cox) para enfrentar o novo maníaco

 
A fotografia de Brett Jutkiewicz (Casamento Sangrento) usa de closes em elementos cênicos e bom movimentos de câmera para aumentar a tensão, que a edição de Michael Aller (Shazam!) com cortes rápidos, mas não desorientantes, situando a ação de forma clara e definida, que a música de Brian Tyler (Velozes e Furiosos 9) inclui os típicos efeitos sonoros agudos para gerar tensão.
 
 
O design de produção e a direção de arte compõem Woodsboro como a típica cidade pequena americana de filme de terror

 
O desenho de produção de Chad Keith (O Tigre Branco), junto com a direção de arte de Jonathan Guggenheim (Reprisal) e a decoração de sets de Helen Britten (O Preço da Verdade) reconstitui ambientes icônicos da franquia, caracterizando Woodsboro como a típica cidade americana ordeira de filme slasher, e seguindo a mesma cartilha, os figurinos de Emily Gunshor (Stargirl) definem seus personagens dentro de seus estereótipos.
 
 
O sangue corre nas cenas de assassinato, mais comedidas do que nos filmes anteriores

 
Ao final Pânico faz de forma correta a passagem de bastão dos sobreviventes do núcleo original para os sobreviventes deste núcleo, respeitando o legado da franquia, discutindo os conceitos de reboot, remake, filme-legado e, incorporando elementos da série Dexter à trama, num resultado eficaz, mas morno. Se o público vai comprar a idéia e justificar uma nova série, só o tempo dirá...
 
 
A fotografia tem alguns bons usos de câmera, como quando Sam se dá conta de estar no ninho do inimigo, onde toda a trama se iniciou em 1996


 

Notas:
 
 

*1: Kevin Willianson se baseou no caso real do massacre ocorrido na cidade de Gainesville na Flórida em que o psicopata “Danny” Rolling matou 8 pessoas, entre elas, 5 estudantes entre 1989 e 1990por querer se tornar um “Superstar” como Ted Bundy. Ele cometia seus crimes usando uma máscara, e todo vestido de preto, além de usar uma faca de caça (uma Ka-bar),sendo detalhes que inspiraram Williansom.
 
 
*2: Tanto Mindy quanto Chad são filhos de Martha Meeks (Heather Matarazzo de Generation Wrecks) uma das poucas habitantes de Woodsboro não perseguidos por Ghostface.
 
 




 
Conheça as regras!!!

 

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Preparando o próximo passo - Crítica - Séries: Cobra Kai – 4ª Temporada

 




Briga de duplas...

por Alexandre César


  Drama adolescente-oitentista da Netflix se firma

 




Desde que surgiu, em 2018, originalmente veiculada no YouTube e agora assumida pela Netflix, o drama nostálgico-adolescente oitentista Cobra Kai, percorreu um bom caminho retomando o universo narrativo do clássico Karatê Kid: A Hora da Verdade (1984) de John G. Avilsen (Rock, Um Lutador). Desde que sua premissa foi casualmente proferida numa piada de How I Met Your Mother*1, a piada pronta se tornou o novelão produzido pela Sony Pictures Television, que soube surfar na onda nostálgica, resgatando estrategicamente e no momento certo, personagens do passado da franquia, honrando seu legado. A série usa disso para problematizar questões relevantes da atualidade, como a polarização política, o avança da extrema-direita, as questões da convivência de pais e filhos e de legado. 
 
 
Água e Óleo: Daniel Larusso (Ralph Machio) e Johnny Lawrence (William Zabcka) unem esforços e as equipes.

 
Dito isto, a quarta temporada avança  expandindo a narrativa e seu microcosmo, seguindo as jornadas de seus personagens e pavimentando seus caminhos. Um dia, com certeza, estes caminhos terminarão, mas por enquanto é melhor não prever quando e como será esse desfecho (talvez na próxima temporada...) e só torcer para que seja apoteótico, ou pelo menos memorável. Janete Clair (e Dias Gomes, provavelmente) adorariam esse folhetim, pois Cobra Kai sabe honrar essa tradição novelesca na medida certa para agradar seu público.
 
 
     John Kreese (Martin Kove, de costas) procura Terry Silver (Thomas Ian Griffith) e traz de volta o amigo para o "Lado Negro da Força".


 
Começando do final da temporada anterior, quando Daniel Larusso (Ralph Machio, de Vidas sem Rumo) e Johnny Lawrence (William Zabcka, de A Ressaca) fazem uma trégua em virtude do avanço daninho de John Kreese (Martin Kove, de Rambo II: A Missão). O antigo e abusivo sensei de Lawrence havia lhe tomado o Cobra Kai e estendeu sua influência sobre os jovens alunos de West Valley
 
 
Samantha Larusso (Mary Mouser), Demetri (Gianni Decenzo, acima dela), Hawk (Jacob Bertrand) e seu cabelo moicano, e Miguel Diaz (Xolo Maridueña, de púrpura) observam com amigos os oponentes de seus senseis.


 
Boa parte da temporada mostra essa dificuldade de conciliação entre os dois senseis (e seus métodos de ensino) que, tal qual água e óleo, tem abordagens conflitantes sobre o que é ensinar karatê. Elas remontam às suas questões não-resolvidas nos últimos trinta e cinco anos à época de sua disputa no torneio de karatê, vencida por Larusso no clássico Karatê Kid: A Hora da Verdade (1984). Até que os dois grupos de jovens - que começam unidos para depois se separarem e mais tarde aprenderem a mesclar as duas abordagens, rolando uma boa dose de dramas e impasses - assumem o trabalho de criar pontes entre os dois rivais/aliados (e, porque não dizer, amigos não-assumidos) e, de quebra, a nova geração rompe o ciclo de erros da anterior.
 
 
No passado,Terry Silver (Thomas Ian Griffith) aliciou e traumatizou Daniel Larusso tentando quebrá-lo psicologicamente.


Assim, Samantha (Mary Mouser, de Room 104), a meiga filha adolescente de Larusso, percebe vantagens de incorporar o método reativo de Lawrence em sua técnica de combate, enquanto Miguel Diaz (Xolo Maridueña, de Parenthood: Uma História de Família), pupilo de Lawrence, estreita seus laços com Daniel Larusso (provocando ciúmes no seu estourado sensei).
 
 
Kreese e Silver unem esforços numa dupla dinâmica do mal

 
Mas, como todo drama para funcionar bem precisa de um vilão, John Kreese, vendo a união de seus opositores, vai em busca de reforços. Ele traz de volta Terry Silver (Thomas Ian Griffith, de Vampiros, de John Carpenter) que cultivava uma vida de empresário liberal-progressista, deixando aquela vida para trás. Ele até havia aposentado o seu antigo rabo de cavalo. Kreese insiste, usando sua influência de “Darth Sidious Karateca”, e pronto: Silver volta a ser o canalha que havia esquecido e que gostava de ser, surpreendendo o próprio Kreese, pois, como diz um jovem: “Ele parece um “Highlander*2, e só poderá haver um!”
 
 
A bela e perigosa Tory (Peyton List) tem um arco de humanização ao ser exposto o seu quadro familiar difícil

 
Kreese e Silver intensificam sua estratégia de manipulação dos jovens, cujos expoentes são Robby Keene (Tanner Buchanan, de Desginated Survivor) - o filho revoltado de Johnny Lawrence que começa a ter questionamentos sobre a ideologia do Cobra Kai - e a bela, problemática e perigosa Tory (Peyton List, de Acampados, revelando grande domínio de cena), de quem agora começamos a conhecer os problemas pessoais. Isso a leva a uma identificação inesperada com Amanda Larusso (Courtney Henggeler, de The Big Bang Theory - ela é a irmã de Sheldon Cooper), a esposa companheira de Daniel. Descobrimos coisas de sua juventude, que enfatiza a importância de descobrirmos os ciclos que levam jovens marginalizados, por não terem um ombro amigo, à caírem nas mãos de figuras inescrupulosas (como Kreese e Silver). Estas, ao lhes dar um senso de pertencimento, os usam em grupos (quadrilhas, milícias) para intimidar aqueles considerados como “o inimigo”, coisa tão comum no Brasil atual. É essencial detectar esses ciclos e saber como quebrá-los, abrindo novos rumos.
 
 
O caçula Anthony Larusso (Griffin Santopietro) cresceu e agora se revela um praticante de Cyber bullying...

 
Neste espírito, Hawk (Jacob Bertrand, de Jogador Nº1), o ex-nerd magrelo de lábio leporino transmutado num “quebrador” e valentão, tem o seu arco de redenção, reatando com seu amigo, o neurótico Demetri (Gianni Decenzo, de Fartcopter).
Johnny Lawrence reconhece que Ali Mills (Elisabeth Shue, em rápida participação na temporada anterior) é só uma lembrança, e assume o romance com a mãe de Miguel, Carmen Diaz (Vanessa Rubio, de O Mundo Sombrio de Sabrina), para a alegria da avó Rosa (Rose Bianco, de Power), que sempre gostou do louro estourado mas de bom coração.
 
 
...contra o novato Kenny (Dallas Young), que acaba acolhido por Robby Keane (Tanner Buchanan), filho de Lawrence.
 

 
Já na contramão deste espírito, o caçula Anthony Larusso (Griffin Santopietro, de Lá Vêm os Pais, que cresceu e esticou!) se revela, junto com seus colegas, um praticante costumaz de cyber-bullying, ao pegar no pé do novato Kenny (Dallas Young, de The Big Show Show), irmão de um colega de reformatório de Robby. Este o acolhe no Cobra Kai, e ele acaba se tornando de vítima a agressor, fazendo o filho de Lawrence abrir seus olhos sobre o que realmente está acontecendo. Enquanto isso vão acontecendo os preparativos da nova edição do campeonato juvenil de Karatê de West Valley. Neste turbilhão reaparecem rostos familiares do início da série, como Aisha (a iniciante Nicole Brown), antiga amiga de Samantha Larusso, e Raymond, o “Stinger” (Paul Walter Hauser, de Eu,Tonya), cuja necessidade de pertencimento para com o Cobra Kai tem importância pivotal nas tramóias de Terry Silver. Este encara a guerra dos dojôs como uma oportunidade comercial e, com seu senso de oportunidade, vai malandramente movendo as peças no seu tabuleiro...
 
 
Rostos familiares: voltam Aisha (Nicole Brown), amiga de Samantha Larusso e Raymond, o “Stinger” (Paul Walter Hauser). Ela, para matar saudades, ele, para marcar presença.

 
A produção continua afiada em seus valores, dentro dos custos orçamentários de um seriado televisivo, sabendo, de forma competente, fazer o barato parecer caro.
 
Miguel se prepara para o Baile da Escola, para a alegria de sua mãe Carmen Diaz (Vanessa Rubio), e sua avó Rosa (Rose Bianco).
 
 
O desenho de produção de Ryan Berg (Die Hart), a direção de arte de Eric Berg (Better Things) e Jonathan Diaz (The Resident), a decoração de sets de Liz Chatov e Andrea Ferguson (Lovestruck), mostram a diferença de classes sociais entre a casa moderna, sofisticada e luxuosa de Terry Silver, e a simplicidade dos condomínios populares onde moram Miguel e Johnny Lawrence (e até em relação a residência dos bem sucedidos Larusso). Eles também amplia as instalações do Miyagi-Do, em contraste com o galpão do Presas de Águia, que parece saído de um videoclipe dos anos 80/90.
 
No baile, a curtição de Miguel e Samantha é abalada pela chegada de seus ex Tory e Robby Keene, que são um casal difícil de ignorar.
 

 
A edição de Zack Arnold (Burn Notice), Spencer Houck (Cost of Living), Bartholomew Burcham (The Gifted), Dexter N. Adriano (Incorporated) e Bari Winter (No Escuro) - que, junto com os enquadramentos da fotografia de Paul Varrier (The Walking Dead) - criam bons momentos, como quando Johnny Lawrence e Daniel Larusso, como os dois lados e uma mesma moeda, finalmente medem forças (se equivalendo em suas diferenças) e ainda dão à ação um mix de coreografia de lutas com dança numa sequência do baile de formatura da escola. O baile, onde os casais Samantha-Miguel e Tory-Robby não se bicam, é um momento à parte. Os figurinos de Frank Helmer (A Rainha do Sul) enfatizam a diferença entre os elegantes jovens, como no contraste entre a meiguinha (mas que não leva desaforo para casa) Samantha e a Femme Fatale adolescente Tory (se a Marvel, quando reativar os X-Men, não a chamar para ser uma nova versão da jovem Jean Grey/ Fênix, será um desperdício!!!).
 
 
Robby e Tory demonstram grande desenvoltura tanto na dança, quanto na luta, inclusive mesclando as duas em suas coreografias.

 
 
A música de Leo Birenberg (Pretty People) e Zach Robinson (Homem-Formiga) continua de forma competente recheando a trilha de hits dos anos 80 e 90, como com o tema “Burning Heart” de Rocky IV, na marcante performance do grupo Survivor.
 
 
Chega o Torneio All Valley de Karatê Sub-18, onde a sorte dos dojôs é posta à prova com Samantha dando o seu melhor.

 
Ao final, tanto Daniel Larusso, o campeão do Miyagi-Dô, quanto Johnny Lawrence, o “herói quebrado”, encaram novos desafios, com um senso de dispersão de seus grupos em face aos avanços do Cobra Kai. Mas isso abre espaço para novos personagens e a volta de outros da franquia, como Julie Pierce (Hilary Swank, de Karatê Kid 4: A Nova Aventura) no que poderá ser (ou não) o fechamento da série. Pois a tendência após uma quinta temporada será o inevitável desgaste do programa, caindo na auto-paródia. Coisa que decididamente Cobra Kai não merece.


" - Mestre Miyagi, a coisa melou novamente..."



Notas:
 


*1: No seriado How I Met Your Mother o personagem Barney (Neil Patrick Harris, de Matrix Ressurrections) sempre demonstrou uma visão, digamos, deturpada sobre certas coisas. No episódio 15 da quarta temporada ele joga constantemente com isso, especialmente quando diz que torcia para Johnny Lawrence nos filmes de Karate Kid. Para Barney, Lawrence teve sua vida atrapalhada pelo jovem Daniel San, que chegou do nada na cidade e roubou sua namorada. A brincadeira fez tanto sucesso que, na penúltima temporada do seriado, os próprios Ralph Macchio e William Zabka fizeram uma participação. O que começou como uma brincadeira começou a tomar proporções maiores quando começaram a surgir teorias na internet de que, de fato, Daniel San seria o vilão dessa história. Surgiu inclusive um vídeo, que repassa toda a história dos filmes afirmando que Johnny estava em busca de deixar os erros no passado e começar uma nova vida ao lado de sua amada Ellie. E tudo isso teria dado errado com a chegada do violento Daniel Larusso à cidade. 
 
Confira: https://www.youtube.com/watch?v=C_Gz_iTuRMM&t=267s
 
 

*2: Highlander: o Guerreiro Imortal (1986), de Russell Mulcahy (O Sombra), foi um clássico de aventura fantástica tendo como protagonista Connor MacLeod (Christopher Lambert), um guerreiro escocês do século XVI que descobre ser imortal após sobreviver a um grave ferimento durante uma batalha. Expulso da sua vila sob suspeita de bruxaria, ele encontra um nobre espanhol chamado Juan Ramirez (Sean Connery), imortal como ele. Ramirez que lhe explica a casta que ambos pertencem e o ensina a manejar uma espada, pois a única forma de matar um imortal é cortando sua cabeça. Séculos depois, em 1986, MacLeod precisa enfrentar a batalha final contra um perigoso inimigo igualmente imortal.


 

"´É cara, parece que pisamos na bola em mais uma temporada..."

sexta-feira, 9 de julho de 2021

O amor de mil faces... - Crítica - Filmes: Todo Dia (2018)

 


Amar a mudança e abraçá-la...
 

por Alexandre César

(Originalmente postado em 12 / 07/ 2018)


Roteiro esperto e bons personagens cria romance fofo
 


 

-“Mamãe, eu sei que o papai mudou e não é mais aquele homem que você conheceu no passado, mas as pessoas mudam e isto pode fazer as pessoas se aproximarem mais ou se afastarem de vez. E na verdade, a senhora mudou também! Se aproximem de novo!”

 

A mais velha e maluquinha Jolene (Debby Ryan) e a doce e tímida Rhiannon (Angourie Rice): Irmãs unidas

Com esse diálogo, a jovem Rhiannon (Angourie Rice), uma garota de 16 anos, resume a mensagem de Todo Dia (2018, de Michael Sucsy), baseado no best-seller romântico juvenil de David Levithan. seu tema é a aceitação da mudança como algo inerente na caminhada da vida - seja pelo próprio processo do crescimento/ amadurecimento/ envelhecimento; seja porque, em decorrência de nossas experiências nesse processo, mudam as nossas prioridades, expectativas e tudo que nos fazem aceitar, mudar ou recusar coisas, valores ou até pessoas. Viver é aceitar a mudança e até ansiar por ela em alguns casos.
 
 
"A" começa o filme como Justin (Justice Smith)

 No filme, Rhiannon tem um dia para lá de especial com o seu namorado, Justin (Justice Smith), que acordou com um jeito e um olhar em relação a ela que a garota nunca havia visto, ficando gamada.

... reaparece como Amy (Jeni Ross)...

Mas, no dia seguinte, ele não se lembra de nada do que fez ou falou, voltando a ser o mesmo meia-boca de sempre. Intrigada, ela começa, ao longo dos dias, a ser abordada por vários(as) jovens, da mesma idade mas de tipos bem distintos, e constata, depois de certo ceticismo inicial, que está apaixonada por uma “pessoa” chamada "A" que habita um corpo diferente todos os dias, mudando sempre após a meia-noite.

... e depois como James (Jacob Batalon)...

 
Tendo uma conexão fortíssima, Rhiannon e A trabalham todos os dias para encontrar um ao outro, sem saber o que ou quem o próximo dia irá reservar. Quanto mais o romance progride, maiores são os desafios de amar alguém nesta condição, pois, cada dia, A pode mudar de tipo cultural, racial e gênero, levando o casal a refletir e tomar uma séria decisão sobre o seu relacionamento.
 
 
... depois como  Alexander (Owen Teage)...

Ao longo do filme vamos vendo o desenrolar do relacionamento dos dois, com lances divertidos (o garoto que diz ter sido “possuído pelo diabo” é hilário), tocantes e, em alguns momentos, com um certo potencial dramático, como quando A assume o corpo de uma jovem depressiva que planeja se suicidar.
 
 
... ou como George (Sean Jones)...

Neste processo vemos as questões que tanto assombram o universo adolescente, como a descoberta do amor, as inseguranças quanto ao futuro, a aceitação por parte dos pais, parentes e de si mesmos, o lidar com a própria identidade (seja CIS ou TRANS, pois A confessa que foi várias vezes, à medida que crescia, tanto namorado quanto namorada) de forma intensa e às vezes exagerada (como todo adolescente...). Tudo isso refletindo o universo teen millenial com a sua inserção cotidiana das redes sociais. Como A está sempre mudando, ele não leva nada da sua vida além das próprias lembranças e a sua conta do Instagram, que ele todo dia atualiza com uma foto da sua face do dia.
 
 
... ou ainda como Xavier (Colin Ford)...

 
a história se utiliza de facilidades para o roteiro andar. Se A não tem controle sobre em quem ele vai acordar no dia seguinte, porque ele sempre acorda (independente de gênero e raça) no corpo de um(a) adolescente típico(a) da classe-média americana, com smartphone, acesso a carro e sem ter de se preocupar com algo mais do que passar de ano e resolver as questões do coração? Queria ver se ele acordasse como um imigrante ilegal, um jovem do Harlem, ou qualquer outro fora do perfil do público consumidor do filme. Se ele tivesse de lutar para viver mais um dia, se deslocaria em busca de Rhiannon com a mesma paixão e ímpeto???
 
 
... depois como Nathan (Lucas Jade Zumann)...

O elenco afiado transmite simpatia e identificação, seja nas diversas faces de A ( Lucas Jade Zumman, Jeni Ross, Owen Teague, Jacob Batalon, Ian Alexander, Jake Sim, entre outros), seja na família da protagonista - que inclui a agitada Jolene (a ex-atriz Disney Debby Ryan, a eterna Jessie), a irmã mais velha de Rhiannon, no seu pai Nick (Michael Cram) e na sua mãe Lindsey (Maria Bello). Estes dois últimos vivendo uma relação de aparências. Seu pai surta após perder seu emprego de vendedor de seguros e sua mãe se vê obriga a assumir mais um emprego para manter as despesas da casa. Não dormem mais juntos e seu pai vive pintando quadros em busca de um “tempo perdido” e sua mãe parece estar envolvida com outra pessoa.
 

... e outros, como o Trans Vic (Ian Alexander)

Em função de sua situação romântica insólita, Rhiannon acaba confrontando a sua própria recusa em querer encarar o quadro disfuncional de seus pais e em procurar entender o lado de cada um dos dois. Deste confronto vem o diálogo reproduzido no início este texto, que enfatiza a questão da mudança e de que nem tudo é para sempre, mas cada um e cada coisa tem o seu próprio tempo para mudar, seja longo ou curto, e que o tempo de cada um não define que haja um melhor ou pior do que o outro. O que importa apenas é o quanto esta mudança nos fez crescer e seguir adiante, guardando no processo os bons momentos e agradecendo por eles existirem e só.
 
Mudar ou não mudar: Eis a grande mudança!
 
E entre uns e outras, como Hannah (Karena Evans) "A" dá um selinho em Rhiannon