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terça-feira, 12 de abril de 2022

A longeva franquia da garotada - Crítica - Filmes: D. P. A. 3 - Uma Aventura no Fim do Mundo

 

Indo onde nenhum D.P.A. jamais esteve...

por Ronald  Lima

Corre! Vai lá chamar sua tia que vai ter Detetives do Prédio Azul 3 no Cinema.

  



Com honras e méritos, os Detetives do Prédio Azul (D.P.A.) ocupam atualmente o lugar das boas produções para o público infantil, lugar antes ocupado pela Vila Sésamo, Sítio do Pica Pau Amarelo e Castelo Rá-Tim-Bum - esses faziam parte da grade dos programas da televisão, hoje chamada aberta. Os canais de assinatura e de Streaming ocuparam essa vaga, lugares base de DOA, ainda que a partir de 2015 a TV Brasil e TV Cultura também passaram a retransmitir o seriado.

O Gloob - Unidade de produção Infantil do Grupo Globo - surgiu em 2012 com uma programação totalmente voltada para as crianças. O seu carro-chefe foi o seriado Detetives do Prédio Azul ou a sigla D.P.A. com roteiros de Flávia Lins e Silva. Eles são um trio informal de detetives mirins que moram em um prédio muito antigo cheio de mistérios e decidem desvendá-los. Daí surgem inúmeras situações e tramas. Quando  entram em ação, vestem suas capas coloridas de detetives, inspiradas no visual clássico dos detetives noir do cinema. Além disso, vestir capas dá um toque de super-herói também. As crianças fazem uso de vários gagdets, tal qual o Inspetor Bugiganga, do desenho animado dos anos 80, e os equipamentos do cinto de utilidades do Batman, que ficou famoso no seriado clássico das TV de 1966 . Os três se reúnem em um clube secreto dentro do próprio edifício. 
  
A série chega a 16 temporadas e ao 3º filme para o cinema. Na sexta temporada os atores mirins originais, que já tinham crescido, passaram suas capas para um novo trio de detetives e assim, a medida que eles crescem ocorre essa mudança de equipe. É uma ótima idéia essa da mudança dos protagonistas. Não foi surpresa quando a trindade original voltou a aparecer no 1º filme para cinema, lembrando seus dias de D.P.A.


O 1º D.P.A. com os detetives Tom (Caio Manhente), Mila (Letícia Pedro) e Cícero Capim (Cauê Campos) . Sol (Letícia Braga), Bento (Anderson Lima) e Pippo (Pedro Henriques Motta) são os atuais detetives.

Em "Uma Aventura no Fim do Mundo" a trama reforça o tema magia cada vez mais presente nas histórias do D.P.A., principalmente após a vinda da personagem Berenice, - interpretada pela atriz Nicole Orsini -, a implicante aprendiz de feiticeira e tataraneta da vó Berta (Sueli Franco). Berenice faz pouco caso do trio, mas adora participar de suas investigações. Acabou se tornando a 4ª detetive. Até mais ou menos a 6ª temporada, as histórias dos D.P.A. lembravam muito as aventuras infanto-juvenis dos detetives mirins da Coleção Vaga-Lume publicada pela Editora Ática. Esse fator ainda se faz presente, mas o elemento magia chegou pra ficar, com evidente influência de Harry Potter.


Berenice, esnoba, reclama e desdenha, mas, quando uma investigação está para começar, não pensa duas vezes em querer fazer parte da equipe.


A narrativa corre com facilidade e você não precisa ter acompanhado um episódio sequer da série para entender o filme. Contudo, se ficar atento, verá inúmeras incoerências no roteiro. Não que essas estejam ligadas a aventuras anteriores, mas a própria história do filme.... Quando eu assistia aos filmes dos Trapalhões quando criança, não estava ligando muito para sua incoerências de roteiro. Eu queria era vê-los em ação e pronto. Portanto esses buracos não lhe impedirão de curtir a aventura, vá por mim.

A atuação do quarteto infantil é bem legal, principalmente as duas meninas do grupo. Letícia Braga, a Sol, é muito natural com a personagem, para mim a melhor de todo elenco, junto com Ronaldo Reis (o porteiro Severino). Nicole Orsini está cada vez mais à vontade com a aprendiz de feiticeira Berenice. Ela tem um conflito consigo mesma, melhor dizendo, contra o que ela pensa ou vê de si mesma. Isso, porém, foi pouco explorado e poderia ter rendido um ótimo momento para a personagem e a atriz. Afinal, em breve ela assumirá o papel da mais velha em um novo grupo de Detetives, já que o atual trio não deve demorar a ser substituído. De qualquer forma, foi legal a escolha de qual das Berenices apresentadas no filme era a verdadeira e seria interessante se esse fator fosse explorado depois na série (fica a sugestão). Entre os dois garotos, Pedro Henrique, o detetive Pippo, se destaca e, dos quatro, Anderson Lima, o Bento, me parece o mais forçado. 

Nessa aventura outra atriz, que também começou cedo a carreira, está presente. Klara Castanho interpreta a bruxinha má Dunhoca, filha da terrível bruxa Duvíbora, que está a cargo de Alexandra Richter. Klara imprime em sua personagem todas as manias típicas dos adolescentes atuais, como o uso constante das mídias sociais e implicâncias com as decisões da sua mãe, junto aos trejeitos típicos de bruxos que você vê em filmes. Uma disputa contra Berenice soa inevitável.

"Cuidado com a Cuca.... Que a Cuca te pega! Te pega daqui! Te pega de Lá!" Alexandra Richter como Duvíbora. 


Mas afinal do que trata o filme? Severino (Ronaldo Reis) encontra um medalhão sem perceber que o objeto estava próximo a um pequeno avião acidentado em uma ravina, tendo ao fundo uma névoa verde sinistra. Literalmente aos trancos e barrancos ele consegue pegar o medalhão e o espírito de um antigo mago toma posse de seu corpo. O mal não pede licença, vai entrando, não é? 

Para conseguir interpretar dois personagens tão opostos, Ronaldo Reis pediu uma certa reclusão para treinar seu vilão sem que ninguém do elenco infantil acompanhasse no processo. Com essa técnica obteve mais impacto de cena. Seu personagem é o único do elenco que está presente desde a 1ª episódio do D.P.A. O vínculo das crianças com o simpático Severino é grande e isso poderia atrapalhar a sua interpretação, segundo ele.

                               
 Ronaldo Reis: Muita dedicação ao papel


O que parecia um inofensivo acessório é, na verdade, a parte maligna do “Medalhão de Uzur”, que controla e manipula toda a magia existente no Mundo. 


       
"Mas que bonito!! Acho que a Sol vai gostar desse colar, eu o pego fácil, fácil"


Determinados a encontrar a outra parte do medalhão para quebrar o encantamento e libertar Severino, que a cada instante fica pior influenciado pelo Mago Maligno, o Trio... opa! O Quarteto começa a investigação e a busca por pistas. Não podem contar com a ajuda dos magos adultos, Leocádia (Claúdia Netto), Theobaldo (Charles Myara) e a Vovó Berta (Sueli Franco), já que os três foram enfeitiçados pelo Severino Malvado. Para piorar, existem outros também interessados no medalhão... Além do próprio Mago , incorporado no coitado do Severino. São as já mencionadas bruxas Duvíbora e Dunhoca, que estão dispostas a realizar todos os truques para conseguir seus intentos. As duas, além de grandes poderes mágicos, possuem um veículo estilizado e outros adereços digamos mais comuns (ou quase), como um celular em formato de cobra. 

A outra parte do Medalhão pode estar no "Fim do Mundo"... Onde quer que seja esse lugar! Mistério, magia e uma boa dose de intuição de detetive conduzem a turma até um hangar que parece estar a vista de todos, mas não está, o local abriga um avião mágico, com direito a um piloto que bem poderia ser o filho do Carimbador Maluco do Musical da TV Globo Plunct, Plact, Zum, de 1983, e interpretado por Raul Seixas. O avião pertence ao Comandante Téo (o ator Rafael Cardoso). Téo é muito habilidoso, apesar de extremamente míope. Já marquei pra mim o Comandante Téo como filho do Carimbador Maluco, é perfeito!



"Tem que ser selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado se quiser voar" - pra Lua a taxa é alta - pro Sol: identidade... Pra andar no meu Foguete é preciso o meu carimbo dando o sim, sim, sim, sim..." Rafael Cardoso como o aviador Téo




Com as vilãs no encalço e o Mago ali junto com eles (porque o trouxeram?), o quarteto conta com a boa ajuda de Los Inspetores de La Casa Naranja, Pablo, Alejandra e Juanita. É isso mesmo! Grupos como nossos conhecidos Detetives estão em outros cantos do Mundo. 

A produção criou bons efeitos especiais... Não sabia que tínhamos uma rota de dirigíveis por aqui. Os efeitos mágicos são bem convincentes (a exceção de um cipó que prende os adultos, mas tudo bem), o cenário dentro do "Fim do Mundo" conta até com um dragão voador e uma Fantástica Fábrica de Chocolate... Chocolate não, Fantástica Fábrica de Doce de Leite, com um Senhor Wonka e tudo... O Senhor Wonka é certamente a referência para o personagem de Lázaro Ramos e os encantados Dulces de Leche Elergun que ele fabrica.

Entrem!! Quem precisa dos Lumpa Lumpas? Sou um mago poderoso afinal. Lázaro Ramos como Elergun 

Além das mencionadas participações especiais, temos o Prefeito Fortuna, integrante do lendário grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone e fundador do Circo Voador no papel do Mago Baltazar, Guardião do Portal do Fim do Mundo. E Alinne Moraes, em um papel bem curioso que não vou mencionar aqui para não estragar o impacto. 

A canção de entrada intitulada: "Um Barulho, Um Sumiço" tem a voz inconfundível de Ivete Sangalo. Com ela a turma está pronta para seguir em um passeio a bordo de um  “Super Fantástico Balão Mágico".

O que incomoda muito para quem curte cinema é a dificuldade com que a nossa produção teima em não se livrar da linguagem televisiva. Mas o público-alvo infantil está acostumado com a linguagem na série e deve se identificar. As sequências internas ficaram bem, principalmente por receber um enriquecimento com os efeitos. Ainda assim, a linguagem TV e Teatro estão ali não só nos enquadramentos como também na interpretação. A equipe mais uma vez sai dos estúdios e seguiu para outro país. Dessa vez escolheram a região da Patagônia, na Argentina. As externas, porém, não causam o devido impacto necessário para uma tela maior, a não ser pela paisagem em si. As cenas de perseguição e ação ficam sem força... A turma entra correndo para embarcar em um trem com um desespero desproporcional, porque até uma criança de cinco anos conseguiria alcança-lo de tão lento que ele sai da estação. Esse é o grande senão, além do roteiro apresentar incoerências.... A maior delas, se ainda não perceberam, é que o Mago que incorpora no porteiro Severino não tem um nome. Isso importa? De fato sim, mas, como dito acima, o filme flui bem e tudo isso somente será notado pelo seu público-alvo mais tarde, quando os Detetives do Prédio Azul estiverem na memória afetiva dos futuros adultos que hoje curtem suas aventuras. Assim como os da minha geração, que ficaram marcados pelos programas infantis de outrora, ou você acha que eles eram extremamente perfeitos?

Detetives do Prédio Azul 3, empreendimento da Paris Entretenimento com coprodução da Gloob e Globo Filmes, chega 21 de abril aos cinemas.




                            Uau!! Luzes! Ok. Câmera! Ok. e Ação! Bom..


                                              Esse medalhão será meu! Bwahahaha!!

 

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Comunidade porreta!!! - Crítica - Filmes: Bacurau (2019)

 

E o Nordeste resiste...

por Alexandre César 

(Originalmente postado em 30/ 08/ 2019)


Realizadores de "Aquarius" criam distopia crível e atual

 


Vencedor do Grande Júri no Festival de Cannes 2019

Grande sensação no Grand Théâtre Lumière, na 72ª edição do Festival de Cannes em maio deste ano de 2019, quando o Brasil assiste ao seu desmanche em setores básicos e essenciais em nome e glória do Deux Mhercaddo (o termo é invenção minha...) o nosso cinema ainda se mostra capaz de narrar fábulas arrojadas como a desta produção que novamente colocou o país no mapa da vanguarda das artes, sendo merecidamente premiada no festival francês e trazendo Pernambuco para o mapa das grandes produções de faroeste do Século XXI. Dirigido por Kleber Mendonça Filho (O Som ao Redor de 2011, Aquarius de 2016) & Juliano Dornelles (o curta-metragem Mens sana in corpore sano de 2011,) Bacurau (2019) é cinema em sua mais pura essência narrativa e traz em seu ritmo ora ágil, ora mais contemplativo uma ótima reflexão sobre colonialismo, identidade cultural, globalismo e várias outras questões, recorrendo a gêneros "importados" como o próprio “Far-West” resgatando e reinterpretando o cangaço em função de seus potenciais dramáticos, abraçando sem pudores o ”ser estranho”, a natureza exótica, o calor e as dificuldades do Sertão mesclado com a adrenalina dos filmes de ação, entregando uma história à princípio confusa, mas que em seu desenrolar frenético, nos instiga a tentar descobrir o que acontecerá na próxima cena, não se negando a ser divertido e polêmico e a fazer a catarse do público na tela: A boa definição de uma obra-prima, seja de qual cinema for...
 


Teresa (Bárbara Colen) regressa a seu berço natal em momento de comoção


A produção de Emilie Lesclaux, logo em sua cena inicial se encarrega de literalmente de “colocar o país no mapa” : Seus créditos abrem como em Star Wars, com as estrelas ao fundo da tela preta, e uma panorâmica passa como satélite sobre o Globo e paira sobre o território nacional. (Spoiler: A Terra é um planeta esférico!!!). Logo em sequência um zoom-in de cima localiza a trama no sertão nordestino, onde a cidadezinha chamada Bacurau (nome de um pássaro da região) “a oeste de Pernambucano, daqui a alguns anos”, o que lhe dá um toque de sci-fi (olha só...). Acompanhamos Teresa (Bárbara Colen) mulher forte e determinada (espécie de guia ao espectador) retornando a cidade pequena, longe dos centros urbanos iluminados do Centro-Oeste e do Sudeste, mas unida, a comunidade local vive seus dias em paz e em tranquilidade, apesar das dificuldades não resolvidas pela prefeitura cujo abastecimento de água é problemático feito pelo caminhão-pipa cujo motorista (Rubens Santos) lhe dá carona. As dificuldades de abastecimento hídrico são causadas por um grupo não identificado que se apossou das nascentes e rios próximos (Me lembrei da declaração do CEO da Nestlé de que a ”água potável não é um bem comum a todos, devendo ser explorada pelas empresas...” para justificar a compra do Aquífero Guarani).



A fotografia de Pedro Sotero capta a beleza agreste, seca e colorida do agreste sertão


Chegando,deparamos com o funeral de uma personalidade muito querida da cidade (Lia de Itamaracá, célebre cirandeira pernambucana); cujo cortejo do corpo, popularesco, musical, nos diz que a memória não é estanque e definitiva, mas sim algo visceral, que dói, e se transforma, como vemos no protesto da Dra. Domingas (Sônia Braga se entregando com tudo ao personagem) com seus cabelos brancos, desprovida de apelo para a sedução amorosa, bêbada, inconveniente mas surpreendente em sua lucidez, a atriz mostra que embora seus dias de Gabriela tenham há muito ficado para trás, isto não lhe faz a mínima falta.

Dra. Domingas (Sônia Braga) inicialmente bêbada e surtada, se revela um personagem bem articulado...


Porém, misteriosamente Bacurau se apaga dos mapas digitais e tudo começa a mudar quando um “disco voador” passa a sobrevoar a região e, logo em seguida, eventos estranhos vão acontecendo. Desde a morte de moradores até o sumiço do sinal de celular e da eletricidade, de forma estranha e tensa, com um grupo de indivíduos muito bem armados e equipados com tecnologia de ponta, que só falam inglês (e ao falar com os ”nativos”, usam o Google translator) chefiados por Michael (Udo Kier, sinistro e genial) que obedecem a um cronograma de isolar e ir exterminando a comunidade no melhor estilo “Black Operations” até apagarem qualquer traço de sua existência... Como é que ééé??? perguntará você...
 
 
Michael (Udo Kier): Maestria como vilão cartunesco numa trama que pede um vilão cartunesco...

 
 
Bacurau é um filme que brinca livremente e de forma segura com as regras do cinema de massa, usando de anti-heróis cartunescos e vilões maniqueístas, indo de Sergio Leone a John Carpenter, passando por Sam Peckinpah a Briam De Palma ou a violência de Quentim Tarantino sem traumas, e o pudor de usar recursos visuais estilizados, mesclando de forma harmoniosa elementos de Ficção científica, cinema de ação, comédia regional e muito faroeste italiano, cuja fotografia de passa o incômodo do quente clima sertanejo, que influencia na caracterização da cidade sertaneja cujo protagonismo está diluído, logicamente, em todos os seus vários e ricos personagens.
 
 
A comunidade sai para enterrar um pedaço substancial de sua história, que permanecerá em seus corações...

 
 
Da multiplicidade de tipos interessantes, misteriosos, ambíguos e divertidos, que são vitais para a crítica social, refletindo o povo brasileiro, que sofre diariamente com as m3#@s do governo e ainda assim acha uma razão para sorrir e seguir com a vida, Nota-se o bom espaço dado a um elenco de matizes variados, Indo de Clébia Sousa (O som ao redor),Uirá dos Reis (Doce Amianto), Edilson Silva (Brasil S/A), Buda Lira (Aquarius), Ingrid Trigueiro (Rebento), Valmir do Côco (Azougue Nazaré), entre outros,fora o elenco americano, dentre eles, Charles Hodges (Enjaulado de 1997), amigo pessoal de Kleber. Personagens contrastantes que exaltam organicamente a cultura da região nordestina.
 
 
Lunga (Silvero Pereira) o bandido que é herói local, tal qual Robin Hood ou Zorro...

 
O filme traz à luz a discussão sobre a hegemonia da cultura norte-americana e a sua arrogância com reação ao resto do mundo, desafiando a audiência a pensar além das fórmulas dos gêneros de massa (essa ação questionadora aparece sempre em diálogos como na cena das comparações raciais (“- Vocês não se parecem conosco. Vocês parecem mexicanos brancos!” ), a cena do nazista, ("- não recorra a clichês!"), e a dos velhos nus ("- por que eles precisam estar pelados?"), Bacurau está no fundo estimulando o público a entender o filme por conta própria, além da superfície, numa linha discursiva de uma universalidade incrível, que historicamente popularizou o cinema no mundo inteiro na medida em que  “o bem vence o mal” de maneira brutal e direta.
 
 
Primeiro a água, depois a localização nos mapas digitais e depois a luz e... a escuridão...

 
 Ao final saímos satisfeitos do cinema certos de termos visto uma produção única, que do seu jeito faria Glauber Rocha exultar. Por seu apelo épico, pleno de ideias e, popular que de forma divertida e inteligente passa a mensagem dos criadores: A de que desdenhar da própria história, da cultura, é desdenhar da própria sobrevivência, apagando um povo do mapa...
 
 
Apesar de tudo, recordamos que o sertanejo acima de tudo é um forte, e a tudo resiste, por mais que o mainstream insista em torná-lo invisível...

 

 

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Tédio em meio a chuva - Crítica - Filmes: Borrasca

 




“Ainda bem que eu piloto helicóptero....” 
 
por Ronald Lima  
 (Originalmente postado em 24 / 04 / 2019)

Adaptação da peça peca por não saber equilibrar naturalismo e "teatralidade"
 
 
Cartaz em estilo capa de HQ de André Kitagawa
 
 
Em A Tempestade*, a peça de teatro de Willian Shakespare, temos uma história de isolamento, dor e reconciliação. São também características do filme brasileiro Borrasca. O que poderia superar a traição senão a morte e o amor? Decisões precisam ser tomadas para se seguir com a vida, mesmo que a vida não tenha nada de bom a oferecer.
 
Por meio do relato de dois amigos vamos conhecendo a vida de um terceiro amigo ausente. Os dois amigos presentes são: o escritor misantropo Gabriel, interpretado pelo dramaturgo Mário Bortolotto (autor da peça que deu origem ao filme), e o tímido Diego - o ator Francisco Edo Mendes. Borrasca tem a direção de Francisco Garcia, um dos fundadores da produtora Kinosfera Filmes. O filme ganhou dois prêmios de melhor ator à Mário Bartolotto: um no Festival português de Santa Maria da Feira e o outro no Cine PE - Festival Audiovisual realizado todo ano em Recife, Pernambuco. 
 
O amigo ausente chama-se Enzo. Ele é o pretexto para essa extensa sucessão de reminiscências sobre a vida, a amizade, o amor e o sexo. Afinal, “as mulheres não conseguiam resistir ao Enzo...” . Ele parecia ser “O Cara” , o que não devia ser difícil em comparação a estas duas figuras que conversam tal e qual carpideiras remoendo as memórias e uma inveja não assumida. Deduzimos pelo diálogo que Enzo, errasse ou acertasse, correu os seus riscos e viveu. Viver não é para os fracos, nem para aqueles que decidem pautar as suas vidas pelas comparações com as vidas alheias...
 
Gabriel (Mário Bortolotto): o tom certo entre o teatral e o naturalismo.
 
 
Partindo desse fato e da ausência do amigo, eles reavaliam as suas vidas e percebemos que o modo de vida de Enzo era o que cada um deles desejaria ter tido. Na verdades eles também se dão conta disso, mas não assumem essa constatação.
 
Agora vamos ao que o filme nos apresenta. Toda a história se passa no minúsculo apartamento de Gabriel, que dá ao filme um ambiente para as confissões sem que os personagens tenham exatamente vontade de faze-las. O filme usa e abusa de tons azuis e verdes, muito contrastes e sombras, além ter belos movimentos e enquadramentos muito próximos dos atores, fazendo um quadro harmonioso (ponto para o diretor de fotografia) .
 
Mas, quanto a edição sonora, esqueceram-se da chuva, e no final esse detalhe fará diferença. A sonoplastia é daquelas que fazem questão de demonstrar nariz escorrendo, pés arrastando-se e copos sendo preenchidos por uísque, mas barulho de chuva que é bom... Mesmo procurando transmitir um ambiente de confessionário, não custava nada o filme permitir que déssemos uma olhada na janela para conferir a forte chuva que se mostra logo no início. Nem precisava mostrar a rua, já que o plano parece ser destacar o isolamento dos dois. Água escorrendo forte pelo vidro e algumas expressões de raiva ou surpresa bastavam. Afinal, o título do filme faz alusão a chuva torrencial que cai durante a história. Mas até esses sons ambientes vão sumindo aos poucos. Se ainda estão lá acabam sendo sufocados por tanto falatório. Um maior cuidado com a edição de som, intercalando esses sons ambientais - sendo destacados, por exemplo, nos momentos de pausas dos diálogos -, enfatizariam mais a sensação de alheamento dos personagens em relação ao mundo exterior, traduzindo melhor uma atmosfera de isolamento.
 
 
Dois amigos assumidamente derrotados pela vida. Um pouquinho de luz... Perceberam?
 
Portanto dureza mesmo foi aguentar frases de efeito procurando evocar qualidades e defeitos de cada um dos três amigos - principalmente de Enzo -, ora num tom intimista, ora aos gritos - esses últimos totalmente duros e à toa. A direção de atores peca por não equilibrar a interpretação dos atores - principalmente no caso de Diego que, de forma demasiadamente teatral, não consegue convencer que realmente está querendo dizer o que diz. Aliás, todas as falas, embora usem termos chulos, são muito articuladas, como se os atores estivessem no teatro e não em uma tela de cinema. Há uma 4ª pessoa também (quase) ausente no ambiente. Gabriel o cita várias vezes mas, em determinado momento, lhe é cobrado dizer o nome soletrado como se não o tivesse dito instantes antes. Nossa...
 
O roteiro mostra uma coleção de frases ditas que soam sem nenhuma conexão entre elas. Chegam a se contradizer, o que não seria problema em um texto que demonstrasse o fluxo contínuo de pensamento, mas isso pediria um roteiro mais elaborado.
 
Diego (Francisco Edo Mendes): Excesso de teatralidade na interpretação.
 
 
Algumas colocações são interessantes e legais, mas parece que todo o diálogo foi posto em pedaços de papel em um saco plástico e os personagens vão falando a medida que escolhem a esmo os papéis no saco para lerem.
- Aí... Que fracassado é você hein!?
- Somos todos... Mas o Enzo?! O Enzo? O Enzo Não! As mulheres não conseguiam resistir ao Enzo”
- Já disse isso não? (JÁ!!!) Então direi de novo de um modo que soe diferente agora tá certo? “As mulheres não conseguiam resistir ao Enzo” Porque ele é o Enzo... Entende?
- Alguns nascem assim e outros não, você não nasceu assim... Entende...? (Tá, entendi
Entendi que em toda patota tem um Alfa que, em momentos, pode ser o fator de desunião, mas que, de fato, é o agregador. (Acabou?)
A sensação é daquelas conversas que se ouve sem querer e o primeiro pensamento que lhe vem é: “-Meu Deus... ! Eu NÃO quero ouvir isso.”
 
Há uma tentativa em criar empatia em relação a Gabriel e Diego e tudo fica entre um tédio e alguns lampejos. Os dois transmitem uma sensação de fastio o tempo todo, principalmente Gabriel. Diego instiga mais o amigo, mas o espectador absorve muito mais o fastio e o tédio do que uma profunda relação de amor e ódio. Alguns minutos a menos na edição aliviariam com certeza o conjunto.
 
E assim vão os dois tecendo seus fracassos e arrependimentos sem se mostrarem arrependidos. Puro remorso, misantropia total. Ao final, querendo evocar a brevidade e os acasos da vida, Gabriel se surpreende com o término da forte e curta chuva, e nos dá um aviso bem insosso, mas procurando causar impacto: a tal chuva foi breve, uma borrasca apenas, mas que devemos estar prontos e alertas para quando vier uma tempestade. Que tempestade? Que chuva? Que borrasca? A do começo? Ah... Essa verborragia toda, a franqueza explícita de um sobre o outro, além do Enzo, não lhes foi tempestade suficiente? Então somente se o céu cair sob vossas cabeças, puxa vida... Vamos a um Big Mac? Não pode ser o Big Bob? Verdade, prefiro o Bobs.
 
É nessa penumbra assim mesmo com poucas variações  que o filme vai do princípio até quase ao fim