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sexta-feira, 5 de maio de 2023

Britânico de Aço - Perfil: Henry Cavil

 

Herói para todos os gostos

por Alexandre César 
(Postado originalmente em 05/ 05/ 2018)

Nerd com aparência de galã e herói


Como Albert Mondego em "O Conde de Monte Cristo" (2002)



Kal-El, Geralt de Rivia, Napoleon Solo, Sherlock Holmes. Personagens bem diversos, que à primeira vista não poderiam funcionar em cena com o mesmo intérprete, sob ameaça de alguns pareceram falsos em comparação com outros, mas, incrivelmente, isto ainda não aconteceu com qualquer personagem encenado por Henry Cavill.

Henry William Dalgliesh Cavill (⭐ Saint Sauveur, Inglaterra, 5 de maio de 1983), é um ator britânico, conhecido por ser o intérprete atual do Superman. Seu porte físico, boa aparência, sorriso contido e olhar levemente oscilante entre o indiferente e o triste lhe renderam papéis de protagonista em vários blockbusters, mas isto levou pelo menos 15 anos para acontecer. 

 

Cenobita: Com Catherine Winnick em "Hellraiser 8: O Mundo do Inferno" (2005)

  

Nascido na ilha de Jersey, é o quarto de cinco filhos de Colin Richard Cavill, um corretor de bolsa, e de Marianne Dalgliesh, uma secretária de banco. Possui ascendência inglesa, irlandesa e escocesa. Foi educado na Escola Preparatória St. Michael em Jersey antes de frequentar a Stowe School, um internato, em Buckinghamshire. Enquanto estudava nesta escola, Henry conheceu o ator Russel Crowe (que se encontrava no local a filmar o filme Prova de Vida de Taylor Hackford) pela primeira vez. Os dois voltaram a encontrar-se doze anos mais tarde na rodagem do filme O Homem de Aço onde Cavill interpreta o herói, e Russel, o seu pai Jor-El

 

Em "A Garota da Capa Vermelha" (2006): Comida para lobo...


 

O primeiro papel profissional de Henry surgiu quando o ator tinha 18 anos no filme de 2001, Laguna, de Dennis Berry. No ano seguinte interpretou o papel de Albert Mondego em O Conde de Monte Cristo (2002) de Kevin Reynolds, participando nos anos seguintes, em séries britânicas como The Inspector Lynley Mysteries (2002) e Midsomer Murders (2003), assim como papéis secundários em filmes de sucesso moderado como Hellraiser 8: O Mundo do Inferno (2005) de Rick Bota, A Garota da Capa Vermelha (2006) de Catherine Hardwicke, Tristão e Isolda (2006) de Kevin Reynolds e Stardust: O Mistério da Estrela (2007) de Matthew Vaughn.

 

Em "Stardust: O Mistério da Estrela" (2007) como o almofadinha Humphey


Em 2007, Henry conseguiu o papel de Charles Brandon, Duque de Suffolk, cunhado de Henrique VIII da Inglaterra e inimigo da Rainha Ana Bolena na série  The Tudors sendo o seu maior sucesso até ali. A série foi transmitida pelo canal Showtime entre 2007 e 2010, recebendo inclusive uma indicação para o Globo de Ouro na categoria de Melhor Série Dramática no ano de estreia, e  tendo a sua performance elogiada pela crítica. O próprio Henry atribui muito do seu sucesso posterior à série e disse numa entrevista: "Foi o trabalho que mais fez por mim até agora. (...) Agora existe um público algures nos Estados Unidos que tem uma ideia de quem eu sou e tenho mais valor no mercado graças a The Tudors 

 

"The Tudors" série que lhe deu visibilidade e outras chances


Cavill fez uma audição para o papel principal para  Batman Begins, mas perdeu para Chritian Bale. Em 2005, ele tornou-se um jovem concorrente para o papel de James Bond. Os produtores e o director Martin Campbell tiveram de escolher entre Cavill, Daniel Craig e Sam Worthington. O director favoreceu Cavill como uma versão mais nova de James Bond. mas, os produtores achavam-no muito jovem para o papel, escolhendo Craig. Ele também fez um teste para Superman- O Retorno (2006) de Brian Singer, perdendo o papel para Brandon Routh. Devido ao fato de não ter sido aprovado para estes papéis, na edição de Dezembro de 2005 do Empire Magazine, ele foi apelidado de "… o homem mais desafortunado*1 em Hollywood". Mas, no frigir dos ovos, nada como um dia após o outro...

 

Com Evan Rachel Wood e Woddy Allen em "Tudo Pode Dar Certo"(2009)

 

Apesar de não ter conseguido os papéis mais destacados para os quais fez testes, Henry não parou de trabalhar no cinema. Protagonizou o terror Renascido das Trevas (2008) de Joel Schumacher e no ano seguinte teve um pequeno papel na comédia Tudo Pode Dar Certo (2009) de Woody Allen.

Após o cancelamento de The Tudors em 2010, o ator teve papéis de destaque em Imortais (2011) de Tarsem Singh, cuja direção de arte estilizada (“carnavalesca” diriam alguns...) dividiu opiniões. Neste filme interpretou a personagem de Teseu e Fuga Implacável, (2012) de Mabrouk El Mechri como o filho de um ex-agente da CIA feito por Bruce Willis.


Como Teseu, em "Imortais" (2011): Samba do "Grego Louco"...


No final de janeiro de 2011, a Warner Bros Pictures anunciou que Henry tinha sido escolhido para interpretar o papel de Clark Kent/ Superman no filme Man of Steel, dirigido por Zach Snyder. Sua preparação intensa (a sua malhação o levou a diminuir a cintura de suas calças em dois números) e dedicação levou o diretor a afirmar que Cavill era "a escolha perfeita para envergar a capa e o “S" e a imprensa elogiou a decisão. Henry afirmou: "No panteão dos super-heróis, o Superman é a personagem mais reconhecida e celebrada de todos os tempos e sinto-me honrado por participar no seu regresso à grande tela".

 

Como filho de Bruce Willis em "Fuga Implacável" (2012)


 

Se o filme dividiu opiniões, sua performance do Kryptoniano foi no geral, bem aceita por conseguir se desligar da imagem de Christopher Reeve (coisa que prejudicou Brendan Routh, engessando-o pela obsessão de Bryan Singer com os filmes de Reeve). Apesar de discordar do tom dado ao personagem, pois seu lado nerd sempre viu o último kriptoniano como uma figura solar, otimista, ele voltou a interpretar o papel nos filmes Batman V Superman: A Origem da Justiça (2016) e em Liga da Justiça (2017) ambos dirigidos por Snyder, embora devido às várias interferências do estúdio por ocasião do suicídio de sua filha, Snyder acabou abandonando o filme, que foi refeito por Joss Whedon, que inicialmente ele apoiou por esperar que finalmente pudesse dar a sua visão do personagem, apesar dos problemas decorrentes dos atrasos das filmagens, conflitos de agendas (não podia raspar o bigode pois estava filmando Missão: Impossível - Efeito Fallout, tendo que filmar os reshoots com ele, obrigando a produção a usar CGI para apagá-lo). A baixa performance das bilheterias e as críticas ruins, além das posteriores denúncias de assédio moral e racismo nos bastidores, terminaram por frustrar os planos do Universo Expandido DC, levando ao gradual abandono do universo delineado por Zack Snyder, que seguiu em seu luto, e Cavil foi diversificando sua carreira...

 

Após o sucesso de "O Homen de Aço" (2013) Cavill retornou em "Batman V Superman: A Origem da Justiça" (2016) enfrentando um invocado Ben Afleck


 

Em 2014, junto ao seu irmão Charlie e o produtor inglês Rex Glensy, criou a sua própria companhia de produção, a Promethean Productions. para desenvolver futuros projetos e garantir maior controle criativo dos mesmos.

Henry já expressou a sua vontade de interpretar James Bond quando Daniel Craig desistir do papel. O ator protagonizou O Agente da U.N.C.L.E. (2015) de Guy Ritchie (adaptação da série de espionagem humorística da década de 60 que imortalizou Robert Vaughn como o agente americano Napoleon Solo e David McCallum como o agente russo Ilya Kuryakin) depois de Tom Cruise ter desistido do papel. Neste filme fez parceria com um inspirado Armie Hammer, além de trabalhar com Alicia Vikander, a atual Lara Croft.

 

"O Agente da U.N.C.L.E." (2015). Cavill como o americano Napoleon Solo e Armie Hammer como o russo Ilya Kuryakin


Dividiu a tela com Tom Cruise em Missão: Impossível - Efeito Fallout (2018) de Christopher McQuarrie, compondo um personagem cruel e bruto, bem diferente tanto do Kryptoniano (vindo daí o problema do bigode dos reshoots de Liga da Justiça...) quanto de Napoleon Solo, somando mais um degrau em sua escalada rumo ao estrelato. 

Nerd assumido e fã de games, Cavill, forçou contato com a Netflix quando soube do projeto The Witcher, e após muitas reuniões, acabou assumindo o papel de Geralt de Rivia, o herói dos romances e contos de Andrzej Sapkowski que se tornou amplamente famosa após sua adaptação para videogames e, em 2019,  rapidamente se tornou um dos títulos mais populares da gigante do streaming.

 

A "galera" unida em "Liga da Justiça" (2017). Apesar dos pesares, Kal-El voltou a usar cores claras

 

 Durante a primeira temporada, Geralt era principalmente não-verbal, comunicando-se por meio de grunhidos e expressões faciais (abrindo caminho para incontáveis memes) sem falar muito e manter o rosto seco, com sagacidade ao mesmo tempo e transparecendo sua inteligência no olhar. Mas a partir da segunda temporada, Cavill realmente pressionou por um Geralt mais fiel aos livros, que é bastante falador, permitindo assim, Geralt falar muito mais na segunda temporada, trazendo mais a sua personalidade do que na primeira temporada, conquistando os fãs com sua atuação e melhorando o personagem. Divergências criativas fizeram o ator deixar o personagem ao fim da terceira temporada, que já escalou Liam Hensworth para substituí-lo à partir da quarta.


Com Simon Pegg em "Missão: Impossível - Efeito Fallout" (2018) como o vilão da história


A parceria com a Netflix continuou em Enola Holmes (2020) e Enola Holmes 2 (2022) ambos de Harry Bradbeer, baseado na série literária homônima de Nancy Springer, onde viveu um jovem Sherlock Holmes, que ajuda a sua irmã caçula Enola (Millie Bobby Brown) a resolver mistérios, em aventuras divertidas e joviais.

 

"The Witcher": Muito da sucesso da série se deve à entrega de Cavill à composição do protagonista Geralt de Rivia, fazendo bonito em três temporadas, quando passará o papel para Liam Hensworth

Em 2021 retornaria a envergar a capa do Homem de Aço em Liga da Justiça de Zack Snyder, a inesperada volta por cima do diretor que a Warner tratou tão mal, e que, graças ao hype das redes sociais, e a necessidade da HBO Max ter conteúdo para veicular em seu streaming , por conta da pandemia da COVID-19, conseguiu remontar o material original descartado, refazer CGI e fazer alguns reshoots, dando outra cara e tom ao filme execrado de 2017, para deleite dos fãs, tornando-se um marco do mundo nerd. 

 

Como Sherlock Holmes, ajudando sua irmã caçula Enola (Millie Bobby Brown) na série de filmes "Enola Holmes" da Netflix

 

Numa última tentativa de manter para si o papel do kryptoniano, filmou secretamente a cena pós-créditos de Adão Negro (2022) de Jaume Collet-Serra, criando uma expectativa de um futuro confronto entre Superman e Teth-Adam (Dwayne Johnson) e assegurando a continuidade deste no  Universo Expandido DC, mas as críticas negativas e a baixa bilheteria, comparada ao custo do filme, terminaram por sepultar a gestão pós-Zack Snyder, do Universo DC nas telas, culminando na total reformulação deste universo cinematográfico, agora respondendo a David Zaslav, o atual CEO da Warner Bros. Discovery que colocou na chefia da DC Studios, James Gunn e Peter Safran, que deverão traçar um plano de dez anos reestruturando os rumos que a Trindade Superman - Batman - Mulher-Maravilha deverão tomar nas telas e em outras mídias, com novos atores e, eliminando de vez os últimos traços do Snyderverso,e rebootando todos os personagens.

 

"Liga da Justiça de Zack Snyder" (2021): Finalmente o estiloso uniforme negro


 Cavill postou em sua redes sociais: "Acabei de me encontrar com James Gunn e Peter Safran e tenho notícias tristes, pessoal. Afinal, não voltarei como Superman. Depois de ser informado pelo estúdio para anunciar meu retorno em outubro, antes da contratação deles, esta notícia não é das mais fáceis, mas é a vida. A troca da guarda é algo que acontece. Eu respeito isso. James [Gunn] e Peter [Safran] têm um universo para construir*2. Desejo a eles e a todos os envolvidos com o novo universo boa sorte e a mais feliz das fortunas", disse o ator.

Cavill, também se interessou pela série de video games Red Dead Redemption2 e já e disse em entrevista que acharia divertido protagonizar um filme baseado no game, e estar estando acertando com a Prime Video par estrelar uma adaptação de Warhammer 4000, tendo declarado que ele "genuinamente não pode cansar-se do que eles construíram durante décadas".e em breve devemos vê-lo no thriller de espionagem Argylle,produzido por Matthew Vaughn atualmente em pós-produção.

 

Esperança frustrada: Ao participar da cena pós-crédito de "Adão Negro" (2022) se apostava num futuro embate dos personagens, que o atual planejamento da Warner DCU descartou


Vida Pessoal

Henry é porta-voz da Durrell Wildlife Conservation Trust e embaixador da The Royal Marines Charitable Trust Fund e, em 2014, foi uma das celebridades a participar no Ice Bucket Challenge.

Em 2018, Cavill começou a praticar jiu-jitsu brasileiro, tendo treinado na Academia de Roger Gracie, em Londres.

Em 2009 Henry começou a namorar com Ellen Whitaker, uma amazona (mulher que monta a cavalo em provas esportivas e não, uma habitante de Themiscyra...), depois de a conhecer no Olympia London International Horse Show. Depois de um relacionamento de dois anos, os dois ficaram noivos, mas terminaram a relação em maio de 2012. Teve um relacionamento de dois anos, com intervalos de separação, com Gina Carano, a lutadora estrela da MMA (o cara é duro na queda...), que terminou no final de 2014. O ator também namorou durante algumas semanas com Kaley Cuoco (a “Penny” de de The Big Bang Theory) em 2014. 

Em 2015, ele teve um breve relacionamento com a Personal Trainer Marisa Gonzalo, separaram-se alguns meses depois. Posteriormente, teve outro, com a estudante Tara King, cuja diferença de idade causou certa polêmica (ele 33 e ela 19) de agosto de 2015 a maio de 2016. Em 2017, ele iniciou uma relação com a dublê Lucy Cork, de pouca duração.

Em abril de 2021, Natalie Viscuso, parte do alto escalão da Legendary Entertainment, foi apresentada pelo próprio ator como a sua mais recente namorada.

Atualmente vive no bairro de Kensington em Londres.

 

O ator, e Natalie Viscuso, a atual "Senhora Cavill"

 

De qualquer forma esperemos que, quem sabe um dia, ele voe novamente para as telas, talvez como uma versão mais velha do Homem de Aço, inspirada em O Reino do Amanhã, ou até como o próprio Jor-El num futuro reboot, pois O Universo Cinematográfico DC está precisando urgentemente de uma retomada, face ao atual empacamento da “distinta concorrência ” (Marvel Studios) a oportunidade está presente para um verdadeiro “trabalho para o Superman!!!”

 

 Notas:


*1: Em meados de 2008, Cavill tornou-se o rosto da fragrância britânica Dunhill e foi nomeado um dos 50 homens britânicos mais bem vestidos de 2012npela revista GQ. Posteriormente, em dezembro de 2013, a revista Glamour considerou Henry Cavill o "Homem Mais Sexy do Mundo". No mesmo ano, a revista Empire colocou-o na terceira posição na sua lista de "100 Estrelas de Cinema Mais Sexy de 2013". Nada mal para quem havia sido anos antes "… o homem mais desafortunado em Hollywood"... a “roda” da vida... roda, sem parar.

*2: Gunn e Safran planejam uma reformulação, que colocará um fim no universo iniciado por Zack Snyder, e vai acontecer a partir de The Flash estrelado por Ezra Miller, que chega aos cinemas em junho de 2023. Ainda não foi definido quem será o novo Superman no lugar de Henry Cavill e que assumirá o papel do herói em Superman Legacy.

 

 

Em 2018 fêz uma declaração polêmica,mas verdadeira: “Fico preocupado em dizer isso, já que pode soar mal, mas não estou nessa carreira simplesmente por causa da arte. O dinheiro é fantástico, algo que considero muito importante”, revelou Cavill, e é algo do que não podemos discordar



quarta-feira, 5 de abril de 2023

O cara íntegro... - In Memorian: Gregory Peck

 


Dignidade encarnada

por Alexandre César 

(Originalmente postado em 05/ 04/ 2018)


Um dos grandes pesos pesados da velha Hollywood

 

O sonhador Eldred Gregory Peck e seu fiel cão

Um ator que era admirado por sua personalidade dócil e firme e que os amigos respeitavam em função de sua lealdade nata.  Um exemplo de seu bom caratismo pode ser testemunhado durante a produção de um filme, ele tinha tanta certeza que jovem protagonista ganharia um Oscar por sua performance que pediu que o nome dela viesse nos créditos antes do seu, ( apesar dele ser mais conhecido). O filme era A Princesa e o Plebeu (1953) e a atriz era Audrey Hepburn, que de fato ganhou, e o generoso astro era Gregory Peck.
 
 
Com a pequena Ana (Eunice Soo-Hoo) em "Aa Chaves do Reino" (1944) de John M. Stahl

 

Gregory Peck, nome artístico do ator norte-americano Eldred Gregory Peck ( La Jolla, 5 de abril de 1916 – ✝ Los Angeles, 12 de junho de 2003). Filho único de Bernice Mary (Ayres) e Gregory Pearl Peck, um químico e farmacêutico em San Diego. Ele tinha ascendência irlandesa (de sua avó paterna), inglesa e alguma alemã. Seus pais se divorciaram quando ele tinha cinco anos, sendo enviado para morar com a avó.  
 
 
Com um jovem Christopher Lee (no canto esquerdo) em "O Falcão dos Mares" (1951)  de Raoul Walsh, baseado  C.S. Forrester

 
 
Esse fato triste, no entanto, acabou revelando um lado positivo, pois foi essa senhora que o apresentou àquela que seria sua maior paixão: o cinema. Uma de suas mais antigas memórias era de acompanhá-la para assistir a filmes como O Fantasma da Ópera (1925) – o que o obrigou a ter que dormir de luz acesa naquela noite, de tão impressionado que havia ficado. Essa relação começaria ali e se estenderia por toda sua vida, consagrando-o como um dos maiores astros que Hollywood já viu.
 
 
Com Susan Hayward em "David e Betsabá" (1951) de Henry King
 
 
Ele nunca sentiu que teve uma infância estável. Suas melhores lembranças são de sua avó levando-o ao cinema todas as semanas e de seu cachorro, que o seguia por toda parte. Ele estudou pré-medicina na UC-Berkeley e, enquanto estava lá, se apaixonou pelo teatro e decidiu mudar o foco de seus estudos. Ele se matriculou no Neighborhood Playhouse em Nova York e estreou na Broadway após a formatura. Sua estréia foi na peça de Emlyn Williams "The Morning Star" (1942). 
 
 

"A Princesa e o Plebeu" (1953) de William Wyler. Par romântico com Audrey Hepburn

 
Em 1943, ele estava em Hollywood, onde estreou no filme  Quando a Nunca Tornar a Cair (1944) da RKO. começou a atuar no teatro, mas logo migrou para o cinema, onde sua voz marcante, elegância e autenticidade lhe deram personagens heroicos, baseados em obras literárias, marcados pela superação de sentimentos e incertezas. 

 

Como o Capitão Ahab em "Moby Dick" (1956), de John Huston. Obssessivo, carismático e visceral

É o caso de As Neves do Kilimanjaro (1952), de Henry King, baseado na obra de Ernest Hemingway; e Moby Dick (1956), de John Huston, baseado na obra de Herman Melville. O mais famoso desses papéis foi o de Atticus Finch do filme O Sol é Para Todos (1962), de Robert Mulligan, baseado no romance de Harper Lee. Finch é um consciencioso advogado sulista disposto a defender, contra todos, os direitos de um negro acusado de estupro. Este interpretação lhe deu o Oscar de melhor ator e Finch foi escolhido como o maior herói das telas pelo American Film Institute em maio de 2003, apenas duas semanas antes da morte de Peck.


"Os Canhões de Navarone" (1960), de J.Lee Thompson. Peck lidera David Niven, Anthony Quinn, Anthony Quayle, Irene Papas, James Darren e outros

Outros destaques em sua filmografia: o jovem padre idealista de As Chaves do Reino (1944), de John M. Stahl; o desmemoriado acusado de um crime em Quando Fala o Coração (1945), de Alfred Hitchock; e o repórter exemplar de A Luz é para Todos (1947), de Elia Kazan, com sua denúncia do antissemitismo. Todo estes também foram trabalhos reconhecidos com indicações ao prêmio de Melhor Ator da Academia. Também merece menção o confronto antagônico com Robert Mitchum em O Círculo Medo (1962) e J. Lee Thompson.

 

Contra o perigo real e imediato Robert Mitchum em "O Círculo Medo" (1962) e J. Lee Thompson

 

Durante muitos anos Peck foi um grande astro de filmes de ação: obteve êxito em O Falcão dos Mares (1951)  de Raoul Walsh, baseado no livro "Captain Horatio Hornblower" de C.S. Forrester, além de westerns como Duelo ao Sol (1946), de King Vidor, Da Terra Nascem os Homens (1958), de William Wyler, e em Gringo Velho (1990), de Luis Puenzo. Atuou em épicos como David e Betsabá (1951) de Henry King onde interpretou o Rei de Israel no seu momento de maior crise.

 

Como Atticus Finch em "O Sol é Para Todos" (1962) de Robert Mulligan: Consagração


Também atuou em filmes de guerra como Os Canhões de Navarone (1960), de J. Lee Thompson com elenco estelar, ou Espionagem em Goa (1980) de Andrew V. Mclaglen, com Roger Moore e David Niven, no clássico do terror A Profecia (1976) de Richard Donner, que virou uma franquia, espionagem como A Grande Ameaça (1969) de J. Lee Thompson esteve em comédias também, como Com o Dinheiro dos Outros (1991), de Norman Jewison.

 

Com Tely Savallas e  Omar Sharif em "O Ouro de MacKenna" (1969) de J. Lee Thompson, um western-catástrofe

 

Seu único vilão em sua longa carreira foi no filme Os Meninos do Brasil (1978), de Franklin J. Schaffner, interpretando o Dr. Joseph Mengele, o temível médico alemão responsável do Campo de Concentração de Auschiwtz durante a 2ª Guerra Mundial. 

 

no clássico do terror "A Profecia" (1976) de Richard Donner

 

Discreto nos seus relacionamentos amorosos, Gregory conheceu sua primeira esposa, a cabeleireira finlandesa Greta Konen por volta de 1941. Os dois se casaram em  4 de outubro de 1942 em Manhattan e teriam três filhos: Jonathan, Stephen e Carey. Durante seu casamento com Greta, o ator teve um romance com a atriz Ingrid Bergman enquanto filmavam Spellbound. O casal se divorciaria em 1954 e durante as filmagens de A Princesa e o Plebeu ele conheceu a jornalista francesa Veronique Passani e após uma série de desencontros, eles se casariam em 1955, tendo dois filhos. O casal se mudou para uma mansão em Los Angeles, onde viveram até o fim de seus dias. Veronique continuaria morando no local até sua morte em 2012, aos 80 anos.

 

Como Douglas MacArthur em "MacArthur, o General Rebelde" (1977) de Joseph Sargent

 

Gregory ajudou a fundar o American Film Institute, e na década de 40, assinou uma carta em defesa de colegas acusados pelo Comitê de atividades não-americanas. Ele era democrata, e estaria ligado à política a maior parte de sua vida. Rivalidades políticas à parte , cultivou ao longo de sua vida uma grande amizade com Charlton Heston (republicano, e que chegou a ser presidente da National Rifle Asociation). Chegou, inclusive, a ser considerado como um possível candidato contra Ronald Reagan pelo governo da Califórnia. Seu filho Carey tentou seguir carreira política, mas perdeu todas as vezes em que concorreu.

 

Dr. Joseph Mengele em "Os Meninos do Brasil" (1978) de Franklin J.Schaffner. Baseado no romance de Ira Levin

 

Peck representava o último dos homens de boa índole numa época  cínica, em que o bom-mocismo havia se tornado, em Hollywood, algo meio démodé.  

 

Com Roger Moore em "Espionagem em Goa" (1980) de Andrew V. Mclaglen

 

Seu neto, Ethan Peck segue o seu legado, tendo herdado a voz potente do avô, e se saído bem como a nova versão do personagem Sr. Spock na segunda temporada de Star Trek Discovery e agora em Star Trek: Strange New Worlds. E que o sobrenome Peck siga adiante, audaciosamente indo...


Atticus Finch de "O Sol é Para Todos" (1962), de Robert Mulligan, baseado no livro de Harper Lee, foi escolhido como o maior herói das telas pelo American Film Institute em 2003



domingo, 2 de abril de 2023

Jedi em sua essência - In Memorian: Alec Guinness

 


O velho homem sábio

por Alexandre César 
(Postado originalmente em 02/04/2018)

O ator versátil que se tornou arquétipo

 

O menino Alec: Graças à um bom padrinho, o teatro  e o cinema inglês ganhou um de seus grandes intérpretes

 

 Alto, magro, careca (isso lhe facilitava muito na caracterização de qualquer personagem) de boas maneiras e uma voz bem modulada, cuja doçura mansa do olhar revelava uma intensidade inesperada, o que lhe permitia impor sua presença, fosse como personagens divertidos e picaretas (como na sua fase inicial de carreira) fosse mais tarde como monarcas, sacerdotes ou mentores de jovens destinados a mudar os rumos de uma galáxia convulsionada. Não tinha jeito. Ele passava a serenidade necessária para atravessar um furacão, e ninguém duvidava de que ele sabia o que estava fazendo (mesmo que ele realmente não soubesse...).


Como Lady Agatha em "As 8 vítimas" (1949) de Robert Hamer, onde ele interpretou todos os membros de uma mesma família (as vítimas do título)

Alec Guinness ( Londres, 2 de abril de 1914 West Sussex, 5 de agosto de 2000) foi um ator britânico, conhecido por suas seis colaborações com David Lean: Herbert Pocket em Grandes Esperanças (1946), Fagin em Oliver Twist (1948), Coronel Nicholson em A Ponte do Rio Kwai (1957), pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Ator), Prince Faisal em Lawrence da Arábia (1962), General Yevgraf Zhivago em Doutor Jivago (1965), e Professor Godbole em Passagem para a Índia (1984).
 
171: Com Glynis Johns na comédia "Às Voltas com 3 Mulheres" (1952) de Ronald Neame
 
 
Mas para o grande público, e o público nerd em especial, ele é mais conhecido do grande público por sua performance do Mestre Jedi Obi-Wan-Kenobi em Star Wars – Episódio IV: Uma Nova Esperança (1977), de George Lucas, pelo qual foi indicado ao Oscar de 1978 de melhor ator coadjuvante, e nos outros dois filmes da trilogia clássica da franquia.
 
 
Sentado, em "Quinteto da Morte" (1955) de Alexander Mackendrick com Herbert Lom, o grandão Danny Green e Peter Selers

 
Filho de mãe solteira (nunca conheceu o pai) teve a sorte de ter um bom padrinho que lhe custeou a educação, que além de fazer eclodir o seu grande talento, o permitiu ser um dos três atores britânicos, junto com Laurence Olivier e John Gielgud, que fizeram a transição do teatro shakespeariano na Inglaterra para os blockbusters de Hollywood imediatamente após a Segunda Guerra Mundial.
 
 
Oscar: Como o Coronel Nicholson em "A Ponte do Rio Kwai" (1957), de David Lean

 
Entre as vária premiações de sua carreira, ganhou o prêmio Tony da Broadway em 1964 como Melhor Ator (Dramático) por "Dylan", no qual interpretou o personagem-título, o poeta Dylan Thomas.
 
 
Como Marcus Aurelius com James Mason em "A Queda do Império Romano" (1964) de Anthony Mann


Recebeu ao longo de sua carreira mais duas indicações como ator ao Oscar. Uma por O Mistério da Torre (1953) de Charles Crichton, e outra por Little Dorrit (1989), de Christine Edzard. Teve uma indicação pelo roteiro adaptado de Maluco Genial (The Horse´s Mouth, 1959), de Ronald Neame, onde também atuou como ator. Sua consagração foi quando ganhou o Oscar de melhor ator por A Ponte do Rio Kwai (1957), de David Lean. Em 1980, levou um “Oscar Honorário” pelo conjunto da sua obra.
 
 
Como Yevgraf, o irmão bolshevique de Jivago (Omar Sharif) em "Doutor Jivago" (1965) de David Lean

 
 Em 1959, ele foi nomeado cavaleiro pela rainha Elizabeth II por serviços às artes. Na década de 1970, Guinness fez aparições regulares na televisão na Grã-Bretanha, incluindo o papel de George Smiley nas serializações de dois romances de John le Carré: Tinker Tailor Soldier Spy (1979) e Smiley's People (1982).  
 
 
Prestes a perder a cabeça como o Rei Charles Stuart I em "Cromwell O Homem de Ferro" (1970) de Ken Hughes


 Originalmente criado como Anglicano, converteu-se ao catolicismo junto com sua esposa Merula Salaman em 1950, após ter acreditado no poder da oração que teria levado à cura milagrosa do seu filho Mateo
 
 
Como o Papa Inocêncio III em "Irmão Sol, Irmã Lua" (1972) de Franco Zeffirelli

 
Apesar da fama e do dinheiro que ganhou com sua participação na saga de George Lucas, se ressentia de o grande público não se interessar pelo resto de sua extensa filmografia, que inclui personagens como o rei Faissal em Lawrence da Arábia (1962) e o Professor indiano Godbole de Passagem para a Índia (1984), ambos de David Lean, além do hilário mordomo cego Bensonmum de Assassinato por Morte (1978), de Robert Moore.
 

Na Tunísia com Mark Hammil nas locações de "Star Wars" (1977). George Lucas recorda que a presença de Guiness induzia o resto do elenco à trabalhar mais seriamente

 
Dentre as várias homenagens que recebeu, ele recebeu um diploma honorário de D.Litt da Universidade de Oxford (1977) e um diploma honorário de D.Litt da Universidade de Cambridge (1991). 
 
Ele fez sua última aparição no Comedy Theatre em Londres em 30 de maio de 1989, em uma produção chamada "A Walk in the Woods", onde interpretou um diplomata russo.
 
Como o mordomo cego em "Assassinato por Morte" (1978) de Robert Moore, com Maggie Smith e David Niven

 
Faleceu em 5 de agosto de 2000, vítima de um câncer no fígado, Foi enterrado no Cemitério Mill Road no Reino Unido. Sua viúva Merula Salaman, faleceu cerca de dois meses depois, em 17 de outubro de 2000.

 
O próprio autor John Le Carré convenceu Guiness a interpretar George Smiley nas duas adaptações da BBC para a TV por enxergar nele as mesmas características do personagem

 
 
Ewan McGregor ao interpretar Obi-Wan Kenobi na trilogia prequel estudou afinco a técnica interpretativa de Guiness, vendo toda a sua filmografia para poder emular o jeito de ser do ator, numa versão mais nova do icônico personagem, para poder então fazer a transição para o perfil apresentado por Guiness na trilogia clássica.
 
Alec Guiness foi eleito o terceiro na pesquisa Orange Film 2001 dos maiores atores do cinema britânico, ficando enfatizadas as qualidades que ele afirmava mais admirar em um ator: "- Simplicidade, pureza, clareza de linha". Ele era no fundo mais Jedi do que acreditava...

Faisal, Obi-Wan Kenobi, Yevgraf. Escolha o seu Guiness