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terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Crítica - Filmes: Turma da Mônica : Lições (2021)

 


Divertido e Profundo

por Alexandre César

A nova e visceral, aventura da turminha
 


 

 

Após passarem todo o final de semana ensaiando uma peça para o festival de teatro da escola, Mônica (Giulia Benite), Cebolinha (Kevin Vechiatto), Cascão (Gabriel Moreira) e Magali (Laura Rauseo) acabam esquecendo de fazer a lição de casa e resolvem matar a aula, saindo escondidos da escola, resultando num acidente e, eles acabam tendo que lidar com as consequências deste erro, enquanto descobrem o verdadeiro significado da palavra amizade.
 
 Plano Infalível: Cebolinha (Kevin Vechiatto), Magali (Laura Rauseo), Cascão (Gabriel Moreira) e Mônica (Giulia Benite) tentam fugir da escola, só que não...

 
 
Dirigido novamente por Daniel Rezende (Bingo: O Rei das Manhãs de 2017) Turma da Mônica: Lições (2021) deixa um pouco de lado o tom aventuresco do primeiro filme, e investe com sensibilidade, e muito bom humor, nas dores do crescimento e da necessidade de conciliar a responsabilidade, sem abrir mão dos sentimentos, fazendo deste o mais visceral filme da Turma do Bairro do Limoeiro, colocando seus protagonistas numa jornada de amadurecimento, e de auto -aceitação de si mesmos na medida em que aprendem a sair de suas bolhas, e conhecer o outro.
 
 
 
Capa da Graphc Novel dos irmãos Caffagi na qual o filme se baseia

 
Assim, Dona Luíza, a mãe (Monica Iozzi) e seu Souza, o pai da Mônica (Luiz Pacini), resolvem colocá-la numa nova escola, em tempo integral, para que ela conheça novas crianças e faça novas amizades; Seu Cebola da Silva (Paulo Vilhena) e a Dona Cebola da Silva (Fafá Rennó) colocam Cebolinha numa fonoaudióloga (para deixar de trocar os “Rs” pelos “Ls”); Seu Paulinho Lima (Beto Schultz) e Dona Lili (Ana Carolina Godoy) matriculam Magali numa escola de culinária para que ela aprenda a controlara a sua ansiedade quanto à comida e, Seu Antenor (Adriano Paixão) e Dona Lurdinha (Angélica Paula) matriculam Cascão numa escola de natação esperando que seu filho supere o medo de água...
 
 

Com um braço fraturado e isolada de seus amigos, Mônica se retrai

 
Com estes desafios, Cebolinha tem de encarar que mesmo sem Mônica no pedaço, ele não é o “Dono da Lua” pois o vácuo da ausência da “- Baixinha! Golducha! Dentuça!” é preenchido por Tonhão (Marcos Felipe Bojar) que passa a lhe fazer bullying, tendo de se esconder na hora do recreio; Magali tem de encarar suas inseguranças, Cascão tem de bolar estratagemas para evitar cair na piscina e a tão autoritária Mônica, se retrai por não conhecer ninguém na escola, ficando fragilizada à ponto de perder uma disputa com Pedrão (Vitor Queiroz) um garoto grandão e cabeludo, tipo emo.
 
 
Na nova escola, Mônica se ampara na  Professora (Malu Mader)

 
O roteiro de Thiago Dottori (Psi) com a colaboração de Mariana Zatz (Ninguém Tá Olhando) e Marina Maria Iono (Bugados) baseado na graphic novel dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, trabalha com as motivações dos personagens e seus sentimentos, sem cair na farofada sentimentalóide e banal investindo em seu âmago de forma segura. É particularmente sagaz a forma como o roteiro faz as crianças entenderem o paralelo entre as hostilidades entre as famílias de Mônica e Cebolinha e a dos Capuletos & Montechios de Romeu e Julieta, a peça que eles estavam ensaiando (e aqui um grande easter-egg com uma das publicações clássicas dos personagens, já levada à animação ao teatro) mas até lá
A montagem de Marcelo Junqueira (Legalize Já- Amizade Nunca Morre de 2018) que imprime um ritmo certo à narrativa, dosando os momentos de ação e brincadeira com outros mais sensíveis e reflexivos, como quando dentro da máxima “os adultos brigam, as crianças sofrem”, é particularmente tocante a cena em que uma Mônica solitária, ao dormir, pega seu coelhinho Sansão e ela mesma, chorando, lhe amarra as orelhas, para assim sentir a presença de Cebolinha. Mais profundo que muita cena de novela... 
 
 
Comunidade alternativa:Tina (Isabelle Drumond), Rolo (Gustavo Merighi), Pipa (Camila Brandão) e Zecão (Fernando Mais) dão o toque universitário à história

 
 
Mas é claro que nossos heróis vão encarando seus desafios e, com o surgimento de novos amigos, vão encontrando os seus “caminhos das pedras” para vencer os empecilhos. É particularmente reconhecermos personagens deste universo ficcional surgirem para dar uma força, e então ao longo do filme surgem, do lado da Mônica Tina (Isabelle Drumond) Rolo (Gustavo Merighi), Pipa (Camila Brandão) Zecão (Fernando Mais) uma trupe de jovens de estilo universitário (e meio riponga), a desenhista Marina (Laís Villela), Dudu (Giovani Donato) o primo de Magali, e alguns conselhos ainda lhe são dados por sua Professora (Malu Mader). Magali faz amizade com a meiga Milena (Emily Nayara) que lhe apresenta o gato Mingau, e Tia Nena (Eliana Fonseca) sua professora de culinária lhe ensina que fazer a comida é uma forma de degustá-la com todos os sentidos, sendo o paladar o último a ser experimentado (controlando assim sua compulsão). Cascão conta com o insólito Do Contra (Vinícius Higo) para entender que ele pode fazer tudo que os outros fazem e ainda assim ser único, e Cebolinha no banco de espera da fonoaudióloga, toma o mudo e comunicativo Humberto (Lucas Infante), como “analista” para verbalizar o quanto Mônica é importante para ele. Todos do seu jeito vão absorvendo as “Lições” do título, de forma orgânica, e bem humorada.
 
 
Logo Mônica faz amizade com a desenhista Marina (Laís Villela),


 
No ato final temos a reunião do grupo, com o reforço de personagens conhecidos como Nimbus (Rodrigo Kenji), e o engenhoso Franjinha (Tiago Minski Schmitt), elemento-chave para o time conseguir montar a peça no festival da escola e apaziguar os ânimos numa montagem toda própria dos Apaixonados de Verona que embora diferente em seu final, provavelmente Shakespeare curtiria...
 
 
Dentre s novos rostos, temos a meiga Milena (Emily Nayara)que cuida de animais

 
Visualmente belo, o filme conta com ótimos valores de produção como o desenho de produção de Cássio Amarante (As Melhores Coisas do Mundo de 2010 e Bingo: O Rei Manhãs) e a direção de arte de Mariana Falvo (Órfãos do Eldorado de 2015 e O Doutrinador de 2018) que recria o Bairro do Limoeiro nas ótimas locações de Minas Gerais*1 com sua pracinha com barraquinhas de sorvete e cachorro-quente e banca de jornais, de aspecto atemporal, misto de cidade do interior e subúrbio dos anos 60/70 e suas casinhas com telefones fixos e vários elementos auxiliados pelos efeitos visuais de Natália de Martini (Uma Quase Dupla) e Marco Prado (Acquaria) permitindo-nos ver rapidamente numa cena Bidu, o cachorro azul do Franjinha (Floquinho, que roubou a cena no filme anterior é o grande ausente) apesar de ser uma produção mais enxuta que seu antecessor, que teve de encarar cortes e adiamentos*2.
 
 
Tia Nena (Eliana Fonseca) ensina à Magali a como controlar o seu apetite através da culinária

 
Não faltam citações à personagens do universo de Maurício de Souza como Jotalhão, Horácio e até Bugu. Os figurinos de Fernanda Marques (Hard) e Manuela Mello (Malasartes e o Duelo com a Morte de 2017)  definem e caracterizam bem os personagens sem deixá-los datados, e a bela fotografia de Azul Serra (O Mecanismo) com rica palheta de cores, tendo boas nuances de claro e escuro mantendo o clima lúdico da trama, embalado pela trilha sonora de Fabio Goes (Mulheres Alteradas de 2018).
 
 
Do Contra (Vinícius Higo) leva o Instrutor de natação (Augusto Madeira) ao limite

 
Ao final Turma da Mônica: Lições segue firme mantendo o rumo das jornadas de vida da Turma do Bairro do Limoeiro trabalhando a dinâmica Mônica-Cebolinha, e sua relação de antagonismo (e mais adiante atração), abrindo caminho para Lembranças, a terceira obra dos irmãos Cafaggi, mas que, devido ao inevitável crescimento se seu elenco juvenil, talvez a produção se veja obrigada à escalar novos atores ou, incorporar este crescimento, dando um enfoque mais próximo da Turma da Mônica Jovem, a bem-sucedida versão mangá destas personagens, levando os embates à outros patamares, que possivelmente os levarão a serem um casal no futuro, mas até lá, muitas surras Mônica dará em Cebolinha, e desencontros ocorrerão, à despeito de seus “planos infalíveis” que nunca dão certo...

As locações em Poços de Caldas se mostraram mais do que adequadas pra recriar o "Bairro do Limoeiro" de forma crível e aconchegante





Notas:
 
*1: O filme foi gravado inteiramente em Poços de Caldas, MG. O elenco chegou no local das filmagens no dia 7 de janeiro de 2020, e voltaram para São Paulo após o termino das filmagens no dia 12 de fevereiro de 2020, poucas semanas antes da pandemia do COVID-19 no Brasil.
 
*2: Inicialmente o filme estava marcado para o dia 8 de outubro de 2020. Depois foi adiado para 10 de dezembro de 2020. Porém foi novamente adiado (devido `pandemia do COVID-19) para o dia 24 de Junho de 2021. Até recentemente o filme estava programado para estrear no dia 30 de dezembro de 2021 nos cinemas.


"- Ó minha amada Julieta! Espelo que semple se lemble de mim!!!"


terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Crítica - Filmes: Turma da Mônica : Laços (2019)

 


Lúdico, Divertido e Cativante!!!

por Alexandre César 
(Postado originalmente em 16/07/2019)

A "Turma do Bairro do Limoeiro" mostra serviço, e bem!!!

 


O "Fab Four" ou o "Quarteto Fantástico" dos quadrinhos brasileiros

 

Aqui no Brasil, todos que nasceram depois de 1959 em algum momento de sua vida travou contato com uma turminha composta por uma menina magrinha e comilona vestida de amarelo. Um garoto também de amarelo e shorts vermelhos não muito chegado a um banho, um outro de camisa verde e shorts pretos de cabelo pontudo que falava trocando o “R” pelo “L” e uma menina mandona, dentucinha e invocada que com seus punhos e munida de seu letal coelho de pelúcia, que usa como clava ou como petardo teleguiado tal qual o Mjolnir do ”Deus do Trovão” da Marvel, não deixava pedra sobre pedra. Reconhecem?


Mãe e filha: Dona Luiza (Monica Iozzi) e Mônica (Giulia Benite).



Tendo surgido como uma resposta brasileira à Turma da Luluzinha (e do Bolinha) e rapidamente ganhado identidade própria, A Turma da Mônica, criação de Maurício de Souza vem à cerca de sessenta anos encantando gerações de crianças, que cresceram lendo os seus quadrinhos, tiveram filhos que se tornaram fãs da turma e, por sua vez cresceram, tendo filhos que também acompanharam as aventuras da turminha na sua versão tradicional ou, na sua   “versão mangá” A Turma da Mônica Jovem, um sucesso de vendas entre revistas, livros, brinquedos, roupas, animações e um bom número de colecionáveis, faltando apenas o desafio supremo de uma versão live action, coisa das mais arriscadas, uma vez que a tradução do traço impresso para atores de carne e osso já resultaram em traumáticos projetos que afundaram franquias promissoras. Normalmente não existem “mais-ou-menos” neste ramo do cinema, ou seja: É “ou vai, ou racha”, e muitos naufragaram...
 
 

Alguém duvida sobre quem é quem???

Dirigido por Daniel Rezende (Bingo: O Rei das Manhãs de 2017) Turma da Mônica: Laços (2019) resgata com garra, sensibilidade e muito bom humor a magia dos personagens em perfeita sintonia com a expectativa do público-alvo. O roteiro de Thiago Dottori (da série Psi da HBO) define bem os seus personagens e suas motivações sem perder-se em banalizações ou psicologismos rasteiros. Na trama Floquinho (um Lhasa Apso colorido digitalmente de verde) o cachorro de Cebolinha (Kevin Vechiatto) é raptado pelo “Homem do Saco” (Ravel Cabral) que rouba diversos cães para fins escusos. Desconsolado, ele recorre aos seus amigos a comilona Magali (Laura Rauseo), o cheiroso e fiel parceiro Cascão (Gabriel Moreira) e a invencível Mônica (Giulia Benite) para pôr a prova o seu plano infalível de resgate...
 


Cascão (Gabriel Moreira) o eterno fiel escudeiro avesso á banho

 
Baseado na graphic novel dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, e mesclando elementos de Lições, a obra seguinte da série, a alma do filme na realidade é a jornada de amadurecimento (mas não tanto...) de Cebolinha, e a sua relação de antagonismo (e mais adiante atração) por Mônica, resgatando um dado pouco conhecido atualmente: Originalmente o grupo era A Turma do Cebolinha, e se vocês tiverem acesso à primeira grande aventura  A Invasão dos Homens de Lata vemos o garoto que troca os  “Rs” pelos “Ls” exercendo com grande desenvoltura o papel de líder e estrategista do grupo, algo que posteriormente mudaria com a ascensão da empoderada “- Baixinha! Golducha! Dentuça!” relegando-o ao papel de obsessivamente querer ser o “o dono da lua” , fazendo  “planos infalíveis” que nunca dão certo, resultando numa bela surra nele e no fiel escudeiro Cascão. Até mesmo no elenco adulto, em que pese a presença da Dona Luíza, a mãe (Monica Iozzi) e seu Souza, o pai da Mônica (Luiz Pacini), temos maior destaque na família do Cebolinha, com Seu Cebola da Silva (Paulo Vilhena) usuário do “Cabelol”, produto para queda capilar (gravem o nome!) e principalmente a Dona Cebola da Silva (Fafá Rennó) numa performance sensacional feita de olhares e sutilezas, roubando para si a atenção da audiência, não deixando dúvidas de que é uma “MÃE”.  
 


A meiga e gulosa Magali (Laura Rauseo) e seu apetite industrial por melancias

 
Cabe aqui o destaque da incrível participação do Louco (Rodrigo Santoro de Westworld da HBO) que incrivelmente caracterizado serve como um guia espiritual de Cebolinha, levando-o a refletir sobre o valor dos vínculos (Laços) de amizade e o valor do grupo, fazendo-o ser menos egocêntrico e realmente assumir o seu protagonismo como líder estrategista. O resto do elenco não tem tanto destaque pois o show é dos protagonistas-mirins, dos quais, em nenhum momento duvidamos de suas identidades. Apesar de Magali e em especial, Cascão terem seus grandes momentos é na dinâmica Mônica-Cebolinha que o filme se apoia, mostrando que os embates dos dois futuramente os levarão a serem um casal no futuro, mas até lá, muitas surras ela dará nele. personagens como Titi, Xaveco, Jeremias, e Cascuda entre outros são facilmente reconhecidos, mas são apenas figurantes, sendo o engenhoso Franjinha e seu cachorro azul Bidu as grandes ausências. Talvez deêm as caras no próximo filme...  
 


O Louco (Rodrigo Santoro) numa performance excepcional, servindo de "sensei-qualquer-coisa" de Cebolonha (Kevin Vechiatto)

 
Visualmente o filme é belíssimo, com ótimos valores de produção como o desenho de produção de Cássio Amarante (As Melhores Coisas do Mundo de 2010 e  Bingo: O Rei das Manhãs) e a direção de arte de Mariana Falvo (Órfãos do Eldorado de 2015 e O Doutrinador de 2018) que recriam o microcosmo do Bairro do Limoeiro e sua pracinha com barraquinhas de sorvete e cachorro-quente e banca de jornais (reparem em quem é o “Stan Lee” do filme) como algo atemporal, misto de cidade do interior e subúrbio dos anos 60/70 e suas casinhas com telefones fixos e vários elementos evocando personagens do universo de Maurício de Souza como bonecos de Jotalhão e Horácio, ou um cemitério abandonado cujos elementos remetem ao universo do Penadinho


Cebolinha aqui faz a sua "Jornada do Herói", recuperando um protagonismo há muito perdido
 
 
Os figurinos de Fernanda Marques, Veronica Julian (Malasartes e o Duelo com a Morte de 2017) e Manuela Mello definem e caracterizam bem os personagens sem deixá-los datados, e a bela fotografia de Azul Serra (da série O Mecanismo da Netflix) trata as cores e as nuances e claro e escuro de forma precisa, se casando harmoniosamente com a montagem de Marcelo Junqueira (Legalize Já- Amizade Nunca Morre de 2018) e Sabrina Wilkins (O Dourtinador) que imprime um ritmo certo à narrativa, dosando os momentos de ação e brincadeira com outros mais sensíveis e reflexivos como quando Cebolinha consegue levar Mônica às lágrimas e não apanhar dela (acreditem!) tudo bem embalado pela trilha sonora de Fabio Goes ( Mulheres Alteradas de 2018), e o tema de Tiago Iorc.

 
Seu Cebola da Silva (Paulo Vilhena) o usuário do "Cabelol", produto para a calvície



Ao final saímos da sala com um sorriso nos lábios e uma lágrima de satisfação por termos presenciado um feito do moderno cinema brasileiro realizado com maestria, sendo capaz de encantar da mais ingênua e pura criança ao mais crítico ancião, mostrando uma oportunidade de sonhar liricamente e dar boas risadas com velhos amigos que sempre fizeram parte da família brasileira e mundial enfrentando o mal não com armas e traições, mas com  “planos infalíveis” e coelhinhos de pelúcia.

 
O microcosmo do " Bairro do Limoeiro" é recriado à perfeição


 A julgar pelo hype gerado pelo filme uma continuação é quase certa e esperemos que seja rodado no menor tempo possível, aproveitando o crescimento do elenco tal qual na cine série Harry Potter, o que permitiria mostrar a inevitável transição de seus intérpretes da infância para a adolescência e, talvez a um terceiro ou quarto filme, já baseado em  A Turma da Mônica Jovem, completando assim um arco da vida desses personagens tão queridos. Fica a dica...


E que venham as sequências!!!




 

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Encontrando o próprio mérito... - 3% – 3ª Temporada

 por Alexandre César


 

Apesar de tropeços, série cresce e se firma

 

    - Eles dizem que os 97% não prestam mas eu digo que não, e vamos provar para eles o quanto estão errados!”
 
 
    Com esta frase de Michele Santana (Bianca Comparato de Somos Tão Jovens) define o seu projeto de comunidade logo no início da 3ª temporada de 3%, a produção sci-fi nacional que que tornou-se a primeira aposta da Netflix e dividiu opiniões no país, mas fez um grande sucesso fora, mostrando que a alta expectativa do público nacional pode ter atrapalhado mas, superando os desafios e, principalmente os preconceitos típicos do próprio brasileiro, que costuma ser demasiado crítico a produções que fujam ao lugar-comum do que seria uma “produção nacional”, falada em português (o idioma que boa parte do público prefere trocar pela dublagem em inglês, alegando muitos, que deixa a história “mais natural de seguir...” ).

 

Irmãos: Rafael (Rodolfo Valente, deitado) e seu maninho Artur 
(Léo Belmonte) tem bons momentos de união e conflito...
 
Joana (Vaneza Oliveira) e Natália (Amanda Magalhães) se tornam
os últimos membros da "Causa" e procuram formas de seguir 
com o movimento...
 
 
 De qualquer forma, o seriado criado por Pedro Aguilera (Onisciente) evoluiu bastante no segundo ano, aumentando o número de locações e complexidade da história, e isso permanece na terceira temporada, que é uma releitura direta da primeira, levantando os mesmos assuntos discutidos sob uma mesma filosofia e ambiente, lembrando o teor chocante da 1ª Temporada, e realçando questões marcantes e sequências inspiradas.
 
O CGI das panorâmicas do "Continente" continuam com um 
"quê" de vídeogame, agora parte da assinatura visual da série...
 
 
Michele realizou o sonho de Samira, uma das fundadoras (varrida para debaixo do tapete da narrativa oficial...) do Maralto e fez a Concha, uma alternativa ao próprio Maralto e ao Continente. Neste local, há um trabalho coletivo para fazer algo bom para todos, numa utopia que reflete bastante a construção ideológica inicial adotada pelo Maralto.  
 
A Comandante Marcela (Laila Garin) faz uma "oferta irrecusável" 
à Michelle, mas ela a rejeita...
 
Michelle, que tanto odiava o "Processo", acaba sendo 
obrigada à criar uma seleção similar à do "Maralto"...
 
 Como mostrado na temporada anterior, os fundadores queriam que o local tivesse um nível impossível de perfeição, após todos os problemas do Continente. Mas, para a narrativa se aprofundar, o sonho da Concha entra logo no começo em colapso, não por um acontecimento mirabolante, mas por uma tempestade de areia aleatória surgida do nada (o que leva a pensar como raios, ergueram uma super construção no meio do deserto mas não tinham um plano de defesa contra tempestades de areia e só a perceberem quando ela já havia chegado, apesar de terem um sistema de monitoramento 24 horas,...) fazendo com que Michele tome uma decisão extrema: é necessário selecionar quem ficará ou não no local, reduzindo o contingente populacional a... 10%. Familiar, não?
 
Descobrimos que o "Casal Fundador" Laís 
(Fernanda Vasconcellos) e Elano (Silvio Guindane) tiveram 
de abdicar de sua filha Tânia para o "processo"...
 
Dividida sobre as suas lealdades Elisa (Thais Lago) ajuda Rafael 
(que está escondido) que convence o irmão Artur a 
lhe dar mais uma chance...
 
Assim, a terceira temporada de forma muito inteligente espelha a primeira, brincando com a nossa percepção sobre “certo” e “errado”, repetindo, na Concha, o tão demonizado processo de seleção feito pelo Maralto, ainda que com outros contornos, e nisso fica indefinido para qual lado torcer, se para os eliminados do processo ou para os que ficam na Concha, sendo as provas desenvolvidas por Michele criativas e instigantes, não tendo aquele tom de eliminação de “Reality Show” que as provas do processo do Maralto tem, até porque como a própria Michele repete várias vezes: “nenhuma seleção é justa”, mas infelizmente, dessa vez, a protagonista não cresce na temporada tão bem quanto os outros personagens, perdendo a chance de de entregar grandes cenas de introspecção e reflexão, fruto dos muitos altos e baixos decorrentes de ver o sonho da Concha não sair como o esperado, obrigando-a à criar um “Processo” contra sua vontade; e nisso vendo como as pessoas que antes a amavam começam a odiá-la rapidamente, fruto do quanto ela fica solitária nestes momentos (assim como aconteceu com o Casal Fundador, apresentando o que há por trás de tais decisões) e como, muitas vezes, o autor da prova também colhe frutos amargos com seus resultados.
 

Marcela, e André (Bruno Fagundes) o irmão ardiloso de Michele, 
no final "Criaram uma 'dificuldade' para venderem uma 'facilidade'" no melhor estilo brasileiro...
 
 
Há na trama um claro salto de tempo depois que a Concha é formada, unindo personagens de diferentes núcleos, parecendo inicialmente confuso, mas todas as tramas da história vão ganhando espaço em flashbacks muito bem encaixados para contar pontos da história, como quando o conselho do Maralto institui a esterilização de sua população, pois se a sua população se reproduzisse, junto com aporte anual de finalistas do Continente, logo os recursos de produção de alimentos, habitação, etc... seriam comprometidos); ou, quando descobrimos quem fundou A Causa, o movimento de resistência que combate O Processo, ou ainda quando se detalha mais o passado da Comandante Marcela (a ótima Laila Garin de Chacrinha: O Velho Guerreiro) e sua relação com Leonardo, seu pai e membro do Conselho do Maralto (o cantor Ney Matogrosso, numa boa e seca atuação) e o peso de carregar o nome Alvares, deixando-a mais tridimensional do que uma mera  “vilã à Game of Thrones. Ainda temos ao final um movimento arriscado de André, o irmão ardiloso de Michelle (Bruno Fagundes de Sense 8) contra a autoridade de Nair (Zézé Motta de Xica da Silva) e o conselho. Todos esses possíveis desdobramentos estavam presentes desde o começo da série, ficando agora melhor definidos em termos dramáticos.
 
A direção de arte cria ambientes de aspecto orgânico e funcional 
para a "Concha", cujos corredores labirínticos, lembram 
as circunvoluções de uma concha real...
 
 
Nesta temporada temos um amadurecimento sólido de seus personagens, com destaque para Marco Alvares (Rafael Lozano de Marighella); Rafael Moreira (Rodolfo Valente de 13 Andares numa ótima performance) que cria uma boa sinergia com seu irmão caçula Artur (Léo Belmonte de Patrulha Salvadora); Glória (Cynthia Senek de Malhação) que deixa de ser a “menina meiguinha da igreja” e assume um protagonismo ainda que questionável; Xavier (o iniciante Fernando Rubro)um quase alívio cômico e, temos Joana Coelho (a excelente Vaneza Oliveira de Mãe não chora) que continua sendo a personagem forte (e uma das mais verdadeiras de toda a história), que desconfia de todo e qualquer “salvador”, incluindo Michele, mas apesar de incrédula, ela se permite conhecer a Concha e reconhece o seu potencial, ficando receosa com o rumo que as provas do “novo Processo” levará a comunidade que era para ser “uma alternativa ao estabelecido pelo Maralto”. Joana também se deixa, finalmente, levar pelos sentimentos e aceita o amor, numa mudança lenta e gradualmente construída ao longo da temporada.
 
André e Marcela instigam a rebelião na "Concha" para tomarem 
conta de tudo dentro da "legalidade"...
 
 
A fotografia impecável de Rafael Martinelli (Tempero Secreto) e Eduardo Piagge (Onisciente) com sua palheta de cores quentes que a edição de Vinicius Prado Martins (Fortunato) Olivia Brenga (Bixa Travesty) Ricardo Gonçalves (O Menino que Matou Meus Pais / A Menina que Matou os Pais) Christian Chinen (Música para Morrer de Amor) complementa num ritmo encadeando lirismo ao conhecermos os filhos de alguns personagens, percebendo o olhar infantil e o tom mais cinético quando a população se rebela contra Michelle, lembrando um mix de timbalada, culto evangélico e ato público populista, permeada pela música do estúdio Submarino Fantástico (Em Nome dos Pais) e André Mehmari (Gigantes do Brasil) que trabalha bem os momentos dramáticos e sublinha um certo lirismo e desilusão, como quando em sua seleção inclui na sequência da tomada da Concha a interpretação inspirada de Johnny Hooker para Bom Conselho de Chico Buarque, ou Mulher do Fim do Mundo interpretada por Elza Soares refletindo a reflexão de Joana sobre tudo à sua volta.
 
Leonardo (Ney Matogrosso) o pai de Marcela e o mais célebre dos 
"Alvares", a família tradicional que sempre passou no "Processo"...
 
A "Concha" abriga em seu interior um equipamento que poderá
 permitir à "Causa" dar o troco no "Maralto", que ferrou com o 
"Continente" há um século, criando a disparidade social da série...

 
A direção de arte de Fernando Zucolotto (Onisciente) e a decoração de sets de Mario Surcan (Solo) define bem o espírito da Concha, que contrasta o uso de materiais naturais em com a tecnologia sutil e avançada do Maralto, num minimalismo elegante e funcional, além de soluções criativas ao mostrar o aspecto miserável do Continente como um quebra-cabeças faltando inúmeras peças como o trecho em que Joana e Natália (Amanda Magalhães de Psi) fogem dos soldados passando de andaimes e aramados, para trechos de habitações danificadas e até seções de aviões de passageiros desativados, num grande ferro-velho, coisa que se reflete nos figurinos de Graciela Martins (Trabalhar Cansa) que flerta com o estilo “Mad Max” das roupas de guerra de Glória e de Marco quando estes vão à luta.
 
Glória (Cynthia Senek) e Marco (Rafael Lozano): O 
novo "Casal Fundador"???
 

Ao refletir temas da primeira temporada, 3% entrega em sua terceira temporada a mensagem de que a história é cíclica e, apesar das diferenças, ela está condenada à repetir-se, como demonstra a mudança rápida de opinião dos moradores da Concha mostrando o quanto a humanidade sempre está vulnerável ao discurso de “messias”e de “grandes salvadores”, mostrando com profundidade em seu texto que 3% ainda pode ser considerada uma grande produção brasileira, e não apenas a “primeira produção nacional da Netflix, tendo a crítica como elemento secundário e imaginário nesta trama que discute meritocracia e desigualdade social sem o semblante que narrativas do gênero que sempre lembram o espectador de que ele está assistindo a um projeto que quer alfinetar alguém ou alguma coisa, e assim pavimenta o seu caminho rumo à um futuro conflito que deverá encerrar as histórias de seus personagens e (se continuar com a coragem mostrada até aqui...) podemos esperar uma 4ª Temporada com tudo para terminar com uma mensagem realmente importante ao seu público.


Como diria a música: " -Vamos quebrar tudo...! Vamos, vamos..."

Quatro temporadas. Um feito e tanto apesar dos incidentes de percalço decorrentes do Brazill não conhecer e não gostar do Brasil...

O futuro, à audiência pertence...