12 de janeiro de 2011. Durante a última missão do ônibus espacial Endeavour*1 reparando um satélite em órbita, os astronautas Brian Harper (Patrick Wilson de Aquaman) e Alan Marcus (Frank Fiola de La Maison-Bleue) testemunham um evento inusitado que abala o veículo, danificando-o e deixando Jocinda Jo Fower (Halle Berry de John Wick 3: Parabellum) desacordada dentro da cabine. Alan morre e Brian, sendo o único consciente, consegue salvar o veículo e retorna à Terra.
Roubada cósmica: O astronauta Brian Harper (Patrick Wilson) testemunha algo que ferra a sua missão e não deixa provas de sua existência
Como Harper era o único consciente que testemunhou o evento, sem ter nenhum registro do ocorrido, ele cai em desgraça, sendo dispensado da NASA, pois Jocinda não pôde auxiliá-lo.
O teórico da conspiração KC Houseman (John Bradley) vislumbra o perigo que se aproxima
Tempo presente. KC Houseman (John Bradley de Case Comigo) o desacreditado ‘cientista’ conspiratório fuçando a rede da NASA procura Harper para lhe comunicar suas conclusões aparentemente estapafúrdias, o que ele ignora. Harper, vive uma situação humilhante, pois após perder o emprego (e seu status), seu casamento foi para o ralo, e seu problemático filho Sonny (Charlie Plummer de Quem é Você, Alasca?) foi preso, apesar dos esforços de sua ex-esposa Brenda (Carolina Bartczark de Hall) e seu atual marido Tom Lopez (Michael Peña de A Mula) empresário automobilístico, com quem têm duas filhas: Nikki de 9 anos (Ava Weiss de Y: O Último Homem) e Lauren Lopez de 12 anos (Hazel Nugent). Por sua vez, KC Houseman tem seu drama pessoal por conta de sua mãe Elaine (Kathleen Flee de Blue Hour) que sofre de Alzheimer, e Jocinda tem seus problemas com o ex Doug Davidson (Eme Ikwuakor de Inumanos) militar de alta patente, e seu filho Jimmy (10 anos) (Zayn Maloney de The Boys). Todos enrolados em seus problemas, mas repentinamente, a NASA, descobre que a Lua está mudando sua órbita, confirmando as teorias de Houseman.
Jocinda Jo Fower (Halle Berry) recruta Harper, que traz Houseman no bojo
Dirigido por Roland Emmerich (Midway – Batalha em Alto Mar) Moonfall: Ameaça Lunar (2022) marca o retorno do diretor alemão ao gênero que o consagrou em Hollywood: O da destruição em escala global, tendo ele assinado os agora clássicos Independence Day(1996),O Dia Depois de Amanhã (2004) e 2012 (2009) entre outros, aqui reproduzindo no roteiro, escrito por ele, Harald Kloser (2012) e Spencer Cohen (Extinção) a mesma fórmula consagrada de intercalar um macrocosmo de destruição apocalíptica com um microcosmo de um ou dois núcleos familiares fugindo do caos à sua volta, enquanto se ignora o resto do mundo, dando a entender que todo o globo terrestre se restringe a um segmento ínfimo dos Estados Unidos.
Com a destruição das naves disponíveis, a solução é tirar a Endeavour do museu
Os personagens são bem bidimensionais, sendo salvos pelo carisma de seus protagonistas, auxiliados pelos figurinos de Mario Davignon (Midway – Batalha em Alto Mar) e Harlan Glenn (Road to Marakesh) define os personagens segundo seus estereótipos de forma que fique bem claro o que eles são, como os técnicos da NASA Johansen (Jonathan Maxwell Silver de The Other Worlds) e Mosley (Chris Sandiford de O Que Fazemos nas Sombras); a Sargento Gabriella Auclair (Maxim Roy de Caçadores de Sombras) que resgata os personagens quando necessário; Albert Hutchings, diretor da NASA (Stephen Bogaert de The Umbrella Academy) um burocrata covarde (convenientemente) ou Holdenfield (Donald Sutherland deAd Astra: Rumo às Estrelas) o guardião do grande segredo que a agência oculta; ou o General Jenkins (Frank Schorpion de Crise) militar de alta patente que planeja um ataque nuclear contra o satélite...
A ex de Harper Brenda (Carolina Bartczark de Hall) e seu marido Tom Lopez (Michael Peña) e seus filhos, são o foco familiar do filme
A narrativa de Emmerich trabalha na sua “zona de conforto”, com o auxílio da edição de Ryan Stevens Harris (Darc) e Adam Wolfe (Independence Day: O Ressurgimento) que dá um razoável senso de urgência à narrativa, mas embora os elementos de ficção-científica ajudem o filme a ser mais interessante do que apenas mais um filme catástrofe, o conjunto ainda sim é apenas OK, que deverá agradar ao espectador casual, pouco exigente que não repare nas grandes inconsistências da história, com uma lógica de post de tiozão do What´s App de 250 caracteres...
Jocinda e equipe correm contra o relógio para recuperar o veículo espacial
A música de Harald Kloser (2012) e Thomas Wanker (Midway – Batalha em Alto Mar) sublinha de forma funcional os momentos de maior tensão, alternados com momentos mais intimistas, mas não se destaca realmente, da mesma forma que a fotografia de Robby Baumgartner (Midway – Batalha em Alto Mar) trabalha muito bem na parte espacial do filme, dando em alguns momentos um tom realista, sendo mais exagerada na parte que cobre a catástrofe decorrente da aproximação da Lua sobre a superfície terrestre.
A viagem é complicada pelo rastro de fragamentos que a Lua vai deixando em sua órbita
O competente desenho de produção de Kirk M. Petruccelli (Tempestade: Planeta em Fúria) junto com a direção de arte de Félix Larivière-Charron (X-Men: Fênix Negra), Vincent Aird (Quantico), Renaud Chamberland, Carolyne de Bellefeuille (Mundo em Caos), Marie-Soleil Dénommé (Observadores), Mathieu Giguère (Cemitério Maldito) e Sophi Grahan (Float) e a decoração de sets de Suzanne Cloutier (Barksins), Philippe Lord (Acorda, Nicole) e Ann Smart (Jack Ryan) contrastam bem os cenários de filme desastre com os de aventura de ficção-científica, que os efeitos visuais das empresas Double Negative (DNEG), Proof, Scanline VFX e Scroggins Aviation (mockup de helicópteros) supervisionados por Peter Travers (Midway – Batalha em Alto Mar) dando um maior interesse à trama ao ilustrar a ideia de a Lua na realidade ser uma construção artificial tal qual uma Esfera de Dyson*2 criada por alienígenas.
Houseman, Harper e Jocinda ao confrontarem a força misteriosa, fazem uma descoberta
Ao final, Moonfall: Ameaça Lunar é até divertido se você usar o velho expediente de “desligar o cérebro”, e até deverá fazer sucesso futuramente quando chegar à TV ou ao streaming, quando talvez graças ao gancho de sua cena final, que é até interessante, que abriria boas possibilidades narrativas, desde que acompanhada de um bom roteiro, coisa difícil desta equipe aqui fornecer...
Eles encontram uma estrutura de origem alienígena relacionada às origens do homem
Notas:
*1: O Endeavour foi o quinto e mais recente ônibus espacial construído pela NASA. A sua construção começou em 1987 com o objetivo de substituir o Challenger, destruído durante um acidente em 1986. Peças sobressalentes das estruturas do Discovery e do Atlantis foram usadas na sua construção. A decisão de construir o Endeavour foi preferida à alternativa de reaparelhar o Enterprise porque o custo era menor.
Seu primeiro voo (STS-49) foi entre 7 de maio de 1992 - 16 de maio de 1992, e o seu último (STS -14) foi entre 16 de maio de 2011 - 01 de junho de 2011 perfazendo um total de 25 missões. Atualmente encontra-se em exposição no California Space Center, em Los Angeles.
*2:Esfera de Dyson: Megaestrutura hipotética originalmente descrita pelo físico e matemático inglês Freeman Dyson (1923 - 2020), a qual orbitaria uma estrela de modo a rodeá-la completamente, capturando toda ou maior parte de sua energia emitida. Dyson especulou que tal estrutura seria a consequência lógica da sobrevivência e da escalar necessidade de energia de uma civilização avançada tecnologicamente, e propôs que a busca de evidências de tal estrutura poderia levar à detecção de vida extraterrestre com inteligência avançada.
A maioria das descrições ficcionais são de uma casca sólida de matéria encobrindo a estrela, que é considerada a variante menos plausível da ideia. Desde que o conceito desta megaestrutura foi inicialmente idealizado, a engenharia espacial tem apresentado diferentes propostas para a construção de uma estrutura artificial, ou de uma série de estruturas, com intuito de rodear uma estrela para capturar sua energia, porém as dificuldades técnicas para a execução deste projeto relegaram a Esfera de Dyson à arena da ficção-científica. No ano de 2015, entretanto, após o telescópio espacial Kepler analisar a enorme oscilação da luminosidade da estrela KIC 8462852, da constelação de Cisne, astrônomos renomados passaram a considerar a hipótese de que uma megaestrutura similar à Esfera de Dyson pudesse estar causando o fenômeno.
O Dr. Randall Mindy (Leonardo DiCaprio de Era Uma Vez... Em Hollywood ótimo ao criar um personagem cheio de fobias) e a doutoranda Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence de X-Men: Fênix Negra na medida certa), dois cientistas da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, fazem uma descoberta chocante: Um meteoro (de tamanho equivalente ao do monte Everest) vindo de um trecho pouco mapeado do espaço e em rota de colisão com a Terra. O tamanho do objeto celeste é suficiente para causar um impacto similar ao que eliminou os dinossauros, o que leva os astrônomos a procurarem pelas autoridades americanas. O Dr. Teddy Oglethorpe (Rob Morgan de Demolidor numa interpretação contida mas que diz tudo com seus silêncios) responsável pelo Departamento de Defesa Planetária, e consegue uma audiência presidencial, para se poder estabelecer planos de contingência, pois o prazo do impacto (seis meses) é extremamente curto. Ambos esperam que a liderança possa encontrar uma forma de enfrentar essa ameaça que pode destruir a humanidade, e agora, talvez o próprio planeta...
Voz da razão: O Dr. Randall Mindy (Leonardo DiCaprio) e a doutoranda Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) fazem uma incrível e terrível descoberta...
... que chega ao conhecimento do Dr. Teddy Oglethorpe (Rob Morgan) que entende a gravidade do tema
Narrado assim, Não Olhe Para Cima (2021) Dirigido por Adam McKay (Vice) soa como mais um daqueles blockbusters dirigidos por Michael Bay ou Rolland Emmerich (que em breve emplacará mais um filme nas telas) em que os EUA, Terra dos Bravos, será capaz de: “- Superar o desafio, provando a sua posição de liderança no Mundo Livre...“
Ducha de água fria: A Presidente Orlean (Meryl Streep) e seu filho Jason Orlean (Jonah Hill) chefe de gabinete, não dão a mínima para o assunto
Só que aqui, o roteiro de Adam McKay e David Sirota (Os Goldbergs) cria um filme de desastre misturado com sátira política, mostrando uma outra realidade, calcada no negacionismo e na desinformação, fruto de um estado disfuncional da política e da mídia, além da alienação social e a cultura online superficial e facilmente distraída, onde os anos de estudo, adquirindo títulos acadêmicos e domínio de assunto não superam a hegemonia de opiniões expressas em 270 caracteres, difundidos em grupos de What´s App, Telegram, e outras redes sociais, pretendendo ser um mix deDr. Fantástico (1964) de Stanley Kubrick em um contexto contemporâneo, com Idiocracia (2006) de Mike Judge, na chacota da estupidez humana, objetivando chamar a atenção do público da maneira mais ampla e superficial possível, pois não duvide: Esta é a linha mercadológica da atual forma de consumo, onde não existe espaço para diálogo, pensamento crítico, comunicação inteligente, e discussões aprofundadas, se resumindo tudo a propaganda. Podemos ver isso no nosso próprio comportamento online, pois se um post tem mais de um parágrafo, ele é “longo”. Se um vídeo do Instagram não prende sua atenção em 5 segundos, ele é passável. Se não gostamos de alguém, ele vira meme e/ou é cancelado. Se uma pessoa não te interessa, passe para o lado.
Diante da resposta governamental, a solução é procurar a TV, mas os âncoras Brie Evantee (Cate Blanchett) e Jack Bremmer (Tyler Perry) tratam um assunto vital de maneira fútil...
... tendo mais atenção com o romance dos cantores DJ Chello (Kid Cudi) e Riley Bina (Ariana Grande) que "bombam" nas redes sociais
Mas voltemos à trama. A resposta dos políticos é bem diferente do esperado, pois a Presidente Orlean (Meryl Streep de A Dama de Ferro eficiente, num tom farsesco) está mais focada num escândalo sexual envolvendo um de seus correligionários (e para ela, seis meses é algo muuuito distante) seu filho Jason Orlean (Jonah Hill de Festa da Salsicha perfeito como um babaca) chefe de gabinete, age mais como criança mimada e arrogante, do que autoridade responsável (similar à um “certo” governo latino-americano) e no final a decisão tomada é o velho “vamos deixar como está, para ver como é que fica” frustrando os cientista, que recorrem à imprensa, mas os âncoras de TV, Brie Evantee (Cate Blanchett de Thor: Ragnarokcomo a personificação da beleza fútil) e Jack Bremmer (Tyler Perry de Um Funeral em Família perfeito como o típico repórter que fala sobre tudo, mas que não conhece nada) insistem em tratar a questão com leveza, ignorando a gravidade da situação (afinal não devemos ser rudes e assustar as pessoas), lembrando muito os programas da Fox News (e até das nossas emissoras) critica a dissimulação dos jornais e meios de comunicação clássicos, atestando o pouco valor que a nossa sociedade atribui à ciência, embora seja a mais dependente dela para a geração de energia, alimentos, remédios e toda uma gama de elementos vitais. Imaginemos o que aconteceria se como ao final do remake de O Dia Em Que A Terra Parou (2008) a eletricidade fosse removida em definitivo, quantos no primeiro ano morreriam por não poderem mais contar com as máquinas para aquecimento, irrigação, fabricação de alimentos e remédios. Etc... neste retorno à vida medieval, fantasia de muitos nerds e In Cels*1 cujo tônus muscular não suportaria segurar uma vassoura para limpar sua casa.
Kate Dibiasky é descartada por sua atitude intempestiva, enquanto Randall Mindy é alçado à posição de "o cara da ciência" e vai tentando alertar as pessoas quanto as fatos...
... enquanto o governo finalmente se mexe e monta uma missão comandada por Benedict Drask (Ron Perlman) militar durão
Por sua ação inicial, junto com Dibiasky e o Dr. Teddy Oglethorpe, Mindy até consegue chamar alguma atenção, embora pífia comparada à gerada pela ruptura do namoro dos cantores Riley Bina (Ariana Grande de Sam & Cat) e DJ Chello (Kid Cudi de Need for Sped: O Filme) celebridades vazias que dominam as redes sociais. Mas, como desgraça pouca é bobagem, logo, Kate Dibiasky é deixada de lado por seu espírito intempestivo e, tentando fazer a diferença e abrir os olhos do público leigo, Randall Mindy acaba sendo cooptado pelo sistema, sendo seduzido pelo glamour de ser uma celebridade, pois ele vai aprendendo a sair de seu nicho acadêmico e se comunicar com o homem comum.
A missão começa em alto estilo, mostrando serviço...
...mostrando um bom trabalho da equipe de efeitos visuais
Pouco depois, o governo americano resolve montar uma missão de desvio do meteoro, numa manobra política populista, pleno do espetaculoso patriotismo norte-americano, comandada por Benedict Drask (Ron Perlman de Monster Hunter) militar casca-grossa machista e preconceituoso, no melhor estilo Armageddon e Independence Day, e até parece que finalmente as coisas tomaram um rumo, mas eis que Peter Isherwell (Mark Rylance de Jogador N°1 perfeito na composição de um tipo cujo comportamento sereno, esconde o medo de gente) dono da BASH, multinacional na área tecnológica (um amálgama irritantemente cômico de Steve Jobs, Elon Musk e Mark Zuckerberg) e maior financiador de campanha da presidente, sugere um método sem evidências científicas para fragmentar o corpo celeste e obter lucro em cima dos seus vastos recursos minerais. Logo a BASH faz uma mega campanha, convencendo à população em geral que a exploração do meteoro irá gerar empregos neste espírito às avesas da fábula “O Céu Está Caindo”*2, beneficiando os EUA, já que eles anunciam que a Rússia, China e Índia (curiosamente membros dos BRICS) NÃO PARTICIPARÃO DO EMPREENDIMENTO e, pouco depois misteriosamente, uma missão conjunta dessas nações para desviar o meteoro explode ainda em terra inviabilizando alternativas...
Quando tudo parece estar encaminhado Peter Isherwell (Mark Rylance) bilionário e principal financiador de campanha da presidente, manda cancelar a missão...
...pois ele tem um plano para explorar os recursos minerais do asteróide e nisso "gerar empregos e estimular a economia..."
Assim, os desacreditados Randall Mindy, Kate Dibiasky e Teddy Oglethorpe se retiram para suas vidas, Randall, reatando com sua esposa June Mindy (Melanie Lynskey de Dois Homens e Meio) e Kate engatando um romance com Yule (Thimothée Chalamet de Duna) rapaz descolado, e tão pária social quanto ela, já que seu ex, Phillip (Himesh Patel de Yesterday) resolveu denegri-la e faturar em cima disso. Assim todos vêem o mundo caminhar para um destino fatídico enquanto o governo e indivíduos como Dan Pawketty (Michael Chiklis de The Shield) ancora de direita, negam de forma veemente o inevitável, tentando prolongar ao máximo o momento presente e faturar um pouco mais como se não houvesse amanhã...
Se inicia uma campanha onde figuras como o âncora Dan Pawketty (Michael Chiklis) e o congressista Tenant (Robert Joy) desqualificam as vozes discordantes
Mindy vai se angustiando por ver o prazo se esgotando e ninguém cair em si
Auxiliando a boa performance de seu elenco, os figurinos de Susan Matheson (Tempestade: Planeta em Fúria) marcam bem as distinções entre Randall (um acadêmico de meia idade), com suas roupas sem estilo, Kate e Yule (ambos párias sociais de seus jeitos diversos) com seus trajes mais casuais embora de combinações duvidosas, que contrastam com os tailleurs da presidente, e os ternos bem cortados e os modelitos dos âncoras de TV ou das celebridades que equilibram a elegância de sua produção com o seu vazio interior.
sabemos que uma missão russa de desvio do asteróide explode "misteriosamente" ainda no solo
Como tentativa de conscientização há um show dos cantores DJ Chello e Riley Bina no melhor estilo USA for Africa, com músicas tipo "We Are the World" com muitos acessos nas redes sociais
A bela fotografia de Linus Sandgren (007: Sem Tempo Para Morrer) de aspecto documental, acompanha a direção frenética de McKay, auxiliado pela edição (de aspecto apressado) de Hank Corwin (Vice) cheia de cortes rápidos, transições narrativas que trabalham como tiques nervosos, imagens de arquivos da natureza (num subtexto claro sobre mudanças climáticas e ambientalismo) está a todo vapor para comprovar o caos. Inserindo comentários de redes sociais para dimensionar o efeito manada da internet, sublinhada pela música de Nicholas Britell (Sucession) que acompanha o ritmo narrativo dando um tom documental nesta constatação do imenso manancial de conteúdo vazio que são as redes.
desiludida,Kate larga tudo, virando caixa de mercado, e inicia um romance com Yule (Thimothée Chalamet ao centro) um outsider como ela
Randall, reata com sua esposa June Mindy (Melanie Lynskey) e com seus filhos
O desenho de produção de Clayton Hartley (A Grande Aposta) cria junto com a direção de arte de Jared Patrick Gerbig (A Guerra do Amanhã), Elliott Glick (A Dama e o Vagabundo), Brad Ricker (Duna) e Patrick Scalise (The Morning After) ambientes familiares à audiência como o Salão Oval da Presidência (que como diz um personagem, “-É menor do que parece na TV!”) ou os estúdios dos telejornais, que emulam o aspecto clean (e ao mesmo tempo brega) da Fox News, que contrasta com o aspecto acolhedor da casa de Randall e June Mindy, que a decoração de sets de Kyra Friedman Curcio (Ted 2) e Tara Pavoni (O Som do Silêncio) enfatiza o perfil de “porto seguro”, bem diferente dos cenários high-tech da BASH, dignas de um filme de James Bond.
Ao final, a verdade vai cada vez mais ficando visível nos céus, apesar do negacionismo...
...restando à elite, fugir par outro mundo (eles sempre têm um plano de fuga...)
Os efeitos de Framestore, Scanline VFX, Instinctual VFX, Captured Dimensions, Picturemill, Lola Visual Effects, Otomo FX, Day For Nite e supervisionados por Raymond Gieringer (Gênios do Crime), Matthew Bullock (Eternos), e Dann Tarmy (X-Men: Fênix Negra) emulam o tom de filmes como Armageddom e Impacto Profundo (1998) plenos de som e fúria yankee e surpreendem em coisas triviais, como corrigir o sorriso de sua protagonista*3.
Kate, Randall, e Yule resolvem se reunir uma última vez...
... e convidam o Dr. Teddy Oglethorpe para um jantar de confraternização na casa de Randall
Com seu desfecho ultra-cínico (não deixem de ver os dois pós-créditos), e totalmente trágico, Adam McKay faz de Não Olhe Para Cima uma sátira que é mais catastrófica que a grande maioria de filmes de desastre, personificando a crítica de Slavoj Zizek*4 da capacidade que o capitalismo tem de vender descontentamentos de volta ao consumidor como mercadorias. Aliás a própria atitude resignada de seus protagonistas ao final reflete uma constatação: Hollywood até aceita o fim do mundo, mas não aceita o fim do capitalismo...
"- PORQUE É TÃO DIFÍCIL NOS COMUNICARMOS!?!"
Notas:
*1: Diminutivo da expresão “Involuntary Celibates” (“Celibatários Involuntários” ) grupos de homens entre os 20 e 40 anos que por serem incapazes de se relacionar sexual e amorosamente culpam as mulheres e os homens sexualmente ativos por isso, difundindo na internet a misoginia e até provocando atentados armados.
*2: Um conto onde um pintinho é atingido por uma noz que cai de uma árvore e passa a alardear que “o céu está caindo!!!”, e tenta convencer todos à sua volta disso. Serviu de base para os desenhos da Disney Chicken Little (1943) de forte conotação política ao mostrar didaticamente como o fascismo opera, espalhando boatos, minando lideranças e alçando fantoches ao poder. Posteriormente o estúdio fêz uma versão mais branda (e com final feliz) em O Galinho Chicken Little (2005).
*3: Jennifer Lawrence havia sofrido um acidente, quebrando alguns dentes. Por questões da demora em se tratamento por conta do isolamento social durante a pandemia, ela filmou com seus dentes quebrados, que foram corrigidos digitalmente na pós-produção.
*4: Slavoj Zizek é um filósofo esloveno, professor do Instituto de Sociologia e Filosofia da Universidade de Ljubljana e diretor internacional da Universidade de Birkbeck, Londres. Sua linha de pensamento é a de que as pessoas estão “dopadas, adormecidas”, cabendo a nós “despertá-las” na medida em que a liberdade de expressão é o direito de dizer à elas o que não querem ouvir, para fazê-las refletirem e pela conscientização,tomarem uma posição.
*♪♫ -This is the end... ♪♫ Beautiful friend... ♪♫ This is the end... ♪♫ My only friend, the end...♪♫"