Polícia do Tempo à Brasileira.

Qudrinhos através do espaço-tempo.

O Homem da Fronteira

Um homem e seu chapéu de guaxinim.

Um manto sobre o mundo.

Especial Homem-Morcego

Jornada em família.

A Família Robinson no Espaço.

Os primeiros Caça-Fantasmas

Trio de charme mambembe.

Mostrando postagens com marcador Suspense. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Suspense. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de maio de 2023

O "apresentar um argumento convincente" - Crítica - Séries: Perry Mason - 2ª Temporada

 


Não é a justiça que é uma ilusão...


por Alexandre César

O dolorido amadurecimento de um personagem














1933, Los Angeles. Já se passou um ano desde que Perry Mason (Matthew Rhys de O Urso do Pó Branco) auxiliado por Della Street (Juliet Rylance de Jill) sua sócia e braço-direito conseguiram livrar Emily Dodson (Gayle Rankin de GLOW) de uma condenação injusta e midiaticamente orquestrada, por “cidadãos de bem” que queriam condená-la à morte para desviar a atenção pública de suas falcatruas. Perry e Della no momento, para manter o escritório, se dedicam ao direito comercial, dando suporte jurídico à Sunny Gryce (Sean Astin da trilogia O Senhor dos Anéis) o dono de uma rede de mercados para expandir seu negócio, o que leva Mason a ganhar para ele uma ação, que no fundo era moralmente questionável. Mas negócios são negócios...  

 

De bem com a vida: Perry Mason (Matthew Rhys) inicia um romance com Ginny Aimes (Katherine Waterston) a professora de seu filho



Agora mais estabilizado, Mason (um divorciado assumido) mostrando um lado mais humano, e do quanto está feliz com o rumo que sua vida está tomando, faz as pazes com sua ex-amante Lupe Gibbs (Veronica Falcón de A Rainha do Sul) e com a sua ex-esposa, e passa a resgatar a relação com  Teddy (Jack Eyman) seu filho (em certa altura ele leva o garoto ao cinema para ver King Kong), além de iniciar um romance com Ginny Aimes (Katherine Waterston de Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore) a professora do garoto. Já Della, reencontra sua mentora, Camilla Nygaard (Hope Davis de Succession) rica filantropa e patrona das artes, cujos saraus de música clássica são frequentados pela elite econômica, política e social de Los Angeles. Della conhece a socialite Anita St. Pierre (Jen Tullock de Ruptura) por quem se apaixona, terminando seu romance com Hazel Prystock (Molly Ephrain de O Favorito) que já havia amornado.

 

Para dar estabilidade ao escritório Perry dá suporte jurídico a Sunny Gryce (Sean Astin), um comerciante em expansão

 

A dupla é convocada por Luisa Gallardo (Onahoua Rodriguez de Estação 19) uma humilde mexicana, mãe dos acusados Mateo (Peter Mendoza de Vide Noir) e Rafael Gallardo (Fabrizio Guido de Negra Como a Noite) de executar Brooks McCutcheon (Tommy Dewey de Killing It) filho de Lydell McCutcheon (Paul Raci de O Som do Silêncio) empresário do ramo petrolífero, envolvido em vários empreendimentos nebulosos. À medida que vai montando o caso, Mason vai descobrindo que Brooks, embora fosse vendido como um grande filho da comunidade e de uma das mais poderosas famílias da região, pai de família e fomentador dos esportes, tinha um lado sombrio, e suas atividades entravam em conflito com as de grupos de interesses que preferiam removê-lo, culpando dois pés-rapados latinos para abafar a opinião pública. 


A rica filantropa Camilla Nygaard (Hope Davis) reencontra sua ex-pupila Della Street (Juliet Rylance) ,


 Nos oito episódios de uma hora de sua segunda temporada, Perry Mason prossegue em sua escalada de nos mostrar a formação do superadvogado (imortalizado na série veiculada entre 1957 e 1966 com Raymond Burr pela rede CBS) aqui encarando um caso aparentemente básico de assassinato, mas que mascara uma cadeia de ações envolvendo chantagem, preconceito, tráfico de influência e, dinheiro, muito dinheiro, no conturbado mundo pré-Segunda Guerra Mundial. 

 

O playboy Brooks McCutcheon (Tommy Dewey) é executado à sangue frio, alavancando a trama


A série, criada por Rolin Jones(Boardwalk Empire) Ron Fitzgerald (Weeds) para a HBO tendo entre os produtores Robert Downey Jr. (Doolittle) e sua esposa Susan Downey (Beijos e Tiros) e dirigida por Fernando Coimbra(Narcos), Nina Lopez-Corrado (Marvel´s Agents of S.H.I.E.L.D.), Jessica Lowrey (Halo) e Marialy Rivas (La Jauría) traz de volta, repaginado o agora advogado (embora ainda bastante destoante, da imagem glamourosa a que o imaginário pop e o grande público está acostumado*1) numa trama mais próxima das que eram veiculadas no programa de TV.

 

Os irmãos Mateo (Peter Mendoza) e Rafael Gallardo (Fabrizio Guido) são os mexicanos a serem sacrificados pelo sistema



Percebemos a sinergia entre Perry e Della trabalhando juntos, e o quanto ele sabe que, sem ela, ele não seria tão bom quanto é. Ela, por sua vez, é a única que sabe que ele é um advogado melhor do que ele pensa que é. E no fundo, ele sabe disso.

Rostos conhecidos retornam, em novas etapas de suas vidas. Paul Drake (Chris Chalk de Godzilla vs. Kong) e sua esposa Clara (Diarra Kilpatrick de American Koko) passam por dificuldades, vivendo de favor com parentes, mas ao fazer um serviço para Pete Strickland (Shea Whigham de Velozes & Furiosos 9) ex-parceiro de Mason nos seus tempos de investigador, acaba prejudicando (para seu desgosto) uma liderança da comunidade negra; Strickland, por sua vez, agora trabalha para o escritório do Promotor Público Hamilton Burger (Justin Kirk de Succession) cujo assistente, Thomas Milligan (Mark O´Brien de Casamento Sangrento) quer ganhar o caso de qualquer jeito por razões políticas, levando-o a prejudicar o amigo.Outro que reaparece é o Detetive Holcomb (Eric Lange de Dupla Jornada) que por fora de seu trabalho policial, gerencia um navio cassino ilegal de propriedade de Brooks McCutcheon, que colecionava irregularidades, levando Mason, sempre com seu chapéu fedora e com sua pequena máquina fotográfica*2, a peneirar quais os interesses envolvidos no caso e, conseguir, se não uma vitória*3, pelo menos um acordo que convença o juiz Durkin (Tom Amandes de A Lista Terminal) a não condenar seus clientes à morte.

 

Della Street (Juliet Rylance) conhece a socialite Anita St. Pierre (Jen Tullock ) por quem se apaixona


A música de Terence Blanchard (A Mulher Rei) dá o tom intimista da série, auxiliada pela supervisão musical de Linda Cohen (Licorice Pizza) que inclui hits do período como “Are You Makin´ Any Money?” de Paul Whiteman por Mollie Weaver, refletindo poeticamente a luta de classes no batalhar incerto do “pão de cada dia”, desse universo marcado pela Grande Depressão, que a fotografia de Darran Tiernan (Westworld) Eliot Rockett (Pearl) registra, e a edição de Meg Reticker (American Rust), Blake Maniquis (Iluminadas), Martin Zaharinov (Servant), Lisa Bromwell (Bilions) e Howard Leder (This Is Us) complementa de forma paciente em seu tom narrativo, num suspense maduro, que intercala as diferentes histórias que estão mescladas na história principal, e definindo as nuances emocionais dos personagens.

 

Amizade: Perry resgata o contato com seu filho Teddy (Jack Eyman)

Eficientemente, o desenho de produção de Keith P. Cunningham (Mare of Easttow) junto com a direção de arte Ian Scroggins (Better Call Saul), Michael Manson (O Mandaloriano) Brittany Braford (Tico e Teco: Defensores da Lei) e a decoração de sets de Halina Siwolop (Legião) criam espaços que refletem tanto as posições socioeconômicas de seus personagens, como seus estados mentais e emocionais, como o apartamento de solteiro de Mason ou as simples casas dos bairros negros e as favelas dos latinos, em oposição às luxuosas mansões Art Decô dos bairros ricos, ou o ambiente brega novo rico do navio cassino de Holcomb. Da mesma forma, os figurinos de Catherine Adair e David J. Matwijkow (O Homem do Castelo Alto) recriam estas divisões sociais, nos trajes austeros e simples dos Gallardo e dos Drake, contrastando com a classe dos modelos delicados e luxuosos de Camilla Nygaard e na sofisticação dos modelos de Anita St. Pierre.

 

Perry Mason, Paul Drake (Chris Chalk) e Della Street unem esforços para descobrir os meandros da conspiração

 

Os efeitos visuais das empresas Pixomondo, Crafty Apes, Folks VFX, supervisionados por Marc Kolbe (Doutor Sono) continuam o bom trabalho da recriação da Los Angeles da depressão, e dos primeiros anos do New Deal*4 quando políticas públicas foram postas à cabo para gerenciar e reduzir a pobreza geral (que pouco atingiram as indústrias do cinema e do petróleo) e ainda seguem com as criativas soluções da integração do logo de abertura da série com a paisagem das cenas de início de cada episódio.

 

O Promotor Público Hamilton Burger (Justin Kirk) é pressionado para dificultar o caso para Mason, embora prefira um acordo



Ao final, a segunda temporada de Perry Mason termina novamente de forma agridoce, no melhor estilo noir com seu protagonista encarando uma punição judicial, para poder mais adiante seguir o rumo que bem adiante o levará se tornar o personagem criado por Erle Stanley Gardner em seus livros (mas não em suas encarnações televisivas e cinematográficas anteriores), transmitindo assim a mensagem de que devemos ter a força de questionar a versão oficial das coisas, e saber ouvir a voz que ecoa em nossa consciência, e neste fluxo de dúvidas e incertezas, conseguir esclarecer a verdade dos fatos, aceitando que nem sempre os culpados pressionam o gatilho, mas mandam alguém descartável fazê-lo, cabendo a quem procura por justiça, revelá-lo.

 

A direção de arte e os efeitos visuais têm momentos criativos como o uso da titulagem da série no início de cada episódio



Notas:



*1: Criado por Erle Stanley Gardner (1889 - 1970) em seus quase 80 livros (sendo muitos deles publicados postumamente) o advogado criminal Perry Mason foi lançado no livro O Caso das Garras de Veludo de 1933, caracterizando-se por ser dedicado a seus clientes (só aceitando defender indivíduos que ele saiba que são realmente inocentes) independente de suas origens e classe social. Nos livros, sabe-se pouco sobre a sua origem, família, idade e aparência, pois o autor deliberadamente sempre descreveu muito mais o espírito e atitude do personagem do que o seu aspecto exterior, dando-lhe um aspecto mítico, facilitando por uma lado a sua adaptação, como na série veiculada entre 1957 e 1966 com Raymond Burr pela rede CBS, mas que nunca explorou realmente, a sua personalidade.

 


*2: A série, foi a precursora do gênero “procedural” (aquele cuja narrativa de cada episódio se foca num caso que é investigado a cada semana, não tendo nenhuma conexão entre demais). além de aparecer em programas de rádio, filmes para o cinema e TV e até quadrinhos e jogos, sem contar de ter se tornado uma referência nos meios jurídicos.

 


*3: “Momento Perry Mason” é um termo que existe na advocacia americana quando o advogado revela (normalmente de maneira dramática) uma informação que causa uma grande reviravolta no julgamento, virando-o a seu favor.

 


*4: O New Deal (em português, novo acordo ou novo contrato) foi uma série de programas implementados nos Estados Unidos entre 1933 e 1937, sob o governo do presidente Franklin Delano Roosevelt, com o objetivo de recuperar e reformar a economia norte-americana, além de auxiliar os prejudicados da Grande Depressão. Seu nome foi inspirado em Square Deal, nome dado por Theodore Roosevelt à sua política econômica. Essas políticas econômicas, até então inusitadas, foram adotadas quase simultaneamente por Roosevelt nos Estados Unidos e por Hjalmar Schacht na Alemanha, cerca de três anos mais tarde, foram racionalizadas pelo economista John Maynard Keynes em sua obra clássica Teoria geral do emprego, do juro e da moeda.


"-Mertíssimo, eu peço que adiemos o julgamento até o final da próxima temporada..."

terça-feira, 8 de março de 2022

Com vocês, o detetive!!! - Crítica – Filmes: O Batman (2022)

 


A volta triunfal do Morcego

 
por Alexandre César

Matt Reeves prioriza o conceito à frente da interpretação

 


Obs: texto com alguns spoilers.

Desde que surgiu em maio de 1939 na revista Detective Comics n° 27*1, Batman, ‘O Campeão de Gothan’, ‘O Maior Detetive do Mundo’, ‘O Cavaleiro das Trevas’, entre tantos outros epítetos, foi conquistando outras mídias nestes 83 anos existência, além de prosseguir a sua carreira vitoriosa nos quadrinhos. Como todo produto de cultura de massas, seu visual e suas características distintas foram o resultado da fusão de várias influências*2 que acabaram por lhe dar uma personalidade única, sendo referencial para a criação de inúmeros outros personagens.
 
À noite um  sinal nos céus de Gothan, alertando os meliantes que o predador está à solta
 
 

Além dos quadrinhos, a sua trajetória foi marcante nas animações, nos seriados, nos games e no cinema, tendo sido objeto de vários cineastas e atores que, no somatório, deram cada um a sua interpretação do personagem, refletindo a época, o mundo e as forças econômicas que o moviam. De sucessos absolutos, passando por fracassos e versões relativamente bem-sucedidas, mas que geraram controvérsias entre os fãs, por onde passasse a sombra do morcego a única coisa que não gerava era indiferença.
 
 
Prefeito Don Mitchell (Rupert Penry-Jones) é encontrado morto por seu filhinho
 
O Tenente James Gordon (Jeffrey Wright) pede ajuda à Batman (Robert Pattinson) para resolver o caso, apesar da oposição da polícia
 
 
 
Dirigido por Matt Reeves (Planeta dos Macacos: A Guerra, de 2017, e O Batman, de 2022) traz uma narrativa de suspense com forte inclinação noir, se preocupando em primeiramente estabelecer conceitualmente “o que é o Batman” e depois sim, fazer a sua interpretação pessoal do Batman. Isso cria um grande diferencial em relação aos diretores dos filmes anteriores, que sempre colocaram primeiro a sua interpretação e assinatura na frente da conceituação. Com seu ritmo lento, mas nunca parando, indo num crescendo gradativo graças à edição de William Hoy (Planeta dos Macacos: A Guerra) e Tyler Nelson (Contos do Loop), o filme conta em suas quase três horas uma trama investigativa plena de momentos marcantes, rivalizando com Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008) de Christopher Nolan, apesar de tomar rumos distintos.
 
 
De dia, Bruce Wayne (Robert Pattinson) só se preocupa com o legado de sua família

 
O roteiro de Matt Reeves e Peter Craig (Atração Perigosa) resgata uma das facetas mais esquecidas do personagem em suas encarnações pregressas: Batman, o Detetive, privilegiando a sua capacidade analítica, reduzindo a importância de apresentar gadgets mirabolantes (mas eles aparecem, de acordo com a necessidade funcional da história) ou de resolver tudo na base do combate físico (e olha que ele bate, e muito...), investindo no lado investigativo e flertando bastante com o horror, construindo tal sentimento através de sons e na construção de uma atmosfera sufocante que tudo parece sempre acontecer à noite, com poucas luzes e chovendo quase sem parar. Isso é definindo logo nas primeiras cenas, usando o suspense para ilustrar o medo palpável que o bat-sinal causa nos meliantes (a primeira aparição do Batman é de gelar o sangue) e mostrar a cidade de Gotham como o habitat de caos social, como uma comunidade econômica, moral e socialmente estagnada, exalando um clima de desilusão que contamina seus habitantes e gera seres como o Batman, Charada, Duas-Caras, Coringa e tantos outros desta extensa galeria de personagens.
 
 
Edward Nashton/ Charada (Paul Dano) segue aterrorizando a elite econômica e política de Gothan
 
Há muitas referências às pinturas de Edward Hooper, que retratava a solidão urbana

 
Acompanhamos neste filme Batman / Bruce Wayne (Robert Pattinson, de O Farol, de 2019, em intensa performance) no seu segundo ano de carreira contra o crime, ainda aprendendo aos trancos e barrancos, a “ser o Batman” e o que isto significa, com direito aos erros próprios da inexperiência e da juventude. Aqui ele já conquistou a confiança do Tenente James Gordon (Jeffrey Wright, de Westworld ótimo como sempre), tendo forjado com ele uma aliança (que é bastante testada no filme). A dupla une esforços para investigar o misterioso assassinato do Prefeito Don Mitchell (Rupert Penry-Jones, de The Commons), candidato à reeleição cujo passado foi exposto por um vídeo postado na web, revelando suas ligações com Carmine Falcone (John Turturro, de Ruptura, perfeito como um escroque mafioso), líder todo-poderoso da máfia local. O video também apresenta uma uma ligação indiscreta do prefeito com uma scort girl desaparecida (Iana Saliuk, de Ganapath), amiga da bela Selina Kyle (Zoë Kravitz, de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, naturalmente sensual até a medula), que trabalha no clube privê administrado por Oswald Cobblepot / Pinguin (Collin Farrell, de Magnatas do Crime, numa performance promissora).
 
 
Oswald Cobblepot / Pinguin (Collin Farrell) é o "Fredo Corleone"  da máfia de Gothan

 
À medida que suas pesquisas avançam, o recluso herdeiro/justiceiro, que praticamente não sai de casa durante o dia (como um vampiro ou, como ele mesmo reconhece, um animal noturno), vai esbarrando com ligações entre a família Wayne e Carmine Falcone. Isso o leva a questionar o passado de seu pai, à despeito do que o fiel Alfred Pennyworth (Andy Serkis, de Planeta dos Macacos: A Origem, numa caracterização interessante) sempre lhe ensinara.
 
 
A base de Batman, abaixo da Torre Gothan,se situa num terminal ferroviário desativado

Todos os equipamentos de Batman são essencialmente funcionais, feitos por ele mesmo


 
A ligação de Batman com Selina ocorre de forma orgânica, com ela auxiliando-o a espionar o Iceberg Lounge (o clube de Falcone) e sua clientela. Entre os frequentadores está o Promotor Gil Colson (Peter Sarsgaard, de A Filha Perdida), cuja presença acaba desencadeado uma sequência de fatos que levam ao confronto entre Batman e Edward Nashton/ Charada (Paul Dano, de Sangue Negro, assustador em sua interpretação). A caracterização desse antagonista nos remete ao Assassino do Zodíaco*3 e seus planos se revelam mais assustadores do que aparentavam.
 
 
A bela Selina Kyle (Zoë Kravitz) procura sua amiga desaparecida nesta luta pelo poder

 
Robert Pattinson, que já havia deixado o vampiro Edward para trás há muito tempo, domina o filme em cada cena. Ainda que os personagens à sua volta sejam bem definidos e com o tempo necessário para que os entendamos, o personagem principal nunca sai de foco, deixando assim de lado o ‘calcanhar de Aquiles’ de boa parte dos filmes anteriores do herói, onde aconteciam aquela história do ‘vilão roubando o filme’. A despeito de termos um Bruce Wayne recluso, reservado e depressivo (chegando próximo de um ‘emo’*4...), não muito diferente do próprio Batman, destoando do que já está estabelecido no imaginário dos fãs ou mesmo dos que conhecem o personagem superficialmente. Diferente de Superman (que é a máscara que Clark Kent usa para ajudar as pessoas), Bruce Wayne é que seria a máscara através da qual  Batman se esconde do mundo (algo que o próprio Charada observa no filme) e, por isso, deveria adotar aquele perfil de playboy frívolo para desviar suspeitas. Podemos especular que, como aqui ainda se está num processo de construção de personas, ainda deveremos futuramente ver esta dualidade se formar.
 
 
O Batmóvel, um "muscle car" customizado com o máximo de motor e blindagem

Bruce Wayne descobre ligações de seu pai com o poderoso Carmine Falcone (John Turturro) chefe da máfia, e de Oswald Cobllepot

 
Embora o ator esteja em ótima forma, e com uma intensa fisicalidade (nas cenas de luta em especial), aqui temos uma versão mais light do personagem, remetendo aos desenhos de Ernie Chua, Jim Aparo, José Luiz Garcia Lopez e Neal Adams. Bem diferente do perfil parrudo de Christian Bale e Ben Affleck, que dialogam mais com a visão nos quadrinhos de Bernie Wrightson e Frank Miller. É claro que, desde Batman (1989), de Tim Burton, aceitamos que o combatente do crime tem de adotar um traje tático que proteja o seu corpo da grande variedade de traumas que a luta contra o crime acarreta, implicando com isso em diferentes graus de perda de mobilidade - algo que difere do icônico e cult Clark Bartram*5 que só usava a clássica malha colante, como nas HQs. 
 
 
Selina, a "Gata Ladra" desenvolve uma intensa ligação com o vigilante, unindo esforços
 
 
A incrível e atmosférica trilha musical de Michael Giacchino (Jojo Rabbit) cria um tema marcante para o personagem, com poucos acordes, mas que, repetidos, criam uma marca sonora sinistra e assustadora, similar ao tema de Tubarão (1975) ou a Marcha Imperial de Star Wars: Episódio V: O Império Contra-Ataca (1980) já figurando como um dos grandes temas do cinema por sua simplicidade impactante. Tem também o uso perturbador de Ave Maria, de Schubert, destacando a versão sinistra entoada pelo Charada que compõe bem com a imagética de Gotham. Batman sempre funcionou melhor num universo de iconografia visual católica, tal qual o Demolidor da Marvel.
 
 
O Promotor Gil Colson (Peter Sarsgaard) é capturado pelo Charada, que envia uma mensagem (e um desafio) ao Batman

Bruce começa a montar um quadro esquemático dos alvos do Charada

 
A ótima fotografia de Greig Fraser (Duna) cria uma atmosfera sufocante, de tons frios. A fotografia compõe, com o desenho de produção de James Chinlund (Planeta dos Macacos: O Confronto), ambientações carregadas por mobiliário ou elementos de cena, que a direção de arte de Grant Armstrong (Kingsman: O Círculo Dourado), James Lewis (A Fantástica Fábrica de Chocolate), Oliver Benson (Kingsman: A Origem), Trinity Tad Davis, Joseph Hiura (Pantera Negra); Gary Jopling (Missão: Impossível - Efeito Fallout), Joe Howard (Kingsman: O Círculo Dourado), Mathew Kerly (Kingsman: A Origem) e Will Newton (The Great Fire) caracterizam, dentro de um parâmetro realista, a posição social ou o estado psicológico de seus personagens. A decoração de sets de Laura Ng (Thor: Ragnarok) define bem os cenários, como o pequeno, bagunçado e cheio de roupas (e de gatos) apartamento de Selina Kyle, o Iceberg Lounge, cheio de grã-finos viciados em gota (droga sintética tipo ecstasy), a residência Wayne que remete à um mausoléu, ou os abarrotados espaços públicos, como a Chefatura de Polícia e a Catedral de Gothan, que combina com o pequeno apartamento de Edward Nashton, que (como todo apartamento de psicopata) é entulhado de elementos em todas as paredes, refletindo seus processos mentais obsessivos.
 
 
Os efeitos visuais e os valores de produção criaram cenas impactantes

 
Os figurinos de Jaqueline Durran (1917), dão um ar de atemporalidade, com leves toques de anos 70, como no traje do Charada, que remete aos slasher movies*6 daquele período. Os trajes colantes de Selina Kyle (aqui, a ‘Gata-Ladra’) e o extremamente funcional e intimidante bat-traje, criado por David Crossman (Rogue One: Uma História Star Wars) e Glyn Dillon (Han Solo: Uma História Star Wars), cujos sons de couro, tecido e metal roçando enquanto o herói se move é um elemento intimidante visto nas cenas em que não vemos o Batman, mas ouvimos o seu movimento, chegando como um monstro de filme de horror. A diferença de como ele e a ‘Gata-Ladra’ se movimentam ao lutar é incrível, mostrando o contraste da fluidez sensual de uma e o brutal e mecânico jeito do outro.
 
 
Alfred Pennyworth (Andy Serkis) o fiel mordomo e ex-MI-6 que criou Bruce, protegendo o legado dos Wayne

As cenas de ação são intensas e brutais, não deixando pedra sobre pedra

 
Dentro desse parâmetro de realismo, os efeitos visuais de Scanline VFX, Industrial Light Magic (ILM), Weta Digital, Gentle Giant Studios, Halon Entertainment , Crafty Apes e Territory Studio, supervisionados por Dan Lemmon (Planeta dos Macacos: A Origem), Russell Earl (Vingadores: Ultimato), Malcolm Humphreys (Star Wars: A Ascensão Skywalker) e Dominic Tuohy (Dolittle), além de tornarem críveis os aparatos tecnológicos do herói, como o Batmóvel (um muscle car customizado digno de Chrsitine, o Carro Assassino*7), expandem satisfatoriamente a ambientação cenográfica numa escala que chama a atenção para os desastres que surgem e ocorrem de forma crível mas de aspecto sóbrio, sem passar aquela ideia de “olhem para mim, sou um incrível efeito visual, não?!”
 
 
O "sinal do morcego" é uma ferramenta de combate destacável 

 
O Batman ja figura como um dos grandes filmes do ano. Merece ser visto como uma das grandes abordagens do personagem e que abre grandes possibilidades para ele e seu leque de oponentes (já esboçado). Esperemos agora que parem de esquecer que, antes de ser o Campeão de Gotham, que luta muito, e o Cavaleiro das Trevas, cheio de brinquedos incríveis, Batman é O Maior Detetive do Mundo...


A Cidade de Gothan é um mix de gótico e estilos arquitetônicos modernos, de forte viés setentista

Em matéria de "salto de fé" ninguém supera o morcego...




Notas:
 
 

 
*1: O personagem foi criado pelo escritor Bill Finger e pelo desenhista Bob Kane em 1939 com a missão de repetir o sucesso do Superman, que começara a ser publicado no ano anterior. Ele foi elaborado a pedido do editor Vin Sullivan e surgiu originalmente com o nome "Bat-Man". Sua primeira história foi The Case of the Chemical Syndicate, seguindo os parâmetros narrativos da época contidos nas revistas pulps.
 
 

*2: Batman foi influenciado em sua gênese por outros personagens, como o Zorro (do qual tirou a sua identidade secreta frívola), o Sombra (de onde veio os seus métodos justiceiros) e Drácula (com seu apelo misterioso e assustador). Também tem como referência filmes, como The Bat (1926), O Fantasma da Ópera (1925) e O Homem que ri (1928), que inspiraram elementos que formam o seu universo ficcional, como o seu visual do herói emulando um morcego, a atmosfera gótica de suas histórias e caraterísticas do seu grande arqui-inimigo, o Coringa.
 
 
 

 
*3: O Assassino do Zodíaco (em inglês: Zodiac Killer), retratado no filme Zodíaco (2007), de David Fincher, é o pseudônimo de um assassino serial que atuou no Norte da Califórnia, nos EUA, no final da década de 1960. Teve quatorze vítimas reconhecidas em Benicia, Vallejo, Lago Berryessa, e San Francisco, mortas entre dezembro de 1968 e outubro de 1969. Ele assinou com o nome que criou para si uma série de cartas ameaçadoras que enviou à imprensa até 1974. Seus crimes são descritos como o caso de assassinatos não resolvido mais famoso dos EUA, devido a falta de precisão no número de vítimas, às cartas criptografadas que ainda não foram decifradas e a falha na busca de suspeitos. O caso é considerado por muitos como um crime perfeito e tornou-se um elemento recorrente na cultura pop, inspirando filmes, episódios de seriados de televisão, romances e videogames. O caso permanece em aberto até hoje. 
 

 
 

 
*4: Emo ou emocore é um gênero de rock surgido no final dos anos 80. Uma variação do hardcore com letras emotivas e confessionais. Seus fãs são  reconhecidos por ter os olhos carregados de lápis preto, cabelo completamente colorido e por suas roupas acompanhadas de spikes, tachinhas e elementos quadriculados. Elementos da cultura pop, como Jack Esqueleto de O Estranho Mundo de Jack (1993) acabaram tornando-se marca registrada do grupo, além de suas roupas pretas acompanhadas de estampas de caveiras ou camisetas de bandas do gênero. que fizeram sucesso no movimento. Muitos deles são conhecidos por serem introvertidos e por isso ter grande dificuldade de fazer amizade.
 
 

 
*5: Clark Bartram, modelo e campeão de fitness, estrelou o fanfilm Batman: Dead End (2003), dirigido por Sandy Collora (diretor, designer e técnico de efeitos especiais). Nele, o herói, ao perseguir o Coringa (Andrew Koenig) que fugira do Asilo Arkhan, se depara com Aliens e Predadores, num duelo fatal. O diretor e Clark  ainda se reuniriam em World´s Finnest (2004), fanfilm feito em formato de um trailer fictício de um filme que reuniria Batman (Bartram) e Superman (Michael O´Hearn) contra Lex Luthor (Kurt Carley) e Duas-Caras (Michael Antonik).
 
 

 
*6: Slasher movies é um subgênero do cinema de horror surgido no início dos anos 1970, protagonizado por criminosos homicidas que saem fatiando jovens e quem passar pelo caminho. Os filmes O Massacre da Serra Elétrica (1974), Halloween (1978), Sexta-Feira 13 (1980) são os maiores expoentes do estilo e Pânico (1996) e Jogos Mortais (2004) figuram como exemplos de atualizações de seus conceitos.
 
 

 
*7: Christine, o Carro Assassino (1984), de John Carpenter (Fuga de Nova York), é um filme baseado num livro de Stephen King que conta a história de um jovem tímido que compra e reforma um velho Plymouth 1955 que é possuído pelo espírito de seu dono original, desenvolvendo uma relação destrutiva com todos à sua volta.
 
 
 

 
 

"- É comigo ???"