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sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Velhinho "arretado"! - Crítica – Filmes: Cry Macho: O Caminho para a Redenção (2021)

 


Cowboy crepuscular

por Alexandre  César 


Clint Eastwood mostra ainda ser relevante
 
 

 
1979. Mike Milo (Clint Eastwood de A Mula na plenitude de sua encantadora turronice) um decadente cowboy ex-astro de shows de rodeio e criador de cavalos, é descartado por seu empregador, Howard Polk (Dwight Yoakam de Logan Lucky - Roubo em Família) pois desde um acidente anos passados, ele foi sistematicamente se tornando alguém difícil com que se trabalhar (decorrente da bebida entre outras coisas...). Milo, orgulhoso como ele só, sai de cabeça erguida e vai cuidar de sua vida sem olhar para trás. Um ano depois Polk o procura com a proposta de que ele vá ao México para trazer Rafo (o estreante Eduardo Minett), o seu jovem filho (produto de um “rolo” passado) de volta para casa. Já no México, após dialogar com Leta (Fernanda Urrejola de Narcos: Mexico) a “mãe”, uma piriguete rica (provavelmente cafetina ou traficante) que revela um litígio financeiro entre ela e Polk, com o garoto no meio. Mike então é forçado a tomar o caminho de volta para o Texas, após ter conseguido convencer o garoto a segui-lo. 
 
 

Mike Milo (Clint Eastwood) é convocado por Howard Polk (Dwight Yoakam) para lhe devolver um favor


 Ao contrário do que fala sua mãe, Rafo é um garoto rebelde, não por ser mal, mas por querer encontrar o seu lugar (e um porto seguro) no mundo. Seguindo o caminho, com Aurelio (Horacio Garcia-Rojas de La querida del Centauro) o capanga de Leta, em seu encalço, a dupla improvável segue uma jornada inesperadamente desafiadora, durante a qual o cavaleiro cansado do mundo (mas ainda capaz de amansar cavalos selvagens e meninos rebeldes) reconhece nos dilemas do rapaz, conexões inesperadas com a sua própria busca de redenção.
 
 

Na fronteira, o guarda (Daniel V. Graulau) "posa de autoridade" para cima de Mike Milo


 Dirigido e produzido (pela sua produtora Malpaso Productions) por Clint Eastwood Cry Macho: O Caminho para a Redenção (2021) é último filme (nesta altura da vida do astro, todo próximo filme será “o seu último filme”) do diretor/produtor, sendo um edificante e comovente drama que versa de forma divertida e tocante sobre decadência, resgate de erros passados e o abrir os olhos à sua volta para tomar outros rumos na vida. O roteiro de Nick Schenk (Gran Torino) e N. Richard Nash (Entre a Escuridão e o Amanhecer), baseado em seu livro, percorreu um longo caminho par chegar às tela, sendo inicialmente um projeto iniciado em 1991 com Roy Scheider, que não vingou, e depois um projeto de 2011, que seria a volta de Arnold Schwarzenegger, após deixar a carreira política como governador da Califórnia. Agora, com o Eastwood, assumindo de forma inequívoca a idade e suas limitações, o nonagenário astro exibe um vigor contagiante, mesmo que seu modo de andar e se mexer (além da necessidade de puxar uma soneca), escancarem seus 91 anos, pois seu olhar fulminante, sua língua afiada e seus punhos ainda nos fazem pensar duas vezes ao encará-lo.
 
 

"Mamãe querida": Leta (Fernanda Urrejola) não tem muito afeto por seu rebento

No decorrer do filme, observamos o contraste da realidade da vida na fronteira daquela época com a atual, quando não havia muros, ou a violência dos cartéis de drogas era menos escancarada, ou até mesmo a ação de Aurelio, o capanga de Leta, é pouco mais do que as bravatas de um valentão que tenta tirar vantagens em cima de velhos, mulheres e alguém fisicamente mais fraco, mas que recua quando encara alguém que os encare. 
 
 

Milo encontra Rafo (Eduardo Minett) e "Macho", seu galo de briga, que daria uma bom parceiro para "Clyde" o orangotango*1

 
Da mesma forma, temos o registro do início do declínio da América Imperial, que a fotografia de Bem Davis (Três Anúncios Para Um Crime, Capitã Marvel) capta nostalgicamente (tal qual um comercial de Marlboro) na abertura quando vemos Milo chegando em sua casa, guiando uma velha e confiável pick-up chevrolet com a canção Find a New Home de fundo, com a câmera percorrendo as paredes da sala mostrando os relatos emoldurados de seus feitos passados, marcando um tempo que não volta mais, e os fantasmas de um homem solitário que deve exorcizá-los até para poder fechar dignamente a sua jornada de vida e, poder curtir seu tempo restante. A música de Mark Mancina (Moana: Um Mar de Aventuras) sublinha essa jornada com seus acordes de natureza country que ecoam também a atmosfera dos westerns spaghettis que fizeram a glória passada de Eastwood.
 
 
Leta coloca a polícia a perseguí-los alegando que seu filho "foi sequestrado" por Milo

A relação de Milo e Rafo, que vive carregando "Macho", seu galo de briga, com o qual faturava uns trocados nas rinhas de jogos, vai se construindo de forma orgânica, com ambos trocando suas vivências, levando o velho cowboy a de forma sutil e emocionante despir-se de sua máscara de “homem durão”, como numa cena que ao cochilar confessa a Rafo suas falhas e o quanto o seu pai Polk o ajudou nos momentos difíceis quando ele perdeu a mulher e o filho num acidente. É uma cena incrível pois temos um plano em que vemos seu rosto apoiado num banco, com seus olhos cobertos pelo chapéu e sentimos por seu tom de voz, quase um chiado, que ele está chorando (ou o mais próximo de chorar que Clint Eastwood se permite) e mesmo que não vejamos lágrimas, a emoção à flor da pele é palpável e contagiante, embora seca e austera. É nestas sutilezas de contar um história de forma direta, sem querer parecer “moderno” para atrair um público maior, que percebemos a grandeza e a verdade de Eastwood. Coisa de mestre. 
 
 
Parando numa cidadezinha. o trio resolve "se misturar à multidão", e Mike Milo tenta "parecer um mexicano"...

 
Neste processo tanto Milo quanto Rafo param numa cidadezinha para fugir de seus perseguidores, e durante um tempo ele ensina ao garoto como domar cavalos (e ganhar dinheiro com isso) e encontram um porto seguro na pensão da bela viúva Marta (Natalia Traven de Efeito Colateral), que com suas netas de 14 anos (Elida Munoz) , 9 (Cesia Morales), 6 (Abiah Martinez) e 4 (Ramona Thornton). A química que se estabelece entre os dois idosos, apesar das barreiras linguísticas, é evidente, sendo maravilhosas as cenas em que os dois dançam bolero ao som de Sabor a mi, clássico na performance de Eydie Gormé e Trio Los Panchos numa elegia ao amor crepuscular contagiante.
 
 
Para ganhar dinheiro, Mike Milo começa a domar cavalos na cidade

 
A edição de David S. Cox (A Conquista da Honra, Covil de Ladrões) e Joel Cox (Os Imperdoáveis) mantém a fluência narrativa no ritmo certo, dando o tempo certo para que a história, e seus personagens, evoluam no tempo necessário, sem apressar ou arrastar a trama, de forma que não nos cansamos durante os 104 minutos de duração do filme.
 
 

Milo conhece a bela viúva Marta (Natalia Traven) e juntos engatam um belo romance de terceira idade


 
O desenho de produção de Ronald R. Reiss (decorador de sets em O Caso Richard Jewell e A Mula), a direção de arte de Gregory G. Sandoval (Na Mira do Perigo) e a decoração de sets de Christopher Carlson (Grace and Frankie) criam espaços cênicos funcionais e cotidianos, definindo o universo pessoal de seus personagens como o rancho de Milo, a mansão espetaculosa de Leta, ou a pensão modesta e aconchegante de Marta, enquanto os figurinos de Dedorah Hooper (O Caso Richard Jewell) definem os perfis de seus personagens, nos vestido vermelho cavado de Leta e no “paletó de segurança” de Aurelio, os “uniformes de cowboy” de Milo, Polk e demais texanos (que parecem seguir um padrão formal) e os trajes simples e cotidianos dos mexicanos, com destaque para a personalidade dos vestidos de Marta.
 
 
Infelizmente, a dupla tem se seguir em frente, ironicamente sendo em certa altura, confundidos com traficantes

 
A condução de atores é precisa, havendo espaço para que todos os personagens necessários a trama sejam bem definidos, desde os centrais, até a pequenos papéis como o guarda da fronteira (Daniel V. Graulau de Ray Donovan) que flerta com as garotas hippies que atravessam a fronteira em busca de praias e é todo sizudo e sério na hora de perguntar a ele quais as intenções de sua ida ao México, num momento divertido, que mostra a típica “pose de autoridade” dos policiais em qualquer parte do mundo.
 
 
Ao final Milo mostra tanto saber "domar" tanto cavalos selvagens, quanto jovens sem rumo


 
Ao final Cry Macho: O Caminho para a Redenção, embora seja um edificante e comovente (mas não muito pesado) drama, atestando a competência e o vigor de Clint Eastwood, mais do que isso passa uma mensagem positiva, acenando que envelhecer, desde que vinculado à qualidade de vida e atitude mental positiva, pode sim ser a melhor idade.
 
Valeu Clint! Até o próximo filme!!!
 

"♪♫ Tanto tiempo disfrutamos de este amor  ♪♫ Nuestras almas se acercaron, tanto así ♪♫ Que yo guardo tu sabor ♪♫ Pero tú llevas también ♪♫ Sabor a mí ♪♫"

 



 Notas: 
 

 *1: Clyde, o orangotango era o parceiro de Eastwood na comédia Doido para Brigar... Louco para Amar (1978) dirigida por James Fargo, e na sua continuação Punhos de Aço: Um Lutador de Rua (1980) dirigida por Bud Van Horn, sendo o mascote do caminhoneiro Philo Beddoe (Eastwood) com quem protagonizou cenas hilárias de humor pastelão, a maioria delas contra a atrapalhada gangue de motoqueiros "Os Aranhas" liderados por Cholla (John Quade).
 

"-É garoto, a coisa tá pegando, mas vamos em frente..."

 
 

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Nem tudo são flores... - Crítica - Filmes: A Mula (2019)

 

Era para ser apenas um “bico”...


por Ronald Lima
(Originalmente postado em 16/ 02/ 2019)

Clint Eastwood e o ocaso da mítica América Imperial 
 
Clint Eastwood: A solidão das estradas e os fantasmas
 de um homem por suas escolhas

Protagonizado e dirigido por Clint Eastwood (que também produziu o filme, através de sua produtora, a Malpaso Productions) A Mula (2019) marca o seu retorno como ator após Curvas da Vida (2012) e seguindo-se ao irregular 15:17 - Trem para Paris (2018) traz o eterno “durão” (e mentor de toda uma geração de “durões” do celulóide) enfrentando com galhardia e pitadas de bom humor, o ocaso, a solidão, a fragilidade e a reflexão que o envelhecimento nos traz sobre nossas escolhas na vida. 


"-Despejo?! - Catso, estou F=#@do!!!"

 
Ícone indiscutível da masculinidade norte-americana pós-segunda guerra, tendo sido nas décadas de 1960,70 e 80 o herói de ação yankee cru, raiz, cowboy e policial na melhor tradição de John Wayne e Humphrey Bogart, mas mantendo raízes no mundo real, aliado à uma grande capacidade de reflexão quanto à seu lugar no mundo, o que lhe permitiu fazer a transição para um grande diretor respeitado e disputado à tapa pelos estúdios, aliando bilheteria e valor autoral. Sua filmografia com altos e baixos reflete sua caminhada de vida, e aqui nesse que deve ser o seu último trabalho como ator e diretor temos uma performance que ao seu jeito resume as várias facetas de todos os personagens que interpretou ao longo de sua carreira de mais de seis décadas. 



"- Tudo OK 'meu tio'???" "- N-Não seu guarda! Tá favorável!"
 
 Logo no início, vemos através de uma bela montagem o perfil de Earl Stone (Clint Eastwood) homem de cerca de 90 anos, e aquele a quem você recorre quando está mal, sendo um indivíduo com um enorme coração e aos amigos, uma pessoa mão aberta, mas em contraste, para a família ele mesmo é um homem distante, frio e que prioriza o trabalho acima de tudo (mas na verdade o que ele queria era ser bem visto pelo núcleo social), o que o afasta gradativamente da sua esposa Mary (a ótima Dianne Wiest) e filha Iris (Alison Eastwood, filha do cineasta na vida real.) revelando que ele era o típico marido e pai de gerações passadas: Ausente, mas que exigia respeito. Posteriormente, ele vê de uma hora para outra seu tão lucrativo negócio de flores ser abalado pelo advento das vendas online, e ir à falência. Assim, de um jardim florido e dono de muitas cores, acontece uma transição impactante (graças ao diretor de fotografia Yves Bélanger) mostrando a passagem de mais de uma década, quando o encontramos num cenário devastado, onde a sua aparência “surrada” no tempo presente reflete seu declínio financeiro e a sua obsessão pelo trabalho, que terminou por torná-lo um homem solitário.


Earl e a ex-esposa Mary (Daiane Wiest). Tentativa de resgatar uma união perdida
 
 
Esta dualidade não deixa de refletir um exorcismo dos próprios fantasmas do cineasta, e de muitas pessoas dedicadas a um ofício que amam, mas que se fecham em si mesmas, muitas vezes por uma vaidade camuflada em dedicação. Isolado de todos que ama e sem poder focar no que realmente curte fazer, conta apenas com a confiança de Ginny, sua única neta (Taissa Farmiga), o idoso encontra-se num beco sem saída, cedendo às tentações do caminho mais fácil, quando o abordam para trabalhar como motorista, coisa que ele domina, pois rodou e conhece (quase) todos os estados sem nunca receber uma multa sequer. Earl, de empreendedor falido, se torna a mula ideal para um cartel de drogas mexicano, por ser um típico (e insuspeito) velhinho americano simpático viajando com sua caminhonete pelas estradas. Mais americano que isso, só comercial de cigarros Marlboro... E vai perambulando por uma América cujos vestígios de uma época em que era de fato a “Nação Líder” estão às moscas, abandonadas, porque ninguém mais se importa de cultivar esta memória, deteriorando-se. E essa América perdida é a estrada de Earl. São estradas secundárias escolhidas propositalmente pelo personagem onde aqui e ali surge um local pitoresco mas já sem atrativo nenhum para as novas gerações. Com certeza essa América corporativa, impessoal, que agora joga fora pessoas e que não fez valer a luta da geração de Clint Eastwood.
 

"Muito colorido" não???


Embora com um estranhamento inicial, o nonagenário vai levando (embalada pela música de Arturo Sandoval, que incorpora temas de cantores folk como Willie Nelson e outros) o aprendizado da sua vida criminosa sem nenhum peso de consciência, inclusive quando sem motivo algum fica sob suspeita por Julio (Ignacio Serricchio) um “funcionário” do cartel. Assim Earl segue “se encaixando”, revelando um grande jogo de cintura, ao mostrar que além de um florista e bom motorista é um veterano da Guerra da Coreia que sabe encarar o perigo quando o caldo engrossa sem sentir-se intimidado, mostrando a cada situação difícil ser ainda o eterno durão do cinema, proferindo muitas de suas tiradas impagáveis, seja ao olhar o cano de uma arma, seja ao alfinetar o politicamente correto ou ainda na aceitação a um novo mundo que descobre (até mesmo na sua dificuldade com o mundo digital, ele dá seu jeito de superá-la) e assim, sem perguntas e apenas cumprindo o que lhe foi incumbido,“El Tatá” (como passa a ser conhecido) ganha respeito de Laton (Andy Garcia de O Poderoso Chefão 3 de 1990 de Francis Ford Coppola), o chefe do cartel e seus asseclas (virando um “tiozão” destes), principalmente com a turma de seu contato inicial, e aí prospera e vai recuperando o seu lugar no seio da família. Duas faces de um homem singular, que faz da contravenção uma forma de dizer ao mundo que não se conforma docilmente com a parte que lhe é dada neste latifúndio, lembrando sutilmente (neste aspecto) o personagem de Brian Cranston em Breaking Bad
 

"Cabron!! Que quieres aquí viejo?"


Contudo, as ações de Earl passam à atrair a atenção do agente Colin Bates (Bradley Cooper de Sniper Americano de 2014, também dirigido por Eastwood), e todo órgão de combate às drogas (DEA) cujo chefe (Laurence Fishburne da trilogia Matrix) é o agente responsável pelo caso , mas o seu personagem é pouco desenvolvido, acontecendo o mesmo com o personagem do agente Trevino (Michael Peña) o seu parceiro de investigação. A parte da investigação é bastante clichê ao mostrar o procedimento investigativo, acrescentando pouco ao filme. Alguém aqui ou qualquer um de vocês leitores poderiam facilmente fazer o papel de Laurence Fishburne ou de qualquer policial da trama.... Uma sequência policial onde os personagens de Bradley Cooper e Michael Peña enquadram um motorista “suspeito” é bem engraçada, destaque para o iniciante ator Javier Vazquez Jr. que interpreta o motorista detido. Pois é... A questão é que ninguém mesmo suspeita do bom e velho Earl apesar de estar sendo procurado. Alguém conhece a clássica historinha da  “Velhinha Contrabandista”  de Stanislaw Ponte Preta? Vale a conferir a comparação...


Quando a coisa fica tensa: "É comigo?"



Colaboradores de outros projetos de Eastwood, o desenhista de produção Kevin Ishioka, e a figurinista Deborah Hopper ajudam a compor o universo cinzento, árido e salpicado de esperanças de Earl, enquanto o editor Joel Cox (Oscar por Os Imperdoáveis de 1992) garante um bom ritmo ao filme, mas sóbrio, sem vibração intensa, perseguições e capotagem de carros ou viradas mirabolantes, ou qualquer cena de violência mais “gráfica", até porque, o filme não pede esse aproach... 
 

A fiscalização não repara no "doce velhinho"...

 
O roteiro assinado por Nick Schenk, inspirado no artigo da  New York Times Magazine “The Sinaloa Cartel’s 90-Year-Old Drug Mule”, de Sam Dolnick, se baseia na história real de Leo Sharp, homem que colecionou uma série de honras, indo desde prêmios por seus trabalhos como paisagista e decorador, até o reconhecimento por ter lutado contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, foi aos 87 anos que conquistou algo surpreendente: ele foi preso em 2011 por portar o equivalente a três milhões de dólares em cocaína no seu carro, uma picape velha, no Michigan. Sharp era o líder do Sinaloa, um cartel de drogas Mexicano. 
 

Só a neta Ginny (Taissa Farmiga) realmente confia no vôvô Earl.

 
Aqui, terminam as semelhanças com o filme, pois, apesar de seu advogado argumentar que ele não poderia ser preso por conta de sua idade e demência, Sharp foi condenado a dois anos de cadeia. Ele morreria em 2016, aos 92 anos. Aqui fica o contraste com a realidade, até porque Eastwood dificilmente admitiria estar vivendo o vilão da história afinal, independente das razões, ele entrou para o narcotráfico, que destruiu e destrói muitas vidas. Coisas da sétima arte... O que o personagem Earl busca é na verdade sua redenção em relação a família. 
 

Galanteador: "-Eu voltei.... Agora pra ficar ♬♪ Porque aqui ♬♪ Aqui é meu lugar"

 
Ao final, embora seja um filme modesto em suas pretensões narrativas, (que em mãos menos habilidosas resultaria num filme menor e descartável) A Mula nos brinda com uma despedida digna de uma lenda viva da sétima arte e um mito real, mostrando com um tom “pra cima”, que “ser idoso” (indivíduo que envelhece naturalmente, mas ainda sendo produtivo e lúcido) não é ser velho” (senil e doente, o rótulo que a sociedade dá à população da terceira idade, vendo-a como lixo a ser descartado) quando você se dispõe a enfrentar as batalhas da vida e a encarar de frente os seus fantasmas, assumindo as responsabilidades por suas escolhas.

Obrigado Clint! 


"Vão-se as flores, ficam os espinhos... aí a gente poda e espera a nova floração...

 

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Armas que travam e a falta que um ator de verdade faz - Crítica - Filmes: 15h17 – Trem para Paris (2018)

 


Mirando... e errando o alvo!

 
por Alexandre César
(originalmente publicado em 09 de março de 2018)


Clint Eastwood dá a sua primeira derrapada em sua sólida carreira 
 
 

 

21 de agosto de 2015. Três amigos de longa data em férias pela Europa resolvem embarcar no trem de número 9364 que vai de Amsterdã para Paris para encerrar o seu rolé no continente com chave de ouro. Durante a viagem o caminho deles cruza com um terrorista do ISIS (Estado Islâmico) munido de uma versão do fuzil AK-47, pistola, farta munição e sangue nos olhos. Graças aos esforços dos rapazes americanos, e uma ajudinha do acaso, uma tragédia é impedida e vidas são salvas, com direito a homenagens e a receber cada um a medalha da Legião da Honra, a maior condecoração do governo francês.

 

Alek Skarlatos, Anthony Sadler e Spencer Stone: heróis interpretam a si mesmos


Este é o enredo de 15h17 – Trem para Paris (2018) dirigido pelo lendário Clint Eastwood, encerrando a sua “Trilogia sobre os Heróis da Vida Real”, que Incluem Sniper Americano (2014) e Sully, o Herói do Rio Hudson (2016), obras que se focavam em personagens reais, que vivenciaram com coragem e determinação situações extraordinárias. Tendo tido uma carreira irretocável nas telas, principalmente quando passou a dirigir, se esperava uma história com corpo e alma... Mas dessa vez o eterno protagonista de Os Imperdoáveis (1992) errou o alvo.

 

Bryce Gheisar, William Jennings e Paul-Mikel Williams: elenco infantil extraordinário

O filme tem um início promissor com bons atores (Jenna Fisher e Judy Greer, além de um elenco infantil extraordinário), onde vemos ser forjado o elo da amizade entre os três amigos na infância (quando eram párias sociais na escola), mostrando o porquê de eles serem o que são - lembrando inclusive o clássico Conta Comigo (1986, dirigido por Rob Reiner). Curiosamente, numa cena desse trecho, um deles mostra a seus amigos o seu imenso arsenal de armas de brinquedo (réplicas perfeitas de fuzis e metralhadoras reais que devem ter deixado Michael Moore de cabelos em pé). E damos graças a Deus pelo moleque ter entrado para as Forças Armadas, pois, caso ele não tivesse conseguido, talvez virasse um daqueles doidos que volta e meia sobem numa torre ou entram numa escola e tocam o terror. Agora, em que quarto de garoto americano obcecado com armas e vida militar encontramos na parede pôsteres de Nascido para Matar (1987, direção de Stanley Kubrick) e Cartas de Ivo Jima (2006, dirigido pelo próprio Eastwood)? Insólito.  

 

Adultos, Alek Skarlatos e Spencer Stone, seguem carreira militar, diferente de Anthony Sadler, mas os três compartilham o mesmo patriotismo


Quando a ação e a dramaturgia (?) pula para a fase mais adulta, vemos Alek Skarlatos e Spencer Stone (dois dos três garotos, agora interpretados por eles mesmos) entrarem para a carreira militar, ganhando finalmente a sensação de pertencimento de que sempre sentiram falta em suas vidas. Vemos então um enfadonho caminhar de sequências da vida deles, passando pelo treinamento e pela rotina de caserna, que culmina nas cenas de turismo pela Europa na companhia de Anthony Sadler (também interpretado por ele mesmo e com menos tempo de tela), tirando selfies e conversando sobre os rumos e os desafios da vida (Parem de falar mal de Dolph Lundgreen e Silvester Stallone). Porque não continuou com atores de verdade, como os garotos da primeira parte, Clint?

 

Stone e Sadler na reconstituição da tediosa viagem turística do trio

Apoiando-se no trio real de protagonistas dos acontecimentos, toda e qualquer possibilidade do filme cativar o público apresentando um drama real se dilui. Por não serem interpretados por atores de verdade, os protagonistas do filme não estão aptos a segurar o espectador e fazer com que este estabeleça uma identificação com eles.  

 

Quando finalmente o trio embarca no trem,  a vida volta (um pouco) ao filme, prenunciando a ação que deverá se desenrolar

 

A reconstituição do momento do atentado e o esforço dos três detendo o terrorista é feita de forma eficiente, quase documental. Mas o final do filme, aproveitando cenas reais da cerimônia da condecoração dos três amigos, apresenta furos de continuidade com as cenas filmadas reconstituindo o evento. Temos um bonito discurso do então Presidente François Hollande sobre os valores humanos, mas de boas intenções o inferno e o mau cinema estão cheios.

 

O terrorista Ben Zomerdyk (Ethan Rains): ação quase documental

Sorte deles que o terrorista (que parece um canivete suíço tal a quantidade de armas e objetos cortantes que ele vai soltando a cada golpe para imobilizá-lo) usava uma AK-M. Versão chinesa da AK-47 (e, por isso travou?!), ela é muito usada aqui pelos nossos traficantes. Usasse ele uma autêntica Kalishnikov russa, o filme não teria um final feliz. Aliás, nem existiria, afinal estamos falando de Hollywood!!!


Presidente François Hollande condecora os heróis americanos: bonito discurso