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sexta-feira, 9 de junho de 2023

Escultor Cósmico de Seres Vibrantes - In Memorian: George Pérez

 


O Rei das Multidões 

por Carlos Vinicius Marins & Alexandre César

Da Marvel à DC, juntas e misturadas simultaneamente

 

 "Não espere a oportunidade, crie a oportunidade"

(George Perez ✰ New York, 09/ 06/1954 – ✝ Los Angeles, 06/ 05/ 2022)

 

Quando jovem na F.O.O.M. (fanzine da Marvel), como uma estrela em potencial

Um artista de traço limpo e detalhado - EXTREMAMENTE DETALHADO - e que, ainda sim, dificilmente atrasava nos prazos de entrega dos trabalhos. O sonho de consumo de qualquer editora no mercado ultra competitivo dos comics americanos. Uma luz que brilhou intensamente por quase 50 anos, tal qual um farol que iluminava a tudo que desenhava ou arte-finalizava.

 

Não importava o tamanho da página ou do quadrinho, o nível do detalhamento se mantinha

Nesta sexta-feira (06/05) faleceu um dos mais admirados artistas do mercado de quadrinhos - George Pérez, com 67 anos - em decorrência de um câncer pancreático no estágio 3. Perez anunciou sua condição nas suas redes sociais em dezembro do ano passado, quando disse também que não pretendia se submeter a tratamento indicado, que seria muito agressivo e não tinha grandes possibilidades de êxito. Preferiu ficar o tempo que lhe restava - de seis meses a um ano - ao lado de sua família e em contato com seus fãs, participando da maior quantidade de eventos de quadrinhos e cultura pop que pudesse para se despedir dos que o admiravam.  

 

O jovem Pérez fez história ao trabalhar simultaneamente para as duas grandes editoras concorrentes do mercado norte-americano 

Nascido em Nova York, numa família porto-riquenha, George já havia definido que a profissão que iria seguir seria a de desenhista muito cedo, aos cinco anos de idade. Seu primeiro trabalho de peso nos quadrinhos foi pela Marvel, quando se tornou responsável pela arte da revista dos Vingadores, em 1975. Está fase será relançada aqui no Brasil em breve pela Panini Comics. Não demorou para pegar outro grande título no mesmo período: o Quarteto Fantástico, cuidando das duas revistas ao mesmo tempo. 

 

Os Novos Titâs: Destaque da grande parceria com Marv Wolfman

Com uma fama já estabelecida de trabalhar bem com super grupos, em 1980 George começou a trabalhar também o para a DC Comics, cuidando da arte da revista dos Novos Titãs, um antigo grupo de jovens heróis da editora. A ideia era fazer do título um rival a altura do novo grande sucesso da Marvel: os X-Men, outro grupo de heróis que estava no limbo e foi de revitalizado. Para Perez era a oportunidade de ir para editora e talvez pegar seu título dos sonhos da editora: a Liga da Justiça. Ele conseguiu realizar seu desejo: com o falecimento de Dick Dillin, que estava a frente das ilustrações da revista a anos, George passou a acumular a arte das duas grandes equipes da casa - que chegaram a se encontrar numa história ilustrada por ele na revista dos Titãs. Durante um tempo, para seu deleite, ele chegou a desenhar ao mesmo tempo HQs da Liga e dos Vingadores. O sucesso da jovem equipe, porém, foi tão arrebatador que ele acabou deixando de lado a Liga, dedicando-se quase exclusivamente a eles. 

 

A morte da Supergirl, num dos momentos-chaves de "Crise nas Infinitas Terras"

Como George cuidou muito bem da arte dos Vingadores e da Liga da Justiça, se tornou o artista perfeito para a desenhar um crossover entre as duas. Marvel e DC já haviam publicado desde a década anterior alguns encontros entre seus heróis e essas histórias se tornavam grandes eventos. George chegou a desenhar mais de 20 páginas da HQ quando o acordo para o projeto foi desfeito devido a desavenças editoriais. O sonho foi adiado, mas Pérez acreditava que ele um dia iria acontecer.  

 

A reformulação da Mulher-Maravilha: Maior fidelidade à mitologia grega, um empoderamento real e um perfil mais atlético condizente com uma guerreira amazona

Em 1984 George deixou de desenhar os Titãs para cuidar de uma empreitada de fôlego, sem precedentes no seu alcance. Com o mesmo roteirista dos Titãs, Marv Wolfman, ele desenvolveu Crise nas Infinitas Terras, uma longa HQ que reunia praticamente todo o elenco de personagens da DC Comics e que reestruturou drasticamente todo o seu universo ficcional, procurando atualizá-lo para os novos tempos. A série se tornou a maior referência para para mega sagas que se tornariam lugares-comuns desde então nas editoras norte-americanas.  


 

No Brasil, na FIQ de 2013, parodiando com uma cosplayer sua icônica capa de "Crise nas Infinitas Terras"

Ao término da saga, as histórias de quase todos personagens da editora passaram a ser recontadas do zero. Grandes artistas ficaram responsáveis por cuidar dessa renovação, cada um cuidando de um herói. Com o sucesso da minissérie O Cavaleiro das Trevas, Frank Miller cuidou do Batman. John Byrne veio da Marvel, onde fez sucesso com seu trabalho em X-Men e Quarteto Fantástico, para trabalhar com o Superman. Coube a George Pérez revitalizar a mais conhecida das super-heroínas: a Mulher-Maravilha. 

Apesar de ser a mais conhecida super-heroína dos quadrinhos - muito devido ao popular seriado de TV dos anos 70, protagonizado por Lynda Carter -, a Mulher-Maravilha nunca tinha passado por uma fase verdadeiramente memorável nas HQs, sendo mais lembrada até então pelo que ela representava do que por suas histórias - Diana sempre foi um ícone do feminismo desde sua criação, ainda nos anos 40.

Mulher-Maravilha. Após a fase inicial da personagem, em 1941, a sua fase mais marcante é a de George Pérez

Pérez pegou uma proposta do escritor Greg Potter e reinventou a personagem-tipo , com o auxílio dos roteiristas Len Wein e Mindy Newell, deixando a Mulher-Maravilha com mais profundidade e personalidade, trabalhando sua dualidade de Guerreira e Embaixadora da Paz, lhe dando um background mais coeso e interessante, cimentando de forma mais eficaz sua relação com a mitologia grega, criando personagens secundários com os quais nos importarmos e finalmente lhe dando um elenco de vilões de primeira grandeza: Ares, o Deus da Guerra; Circe, a lendária Feiticeira Grega (que se tornou sua maior inimiga); e as revisadas e melhoradas Cisne de Prata e Mulher Leopardo

    Ares: o Deus grego se torna um dos maiores vilões da Princesa Amazona e torna-se o antagonista de seu primeiro filme  


Seu trabalho de cinco anos com a Mulher-Maravilha  reverbera até hoje, tanto nos quadrinhos quanto em outras mídias. É de longe o artista mais associado a personagem.

Nos anos 90, George deixou a DC, voltando a trabalhar para a Marvel na reinvenção do lado cósmico do universo da editora, desenhando a minissérie principal da mega saga Desafio Infinito, escrita por Jim Starlin.

Capa da primeira edição de “Desafio Infinito”: Quando as Joias do Infinito demonstram seu poder pela primeira vez nos quadrinhos 


Esta saga, onde Thanos recolhe pela primeira vez as Joias do Infinito, serviu de base para a principal trama desenvolvida nos  filmes do Universo Cinematográfico Marvel. 

Pérez também é responsável pela arte de outra minissérie chave da época. Lançada em 1992, Futuro Imperfeito é uma história do Hulk escrita por Peter David, onde Hulk era comendado pela mente do Dr. Banner, tal como é visto no filme Vingadores: Ultimato.

Hulk viaja a um futuro devastado por um evento nuclear, onde encontra Maestro, sua versão com bem mais idade, poderoso e maligno, que passou a governar o restante da raça humana onde antes existiu os EUA. Inicialmente criado apenas para aquela história, Maestro se tornou um vilão popular e rapidamente se tornou um dos grandes vilões da editora, voltando a aparecer em diversas outras ocasiões e sendo destaque em outras mídias, como vídeo games e desenhos animados.

Maestro: o vilão ocasional de “Futuro Imperfeito” veio a para ficar

Após vários projetos para editoras menores, George volta a Marvel para cuidar novamente da arte dos Vingadores, em fase elogiada pela crítica e pelo público. Os roteiros de Kurt Busiek destacavam a já conhecida capacidade de Pérez utilizar diversos personagens em uma única cena, criando cenas memoráveis e possibilitando que a equipe tenha mais membros do que o normal sem que a subtramas se percam. E então finalmente aconteceu. Marvel e DC Comics haviam retornado aos crossovers entre as editoras nos anos 90 e, em 2002, finalmente decidiram que chegara a hora de fazerem o adiado confronto entre as duas lendárias equipes das duas casas: Liga da Justiça e Vingadores. E, claro, o artista indicado para o trabalho ainda era George Pérez.

George Pérez de volta aos Vingadores: fase elogiada por crítica e público 

Durante todo esse tempo ele sempre deixara uma porta aberta para isso acontecer. Naquela época, Pérez tinha um contrato de exclusividade com uma editora menor, a CroosGen Comics. Mas em seu contrato havia uma cláusula que abria uma única exceção nesta exclusividade: desenhar o crossover da Liga da Justiça com os Vingadores. E, para melhorar, o escritor seria seu parceiro Kurt Busiek. A minissérie foi um sucesso, com um roteiro que presta uma sincera homenagem às duas equipes, dando espaço para todo mundo que havia sido membro dos dois grupos - tanto entre os vivos quanto aos mortos. Até a diferença de estilo das duas editoras e de seus universos ficcionais são destaques no roteiro. E o que não faltou foram easter eggs para os fãs de longa data, mostrando que Busiek era mesmo um profundo estudioso das HQs das duas editoras. Liga da Justiça Versus Vingadores ainda é o melhor crossover entre as duas editoras.


A primeira versão inacabada do confronto entre Vingadores e Liga da Justiça 


 

No seu estúdio de sua casa

Uma coisa interessante em George Pérez era a maneira como desenhava a figura humana referenciando o seu período histórico. A forma como delineava a anatomia: Esguia e musculosa, com boa definição, dava aos seus heróis, um físico de praticantes de aeróbica/fitness. Jack Kirby parecia ter como referencial boxeadores, levantadores de peso, quaterbacks de futebol americano e estivadores. Já John Buscema parecia ter halterofilistas e lutadores de luta livre como modelos (Buscema, em sua juventude, chegou a praticar pugilismo). De forma diferente, Neal Adams e José Garcia Lopez pareciam desenhar seus heróis como atletas olímpicos ou malabaristas... Já George Pérez desenhava corpos que pareciam saídos das academias de aeróbica de baixo impacto, ou fitness (talvez se iniciasse hoje em dia a sua carreira, seus heróis teriam um perfil mais aparentado com o crossfit). Com ele Diana Prince deixou de ser apenas uma bonitona curvilínea, para ser uma guerreira atlética, que poderia estrelar aquelas fitas de workout bem populares nos anos 80, como Jane Fonda entre outras estrelas...


Sua concepção da Mulher-Maravilha, aqui retrabalhada como uma Pin-Up


“Eu optei por deixar a natureza seguir seu rumo e eu vou aproveitar o tempo que me resta o máximo o possível com minha bela esposa de 40 anos, minha família, meus amigos e meus fãs”.  

(sobre quando descobriu ter câncer, cujo tratamento só adiaria o inevitável)

 

Mulher-Maravilha: A sua passagem serviu de base para o filme de 2017


Ao ser diagnosticado como portador de câncer pancreático no estágio 3 (e inoperável), George Pérez tencionava maximizar seu tempo restante com o máximo de lucidez possível, pois caso fizesse o tratamento com quimioterapia e a radioterapia apenas iria adiar o seu final, além de debilitar suas faculdades. Para facilitar sua interação com os seus fãs ele criou uma página no facebook, @TheGeorgePerez, para melhor receber noticias, conversar com os fãs e receber atualizações; além disso, pedir que a privacidade de sua família e da sua esposa fossem respeitadas nesse momento, permitindo que os fãs usassem a página para se conectar à ele, ao invés de outros meios.

 

Uma longa e proveitosa trajetória no mundo dos super-heróis

 

 “Espero poder coordenar uma ultima assinatura em massa para ajudar a fazer com que meu falecimento seja mais fácil. Eu também espero poder fazer uma última aparição pública na qual eu possa tirar fotos com o máximo de fãs o possível, com a condição de que eu possa abraçar cada um de vocês. Eu apenas quero dizer adeus com sorrisos, assim como com lágrimas”.

(Uma de suas últimas declarações, procurando ainda um contato mais direto com os fãs )

 
Em 2019 George anunciou a sua aposentadoria devido a diversos problemas de saúde - diabetes e doenças do coração e de visão, entre outros. Havia encerrado uma prolífica carreira que marcou mais de uma geração e deixou um legado que ainda vai reverberar por muito tempo. Com o anúncio do câncer e a eminente morte do artista, Marvel e DC Comics, que novamente tinham interrompido a parceria, anunciaram a republicação do crossover dos Vingadores com a Liga da Justiça - que estava fora de estoque há anos. George adorou a homenagem. Nestes últimos meses o artista foi elogiado e homenageado por diversão artistas e fãs por todas as alegrias e inspiração que ele lhes deu em suas vidas e carreiras.

Agora, apagadas as luzes, só podemos agradecer por termos tido a oportunidade de acompanhar a trajetória deste artista único, que nos impactou com seu talento e cuja lembrança será constante em todos nós sempre que nos referirmos ao panteão da Marvel e da DC Comics e de quem foi crucial no momento em que as suas principais superequipes se uniram. 


Obrigado por tudo, George Pérez. Sua passagem foi significante em nossas vidas.

 

Uma homenagem da DC Comics ao grande artista que tantos personagens ilustrou

 

 

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Adeus, queridos amigos - Crítica - Filmes: Guardiões da Galáxia Vol. 3

 


Amizade e franquia

por Alexandre César


E a série conclui o arco de James Gunn na Marvel







Desconhecidos do grande público, os Guardiões da Galáxia (2014) lançados como protagonistas em um filme foram uma aposta arriscada para o Universo Cinematográfico Marvel (MCU). Acabou se tornando o grande trampolim para o estrelato do diretor/roteirista James Gunn, com sua visão irônica e predileção por personagens obscuros, de 3⁰e até 5⁰escalão, perfeitos para ele recriar à sua vontade e poder “dar o seu recado”. O sucesso estrondoso fez a trupe de heróis/anti-heróis cair no gosto popular, apresentando ao grande público o universo cósmico da Casa das Idéias, e tornou seus integrantes tão conhecidos quanto medalhões como, Capitão América, Thor ou Homem de Ferro.

 

Peter Quill/ Senhor das Estrelas (Chris Pratt) ainda não aceita que Gamora (Zoe Saldana) não é "a sua Gamora"
Alto Evolucionário (Chukwudi Iwuji) é o vilão da vez, sendo capaz de inflingir toda a sorte de sofrimento a suas cobaias em sua busca por perfeição


O grupo seguiu em frente, participando de outros filmes que compunham a grande saga de combate de todos os heróis do MCU contra Thanos, o Titã Louco, e ganhando uma continuação em 2017 (Guardiões da Galáxia - Volume 2). Embora bem sucedido, esse segundo longa-metragem possuía uma dosagem menos equilibrada da fórmula ação-humor-desenvolvimento de personagens na sua abordagem de questões como paternidade e pertencimento.

O tempo passou e, por conta de destaques dados a Twittes seus do passado, James Gunn foi demitido da Marvel Studios, numa decisão precipitada*1. Então ele foi chamado pela “distinta concorrência” (a DC) para exercer seus dotes narrativos em O Esquadrão Suicida (2021) e em seu spin-off, o seriado Pacificador. O bom resultado levou a sua contratação para “rearrumar” o Universo DC, em parceria com Peter Safran.

 

Nebulosa (Karen Gillan) Peter Quill e Drax (Dave Bautista) partem para uma missão arriscada


Graças à solidariedade do elenco e de parte dos fãs, nenhum outro diretor acabou sendo escalado para concluir a trilogia dos Guardiões e, após negociações, Gunn retornou para fechar o arco antes se assumir de vez a DC Studios. Guardiões da Galáxia - Volume 3 (2023) é a despedida alegre e emocionada de James Gunn deste grupo de personagens disfuncionais a que muito nos afeiçoamos por refletir a nossa natural busca pela “nossa turma“... 

Peter Quill/ Senhor das Estrelas (Chris Pratt, de Jurassic World Domínio) aqui mantém o protagonismo apenas formalmente, permanecendo apenas como diferencial nas cenas de ação. Apesar de uma ou outra ponta solta, seu arco havia sido concluído de forma satisfatória com o que foi apresentado no longa anterior e mais um pitaco no média-metragem Guardiões da Galáxia: Especial de Natal (2022, também de Gunn), que foi lançado diretamente na Disney+.

 

Conhecemos o passado de Rocket Racoon, quando ele era um mero guaxinim...

...até tornar-se o personagem que conhecemos (voz de Bradley Cooper)

 No início da trama, Quill ainda não se conforma que a atual Gamora que cruza o seu caminho (Zoe Saldana, de Avatar: O Caminho da Água) é uma versão de outra realidade daquela mulher que amou e que morreu em Vingadores: Guerra Infinita (2018). Alguém com quem ele tem pouco em comum e que encontrou um vínculo familiar com Stakar Ogord (Sylvester Stallone, de Tulsa King) e Os Saqueadores, grupo de outsiders que o Senhor das Estrelas integrou no passado e que abriga vários dos Guardiões originais dos quadrinhos. É a dificuldade de saber abrir mão…

A maioria dos demais integrantes não apresenta uma grande evolução, se levarmos em conta só os filmes principais da franquia. Gamora e Nebulosa (Karen Gillan, de Selfie) tiveram mais espaço no já citado filme dos Vingadores. Mantis (Pom Klementieff, de Thor: Amor e Trovão) só surge no segundo filme dos Guardiões. Ela teve maior desenvolvimento no Especial de Natal, onde foi o centro das atenções e se aproximou mais de Quill, e agora procura um rumo em sua vida, que lhe traga maturidade e crescimento emocional. Drax (Dave Bautista, de Batem à Porta) tinha um peso moderado nos filmes anteriores, destacando-se só a partir da relação que manteve com Mantis desde que esta surge. O guerreiro assume uma atitude paternal, indo além do perfil de “bronco e gente boa”, herói das criancinhas. 

 

Adam Warlock (Will Poulter) e sua "mãe" Ayesha (Elizabeth Debicki). O personagem aparece em sua fase inicial, enquanto a raça dos "Soberanos" é superficial



O popular Groot (voz de Vin Diesel, de Velozes & Furiosos 10), agora um adolescente, atinge agora no seu clímax um visual mais próximo de suas primeiras aparições nos quadrinhos, em "Tales to Astonish" #13 (Novembro de 1960) quando, no traço de Jack Kirby, era apenas mais um dos diversos monstros que surgiam mensalmente nas revistas a Marvel para atacar a humanidade, antes da editora se dedicar a publicar HQs de super-heróis. Nebulosa, depois de sua participação em Vingadores: Guerra Infinita, passa a aceitar seu afeto pela equipe e torna-se uma espécie de cuidadora dos Guardiões, seu grupo familiar/comunitário. Mas continua naturalmente rabugenta...

O cão-astronauta russo Cosmo (voz de Maria Bakalova, de Morte, Morte, Morte) amadurece em cena devido a sua dinâmica com Kraglin (Sean Gunn, de
O Esquadrão Suicida), que também muda de patamar, deixando de ser o mero irmão trapalhão de Yondu (Michael Rooker), aprendendo a lidar com sua herança. 

 

A Orgo Corp (empresa do Alto Evolucionário) é uma estação espacial de "casco" orgânico...

... sendo um achado dos efeitos visuais e da direção de arte, criando uma ambientação única


Ainda temos participações pontuais de Nathan Fillion, Daniela Melchior, Michael Rosenbaum, Jennifer Holand e Greg Henry, entre outros parças de Gunn, que sempre participam de suas produções, em graus variados.

Agora, falemos de Rocket (voz de Bradley Cooper, de O Beco do Pesadelo), o verdadeiro coração da película. Em flashbacks, acompanhamos sua trágica origem, fruto das experiências de manipulação genética do Alto Evolucionário*2 (Chukwudi Iwuji, de Pacificador), um vilão histriônico e de perfil diferenciado de sua matriz das HQs. Obcecado com a criação de formas de vida perfeitas segundo a sua visão, ele não se importa com o grau de sofrimento que possa causar em suas cobaias em sua busca. Em sua trajetória sofrida - junto a de seus amigos Lylla (voz de Linda Cardellini, a esposa do Gavião Arqueiro - Jeremy Renner - no MCU), Dentes (voz de Asim Chaudhry) e Chão (voz de Mikaela Hoover) - vemos grandes paralelos com a maneira como são tratados os animais pela indústria alimentícia, farmacêutica e estética. 

 

Quill e Gamora, ajudam Drax, ferido ao proteger Mantis (Pom Klementieff) durante a missão


 Aguardo ansiosamente pelos fãs dos quadrinhos da Marvel, Adam Warlock (Will Poulter, de Midsommar: O Mal Não Espera a Noite) finalmente surge no MCU. Só que temos aqui um personagem que não é baseado em sua fase clássica nas HQs, protagonizando as aventuras escritas e desenhadas por Jim Starlin, mas na sua fase inicial, quando era basicamente uma criança no corpo de um semideus *3. Sua relação com Ayesha (Elizabeth Debicki, de TENƎT) é explorada de forma superficial, e o seu povo, os Soberanos, que prometiam muito no filme anterior, é reduzido a simples capachos do Alto Evolucionário

 

A ''Contra-Terra" é uma paródia do nosso mundo habitada pelas criações do Alto Evolucionário

Na Contra-Terra, o  Alto Evolucionário encontra Phyla (Kai Zen) uma espécimemais do que promissora


A música de John Murphy (O Esquadrão Suicida) acompanha e sublinha a jornada emocional de Rocket e de Quill em sua busca de lugar no universo, acompanhada – como sempre – de diversos hits do passado. A diferença é que desta vez a lista não está restrita aos anos 70, pois Peter Quill ampliou sua coleção musical após seu retorno a Terra nos filmes dos Vingadores. Assim temos clássicos como “Creep”, na versão acústica de Jonny Greenwood (Radiohead), “Crazy OnYou” por Ann Wilson (Heart), “In The Meantime” por Royston Langdon (Spacehog) e “Reasons” por Philip Bailey (Earth, Wind & Fire). A edição de Greg DÁuria (Velozes & Furiosos 9) e Fred Raskin (Era Uma Vez Em... Hollywood) mantém o foco narrativo tanto nas sequências de ação, bem coreografadas, quanto nos momentos mais emotivos, apresentando cortes precisos, e sem perder o foco dos personagens em seus momentos de dor ou de ira. 

 

A Bowie, a nova nave dos Guardiões, é maior do que a antiga Milano

 

Os variados figurinos de Judianna Makovsky (Vingadores: Ultimato) são ricos e coloridos, refletindo as influências setentistas dos quadrinhos de Jack Kirby, Jim Starlin e tantos outros criadores das sagas cósmicas dos quadrinhos Marvel. O inspirado desenho de produção de Beth Mickle (O Esquadrão Suicida) mescla influências de O Quinto Elemento, Brazil - O Filme, Doctor Who. A direção de arte e a decoração de sets utiliza tudo isso numa criação variada de mundos e cenários, como a destacada Contra-Terra, o já familiar e plural Lugarnenhum, a firma Orgo Corp - de matriz orgânica e leves toques lovecraftianos - e a base do Alto Evolucionário de aspecto tecnicista. Esta diversidade é ampliada pelos ótimos efeitos visuais de Framestore, Jam Filled Toronto, BUF, The Third Floor, Perception, Industrial Light & Magic (ILM), RISE Visual Effects Studios, Sony Pictures Imageworks (SPI), Stereo D, Legacy Effects, Wëtä FX que expande este recorte do rico universo cósmico da Marvel

 

Kraglin (Sean Gunn) cresce e amadurece em sua posição como protetor de "Lugarnenhum"...
... e seus habitantes, como o cão-astronauta russo Cosmo (voz de Maria Bakalova)


Ao final, alguns destinos são traçados e renovações são feitas, abrindo espaço para novas etapas. Certos personagens deverão voltar no MCU e outros provavelmente não veremos de novo. Tal como ocorre na vida, quando concluímos o ensino médio ou a universidade, mudamos de emprego ou de cidade, amigos queridos se separam. Mas isso não impede necessariamente que muitos deles se revejam sob novos contextos. Quem sabe? Assim é a grande aventura da vida.

Obrigado James Gunn e boa sorte com a DC Studios!

 

Uma grande despedida de amigos queridos

 



Notas:

1: James Gunn sempre criticou Donald Trump e muitos perfis conservadores, apoiadores do ex-presidente apresentaram em suas redes sociais diversos tweets antigos do cineasta com piadas sobre temas sensíveis, como estupro e identidade de gênero, com a intenção de desprestigiá-lo. Gunn respondeu a provocação na época dizendo que havia amadurecido, que aquelas postagens já não o representavam e inclusive já havia pedido desculpas por elas anteriormente. Mesmo assim a Disney o demitiu na ocasião. 

 


*2: Tendo surgido nos quadrinhos em The Might Thor (Vol. I)  #136 (1966), o Alto Evolucionário (mais uma criação da dupla Stan Lee & Jack Kirby) também era um cientista que tinha como foco de trabalho a aceleração evolutiva de animais, buscando criar seres puros e perfeitos – mas ele era terrestre: o inglês Herbert Wyndham. Só que ele se envolvia emocionalmente com suas criações, se afeiçoando a eles, ao contrário de sua versão cinematográfica. Nos quadrinhos ele também cria sua Contra-Terra, que é muito mais próxima do nosso planeta do que vemos no filme, e usa seu processo evolucionário em si mesmo, tornando-se um semi-deus ainda mais poderoso do que a do filme. Mais tarde o processo acabou gerando nele sérios problemas de instabilidade mental. 

 


*3: Adam Warlock, também concebido por Lee & Kirby, surgiu nos quadrinhos como mais uma poderosa entidade combatida pelo Quarteto Fantástico. em  Fantastic Four #66 (1967) Assim como o Alto Evolucionário, seus criadores eram cientistas que queriam desenvolver um ser perfeito, que fosse o futuro da evolução. Estes cientistas, porém, eram membros de uma organização criminosa e sua criação era um ser totalmente artificial. Ao despertar, já na forma adulta, ele agia como uma criança e acabou por eliminar seus criadores. Apesar de sua inteligência latente, não tinha conhecimento de absolutamente nada, muito menos do certo e do errado. Nem nome ele tinha: era chamado apenas de “Ele”. Só mais tarde, ao ganhar suas próprias histórias escritas por Roy Thomas, ele se encontra com o Alto Evolucionário, que lhe dá o seu nome e um propósito: cuidar da recém-criada Contra-Terra, que não era a perfeição que o semi-deus imaginava ser. A fase áurea do personagem ocorre só depois, quando suas histórias passam a ser escrita e desenhadas por Jim Starlin. Ele deixa a Contra-Terra e se torna o protagonista de uma mais das maiores sagas cósmicas dos quadrinhos, lutando contra sua contraparte maligna e contra a mais conhecida criação de Starlin: Thanos, o titâ louco.


Finais e recomeços

 

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Visionário cósmico - In Memorian: Jean "Moebius" Giraud

 


Passageiro do universo e além...

por Carlos Vinicius Marins
(Postado originalmente em 08/ 05/ 2018)

Uma unanimidade mundial na história das HQs


Moebius: quadrinista revolucionário



Uma unanimidade nos quadrinhos, sempre ao pensarmos tanto nas vastas paisagens do oeste americano, quanto em mundos oníricos e fantásticos, tendo estes dois mundo distintos em comum, a amplidão de seus horizontes. Amado por desenhistas, diretores de cinema e é claro, leitores, por seu traço elegante, ora limpo, ora carregado (dependendo do projeto) e pleno de inventividade. Marca de Jean Giraud, o Moebius (   08 de maio de 1938 - 10 de março de 2012) um dos mais revolucionários quadrinistas da França e do mundo, tendo grande atuação também no cinema.

Na sua vasta obra, ele também é conhecido pelos pseudônimos que usou: Gir e - principalmente - Moebius. É considerado o segundo quadrinista franco-belga mais influente de todos os tempos, perdendo apenas para Hergé, o criador de Tintim. No cinema ele contribuiu com design conceitual e storyboards para filmes, como Alien, Tron e O Quinto Elemento (este último, claramente inspirado em sua produção de HQs de ficção científica).

Ele começou sua carreira antes mesmo de completar 18 anos. Sua primeira HQ publicada foi Frank et Jeremie em 1956 para a revista em 1956 para a revista Far West. Não demorou para publicar seu trabalho em outras revistas da época, como Sitting Bull, Fripounet et Marisette, Âmes Vaillantes e Coeurs Vaillants. Mas interrompeu sua trajetória artística para prestar serviço militar. Quando deu baixa conseguiu vaga como aprendiz no estúdio de Joseph Gillain, o Jijé - um dos maiores autores do mercado franco-belga de quadrinhos e criador do Fantásio da dupla Spirou Et Fantasio

 

Tenente Blueberry, de Gir: faroeste da melhor qualidade


 

Na década seguinte, o roteirista de HQs Jean-Michael Charlier estava a procura de um ilustrador para uma nova série de western que pretendia desenvolver para a Pilote, revista da qual era um dos fundadores e que se tornara uma das maiores referências de quadrinhos na Europa. Jijé então lhe indica seu jovem assistente Jean Giraud, que tinha lhe auxiliado com HQs do cowboy Jerry Spring para a lendária revista para a lendária revista Spirou. Assim surgia as aventuras do Tenente Blueberry nos quadrinhos, intituladas inicialmente como Fort Navajo. Considerada uma das melhores HQs de faroeste de todos os tempos, a série começa a ser lançada em 1963, mas começa a se destacar de fato depois de 1968, quando começam a afrouxar as rígidas regras instituídas na França pela Lei de 1949 sobre publicações destinadas a jovens. A série acaba assumindo o nome de seu personagem principal, prossegue mesmo após o falecimento de seu roteirista original e se desdobra em outras séries que mostram a juventude e o envelhecimento de Mike S. Blueberry no Velho Oeste Norte-Americano - nem todas com a presença de Jean Giraud. 

 

Major Fatal, de Moebius: Divisor de águas na ficção científica


 

Nestas aventuras de Blueberry, Jean Giraud utiliza Gir como pseudônimo. Apesar de ter surgido ainda nos anos 60, a alcunha Moebius começa a ser realmente conhecida a partir de 1974, quando ele funda a editora Les Humanoïdes Associés com o escritor Jean-Pierre Dionnet, o quadrinista Phelippe Druillet e o empresário Bernard Farkas. Inicialmente o foco da editora era HQs de ficção científica e lança a revista Metal Hurlant, revolucionado o gênero nas HQs e inspirando autores e publicações em todo o mundo (a revista ganhou uma versão oficial norte-americana que se tornou ainda mais conhecida mundialmente que a original: a Heavy Metal). Como Moebius, Jean Giraud assinou a capa da primeira edição, que já contava com uma aventura de Arzarch e as primeira páginas de uma de suas maiores obras: A Garagem Hermética de Jerry Cornellius ou As Aventuras do Major Fatal. Enquanto Jean Giraud usava o pseudônimo Gir para suas aventuras de faroeste, Moebius - utilizado na nova revista - se tornou sinônimo de HQs transcendentais de ficção científica e fantasia. 

 

Incal: saga alucinante e desmedida


O destaque seguinte de sua trajetória artística ocorre após ser convidado pelo escritor, dramaturgo, músico, filósofo, ensaísta e cineasta chileno Alejandro Jodorowsky para participar de um dos mais ambiciosos projetos cinematográficos já concebidos: uma versão para tela grande dirigida por Jodorowsky do clássico romance de SciFi Duna, de Frank Herbert. O filme contaria também com gente do quilate de H.R. Giger, Dan O'Bannon, Pink Floyd, Orson Welles, Mick Jagger, Salvador Dalí e David Carradine. Sem conseguir financiamento dos grandes estúdios de Hollywood, que consideraram a obra megalomaníaca e hermética demais, Jodorowsky decidiu dar vasão as suas ideias e criatividade através dos quadrinhos, capitaneados por Jean Giraud. Assim surgiu a alucinante e desmedida saga do Incal, uma obra-prima da FC que, assim como ocorreu com Blueberry, se desdobra em novas sagas que ocorrem antes e depois da história inicial, além de um complexo universo ficcional que apresenta outras sagas estreladas por personagens coadjuvantes da saga original e que também se desdobram através do tempo em novas aventuras. O Incal foi o ponto alto da parceria Jodorowsky/Moebius, mas não foi a primeira grande obra que fizeram juntos. Criada antes pela dupla, existe a genial graphic novel Olhos de Gato. Também como ocorreu com Blueberry, Jean Giraud não se envolveu em todos os desdobramentos da série Incal. Na realidade ele se sentia esgotado com as demandas das duas sagas e chegou a cogitar parar de fazer quadrinhos. Para nossa sorte, isso não se concretizou. Ele acabou inclusive voltando a trabalhar mais tarde com ambas as séries. 

 

Surfista Prateado: Moebius made U.S.A.


 

A saga do Incal também foi publicada originalmente na Metal Hurlant, já nos anos 80. Nessa época seu trabalho já era bastante popular nos Estados Unidos devido a publicação dos trabalhos que assinava como Moebius na Heavy Metal. Ele se mudou para a Califórnia e tentou abrir uma nova frente de divulgação de sua obra se associando a Marvel Comics, que publicou uma boa parcela de sua obra através de seu selo autoral, o Epic. O artista então decidiu produzir uma mini-série em duas edições para a Marvel em colaboração com seu mais emblemático roteirista: Stan Lee. Ao saber que iria fazer uma HQ desenhada por Moebius, Lee não teve dúvidas: a história seria estrelada pelo Surfista Prateado, o personagem da Casa de Ideias criado por ele que melhor se enquadraria na arte do francês. Moebius gostou da experiência, tinha grande vontade de produzir através do chamado “Método Marvel”. A HQ ganhou o Prêmio Eisner em 1989 de melhor mini-série. 

 

O Mundo de Edena: a última grande saga de Moebius


 

Seu último ambicioso trabalho nos quadrinhos foi O Mundo de Edena. Criado inicialmente com o nome de The Star como uma encomenda da Citroën, que queria um brinde criativo de fim de ano para seus clientes, a história acompanha dois protagonistas sem gênero definido numa jornada pelo espaço em um Citroën até alcançarem um estranho mundo descrito como um “Jardim do Éden” em outra galáxia. A história acabou estimulando o autor, que se perguntou o que ocorreria a seguir com aqueles dois. A partir daí ele desenvolveu outro complexo universo, que inclusive colide com o que desenvolvera para A Garagem Hermética de Jerry Cornellius, contando inclusive com a presença disfarçada do próprio protagonista daquela obra, Major Grubert ou Major Fatal.

Idolatrado no mundo todo, com admiradores como Federico Felini e Hayao Miyasaki, sua obra continua influenciando artistas dos mais diversos gêneros no mundo. 

 

Arzach: uma das séries mais longevas de Moebius