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terça-feira, 30 de novembro de 2021

Potencial não atingido - Crítica - Séries: Star Trek: Picard - 1ª Temporada

 


O herói crepuscular e o dragão da distopia 

por Alexandre César

(Postado originalmente em 04/ 04/ 2020)


Série desigual, com potencial ainda não atingido
 


Legado: Tendo surgido em 1987, "Star Trek: A Nova 
Geração " somente firmou-se na terceira temporada, 
atingindo seu pleno potencial...


Verdadeira face dos princípios éticos e morais da Frota Estelar, Jean-Luc Picard (Sir Patrick Stewart, como sempre ótimo, seja em cenas bem ou mal-escritas) desde o longínquo ano de 1987 quando fomos apresentados ao capitão francês (homenageando Jaques-Ives Costeau) no piloto Encontro em Farpoint da série Star Trek: A Nova Geração (quando a franquia Star Trek ainda era chamada aqui de Jornada na Estrelas).

"Star Trek: Nêmesis" (2002). O último filme da série 
tem ligação com os eventos da temporada...

Rapidamente o intelectual firme de cultura erudita firmou-se como o maior pilar do humanismo no universo ficcional criado por Gene Rodenberry, pois se comparado com seus colegas, Jonathan Archer (Star Trek: Enterprise) era quase um corsário rumando por mares nunca dantes navegados; James Tiberius Kirk (a Star Trek original) ora era um capitão estilo “Mestre dos Mares”, ora era um xerife digno de qualquer farwest; Benjamin Sisko (Star Trek: Deep Space Nine) era um líder político pragmático, capaz de tomar decisões indigestas e conseguir dormir o sono dos justos e, Kathryn Janeaway (Star Trek: Voyager) era uma comandante isolada num lugar distante e hostil, só podendo contar com os recursos de sua nave e com a habilidade de sua equipe, tendo que lidar com situações fora das regras do manual. Não havia dúvidas. Comparado a ele, agora apenas vislumbramos uma sutil equivalência na finada Phillipa Georgiu (não é a imperatriz!!!) e no pioneiro Christopher Pike (Tanto ela quanto ele em Star Trek: Discovery) em seus respectivos perfis.

14 anos depois reencontramos o velho e amargurado líder, com seu cachorro


Criada por Kirsten Beyer, Michael Chabon, Akiva Goldsman e Alex Kurtzman e produzida pela CBS (aqui veiculada pela Amazon Prime Vídeo) Star Trek: Picard traz o veterano e agora almirante reformado Jean-Luc Picard tendo que lidar com os desafios da idade (mesmo que devamos supor que com os avanços da medicina a longevidade humana deve ter sido bem prolongada no século 24...) e a sensação de que o mundo (aqui, o universo) não precisa mais dele, relegando-o ao ostracismo e à contagem regressiva final e assim, a série carrega o fardo de mixar a continuidade de A Nova Geração (Data havia perecido em Star Trek: Nêmesis de 2002, dirigido por Stuart Baird) à linha temporal de Star Trek (2009) de J.J.Abrams (Star Wars: A Ascensão Skywalker) onde a estrela-natal de Romulus torna-se uma supernova e destrói a sede do Império Romulano. A partir disso surgem os acertos ao honrar personagens queridos da série e erros ao muitas vezes se render ao Fanservice, embora mostrando um potencial não plenamente atingido nesta temporada.

Deu Ruin... O almirante Jean-Luc Picard (Patrick Stewart) e sua imediato Raffi Musiker (Michelle Hurd) tentam coordenar a evacuação Romulana, o que o leva à uma jogada arriscada

Picard carrega a culpa de não ter conseguido evacuar mais romulanos quando o sol de seu sistema se tornou uma supernova pois ele organizou uma frota de 10 mil naves para resgatar 900 milhões de refugiados. (comparado à retirada de Dunquerque*) uma sabotagem ocorrida no complexo de docas espaciais Utopia Planitia**em Marte provocou um mega-desastre e levou a Frota Estelar a cancelar o resgate e proibir a fabricação de formas de vida sintéticas, o que fêz Picard ameaçar sair pois a Frota Estelar estava renegando os seu valores. A Frota aceitou a sua saída e ele, frustrado, foi cuidar do vinhedo da família em Chateau Picard, França.

"Canivete suíço": Laris (Orla Brady) e Zhaban (Jamie McShane), são os criados romulanos de Picard que são pau-para -toda-obra


Assim, quatorze anos depois o velho almirante rompe o silêncio numa entrevista bombástica a uma repórter que gosta de cutucar a ferida (Merrin Dungey de Big Litlle Lies) e irritado argumenta que “a Frota Estelar não era mais ela mesma”, lhe criando uma polêmica prejudicial, e dias depois, ao passear pelo vinhedo na companhia de Imediato, seu cão (um belo e amoroso pitbull, ou aparentado) ele é abordado por Dahj Asha (Isa Briones de American Crime Story) moça misteriosa, na verdade uma andróide feita a partir da matriz positrônica de Data (Brent Spiner de Star Trek: A Nova Geração) que diz lembrar-se dele e que está sendo caçada por agentes romulanos.
 

Picard conhece a androide Dahj Asha (Isa Briones), a "filha" de Data


Sua presença e posterior morte o leva a descobrir uma ação secreta de Tal Shiar, a polícia secreta romulana e, mais adiante graças ao seu casal de criados Laris (Orla Brady de Into the Badlands) e Zhaban (Jamie McShane de Argo), refugiados que ele acolheu. Com vasta experiência na área de inteligência militar (a ótima dupla de atores têm uma grande equivalência com Allfred Penworth, o mordomo do Batman) os dois levantam os métodos de ações do Zhat Vash, o que seria o “núcleo duro” do Tal Shiar, e que tem como agenda eliminar toda e qualquer forma de vida sintética, como o fazem com Dahj, que em momentos de perigo revela suas habilidades de combate pré-programadas, estando suas feições num desenho que o finado Data havia lhe dado anos atrás, lhe aparecendo em sonhos recorrentes. Analisando as mensagens de Dahj ele descobre existir uma andróide gêmea, a quem precisa proteger.
 
 
Alm. Kirsten Clancy (Ann Magnuson) enquadra Picard, que saiu por "nobres ideais", enquanto ela teve de ficar e lidar com a dura realidade prática


Picard, consegue que seu amigo, o Dr. Moritz Benayoun (David Paymer de Entre Realidades) considere-o apto para o serviço interestelar (a despeito de sua condição) e após receber um esporro (o primeiro de vários ao longo da temporada...) da Alm. Kirsten Clancy (Ann Magnuson de O Homem do Castelo Alto) que lhe nega ajuda em sua busca, decide sair por conta própria, recrutando uma equipe de desgarrados que incluem Raffi Musiker (Michelle Hurd de Máquina Mortífera) ex-oficial da Frota Estelar e sua antiga imediato, com vários traumas em sua vida pessoal, similar ao Capitão Cristóbal Rios (Santiago Cabrera de Salvation) cuja nave La Sirena podemos dizer que é quase a Millennium Falcon da equipe, e conta com um grupo de hologramas de manutenção em cada área (médica, engenharia, comunicações...) cada um refletindo uma parcela de sua personalidade. 

Infiltradas: A Ten. Narissa (Peyton List) e a Comodoro Oh (Tamlin Tomita) na verdade são agentes da inteligência romulana

Prestar contas: Picard vai ao assentamento de refugiados romulanos explicar a Zani (Amirah Vann) a sacerdotisa do Qowat Milat o porquê da sua ausência de 14 anos


Ao grupo se unem a Dra. Agnes Jurati (Alison Pill de Scott Pilgrin Contra o Mundo) pesquisadora de Inteligência Artificial, que inicialmente parecia ser uma personagem “bobinha”, tipo alívio cômico como a Sylvia Tilly de Star Trek: Discovery mas revela momentos bem dramáticos, e por fim Picard, reconhecendo a sua vulnerabilidade, recruta num assentamento romulano, Elnor (Evan Evagoria de A Ilha da Fantasia) guerreiro (com visual meio elfo / samurai) criado pelas Qowat Milat, “freiras” adeptas da “Franqueza Total” (forma de lidar com tudo sem “mentirinhas” e hipocrisias) que aceita após defendê-lo de mais uma sessão de humilhações de refugiados descontentes (parece que na virada do século XXIV para XXV os idosos continuam sendo destratados do mesmo jeito...), surgindo num momento de dificuldades Sete de Nove (Jeri Ryan de Star Trek: Voyager) agora patrulheira de um grupo rebelde do setor pois a Zona Neutra virou uma “Terra de Ninguém” com o colapso do Império Romulano, pululando grupos que controlam zonas de influência (como o tráfico e as milícias aqui no Brasil).

Restrições: Sai a imponente Enterprise, e entra a compacta La Sirena, menor, mas funcional

El Hombre!!! O existencialista Capitão Cristóbal Rios (Santiago Cabrera) é o piloto da La Sirena

Reunida a trupe, eles saem em busca da Dra. Soji Asha (Isa Briones) que trabalha com Hugh (Jonathan Del Arco de Star Trek: A Nova Geração) o ex-borg (chamados XB) que agora dirige o projeto de estudos do “Artefato”, um Cubo Borg desativado, iniciativa independente de membros da Federação com o Governo Romulano e lá se envolve com Narek (Harry Treadway de Penny Dreadful) agente Tal Shiar, tal qual sua irmã Narissa (Peyton List de Gothan), agente infiltrada na Frota, subordinada à Comodoro Oh (Tamlin Tomita de O Homem do Castelo Alto) oficial Tal Shiar (e do Zhat Vash), sendo uma mestiça de romulana com vulcana, infiltrada na Frota (Agora temos de reconhecer que a Alm. Clancy é quem devia ir para a reserva pois ter uma agente romulana infiltrada no Alto Comando da Frota é dose, isto a Seção 31 jamais deixaria passar...).

Romulano-Ninja: Criado pelas Qowat Milat, Elnor (Evan Evagoria) se torna o guarda-costas de Picard

Retorno bem-vindo: Sete de Nove (Jeri Ryan) retorna rmada e perigosa em grande estilo


Assim vão surgindo novos personagens e, ressurgindo rostos familiares como o Dr. Bruce Maddox (John Ales de Euphoria) que pesquisou a fundo a matriz positrônica de Data, sendo cativo no sistema Alpha Doradus pela traficante Bjayzl (Necar Zadegan de Masters of Sex) a líder do mercado negro de componentes borg, Zani (Amirah Vann de No Limite) a sacerdotiza da Qowat Milat, que criou Elnor e, fechando com chave de ouro, William T. Riker (Jonathan Fakes),e Deanna Troy (Marina Sirtis) agora morando no paradisíaco planeta Nepenthe com sua filha Kestra (Lulu Wilson de Jogador Nº1) filha do casal, tendo ele, que foi o maior associado do velho comandante , a melhor participação (ainda que breve) no último episódio, além de se revelar um bom cozinheiro fazendo pizzas de coelho-unicórnio no seu forno à lenha...

A Zona Neutra virou um grande "farwest", com facções usando espólios do antigo Império Romulano, como antigas "aves de rapina"

Em Stardust City, os figurinistas e os atores se permitiram um tom mais cartunesco, próximo a episódios da série clássica

 
Complementando a trama, Narissa e Narek são sobrinhos de Ramdha (Rebecca Wisocky de The Purge) ex-borg (XB) romulana, que num ritual vislumbra Soji como a “a Destruidora de Mundos”, um mito que permeia a repulsa dos romulanos por qualquer forma de vida sintética, ficando com sua sanidade abalada, e enquanto os romulanos preparam o seu ataque Picard e Cia. Chegam ao planeta Coppelius, onde travam contato com o Dr. Altan Inigo Soong filho do Dr. Soong (Brent Spiner) e Sutra (Isa Briones) outra sintética que perdeu a sua gêmea e mais desdobramentos seguem mas já falei muito do desenrolar da história...
 

A Dra. Soji tem um relacionamento com Narek (Harry Treadway) agente do "Tal Shiar", que a usa

O "Artefato" é reativado por Sete de Nove, mostrando rapidamente o seu potencial bélico, mas fazendo pouca coisa

 
De forma desigual a série vai levantando questões pertinentes ao momento atual como a xenofobia, o abandono, a mortalidade humana e a indiferença do ocidente à questão dos refugiados e, diferente de A Nova Geração cuja visão utópica não funciona muito hoje em dia, Picard é do seu jeito torto, a série mais atual do Universo Trek, versando sobre o fim do otimismo, o fim da Utopia, mas não sobre o fim da esperança e, diferente de Discovery, não tenta ser Star Trek para os novos tempos, não criticando ou desconsiderando o passado, embora não viva nele, apesar da música de Jeff Russo (Altered Carbon) sublinhar os momentos mais emotivos, principalmente aqueles protagonizados por Picard com personagens de Star Trek: A Nova Geração ora repaginando os temas de Alexander Courage e Jerry Goldsmith ou criando temas mais lúdicos como na relação dele na infância de Elnor, como um avô amoroso, alternando com acordes mais convencionais nas cenas de ação, acompanhando a edição de Andrew Coutts (Star Trek: Discovery), Steve Haugen (Krypton) e Sarah C. Reeves (Gothan).

Hugh (Jonathan Del Arco) o ex-borg dirige o "Projeto Artefato"
 
O design da comunidade de sintéticos do planeta Coppelius é bem clean, solar

 
A fotografia de Philip Lanyon (Frontier) e Darran Tiernan (Westworld) alterna tons mais quentes e coloridos como os do Cahteau Picard ou da residência de Riker,Deana e Kestra com outros mais escuros e expressionista como os do Cubo Borg ou frios como o do laboratório onde o ex-borg Icheb (Casey King de NCIS: Los Angeles) é trucidado, em cenas de violência gráfica digna de Jogos Mortais e os tons neon de Stardust City, no melhor estilo dos cassinos de Las Vegas, onde os figurinos de Christine Bieselin Clark (Into the Badlands) se permite ser cartunesco, dentro do espírito do episódio, contrastando com os demais, que é funcional além de revisitar bem os uniformes da Frota Estelar do Séc. XXIV.


Narek e Narissa são irmãos, e parecem ter uma relação meio ambígua 

As "Orquídeas" que envolvem naves e as levam para a superfície são soluções visuais interessantes que poderiam ter sido melhor aproveitadas

 
Refletindo o alto nível técnico da temporada, o desenho de produção de Todd Cherniawsky (Cemitério Maldito) aliado à direção de arte de Iain McFadyen (O Chamado da Floresta), Louis Joseph Comeau IV (Scorpion) Dylan Bocanegra (Adé) e a decoração de sets de Lisa Alkofer (The Walking Dead) cria espaços diversos e ricos como o Chateau Picard que mescla o mobiliário e a decoração tradicional com os equipamentos modernos como sintetizadores de comida, comunicadores e drones e irrigação, além de sutis easter-eggs do universo treker, como veículos vistos em Star Trek: Discovery em funções mais cotidianas como táxis ou transporte escolar, além de cenários high-tech como o Cubo Borg, de inclinação expressionista, apesar de outras soluções serem bem questionáveis, como a “antena” da base dos sintéticos cujo design deixa a desejar, e da mesma forma que os efeitos visuais da Craft Apes, Double Negative (DNEG), Filmworks / FX, Pixomondo são de ótima qualidade, apesar de na cena da “batalha” final (que foi mais uma confrontação) a frota da federação ser basicamente o mesmo modelo de nave replicado várias vezes, perdendo variedade e sua credibilidade.

Reunião de família: Will Ricker (Jonathan Frakes) e Deanna Troy (Marina Sirtis) reencontram o velho amigo

Equipe: A Dra. Agnes Jurati (Alison Pill) e o Dr. Altan Inigo Soong (Brent Spiner) dão prosseguimento ao trabalho do Dr. Soong original e de Bruce Maddox

 
Ao final Star Trek: Picard é desigual mas como o bom elenco segura as pontas mesmo com roteiros nem sempre bem escritos, ficamos com a vontade de dar mais uma chance ao velhinho turrão, que aqui acaba estruturando um grupo não ligado à Frota Estelar, e que de certa forma lembra a dinâmica do clássico Doctor Who e seus companions e, procurem uma melhor consultoria a nível de ciência (porquê um sistema solar com OITO SÓIS é de doer, imaginem o caos de calor, radiação e forças gravitacionais capazes de fragmentar qualquer planeta, além de outras coisas...).

Clichê: Sutra e Soji são a "Gêmea do Mal" e a "Gêmea do Bem"...

 
Se Kurtzman, Goldsman e Cia. Aprenderão com esta temporada, cruzemos os dedos, afinal é consenso do fandon de que a 1ª temporada de Star Trek: A Nova Geração foi a mais fraca de todas...
 

"-Imediato, coloque esse velho nerd para correr!!! Pega! Pega!"

Notas:
 
*1: A Retirada de Dunquerque foi um esforço conjunto do governo e do povo britânico em 1940, quando mais de 300 mil soldados ingleses ficaram encurralados na França, face ao vanço nazista. Respondendo ao chamado de Winston Churchil uma frota organizada às pressas conseguiu 800 barcos, a maioria da população civil, que enfrentando o fogo inimigo atravessaram o Canal da Mancha para trazer de volta os soldados.Esse episódio histórico é retratado no filme Dunkirk.


*2: Utopia Planitia era a principal rede de docas espaciais da Frota Estelar, sendo mostrado na série a ação de F8 (Alex Diehl de Strange Angel) um sintético (entre outros) hackeado pelo Tal Shiar que destruiu matando os operários humanos e iniciando a destruição do complexo no feriado do Dia do Primeiro Contato (quando os humanos fizeram contato e estabeleceram relações diplomáticas com os vulcanos, que foi o primeiro passo para a Federação do Planetas Unidos.)




sábado, 27 de novembro de 2021

Crítica - Séries: Star Trek: Discovery - 2ª Temporada

 


Retcon, avante!

por Alexandre César 

(Originalmente postado em 20/ 04/ 2019)


Temporada se firma e ao final, abre possibilidades



Quando se tinha uma narrativa de um personagem popular sendo narrada há muito tempo, ia-se, de vez em quando (para situar os fãs tardios) em histórias de linha, sendo rememorados algumas passagens da trajetória desse personagem, sempre mudando de forma cosmética alguns detalhes para que a narrativa fosse o mais contemporânea possível, e o personagem não ficasse datado. A isto chamamos de RETCON, pois atualizamos detalhes e referenciais de época, mas sem interferir no fluxo da trama que continua seguindo desde a sua gênese.

Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) entre Nhan (de vermelho) e o Cap. Christopher Pike (Anson Mount, de mostarda) e atrás Saru (Doug Jones) entre o sauriano Linus e o Ten. Connoly (de azul), quase um "camisa-vermelha"

 Às vezes, por razões comerciais e criativas, após um certo tempo decorrido se faz necessário reiniciar todo aquele universo ficcional do zero, pois muitas das relações entre os personagens, seu mundo e suas próprias concepções já não causam mais identificação, não ecoando ao grande público-alvo, ficando datadas e virando objeto de consumo de um nicho restrito. A isto chamamos REBOOT, pois aqui os personagens e seus elementos retornam (ou melhor, reiniciam) procurando cativar uma nova geração de fãs, que de outro jeito só os olhariam como “coisa de velho”.

Pike,logo mostra ser bem diferente do antecessor Lorca, e muda o mobiliário da sua sala, colocando cadeiras

Daí, nos quadrinhos, os constantes recomeços das histórias de Batman, Superman (personagens com mais de 75 anos) na DC Comics e ocasionalmente na Marvel, e no cinema e TV. Temos James Bond, o 007 que ao mudar de ator de Pierce Brosnam para Daniel Craig, ter recomeçado toda a trajetória do agente de Sua Majestade, pois o mundo era outro bem diferente desde a época dos filmes de Sean Connery; e quando J.J.Abrams lançou em 2009 Star Trek, ele usava do ardil da viagem no tempo para retomar o universo de Kirk, Spock, Mc Coy e Cia. Com novos atores e sintonizado a uma audiência que, de outro modo, não se aventurariam a tomar contato com algo que já tinha na época mais de 40 anos, ou seja: uma “coisa de velho”.

Os efeitos visuais estiveram como sempre impecáveis, seja nas cenas de exploração, como nas de batalha


Tendo sido lançado em 2018, dividindo os fãs, mas alçando com sucesso uma nova base de fãs, Star Trek: Discovery chega agora a sua 2ª Temporada com a missão de corrigir os erros da temporada anterior e resgatar os valores e o espírito da série clássica, se revelando não só um prequel (quando relatamos acontecimentos anteriores de uma narrativa já estabelecida, mostrando como as coisa aconteceram para os personagens e seu panorama se formarem), mas na realidade, um grande retcom feito na cara-dura, como se a série original nunca tivesse sido descontinuada e sim continuado ao longo das décadas, incorporando os avanços tecnológicos no uso de materiais de cenografia, figurino, maquiagem e efeitos visuais que tivessem surgido ao longo destes mais de 50 anos. “Moleza” não?

Saru cresce nesta temporada, atingindo um novo patamar, e crescendo na sua relação com Michael

Começando a trama direto do ponto final da 1ª Temporada, quando fomos apresentados à “velha” U.S.S. Enterprise (na verdade uma senhora repaginação do modelo clássico) já tomamos contato com o tema central da trama desta temporada: As ações de misteriosas entidades chamadas de “Anjos Vermelhos”, que aparecem em vários trechos da galáxia, e pela natureza de suas atividades e poderes demonstrados, dominam uma tecnologia de natureza espaço-temporal, muito maior do que a da Frota Estelar, ainda recém-saída da guerra contra o Império Klingon, que dizimou centenas de milhões, e ainda fragilizada para ter de encarar uma possível ameaça.

A sarcástica engenheira Jet Renno (Tig Notaro) foi uma ótima adição à tripulação

Temos em adição ao universo de personagens que gravitam em torno de Michael Burnhan (Sonequa Martin-Green, bem, mas em muitas vezes um tom acima do ideal) a chegada do icônico Capitão Christopher Pike (Anson Mount, ótimo) que de cara nos cativa como seu jeito ao mesmo tempo aventureiro e líder responsável estilo Old School e mais adiante, o jovem Tenente Spock (Ethan Peck, surpreendente) em torno do qual se foca a trama desta temporada, resgatando as feridas de sua vida familiar e, mostrando o porque é um dos maiores pilares da mitologia Treker.

Jefrey Hunt ou Anson Mount? Escolha o seu Pike

Inicialmente a temporada se ressentiu de deixar todos os outros personagens pouco desenvolvidos, girando em torno de Michael, que embora seja a personagem principal, não é a capitão, e pela lógica não deveria ter a palavra final, ficando em alguns momentos um clima estranho tipo “afinal, quem manda nesta banheira?”

"- Cadê o Neo ou o Capitão Nemo, quando precisamos deles!?!"

Felizmente mais adiante os personagens voltam a serem definidos, destacando Paul Stamets (Anthony Rapp), bem como a alferes Sylvia Tilly (Mary Wiseman) que foi a mais prejudicada, ficando na maioria das vezes como (irritante) alívio cômico, mas reencontrando o equilíbrio ao final. Temos o retorno da Capitã (Imperatriz) Philippa Georgiou (Michele Yeooh, ótima) e Ash Tyller (Shazad Latif), o klingon tornado humano cirurgicamente, que agora são agentes da temida “Seção 31”, a CIA da Frota Estelar, com suas “black operations” (que será objeto de uma série derivada de Star Trek: Discovery).

Direto do "Universo -Espelho" : Capitã/ Imperatriz Philippa Georgiou (Michele Yeooh)


Todos tiveram o seu espaço, inclusive o Dr. Culber (Wilson Cruz) que retorna dos mortos num arco superinteressante, se tornando um ótimo personagem (na temporada anterior ele era basicamente apenas “o companheiro do Stamets” e só) mas quem definitivamente cresce é Saru (Doug Jones) que se torna o personagem-face da série, como Spock era da série clássica, Data era de Star Trek: A Nova Geração e até mesmo Odo era de StarTrek: Deep Space Nine. Jones, auxiliado por um bom texto, torna o kelpiano um dos mais queridos alienígenas da atualidade com uma performance inspirada e sensível, indo do inocente ao trágico ou ao irônico com nuances que o tornam real, passível de identificação e empatia com a audiência (Já deve haver muitas crianças querendo um bonequinho dele...). 
 
Sylvia Tilly (Mary Wiseman), Joann Owosekun (Oyin Oladejo), Keyla Detmer (Emily Coutts), na visão de Airian: Personagens e não, adereços

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Além dos personagens fixos, começamos a conhecer o resto da tripulação, permitindo-nos conhecer quem são as tenentes Joann Owosekun (Oyin Oladejo), Keyla Detmer (Emily Coutts), R.A. Bryce (Ronnie Rowe Jr.), Gen Rhys (Choon-Kwok Patrick), a tenente-comandante Airian (Hannah Cheesman), entre outros, que vão deixando de ser apenas parte da cenografia. O problema é quando um personagem não é desenvolvido a série inteira e quando finalmente nos dão a chance e conhecê-lo, é no episódio em que ele morre... Aí fica difícil se criar empatia pelo personagem e lamentar a sua perda (por melhor que seja a cerimônia do funeral...). 
 
Airian (Hannah Cheesman): Oriegem revelada.
 
Houve a adição de novos personagens como a irônica engenheira Jett Reno (Tig Notaro), e a comandante Nhan (Rachael Ancheril) a nova chefe da segurança, egressa da Enterprise e Leland (Alan van Sprang) o chefe da Seção 31 que disputa o poder com Georgiou palmo a palmo numa relação que beira o cartunesco...
 
A nave-símbolo da unificção das casas Klingons: O D7.
 
Os novos showrunners Alex Kurtzman e Michelle Paradise demonstram grande conhecimento desse universo narrativo tal é a eficiência com que pontos críticos da temporada anterior vão sendo consertados em poucos episódios e empurrando a narrativa da história principal adiante. Soluciona-se o problema do visual dos klingons, e numa narrativa digna de Game of Thrones se define os destinos de L´Rell (Mary Chieffo) e de Ash Tyller/ V´oq permitindo inclusive o vislumbre da futura armada com os clássicos cruzadores D-7, marca registrada do Império Klingon. 
 
Funeral no espaço: Remetendo à cena icônica DE "Star Trek II - A Ira de Khan" (1982)

Os icônicos e cabeçudos talosianos, do piloto rejeitado "The Cage" (1964) são repaginados num episódio antológico
 
Vários outros elementos canônicos começam a ser introduzidos, como a mostra dos novos uniformes que irão ser introduzidos na frota, ficando de parabéns a figurinista Gersha Phillips... ao reimaginar os coloridos uniformes da federação com a tecnologia têxtil atual, lhes dando uma imponência que faz a tripulação da Discovery parecer um bando de operários de manutenção. Temos ainda a breve aparição da Número Um (Rebecca Romjin), que vem à Discovery para atualizar o capitão Pike sobre os reparos da Enterprise, que teve uma falha completa de sistemas por uma incompatibilidade com o sistema holográfico de comunicação e, Pike ordena que ele seja todo removido, aderindo à comunicação por tela, que já era sua preferência pessoal (agora, isto é tão “lógico”como ter uma placa de vídeo defeituosa, e você preferir tirá-la e não substituir por outra placa...) Ora bolas...
 
"Jogo-de-gato-e-rato": Leland (Alan Van Sprang), da "Seção 31", Spock (Ethan Peck) e Michael
 
Mas ainda tivemos o já antológico episódio “If Memory Serves” em que revisitamos o planeta Talos IV, mundo do piloto original “The Cage” de 1964 (piloto original recusado que depois Gene Rodenberry reaproveitou no episódio de duas partes “The Menagerie”) num ótimo trabalho de atualização do mundo alienígena e se permitindo uma introdução com o material original que poderia ter sido um desastre caso não tivessem usado da edição esperta que utilizaram, num ótimo fanservice, pavimentando o caminho para a série clássica. Aliás toda a reimaginação do universo clássico mostra a competência do desenho de produção de Tamara Deverell, que joga para escanteio todo o esforço dos filmes de J.J.Abrams, que tinham grandes sacadas, mas na comparação perdem feio...

Ash Tyller/ V´oq e L´Rell (Mary Chieffo): Klingons voltam a parecer klingons.

Posteriormente algumas ideias foram colocadas apesar de um desenvolvimento questionável, como no episódio “Project Daedalus”, decorrente de falta de conceituação de alguns roteiristas com relação a conceitos como upload e download (e principalmente as suas diferenças...) levando a absurdos como uma Inteligência Artificial querer baixar atualizações que lhe trarão a consciência, mas como se pode “querer” sem ter “consciência”??? Graças ao “Grande Pássaro da Galáxia” Jonathan Frakes estava na direção, salvando a missão de naufragar... 
 
Paul Stamets (Anthony Rapp), tira "um parasita" de Tilly, sob o olhar de Saru
 
A "Número Um" (Rebecca Romjin) e Pike: Personagens de "The Cage" repaginados e mostrando o seu valor
 
Aos poucos foi-se “arrumando a casa”, entre um deslize ou outro, surgindo momentos únicos, restaurando o cânon ao final e a sua batalha final apoteótica, pois ironicamente a mesma Discovery que com sua presença subvertia todo o universo Treker (tal qual um “elefante na sala” como diziam os mais puristas...) revitalizou-o para uma nova geração e agora, ao sair rumo a novos destinos que a terceira temporada haverá de se descortinar, e em novas séries derivadas já programadas, como duas animações (uma para o público infantojuvenil pela Nickelodeon e outra voltada para um público mais adulto) e as séries focadas na Seção 31 e outra centrada em Jean-Luc Picard (Patrick Stewart) fora a possibilidade de um série mostrando a Enterprise antes da Série clássica sob o comando de Pike, que provou ser um sólido pilar na mitologia Treker... afinal, não podem ter investido o dinheiro que gastaram na construção dos cenários e figurinos da NCC-1701 apenas para dois episódios... 
 
E eis os D-7 de volta!!!
 
Vamos assinar o abaixo assinado para a CBS pedindo mais Pike galera!!! 
 
A Enterprise antes de um certo James Tiberius sentar na cadeira...
 
Star Trek: Discovery na sua segunda temporada conseguiu o mérito de novamente trazer para o centro das atenções um rico universo ficcional que ao tentar se firmar no cinema, foi ficando gradativamente engessado a um nicho, tornando-se assim não relevante, uma “Coisa de Velho”. Esperemos que agora que a franquia reconquistou o seu veículo ideal (a TV e agora o streaming) os “donos” da franquia não explorem em demasia causando uma superexposição como foi nos anos 1990-2000, dando intervalos regulares entre uma produção e outra para evitar a sua saturação. Que a ganância seja dosada... Houveram sim coisas destoantes, mas foi justamente por causa do hiato em que a franquia foi se confinando num gueto, e perdeu audiência, surgindo toda uma geração que desconhecia e não se identificava com Star Trek, mantendo a sua coerência é verdade mas precisando que novamente se fizesse o trabalho de se ensinar ao grande público, entre erros e acertos, o que é a nossa Jornada nas Estrelas.