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Qudrinhos através do espaço-tempo.

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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

ESPECIAL: O Horror dos Estúdios Universal


Chegou o Halloween! Nossa serie de matérias do especial "O Horror dos Estúdios Universal" é perfeita para serem lidas nessa ocasião. Saiba em “Horror da Universal” quais os filmes da produtora que mais influenciaram o gênero, seus principais monstros - Drácula, lobisomem, Frankenstein, Múmia... – e os geniais atores que os interpretaram. Em “As Musas do Horror” conheça as artistas (e não só atrizes) que marcaram o estilo nos anos 30 e 40. Fique por dentro da história da própria Universal em “O Set Design do Cinema de Horror da Universal” e a construção do estilo visual único da direção artística de seus filmes de terror com inspiração no expressionismo alemão e no movimento Bauhaus. E, por fim, em “O Artesanato do Horror” escrevemos sobre os principais diretores de arte do estúdio naquela época e seus inesquecíveis figurinos. Aproveite a viagem!

domingo, 17 de setembro de 2023

Primata livre-pensador e caçador de vampiros - In Memorian: Roddy McDowall

O “Elo Perdido” da Evolução

por Alexandre César  

(Originalmente publicado em 04/ 08/ 2018)


 Ícone Pop incontestável do Horror & do  Sci-Fi


"Como era Verde o Meu Vale" (1941). Notável atuação

Roderick Andrew Anthony Jude McDowall, ( ⭐ Londres, 17 de setembro de 1928 - ✝ Los Angeles, 3 de outubro de 1998) foi um ator britânico nascido na Inglaterra e radicado nos EUA, mais conhecido por sua participação das franquias Planeta dos Macacos (os filmes do cinema e a série de TV dos anos 70) - onde interpretou os chimpanzés Cornélius, César e Galen - e A Hora do Espanto, como Peter Vincent, o ator falido de filmes B.

 

Em 1948, conversando com a amiga Elizabeth Taylor. Ao centro a iniciante Natalie Wood


Com dez anos de idade, atuou em seu primeiro filme, Com dez anos de idade, atuou em seu primeiro filme, Murder in the Family, (1938, de Albert Parker), no papel de Peter Osborne, o irmão mais moço das personagens representadas por Jessica Tandy e Glynis Johns.


Roddy ao lado de Lassie em "A Força do Coração" (1943)


No começo da Segunda Guerra Mundial, transferiu-se com a família para os Estados Unidos e logo estava participando do filme Como Era Verde o Meu Vale (1941, de John Ford), no papel de "Huw". Este filme foi o vencedor do Oscar de melhor filme de 1942.


Como Otávio Augusto em "Cleópatra" (1963)


Em 1948 interpretou Malcolm na versão de obra de Willian Shakespere Macbeth, dirigido por Orson Welles. Inicialmente ele foi execrado pela crítica, que considerou equivocada a atuação do elenco com sotaque escocês e as mudanças feitas por Welles na história original. O elenco regravou suas falas com suas vozes naturais e a película sofreu severos cortes. O filme se tornou um dos mais aclamados do diretor em seu relançamento na versão original em 1980.

 

"O Carrasco de Pedra" (1967) clássico do horror

 

Participou de inúmeros outros filmes em papéis infantis, entre eles Os Abandonados (1942, de Irving Pichel), Minha Amiga Flicka (1943, de Harold D. Shuster) e A Força do Coração (1943, de Fred McLeod Wilcox), onde atuou com Elizabeth Taylor, também atriz infantil na ocasião. Os dois foram grandes amigos por toda a vida.  Este foi o primeiro filme estrelado pela cadela Lassie, personagem do romance de Eric Knight que reapareceria em diversos filmes, seriados de TV e animações. Com 18 anos, mudou-se para Nova York, onde atuou em uma longa série de papéis em peças teatrais de sucesso da Broadway. Uma delas foi Misalliance, de George Bernard Shaw, em que ele provou para sim mesmo que era mais do que apenas uma ator mirim.


A longa transformação de McDowall em Cornelius: o ator, durante a sua carreira símia, teve trâs quistos sebáceos no rosto que teve de extrair cirurgicamente


 Além de ter participado de mais de 200 filmes na televisão e no cinema - entre eles O Mais Longo dos Dias (1962, vários diretores), Cleópatra(1963, de Joseph L. Mankievcz), O Carrasco de Pedra (1966, de Hebert J. Leder), O Destino do Poseidon (1972, de Ronald Neame), A Casa da Noite Eterna (1974, de John Hough), Funny Lady (1975, de Herbert Ross), O Fabuloso Ladrão de Bagdá (1978, de Clive Donner), Assassinato num Dia de Sol (1982, de Guy Hamilton) e em A Hora do Espanto (1985) de Tom Holland e em sua continuação A Hora do Espanto II (1988) de Tomy Lee Wallace viveu o seu maior personagem: Peter Vincent, o decadente ator de filmes de terror de baixo orçamento, que ao enfrentar vampiros reais se torna de fato um protagonista. Logo em seguida continuou a fazer participações em filmes como A Volta ao Mundo em 80 Dias (1989, de Buzz Kulik) entre outros. Ele também escreveu cinco livros.


Como o relutante médium do clássico do horror "A Casa da Noite Eterna (1973)

Mesmo com o grande sucesso que obteve em Planeta dos Macacos (1968, de Franklyn J. Schaffner), ele abdicou de trabalhar em De Volta ao Planeta dos Macacos (1970, de Ted Post, para fazer seu début na direção com o filme A Balada de A Balada de Tam Lin (1970), em que atuou Ava Gardner (sua musa) e Ian McShane. Problemas com os produtores e o estúdio (que montaram o filme de uma maneira que ele detestou, pois queria que o filme mostrasse o seu amor a Gardner, e o estúdio o reduziu a mais um filme de horror “B”, fizeram com que desgostasse da ideia de voltar a dirigir. Apesar disso continuou com o seu Hobby de fotografar e fazer filmes caseiros, registrando vários encontros da classe artística hollywoodiana em sua casa de praia. São cenas em que vemos as celebridades relaxadas e curtindo a vida, como pessoas comuns. McDowall era considerado o “melhor amigo de Hollywood”, tal era o seu carinho pelos amigos e o seu esforço de criar um ambiente agradável para a comunidade, sempre alvo dos Paparazzi e outros oportunistas.

 

A fotografia era um dos hobbys de McDowall



Participou de quatro dos cinco filmes da franquia original  de O Planeta dos Macacos, como os chimpanzés Cornelius e César, além dos 14 episódios da série de TV (1975), na pele do macaco "Galen". Fez vários filmes em Super 8 mostrando os procedimentos de colocar e remover as próteses de maquiagem dos símios que interpretou, tendo disponibilizado esses vídeos posteriormente para uso público. Este material é considerado hoje em dia de inestimável valor iconográfico para os fãs e profissionais de cinema e televisão.

 

"Embrião" (1976) ficção científica com Rock Hudson.



Na TV, entre vários trabalhos, destaca-se a sua participação em diversos seriados, como Além da Imaginação, Ben Casey, Os Invasores, Galeria do Terror, Columbo, Mulher-Maravilha, Buck Rogers, A Ilha da Fantasia, Assassinato por Escrito entre outras dezenas de participações.

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"Viagem Fantástica": Seriado marcante mas de curta duração.
Da esquerda para direita; Katie Saylor, o garoto Ike Iseman
e de cima para baixo Carl Franklin e Jared Martim


Podemos destacar sua atuação no seriado Batman (1966-1968) como o vilão Traça e no seriado Viagem Fantástica (1977), como o cientista Jonathan Willoway , que roubava a cena nos moldes do Dr. Smith, de Perdidos no Espaço. Também dublou o robô V.I.N.CE.N.T. de O Abismo Negro (1979), o vilão Chapeleiro Louco nas séries Batman Animated (1992), Superman Animated (1996) e The New Batman Adventures e o vilão Breadmaster em The Tick (1994) entre vários outros personagens.
 

Com William Ragsdale em "A Hora do Espanto" (1985). Peter Vincent, o ator de filmes "B" da série seria uma paródia indireta dele mesmo

 

Entre os prêmios que recebeu, podemos citar o Emmy de melhor ator coadjuvante em série dramática por sua atuação no episódio  "Our American Heritage: Not Without Honor" (1961), do seriado Sunday Showcase, e o, e o Tony de melhor ator coadjuvante em peça de teatro por sua interpretação de Tarquin Edward Mendigales em The Fighting Cock (1960).

 

"O Traça" no seriado "Batman" dos anos 60.

Também foi indicado ao Globo de Ouro por seu papel de Otávio Augusto no filme Cleópatra (1963) e ao Emmy de melhor ator em série dramática de TV por seu papel de Paul LeDoux no episódio "Journey into Darkness" de Arrest and Trial  (1963).

 

No episódio piloto de "Galeria do Terror"

 

Por sua vida pessoal discreta e por nunca ter se casado ou deixado filhos, se especula que fosse gay não assumido pois na época de seu auge profissional tal fato poderia prejudicar a sua carreira. Morreu em sua casa, aos 70 anos de idade, em consequência de câncer nos pulmões. Seja como for, a sua figura permanece na lembrança dos fãs como a de uma figura muito querida, como um tio distante, ou um amigo excêntrico da família. Nós te saudamos Roddy!!!

 

Chapeleiro Louco em Batman Animated: atuação como dublador




segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Revolução cinematográfica... e espionagem! - In Memorian: John Chambers

 


Pioneiro em seu "metier"

por Alexandre César
(Originalmente postado em 14/ 08/ 2018)


Sem ele Zira, Cornelius, etc... não chegariam às telas

  #PlanetaDosMacacos55Anos

 

John Chambers e Jonathan Harris. Se um Smith atrapalha muita gente...



Você pode não acreditar, mas quem está caracterizado na foto acima como Alfred E. Newman (símbolo da lendária revista de humor e sátira (símbolo da lendária revista de humor e sátira MAD) é nada mais, nada menos do que Fred Astaire. Isto demonstra as habilidades de John Chambers ( ⭐ Chicago, 12 de setembro de 1923 – ✝ Woodland Hills, 25 de agosto de 2001),  vencedor do Oscar honorário por seu trabalho de maquiagem no filme Planeta dos Macacos (1968, de Franklin J. Schaffer). Trabalhou também em Blade Runner – Caçador de Andróides (1982, de Ridley Scott)  e foi responsável pela criação das orelhas do personagem Spock da série Star Trek, entre outras notáveis contribuições.

Nascido em Chicago, ele iniciou o seu aprendizado como desenhista comercial, fazendo designers de jóias e de tapetes antes de servir no exército americano durante a Segunda Guerra Mundial como técnico em prótese dentária. Depois trabalhou fazendo próteses de narizes, orelhas, mamilos e outras partes do corpo para soldados mutilados. Mas, para ele, este trabalho era desgastante emocionalmente.

 

Quando transformou Will Robinson (Billy Mummy) num "mini-Dr. Smith" em "Pedidos no Espaço".


Quando reparou o baixo padrão da maquiagem usada na época para produções de TV, sentiu que ali poderia haver uma carreira para ele. Entrou para a Quando reparou o baixo padrão da maquiagem usada na época para produções de TV, sentiu que ali poderia haver uma carreira para ele. Entrou para a NBC em 1953 e transformou Charlton Heston na fera numa produção estrelada por Shirley Temple do clássico A Bela e a Fera, bem antes de Heston ter de se defrontar com humanos transformados em símios convincentes pelo maquiador.

Graduou-se em cinema em 1960, construindo sua reputação de especialista em maquiagem como efeito especial. Frequentemente fazia trabalhos não-creditados, criando orelhas e dedos para amputação em cenas dramáticas de filmes diversos. Durante a sua carreira de 30 anos, ele também trabalhou em várias séries de televisão como Quinta Dimensão, Os Monstros, Perdidos no Espaço e Missão: Impossível

 

"Os Monstros": Grande momento do trabalho do maquiador na televisão

Criou próteses dentárias para Marlon Brando em muitos filmes, o falso peitoral pelo qual Richard Harris é içado por ganchos em uma impressionante cena de Um Homem Chamado Cavalo (1970, de Elliot Silverstein) e uma série de apliques e disfarces para Kirk Douglas em A Lista de Adrian Messenger (1963, de John Huston). Foi ele que criou o nariz artificial usado por Lee Marvin no seu papel premiado com o no seu papel premiado com o Oscar em em Dívida de Sangue (1965, de Elliot Silverstein) , o rosto desfigurado de Paul Williams em em O Fantasma do Paraíso (1974, de Brian De Palma), a cabeça mutilada submersa que aparece em Tubarão (1975, de Steven Spielberg) e as criaturas meio bicho, meio homem de A Ilha do Dr. Moreau (1977, de Don Taylor).


 

"Dívida de Sangue" (1965). O Lee Marvin mau e o seu nariz


Mas o seu trabalho mais celebrado foi, sem dúvida, na primeira série de filmes de Planeta dos Macacos, que lhe deu um , que lhe deu um Oscar especial por sua contribuição para o cinema numa época em que não havia premiação para a categoria de maquiagem. Atores frequentemente apareciam usando fantasias de macacos em comédias e em filmes “B”, mas no filme em que o astronauta Taylor (Charlton Heston) aterrissa num mundo governado por primatas, Chambers teve de criar chimpanzés, gorilas e orangotangos capazes de falar e convencer a plateia de levar aquilo a sério (veja mais sobre essa primeira fase de filmes da franquia aqui).

 

John Chambers com Roddy McDowall


Para evitar que usassem máscaras, ele colava as próteses de borracha sobre a pele dos atores, pedaço por pedaço, dando-lhes flexibilidade para falar e demonstrar emoções. Ele trabalhava durante a noite experimentando em si mesmo e desenvolvendo novos adesivos, tinta e componentes de borracha que futuramente auxiliariam os futuros maquiadores de cinema e TV, proporcionando efeitos mais realísticos.

 

Cena da pretensa filmagem do "verdadeiro' Pé Grande

Suas inovações na área incluem a técnica de confecção de toucas de careca, que davam a impressão do ator estar completamente sem cabelos. Embora usasse borracha, em geral Chambers utilizava plástico líquido que era pulverizado e se solidificava sobre uma forma de metal, moldada a partir da cabeça do ator a ser caracterizado. Estas toucas são consideradas as mais realísticas criadas até então e se tornaram padrão na indústria de caracterização.

Criou também uma técnica de produção de jaquetas dentárias, cicatrizes e feridas criadas a partir de materiais plásticos, facilmente aplicáveis no rosto ou outras partes do corpo.

 

Um dos muitos disfarces de Kirk Douglas em "A Lista de Adrian Messenger" (1963)


Especula-se que Chambers esteve envolvido com o famoso filme do “Pé-Grande” caminhando entre as árvores da Califórnia, divulgado há cerca de 40 anos atrás. Pesquisadores da época estavam convencidos de terem conseguido um autêntico registro do equivalente americano do Yeti (o Abominável Homem das Neves) e experts que analisaram o filme até agora falharam em encontrar uma evidência que constate se tratar de um homem num traje.

A filmagem data de 1967, quando Chambers estava desenvolvendo a tecnologia de maquiagem que seria usada em Planeta dos Macacos. Sendo um dos pais da moderna maquiagem, este rumor reflete o respeito que a indústria tinha por ele, que era considerado como o único capaz de conseguir criar uma versão convincente da criatura.

 

"Um Homem Chamado Cavalo" (1970) Richard Harris não tinha "peito para encarar"...


O diretor John Landis inflamou o debate em 1997 ao declarar que quando era um jovem estagiário na 20th Century Fox, ele soube que Chambers havia tomado parte numa elaborada fraude, coisa que o divertido maquiador desmentiu, alegando que, se fosse ele o responsável, faria um trabalho bem melhor.

Talvez esse rumor derivasse de outra faceta de Chambers: sua atuação em espionagem. Nos anos 1960 ele começou a fazer trabalhos para a CIA, desenvolvendo disfarces para agentes. Ele se tornou amigo de um jovem agente chamado Tony Mendez, que queria alguém para desenvolver disfarces para os agentes da instituição e que havia antes contatado a Walt Disney Co. para isso, sem sucesso. Chambers ajudou Mendez em missões no Laos, Polônia e Rússia.

 

"Argo" (2012),com Chambers (John Goodman) e Mendez (Ben Affleck): como fazer uma falsa produção de filme


Chambers foi de novo requisitado em 1979 para ajudar Mendez. Desta vez não por suas habilidades como maquiador, mas por suas conexões em Hollywood. O objetivo era criar elementos que dessem veracidade a uma falsa produtora (Studio Six) que estaria desenvolvendo um filme de ficção científica. Junto com seu amigo Bob Sidell, outro guru da caracterização, Chambers e Mendez conseguiram seu intento, que daria respaldo ao plano de resgate de diplomatas dos EUA sequestrados durante a Revolução Islâmica no Irã.  Argo (2012, de Ben Affleck), o filme vencedor do Oscar, retrata este episódio, sendo Mendez interpretado por Ben Affleck e Chambers personificado por John Goodman.

 

"O Fantasma do Paraíso" (1974). Inesquecível figura


Mendez, de longa experiência no jogo de gato-e-rato das operações secretas, descreveu seu trabalho com Chambers para a Wired Magazine: “John uma vez transformou um agente negro da CIA e um diplomata asiático em homens de negócios caucasianos, usando máscaras que os deixava com um jeito de Victor Mature e Rex Harrison. E eles tinham de arranjar um encontro na capital do Laos, um país sob severa lei marcial”. E, segundo Mendez, o plano deu certo. Em outra ocasião ele havia desenvolvido um manequim inflável que permitiu a um dissidente sair de um carro estacionado (e vigiado) e permitindo sua fuga do local. Enquanto isso, o manequim inflável (que usava roupas semelhantes a do fugitivo) distraía os agentes que esperavam o momento quando aquele que caçavam saísse do carro para emboscá-lo (Bem Missão: Impossível, não?).


Os "humanimais" de "A Ilha do Dr. Moreau" (1977): ótimo trabalho em filme morno


Paralelo a isso, Chambers foi o mentor de muitos futuros maquiadores, influenciando toda uma geração. Michael Westmore (Star Wars, Star Trek: A Nova Geração) fala sobre ele: “John tinha a reputação de ser um indivíduo muito talentoso. Eu estava em meu último ano de aprendizado na Universal e John basicamente sabia fazer de tudo. Seu início foi como técnico dentário no exército, e ele me ensinou a fazer dentes. Quando peguei o trabalho de supervisão de Star Trek: A Nova Geração eu fiz todos os dentes alienígenas. ”

 

"O Homem-Cobra" (1973) de Bernard L. Kowalski. O clássico do SBT, que marcou uma geração de brasileiros, também tem a participação de Chambers


Chambers abriu o seu próprio laboratório especializado. Foi o primeiro profissional de maquiagem a ser homenageado com uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood.

 

Sua consagração ao receber o Oscar pelas mãos de Walter Mathau, numa época em que os maquiadores não eram premiados

 

Alguns de seus colegas contam que, por muitos anos e sem divulgação, ele fez próteses para indigentes vítimas de câncer. “Estamos aqui para ajudar os outros”, disse em 1969. “Se eu posso fazer alguma coisa para ajudar as pessoas que estão sofrendo, porque não?”

Estava aposentado desde 1991 quando sofreu um derrame que deixou-o com um lado paralisado. Sofria de diabetes. Morreu em 2001 aos 78 anos.

 

Sua Estrela na "Calçada da Fama"


 


sábado, 22 de julho de 2023

Acima de tudo um gentleman - In Memorian: James Whale

 

 
Genialmente maldito

por Alexandre César
(Originalmente postado em 07/ 05/ 2019 ) 

O cineasta mais completo do ciclo

#HorrorDaUniversal

 

James Whale: Criatividade, elegância e iconoclastia, tudo no mesmo pacote


Talentoso, ireverente e sem medo de chocar as instituições e a hipocrisia da sociedade, tendo uma história de vida bem agitada, James Whale ( ⭐ Dudley, Inglaterra, 22 de julho de 1889 –  ✝ Los Angeles, 29 de maio, 1957) foi um cineasta britânico radicado nos Estados Unidos da América, melhor conhecido pelo seu trabalho em filmes de horror, principalmente Frankenstein (1931), A noiva de Frankenstein (1935)  e O homem invisível (1933), feitos para a Universal Pictures e todos grande sucessos de bilheteria.

 

Douglass Montgomery e Mae Clarke em "A Ponte de Waterloo" (1931). Filme também produzido por Carl Laemmle, Jr


Nascido em Dudley, Inglaterra, como o sexto de um total de sete filhos, seu pai era um operador de fornalha e a mãe era enfermeira num típico reduto operário inglês . Ele não era muito forte para trabalhar na indústria como seus irmãos mais velhos, então arranjou um emprego de sapateiro, retendo os pregos que eram retirados das solas trocadas e vendendo em seguida como sucata para ganhar um dinheiro a mais. James tinha algum talento como compositor e usou essa renda extra para pagar seus estudos na Escola de Artes de Dudley (Dudley School of Arts and Crafts).

 

"Journey´s End" (1930).Versão da peça com Colin Clive, futuro Dr. Frankenstein


Em outubro de 1915, com o início da I Guerra Mundial, James Whale se alistou no exército e esteve no regimento de Worcestershire em julho de 1916. Foi feito prisoneiro de guerra em agosto de 1917, enquanto liderava um ataque a uma fazenda fortificada de Flandres, ele passou 15 meses no campo de prisioneiros de guerra de Holzminden, na Baixa Saxônia, na Alemanha, e permaneceu vivo fazendo apresentações regulares de teatro para serem apresentadas para os guardas e companheiros de cela, continuando a desenhar e escrever, descobrindo seu talento para as produções teatrais. Em Holzminden embora nutrisse ódio pelos alemães, desenvolveu seu gosto pelo drama e, ironicamente, pelo Expressionismo Alemão. Curiosamente, também foi na prisão que Whale aprendeu a jogar pôquer, ganhou muitas apostas e depois da guerra foi cobrar seus companheiros de cela e fazer um pé-de-meia. 

 

Whale e o desconhecido Boris Karloff, que ele escolheu pessoalmente para fazer o monstro


Depois do armistício ele voltou para Birmingham e se tornou profissional do teatro. Em 1928 teve a oportunidade de dirigir peça do então desconhecido autor R. C. Sherriff, Journey's End, com Laurence Olivier em início de carreira. A peça foi bem sucedida e eles se mudaram para o teatro de West End (agora com o ator Colin Clive no papel principal). A peça foi exibida em 600 ocasiões. Whale dirigiu a versão para a Broadway e a adaptação para o cinema feita por Hollywood. Clive repetiu seu papel no filme.

Whale recebeu influência do cinema mudo alemão, particularmente dos filmes de F. W. Murnau e seus movimentos de câmera. Seus filmes estabeleceram as carreiras americanas de Gloria Stuart, Colin Clive, Elsa Lanchester, Boris Karloff e Claude Rains, atores que ele conhecia da Inglaterra e que graças a isso criara papéis adequados para as respectivas personalidades.

 

Criador e criatura: a influência do expressionismo alemão é nítida no design de produção e fotografia do filme


Whale teve seu grande momento em Hollywood quando o chefe do estúdio Carl Laemmle ofereceu ao diretor a chance de comandar qualquer filme cujos direitos estavam com a Universal. Whale escolheu Frankenstein principalmente porque nenhuma das outras propriedades da Universal lhe interessavam e ele queria realizar uma película de guerra. 

 

Cena controversa, em que o monstro brinca com uma garotinha, e no take seguinte, ele olha para o lago e vemos que a alguma coisa afundou, e ela não está mais em cena...


Whale chamou para o elenco Colin Clive – conhecido do diretor por causa da peça Journey’s End – para o papel do barão e cientista, e Mae Clark como sua noiva Elizabeth. Porém, para representar o monstro, Whale ofereceu o papel para um ator desconhecido chamado Boris Karloff (reza a lenda que Bela Lugosi era a primeira escolha do estúdio, mas não aceitou porque o papel não possuía falas). As filmagens começaram em 24 de agosto de 1931, estendendo-se até 3 de outubro. Já no dia 29 de outubro foram feitas as pré-estreias com lançamento em 21 de novembro. Instantaneamente a resposta do público e crítica foi aclamar o novo clássico, que estourou os recordes de bilheteria por todo o país, rendendo ao estúdio 12 milhões de dólares no primeiro lançamento. Frankenstein custou 291 mil dólares e se tornaria o mais importante cartão de visitas de seu diretor. 

 

Desde então, cientista louco que se preza, tem que ter um vicioso assistente corcunda


Seguiu-se Seguiu-se A Donzela Impaciente, um drama estrelado por Lew Ayres e Mae Clark, baseado na novela “The Impatient Virgin”, de Donald Henderson Clarke, e A Casa Sinistra (The Old Dark House), ambos de 1932, sendo esta última creditada como uma reinvenção dos filmes de horror envolvendo casas sombrias e misteriosas. Para a produção, mais uma vez Boris Karloff foi chamado para o papel principal. Depois que o filme foi retirado de circulação The Old Dark House foi considerado perdido por muitos anos até que nos anos 60 o cineasta Curtis Harrington encontrou um negativo nos arquivos da Universal e levou-o para restauração. O famoso produtor e diretor William Castle realizou um remake homônimo em 1963. 

 

Karloff e Gloria Stuart em "A Casa Sinistra" (1932). Uma reinterpretação do conceito de filme de horror


Em 1933 Whale dirigiu O Beijo Diante do Espelho, um drama de suspense estrelado por Nancy Carroll, Frank Morgan, Gloria Stuart e Walter Pidgeon, que foi bem recebido pela crítica mas fracassou nas bilheterias. Porém, logo Whale recuperaria as atenções do público com O Homem Invisível, com um roteiro mais próximo do material escrito por H. G. Wells depois que sofreu 14 revisões de roteiro até ser considerado possível de ser realizado. A mistura de horror, humor e os excelentes efeitos visuais capturaram de imediato a imaginação do público que nunca tinha visto nada parecido até aquele momento, resultando no vilão mais sanguinário de todo o ciclo da Universal: 122 mortes, sendo quatro assassinatos vistos em cena, mais dezoito membros de um grupo de buscas que desaparece e um trem que ele faz descarrilar, matando cem pessoas. Curiosamente, Karloff representaria o papel principal de acordo com a preferência do estúdio, mas Whale queria uma voz mais “intelectual” e menos soturna para o personagem e sua primeira escolha foi o ator Claude Rains, que pegou o trabalho, da comédia romântica Quando a Luz Se Apaga, estrelada por Elissa Landi e Paul Lukas e também produzida em 1933.

 

Whale, com Gloria Stuart e equipe num intervalo de filmagens de "A Casa Sinistra"


O filme seguinte de Whale foi o drama Estigma Libertador (1934), uma adaptação da novela de mesmo nome de John Galsworthy, sobre uma mulher tentando escapar de um casamento com um abusivo membro da aristocracia inglesa. Foi o primeiro filme de Whale produzido sob o Código de Produção, o que provocou diversos problemas para adaptar o texto ao novo código por conta dos elementos de sadismo e sexualidade implícitos na história. 

 

Filmagem de "O Homem Invisível" (1933). -"Claude, você ainda não entrou no personagem!!!"


A sequência A Noiva de Frankenstein (1935), ele aceitou dirigir apesar de sua resistência em realizar uma continuação de seu mais lucrativo filme e ficar para sempre estigmatizado como diretor de filmes de horror. Aproveitando-se de um episódio da novela de Mary Shelley no qual o barão se comprometia a criar uma companheira para a sua criação, o filme chamou de volta o mesmo elenco principal de Frankenstein, contudo a famosa história ganharia traços mais humanos e sombrios e a maestria com que foi realizado fez dele um caso raro no cinema em que uma continuação conseguia ser ainda melhor do que o filme original. 

 

O Dr. Jack Griffin (Claude Rains) acreditem, é o "Monstro da Universal" que mais vítimas fêz por filme!!!


No corte original, 21 pessoas morriam, mas depois de pressões da censura o número caiu para dez mortes – e o roteiro introduziu um vilão que conseguiu engolir o personagem principal, o Dr. Pretorius, interpretado de forma brilhante por Ernest Thesiger. A audiência recebeu muito bem esta continuação, embora não tanto quanto o original. A Noiva de Frankenstein custou 397 mil dólares e rendeu cerca de 2 milhões até 1943. Alardeado como o mais importante filme da era clássica do horror, mesmo depois de todos os cortes e mudanças que precisou fazer por conta da imposição dos códigos de produção da época, A Noiva de Frankenstein é o trabalho de mestre de James Whale e elevou a reputação do diretor as alturas. Laemmle ficou ansioso para colocar Whale para dirigir A Filha de Drácula, a continuação do primeiro grande sucesso de horror da Universal (que terminou nas mãos de Lambert Hillyer). 

 

Karl (Dwight Frye), Dr. Pretorius (Ernest Thesiger) e Henry Frankenstein (Colin Clive) em "A Noiva de Frankenstein" (1935)


Outros filmes bem sucedidos de Whale foram Anjos do Inferno (1930) co-dirigido com Howard Hughes, (1930), A Ponte de Waterloo (1931) e Magnólia - O Barco das Ilusões (1936), estes dois produzidos por Carl Laemmle, Jr. Também realizou The Man in the Iron Mask, para o produtor independente Edward Small.

Pela Universal, Whale dirigiu The Road Back (1937),  pensado como uma sequência para Sem novidades no Front (1930) de Liwes Milestone. Sob os protestos de Whale, The Road Back foi reeditado e cortado após o lançamento, o que resultou em fracasso de público. 

 

"A Noiva..." Karloff retorna ao papel que o consagrou sob a batuta de Whale


Whale então foi relegado aos filmes B da Universal. Em 1937 ele filmou O Grande Garrick da Warner Brothers - seu único filme por este estúdio. Apesar da cuidada ambientação do século XVIII, o filme foi outro fracasso. Ele dirigiu O Porto dos Sete Mares (1938) para a MGM e Esposas Sob Suspeita (1938) seu último filme para a Universal, um remake do sucesso anterior The Kiss Before the Mirror

 

Colin Clive, Elsa Lanchester e Whale num intervalo de filmagem de "A Noiva..."


Nessa fase Whale conseguiu sucesso apenas com O Homem da Máscara de Ferro (1939), estrelado por Louis Hayward e Joan Bennett, Inferno Verde (1940), um filme comum de aventura na selva com Douglas Fairbanks Jr., Joan Bennett e Vincent Price, foi seu último filme de longa-metragem lançado. Nos anos de 1940 ele fez uma adaptação para uma peça de William Saroyan e depois Hello-out there!, que não conseguiu lançar. Após essa experiência, nunca mais dirigiu para o cinema.

 

Irene Dunne e Allan Jones em "Magnólia - O Barco das Ilusões" (1936). Musical de sucesso


Ele morou com o produtor David Lewis quando sob efeito da depressão, se suicidou em sua casa na Califórnia, ao se afogar na piscina, em 29 de maio de 1957, com 67 anos de idade.

Whale é mencionado na novela  Father of Frankenstein de Christopher Bram que foi adaptada para o filme Deuses e Monstros (1998) de Bil Condon . Este filme, que venceu o Oscar de melhor roteiro adaptado, teve Ian McKellen interpretando o cineasta. Biografias de Whale foram escritas por Mark Gatiss (James Whale: A Biography ou James Whale: the Would-Be Gentleman) e James Curtis (James Whale: A New World of Gods and Monsters).

 

John Emery e Richard Cromwell em "The Road Back" (1937). Filme que demarcou o início do declínio de Whale


No filme, Whale é mostrado como abertamente homossexual, além de destacar seu trabalho como pintor amador, sua saúde e estado mental debilitados, além da sua condição emocional.

Embora tivesse uma piscina, Whale não sabia nadar e tinha pavor de água. Seu corpo foi cremado a seu pedido e suas cinzas foram enterradas na cidade de Glendale, California. Uma nota de suicídio ficou na posse de David Lewis por muitas décadas, até pouco antes de sua própria morte em 1987, o que fez suspeitar até então que a morte de Whale tinha sido um afogamento acidental:

 

Brian Aherne e Olivia de Havilland em "O Grande Garrick" (1937). único filme que fêz na Warner Bros. Fracasso, apesar da produção caprichada


“Para todos que eu amo,

Não chorem por mim. Meus nervos estão destruídos e por todo o ano que passou eu estive agonizando dia e noite – exceto quando as pílulas para dormir faziam efeito – e toda paz que eu tenho todo dia é quando estou sob efeito delas.

Eu tive uma vida maravilhosa, mas ela acabou e meus nervos pioraram e eu tenho medo de que irão me levar embora. Por favor, me perdoem todos aqueles que eu amo e que Deus possa me perdoar também. Mas eu não posso suportar a agonia e é melhor para todos esse caminho.

O futuro é apenas velhice, doença e dor. Adeus e obrigado a todos pelo seu amor. Eu preciso ter paz e esta é a única maneira.

Jimmy”

 

"Deuses e Monstros" (1998) de Bil Condon. Ian McKellen e Brendan Fraser numa relação de amizade similar à de "O Carteiro e o Poeta"(1994) de Michael Radford


Uma estátua em sua homenagem foi erigida em 2002 na cidade natal de Dudley. A obra reproduz um rolo de filme com o rosto de Frankenstein, sua realização mais famosa. 

 

Ian McKellen ficou bem parecido com Whale na sua fase final


Em 2012 foi realizada uma exposição de arte no museu de sua cidade natal chamada Horror em Hollywood: A História de James Whale. Assim como cartuns, pinturas e ilustrações inéditos, que inclui um modelo gráfico da cena com a qual Whale estará sempre mais associada - O Monstro de Boris Karloff sendo operado por Henry Frankenstein (Colin Clive) do filme de 1931, Frankenstein.

 

Cena de "Deuses e Monstros" reconstituindo as filmagens de "A Noiva de Frankenstein"


O breve trabalho de James Whale no cinema foi suficiente para deixar um legado de grande valor para o público, fazendo justiça ao homem que trouxe o icônico monstro de Mary Shelley para a sétima arte, mudando a face do cinema de horror para sempre.

 

James Whale: O distinto gentleman do horror