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sábado, 18 de junho de 2022

A aventura que qualquer garoto adoraria - Crítica – Filmes: Lightyear (2022)

 


O destemido herói do espaço




por Alexandre César

Síntese de referências do Sci-Fi e das origens da Pixar

 




Em 1995 o clássico Toy Story, sacramentou definitivamente o nome Pixar no imaginário coletivo da cultura pop, e assegurou à Disney, com esta parceria, uma posição de destaque na vanguarda tecnológica do iniciante cinema digital. No filme de John Lasseter, fomos apresentados ao menino Andy e sua família e, o mais importante, fomos apresentados aos seus brinquedos: Sr. Cabeça de batata, Slinky Dog, o tiranossauro medroso Rex, a boneca de porcelana Betty, o cowboy Woody e, talvez um dos melhores (senão o melhor): O astronauta Buzz Lightyear, Ranger do Comando Espacial! Ao contrário de Woody, que em Toy Story 2 (1999) teve revelada a sua origem como a representação do personagem de um seriado de marionetes (similar ao dos primeiros trabalhos de Gerry Anderson), a origem do personagem permanecia um mistério, nos sendo revelado apenas que ele tinha um nêmesis: Zurg, tirano despótico meio Imperador Ming, meio Darth Vader, permanecendo todo o contexto restante nebuloso. 

 

Citação: Uma das cenas iniciais remete a "Alien - O Oitavo Passageiro" (1979)

 

Dirigido por Angus Maclane (Procurando Dory) Lightyear (2022) agora lança uma luz nas origens do destemido herói, numa divertida aventura espacial noventista que remete às origens da própria Pixar, e dos filmes da Amblin de Steven Spielberg.

 

Originalmente o boneco Buzz Lightyear tinha a voz de Tim Allen (esq.). Agora, o personagem Buzz Lightyear tem a voz de Chris Evans (dir.) e... cabelos!

 

O roteiro de Jason Headley (Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica) & Angus Maclane baseado no personagem criado por John Lasseter, Pete Docter, Andrew Stanton e Joe Ranft logo na abertura faz um surtil retcom, nos informando que “Em 1995 o menino Andy ganhou de presente um boneco de Buzz Lightyear, o personagem de seu filme favorito. Este é o filme.” e assim, numa introdução que lembra o início de Alien – O 8°Passageiro (1979) de Ridley Scott, mostrando uma gigantesca nave geracional esférica (que remete aos núcleos centrais da naves da Federação de Comércio da trilogia prequel de Star Wars) saindo do hiperespaço, e o computador de bordo analisa um planeta próximo e desperta o piloto (e alguns técnicos) da animação suspensa. O piloto é Buzz Lightyear*1, Ranger do Comando Espacial, uma espécie de Frota Estelar de Star Trek misturada com a USNC de Halo.


Buzz e sua amiga Alisha Hawthorne: Rangers e grandes amigos

O XL-01, o caça de provas do Comando Espacial, onde Buzz testa a amostra do Cristal de Fusão

 

Buzz mantém as características fisionômicas básicas de queixo grande e quadrado (bem heróico) e olhos azuis, agora com uma pele com poros, e cabelos, pois aqui ele é um ser humano, e não um boneco de plástico. Em contraste, sua personalidade individualista, sempre assumindo as responsabilidades da liderança, e sempre querendo ser infalível e resolver tudo, refletem uma insegurança juvenil, sendo um prato feito para a sua amiga Alisha Hawthorne, que zoa a mania dele de “narrar” seus relatórios da missão como se fosse um “Diário de Bordo”, no melhor estilo do capitão James T. Kirk de Star Trek.

 

O lado pioneiro de Buzz Lightyear é bem delineado nas sequências dos vôos testes...

...remetendo a filmes clássicos do gênero como "Os Eleitos" (1983)

Após pousar a nave no planeta (que em uma atmosfera respirável), Buzz, Alisha e um recruta saem numa missão de reconhecimento do terreno, e são atacados por uma forma de vida vegetal tentacular, e ao tentar decolar a nave, Buzz não consegue evitar uma colisão, que danifica o veículo, deixando-os ilhados no planeta.

 

Alisha Hawthorne e sua companheira. Pela primeira vez um casal LGBTQI+ é retratado numa animação da Pixar

Tendo de estabelecer morada no planeta hostil, os tripulantes fundam um assentamento e vão criando a infraestrutura necessária para consertar a nave e de lá sair. Buzz carrega consigo o sentimento e culpa por não ter sido suficientemente habilidoso para desviar a nave, e dedica-se obsessivamente a refazer o Cristal de Fusão, a fonte da propulsão, e testá-lo num caça de provas (no melhor estilo Chuck Yeagher*2). Como a proporção exata dos elementos do cristal é de difícil execução, Buzz vai testando no método do erro-e-acerto, realizando um vôo atrás do outro, e nisso ele vai experimentando o efeito de dilatação no tempo*3, e para cada dia de preparar o cristal e fazer o vôo de teste, ele avança 4, 5 anos, e vai vendo o assentamento virar uma colônia auto-sustentável, e seus amigos envelhecendo, constituindo famílias, enquanto ele (na verdade um homem fora de sua época, como Buck Rogers) só compartilha da companhia de Sox , um gato-robô, e de I.V.A.N. (o piloto automático do caça de provas) e de sua idéia fixa de corrigir o seu erro.

 

A influência do trabalho de designers como Robert McCall e Sid Mead ´se reflete  nos detalhes utiliários como os veículos de manutenção...

... nas instalações da base e nos interiores de habitação, plenos de funcionalidade embalado num design clean

Ao final de 40 anos (e após roubar o caça pois a colônia havia desistido de sair do planeta) ele finalmente acertou a fusão dos elementos do cristal, mas encontra a colônia sitiada por um exército de robôs de uma força alienígena, o terrível Zurg...


Os uniformes de Buzz mesclam detalhes do brinquedo com trajes de pilotos reais


Contando apenas com Izzy Hawthorne, a neta de Alisha, e dois “recrutas”: A rude Darby Steel e o indeciso Mo Morrison, Buzz e Sox têm de encarar o desafio que envolve mais do que o destino da colônia, a sua própria essência, fruto de suas escolhas e visão de mundo...

 

Concepção visual de Garret Taylor da central do Comando Espacial

A gigantesca nave geracional dos colonos remete em seu design a clássicos do Sci-Fi como "2001: Uma Odisséia no Espaço" (1968) e da franquia "Star Wars"


Calcado em uma inteligente trama que mescla paradoxos e profundas reflexões existenciais, mas sem descartar o humor numa sucessão de reviravoltas que a edição de Anthony Greenberg (Os Incríveis 2) não deixa cair o pique narrativo, complementado pela ótima música de Michael Giacchino (O Batman) que com poucos acordes, cria um tema marcante para seu protagonista, num tom de aventura digno de Indiana Jones ou De Volta Para o Futuro.


Concepção visual de Garret Taylor da nave de Zurg


Visualmente rico, a fotografia de Jeremy Lasky (Procurando Nemo) e Ian Megibben (Soul) valoriza o desenho de produção de Tim Evatt (Gat-bull) e a direção de arte de Paul Conrad; Matt Nolte (Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica); Greg Peltz; Garret Taylor e Bill Zahn criam ambientes plenos de detalhes, calcados no imaginário da ficção-científica e de ilustradores como Robert McCall ou Sid Mead além de e easter eggs que remetem ao próprio universo da Pixar, que por si só é pleno de elementos e personagens auto-referenciados.

 

O terrível Zurg, que revela-se uma grande surpresa em sua origem
"Exército Brancaleone": Izzy Hawthorne, a neta de Alisha, com Sox, o gato-robô e dois “recrutas”: O  indeciso Mo Morrison e a rude Darby Steel são a equipe de Buzz Lightyear contra Zurg


 

Visualmente rico, a fotografia de Jeremy Lasky (Procurando Nemo) e Ian Megibben (Soul) valoriza o desenho de produção de Tim Evatt (Gat-bull) e a direção de arte de Paul Conrad; Matt Nolte (Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica); Greg Peltz; Garret Taylor e Bill Zahn criam ambientes plenos de detalhes, calcados no imaginário da ficção-científica e de ilustradores como Robert McCall ou Sid Mead além de e easter eggs que remetem ao próprio universo da Pixar, que por si só é pleno de elementos e personagens auto-referenciados. 

 

 

A colônia tem capacidade de, aproveitando as matérias -primas do planeta, tornar-se plenamente autosuficiente
Qualquer semelhança com Dagobah, é mera citação...



 

Lightyear marca o retorno triunfal da Pixar Animation Sudios e da Walt Disney Pictures ao universo de Toy Story de uma forma tangencial, e ao mesmo tempo nos fazendo pensar que muitas vezes, ao não conseguirmos nos desapegar de idéias fixas, corremos o risco de não enxergarmos o muno à nossa volta, e acabarmos nos tornando o nosso próprio inimigo. 

 

A flora hostil dá muita dor de cabeças à equipe de colonos

 


Obs.: O filme tem três cenas pós-créditos, sendo a última a mais ignificativa por abrir a possibilidade de Zurg virar o “Kang do Buzz Lightyear”... 

 

O "Cristal de Fusão", fonte do vôo interestelar, tem um simbolismo "queer", em sua configuração final



Notas:



*1: Originalmente tendo a voz de Tim Allen, aqui Buzz Lightyear teve a sua voz mudada para enfatizar a diferença entre o ”ator do filme” (Chris Evans de Capitão América: O Primeiro Vingador) e o brinquedo. Aqui, o dublador oficial Guilherme Briggs cede lugar à Marcus Mion, que até faz um bom trabalho, deixando de lado os maneirismos vocais de apresentador a que estamos habituados. 




*2: Chuck Yeagher (13/02/192307/12/2020) foi um aviador, herói de guerra condecorado (12 vitórias em combate na 2ᵃ Guerra Mundial) e piloto de provas pioneiro, tendo quebrado recordes de velocidade pilotando o X-1 entre outros jatos experimentais, sendo conhecido como o primeiro piloto a “quebrar a barreira do som” em 14 de outubro de 1947. Foi retratado no filme de Philip Kaufman Os Eleitos (The Right Stuff) de 1983.

 


 

 *3: O Efeito de Dilatação do Tempo é que à medida que um objeto se move mais próximo da velocidade da luz, mais o tempo vai correndo devagar para ele, diferente da velocidade em que vai correndo normalmente. Ex.: Se eu tiver um irmão gêmeo e eu fizer uma viagem a um planeta (na velocidade da luz) distante 5 anos-luz, ao ir e voltar eu terei envelhecido alguns dias, mas chegando em casa, eu encontrarei o mundo e o meu irmão gêmeo 10 anos mais velhos do que eu, pois como ele ficou na Terra, o tempo correu normalmente 

 

A aventura está apenas começando...

 

domingo, 18 de julho de 2021

E a aventra continua! - Crítica: Os Incríveis II (2018)

 


Quinteto Fantástico
 

por Alexandre César

(Originalmente postado em 01/ 07/ 2018)


 Sequência do clássico da Pixar diverte e empolga

 


 

 Lançado em 2004 no auge da Era Moderna da animação, Os Incríveis, da, da Pixar dirigido por Brad Bird, usava a temática super-heróica como pretexto para falar sobre as desilusões da vida adulta, a versão disfuncional do Quarteto Fantástico da Marvel com um viés inspirado em Watchmen de Alan Moore e Dave Gibons se tornou o filme favorito de muita gente (US$ 633 milhões de bilheteria mundial) por refletir sobre o que aspiramos ser, e o que acabamos nos tornando, por conta dos compromissos assumidos e, de nossas próprias limitações. Passados quatorze anos, Os Incríveis II (2018) novamente com Bird na direção, retoma a lembrança da família Pêra, e assume novos contornos quando a idade assegura a experiência para entender os temas abordados pelo diretor e roteirista. 
 
 
Os Pêra: A família unida.
Trazendo uma família com super-poderes (e super-problemas) coisa que se conecta com todas as famílias de todo mundo e divertindo crianças e adultos, enquanto joga reflexões sobre os padrões destrutivos nos relacionamentos, e a necessidade de cooperação. Aqui o mundo dos super-heróis representa os sonhos e desejos que afastam homens e mulheres de questões como maturidade, responsabilidade, família e realização pessoal e, se um tem dificuldade em comprometer-se com o lado chato da vida - emprego, horários, contas -, e o outro acaba por isso assumindo as tarefas, aí começam os conflitos e, o relacionamento faz água...
 
O publicitário Winston Deavor (Bob Odenkirk) planeja trazer os super-heróis de volta à sociedade, deixando Roberto, o Senhor Incrível (Craig T.Nelson) em casa...

Estando na lista dos melhores filmes de super-heróis de muita gente, apesar dos filmes da Marvel, Fox e... da DC, Bird retoma a história da família Pêra com o mesmo equilíbrio e, invertendo a dinâmica: Novamente proibidos de ser quem são, os heróis lidam com outra crise. Sendo agora, Helena, a Mulher-Elástica (Holly Hunter) é a escolhida para uma vida de aventuras (assumindo protagonismo) pelo publicitário Winston Deavor (Bob Odenkirk) que planeja trazer os super-heróis de volta à sociedade, deixando Roberto, o Senhor Incrível (Craig T. Nelson), com os afazeres do lar. Seu cansaço, é muito bem explorado pela narrativa, cuja movimentação nos planos é quase imperceptível, sugerindo tédio. Helena faz as pazes com o seu lado heroína, e ele aprende a ser do lar e cuidar das crianças, refletindo as mudanças atuais das divisões do trabalho e da evolução do papel da mulher na sociedade. Ele, tendo que lidar com as desavenças amorosas de Violeta (Sarah Vowell), os deveres de casa de Flexa (Huck Milner), sendo ambos incapazes de chegar ao um acordo sobre quem deve cuidar de Zezé, o bebê, cuja descoberta dos poderes é o ponto alto do filme.
 
 
Helena, a Mulher-Elástica (Holly Hunter) agora assume protagonismo

Após a Pixar começar a fazer sequências como Carros 2 (2011), Toy Story 3 (2010) e Procurando Dory (2016), ficou claro que o estúdio começou a sofrer altos e baixos em seu outrora impecável currículo. Era inevitável o retorno da super-família, trazendo Bird de volta, aqui como diretor e roteirista. Conhecido pelos extremamente bem recebidos O Gigante de Ferro (1999) e Ratatouille (2007) e o próprio Os Incríveis. A animação vira de cabeça para baixo as dinâmicas existentes no cenário sessentista do filme, optando por jogar no seguro, mas sem usar dessa facilidade por descaso, usando-a como possibilidade de renovar e encorpar as temáticas relacionadas ao item que realmente importa: a família.
 
Violeta (Sarah Vowell) e Toninho Rodrigues (Michael Bird). Idas e vindas do amor...

Enquanto constrói o argumento, Bird brinca com a mitologia do super-herói e os poderes do grupo, refletindo as suas personalidades, seja a Mulher-Elástica que se desdobra para resolver problemas ou na solidez e força de Beto, o “grande provedor” ou a hiperatividade de Flexa (todos menos ele têm poderes similares  ao Quarteto Fantástico, pois as crianças poderiam se machucar brincando com fogo, caso ele fosse como o tocha-humana...) e a evolução de Violeta, enfrentando a timidez, além do grande time de coadjuvantes, tendo uma maior participação de Gelado (Samuel L. Jackson) a figuraça Edna Moda, a figurinista dos super-heróis (com voz do próprio Brad Bird). A simpática Karen (Sophia Bush), amiga de Helena, ou Evelyn Deavor (Catherine Kenner) a genial irmã de Winston, ou o impagável Toninho Rodrigues (Michael Bird), interesse romântico de Violeta.  Os Incríveis II assume uma postura cômica ainda mais afiada que o filme anterior, justamente por trabalhar a incompetência inicial de Roberto no que tange tomar conta da sua própria família. Apesar de o Hipnotizador, vilão da vez, não guardar segredos realmente inéditos ao sub-gênero, tudo tem uma razão de ser.
 
 
O Hipnotizador, vilão da vez, que funciona mas, não é nada extraordinário.

A computação gráfica evoluiu muito em quatorze anos, mantendo aos traços angulosos originais sobressaindo-se na textura,com padrões levemente realistas de tecido, pele, cabelos, metal e água, dando “palpabilidade” à imagem na telona, aproximando a realidade e o ficcional, da estética dos quadrinhos dos anos 60,explorando mais os cenários suburbanos da cidade, sobretudo nas cenas noturnas, ajudando na idealização das mesmas, fora que as cenas de ação são  extremamente realistas... Parecendo às vezes um filme live-action, embalado pela ótima trilha sonora de Michael Giacchino que continua se mostrando um dos grandes compositores de sua geração.
 
 
O tédio da vida adulta...

Apesar de alguns deslizes da dublagem (gírias como “A Casa Caiu” e “Eu vim do Acre”), Os Incríveis II é um filme muito divertido feito para a família, que une humor e ação na medida certa, com uma boa dose de nostalgia, mas por ser uma reciclagem de tudo já visto, e, por vir da Pixar, alguns fãs mais antigos e exigentes que estão esperando a sequência há mais de uma década poderão sair decepcionados. Eu gostei, pois o gênero inevitavelmente em algum momento trará o “mais do mesmo”, mas o próprio gênero exige esse “mais do mesmo” em algum momento. Faça a sua avaliação, leitor.