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terça-feira, 8 de março de 2022

Com vocês, o detetive!!! - Crítica – Filmes: O Batman (2022)

 


A volta triunfal do Morcego

 
por Alexandre César

Matt Reeves prioriza o conceito à frente da interpretação

 


Obs: texto com alguns spoilers.

Desde que surgiu em maio de 1939 na revista Detective Comics n° 27*1, Batman, ‘O Campeão de Gothan’, ‘O Maior Detetive do Mundo’, ‘O Cavaleiro das Trevas’, entre tantos outros epítetos, foi conquistando outras mídias nestes 83 anos existência, além de prosseguir a sua carreira vitoriosa nos quadrinhos. Como todo produto de cultura de massas, seu visual e suas características distintas foram o resultado da fusão de várias influências*2 que acabaram por lhe dar uma personalidade única, sendo referencial para a criação de inúmeros outros personagens.
 
À noite um  sinal nos céus de Gothan, alertando os meliantes que o predador está à solta
 
 

Além dos quadrinhos, a sua trajetória foi marcante nas animações, nos seriados, nos games e no cinema, tendo sido objeto de vários cineastas e atores que, no somatório, deram cada um a sua interpretação do personagem, refletindo a época, o mundo e as forças econômicas que o moviam. De sucessos absolutos, passando por fracassos e versões relativamente bem-sucedidas, mas que geraram controvérsias entre os fãs, por onde passasse a sombra do morcego a única coisa que não gerava era indiferença.
 
 
Prefeito Don Mitchell (Rupert Penry-Jones) é encontrado morto por seu filhinho
 
O Tenente James Gordon (Jeffrey Wright) pede ajuda à Batman (Robert Pattinson) para resolver o caso, apesar da oposição da polícia
 
 
 
Dirigido por Matt Reeves (Planeta dos Macacos: A Guerra, de 2017, e O Batman, de 2022) traz uma narrativa de suspense com forte inclinação noir, se preocupando em primeiramente estabelecer conceitualmente “o que é o Batman” e depois sim, fazer a sua interpretação pessoal do Batman. Isso cria um grande diferencial em relação aos diretores dos filmes anteriores, que sempre colocaram primeiro a sua interpretação e assinatura na frente da conceituação. Com seu ritmo lento, mas nunca parando, indo num crescendo gradativo graças à edição de William Hoy (Planeta dos Macacos: A Guerra) e Tyler Nelson (Contos do Loop), o filme conta em suas quase três horas uma trama investigativa plena de momentos marcantes, rivalizando com Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008) de Christopher Nolan, apesar de tomar rumos distintos.
 
 
De dia, Bruce Wayne (Robert Pattinson) só se preocupa com o legado de sua família

 
O roteiro de Matt Reeves e Peter Craig (Atração Perigosa) resgata uma das facetas mais esquecidas do personagem em suas encarnações pregressas: Batman, o Detetive, privilegiando a sua capacidade analítica, reduzindo a importância de apresentar gadgets mirabolantes (mas eles aparecem, de acordo com a necessidade funcional da história) ou de resolver tudo na base do combate físico (e olha que ele bate, e muito...), investindo no lado investigativo e flertando bastante com o horror, construindo tal sentimento através de sons e na construção de uma atmosfera sufocante que tudo parece sempre acontecer à noite, com poucas luzes e chovendo quase sem parar. Isso é definindo logo nas primeiras cenas, usando o suspense para ilustrar o medo palpável que o bat-sinal causa nos meliantes (a primeira aparição do Batman é de gelar o sangue) e mostrar a cidade de Gotham como o habitat de caos social, como uma comunidade econômica, moral e socialmente estagnada, exalando um clima de desilusão que contamina seus habitantes e gera seres como o Batman, Charada, Duas-Caras, Coringa e tantos outros desta extensa galeria de personagens.
 
 
Edward Nashton/ Charada (Paul Dano) segue aterrorizando a elite econômica e política de Gothan
 
Há muitas referências às pinturas de Edward Hooper, que retratava a solidão urbana

 
Acompanhamos neste filme Batman / Bruce Wayne (Robert Pattinson, de O Farol, de 2019, em intensa performance) no seu segundo ano de carreira contra o crime, ainda aprendendo aos trancos e barrancos, a “ser o Batman” e o que isto significa, com direito aos erros próprios da inexperiência e da juventude. Aqui ele já conquistou a confiança do Tenente James Gordon (Jeffrey Wright, de Westworld ótimo como sempre), tendo forjado com ele uma aliança (que é bastante testada no filme). A dupla une esforços para investigar o misterioso assassinato do Prefeito Don Mitchell (Rupert Penry-Jones, de The Commons), candidato à reeleição cujo passado foi exposto por um vídeo postado na web, revelando suas ligações com Carmine Falcone (John Turturro, de Ruptura, perfeito como um escroque mafioso), líder todo-poderoso da máfia local. O video também apresenta uma uma ligação indiscreta do prefeito com uma scort girl desaparecida (Iana Saliuk, de Ganapath), amiga da bela Selina Kyle (Zoë Kravitz, de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, naturalmente sensual até a medula), que trabalha no clube privê administrado por Oswald Cobblepot / Pinguin (Collin Farrell, de Magnatas do Crime, numa performance promissora).
 
 
Oswald Cobblepot / Pinguin (Collin Farrell) é o "Fredo Corleone"  da máfia de Gothan

 
À medida que suas pesquisas avançam, o recluso herdeiro/justiceiro, que praticamente não sai de casa durante o dia (como um vampiro ou, como ele mesmo reconhece, um animal noturno), vai esbarrando com ligações entre a família Wayne e Carmine Falcone. Isso o leva a questionar o passado de seu pai, à despeito do que o fiel Alfred Pennyworth (Andy Serkis, de Planeta dos Macacos: A Origem, numa caracterização interessante) sempre lhe ensinara.
 
 
A base de Batman, abaixo da Torre Gothan,se situa num terminal ferroviário desativado

Todos os equipamentos de Batman são essencialmente funcionais, feitos por ele mesmo


 
A ligação de Batman com Selina ocorre de forma orgânica, com ela auxiliando-o a espionar o Iceberg Lounge (o clube de Falcone) e sua clientela. Entre os frequentadores está o Promotor Gil Colson (Peter Sarsgaard, de A Filha Perdida), cuja presença acaba desencadeado uma sequência de fatos que levam ao confronto entre Batman e Edward Nashton/ Charada (Paul Dano, de Sangue Negro, assustador em sua interpretação). A caracterização desse antagonista nos remete ao Assassino do Zodíaco*3 e seus planos se revelam mais assustadores do que aparentavam.
 
 
A bela Selina Kyle (Zoë Kravitz) procura sua amiga desaparecida nesta luta pelo poder

 
Robert Pattinson, que já havia deixado o vampiro Edward para trás há muito tempo, domina o filme em cada cena. Ainda que os personagens à sua volta sejam bem definidos e com o tempo necessário para que os entendamos, o personagem principal nunca sai de foco, deixando assim de lado o ‘calcanhar de Aquiles’ de boa parte dos filmes anteriores do herói, onde aconteciam aquela história do ‘vilão roubando o filme’. A despeito de termos um Bruce Wayne recluso, reservado e depressivo (chegando próximo de um ‘emo’*4...), não muito diferente do próprio Batman, destoando do que já está estabelecido no imaginário dos fãs ou mesmo dos que conhecem o personagem superficialmente. Diferente de Superman (que é a máscara que Clark Kent usa para ajudar as pessoas), Bruce Wayne é que seria a máscara através da qual  Batman se esconde do mundo (algo que o próprio Charada observa no filme) e, por isso, deveria adotar aquele perfil de playboy frívolo para desviar suspeitas. Podemos especular que, como aqui ainda se está num processo de construção de personas, ainda deveremos futuramente ver esta dualidade se formar.
 
 
O Batmóvel, um "muscle car" customizado com o máximo de motor e blindagem

Bruce Wayne descobre ligações de seu pai com o poderoso Carmine Falcone (John Turturro) chefe da máfia, e de Oswald Cobllepot

 
Embora o ator esteja em ótima forma, e com uma intensa fisicalidade (nas cenas de luta em especial), aqui temos uma versão mais light do personagem, remetendo aos desenhos de Ernie Chua, Jim Aparo, José Luiz Garcia Lopez e Neal Adams. Bem diferente do perfil parrudo de Christian Bale e Ben Affleck, que dialogam mais com a visão nos quadrinhos de Bernie Wrightson e Frank Miller. É claro que, desde Batman (1989), de Tim Burton, aceitamos que o combatente do crime tem de adotar um traje tático que proteja o seu corpo da grande variedade de traumas que a luta contra o crime acarreta, implicando com isso em diferentes graus de perda de mobilidade - algo que difere do icônico e cult Clark Bartram*5 que só usava a clássica malha colante, como nas HQs. 
 
 
Selina, a "Gata Ladra" desenvolve uma intensa ligação com o vigilante, unindo esforços
 
 
A incrível e atmosférica trilha musical de Michael Giacchino (Jojo Rabbit) cria um tema marcante para o personagem, com poucos acordes, mas que, repetidos, criam uma marca sonora sinistra e assustadora, similar ao tema de Tubarão (1975) ou a Marcha Imperial de Star Wars: Episódio V: O Império Contra-Ataca (1980) já figurando como um dos grandes temas do cinema por sua simplicidade impactante. Tem também o uso perturbador de Ave Maria, de Schubert, destacando a versão sinistra entoada pelo Charada que compõe bem com a imagética de Gotham. Batman sempre funcionou melhor num universo de iconografia visual católica, tal qual o Demolidor da Marvel.
 
 
O Promotor Gil Colson (Peter Sarsgaard) é capturado pelo Charada, que envia uma mensagem (e um desafio) ao Batman

Bruce começa a montar um quadro esquemático dos alvos do Charada

 
A ótima fotografia de Greig Fraser (Duna) cria uma atmosfera sufocante, de tons frios. A fotografia compõe, com o desenho de produção de James Chinlund (Planeta dos Macacos: O Confronto), ambientações carregadas por mobiliário ou elementos de cena, que a direção de arte de Grant Armstrong (Kingsman: O Círculo Dourado), James Lewis (A Fantástica Fábrica de Chocolate), Oliver Benson (Kingsman: A Origem), Trinity Tad Davis, Joseph Hiura (Pantera Negra); Gary Jopling (Missão: Impossível - Efeito Fallout), Joe Howard (Kingsman: O Círculo Dourado), Mathew Kerly (Kingsman: A Origem) e Will Newton (The Great Fire) caracterizam, dentro de um parâmetro realista, a posição social ou o estado psicológico de seus personagens. A decoração de sets de Laura Ng (Thor: Ragnarok) define bem os cenários, como o pequeno, bagunçado e cheio de roupas (e de gatos) apartamento de Selina Kyle, o Iceberg Lounge, cheio de grã-finos viciados em gota (droga sintética tipo ecstasy), a residência Wayne que remete à um mausoléu, ou os abarrotados espaços públicos, como a Chefatura de Polícia e a Catedral de Gothan, que combina com o pequeno apartamento de Edward Nashton, que (como todo apartamento de psicopata) é entulhado de elementos em todas as paredes, refletindo seus processos mentais obsessivos.
 
 
Os efeitos visuais e os valores de produção criaram cenas impactantes

 
Os figurinos de Jaqueline Durran (1917), dão um ar de atemporalidade, com leves toques de anos 70, como no traje do Charada, que remete aos slasher movies*6 daquele período. Os trajes colantes de Selina Kyle (aqui, a ‘Gata-Ladra’) e o extremamente funcional e intimidante bat-traje, criado por David Crossman (Rogue One: Uma História Star Wars) e Glyn Dillon (Han Solo: Uma História Star Wars), cujos sons de couro, tecido e metal roçando enquanto o herói se move é um elemento intimidante visto nas cenas em que não vemos o Batman, mas ouvimos o seu movimento, chegando como um monstro de filme de horror. A diferença de como ele e a ‘Gata-Ladra’ se movimentam ao lutar é incrível, mostrando o contraste da fluidez sensual de uma e o brutal e mecânico jeito do outro.
 
 
Alfred Pennyworth (Andy Serkis) o fiel mordomo e ex-MI-6 que criou Bruce, protegendo o legado dos Wayne

As cenas de ação são intensas e brutais, não deixando pedra sobre pedra

 
Dentro desse parâmetro de realismo, os efeitos visuais de Scanline VFX, Industrial Light Magic (ILM), Weta Digital, Gentle Giant Studios, Halon Entertainment , Crafty Apes e Territory Studio, supervisionados por Dan Lemmon (Planeta dos Macacos: A Origem), Russell Earl (Vingadores: Ultimato), Malcolm Humphreys (Star Wars: A Ascensão Skywalker) e Dominic Tuohy (Dolittle), além de tornarem críveis os aparatos tecnológicos do herói, como o Batmóvel (um muscle car customizado digno de Chrsitine, o Carro Assassino*7), expandem satisfatoriamente a ambientação cenográfica numa escala que chama a atenção para os desastres que surgem e ocorrem de forma crível mas de aspecto sóbrio, sem passar aquela ideia de “olhem para mim, sou um incrível efeito visual, não?!”
 
 
O "sinal do morcego" é uma ferramenta de combate destacável 

 
O Batman ja figura como um dos grandes filmes do ano. Merece ser visto como uma das grandes abordagens do personagem e que abre grandes possibilidades para ele e seu leque de oponentes (já esboçado). Esperemos agora que parem de esquecer que, antes de ser o Campeão de Gotham, que luta muito, e o Cavaleiro das Trevas, cheio de brinquedos incríveis, Batman é O Maior Detetive do Mundo...


A Cidade de Gothan é um mix de gótico e estilos arquitetônicos modernos, de forte viés setentista

Em matéria de "salto de fé" ninguém supera o morcego...




Notas:
 
 

 
*1: O personagem foi criado pelo escritor Bill Finger e pelo desenhista Bob Kane em 1939 com a missão de repetir o sucesso do Superman, que começara a ser publicado no ano anterior. Ele foi elaborado a pedido do editor Vin Sullivan e surgiu originalmente com o nome "Bat-Man". Sua primeira história foi The Case of the Chemical Syndicate, seguindo os parâmetros narrativos da época contidos nas revistas pulps.
 
 

*2: Batman foi influenciado em sua gênese por outros personagens, como o Zorro (do qual tirou a sua identidade secreta frívola), o Sombra (de onde veio os seus métodos justiceiros) e Drácula (com seu apelo misterioso e assustador). Também tem como referência filmes, como The Bat (1926), O Fantasma da Ópera (1925) e O Homem que ri (1928), que inspiraram elementos que formam o seu universo ficcional, como o seu visual do herói emulando um morcego, a atmosfera gótica de suas histórias e caraterísticas do seu grande arqui-inimigo, o Coringa.
 
 
 

 
*3: O Assassino do Zodíaco (em inglês: Zodiac Killer), retratado no filme Zodíaco (2007), de David Fincher, é o pseudônimo de um assassino serial que atuou no Norte da Califórnia, nos EUA, no final da década de 1960. Teve quatorze vítimas reconhecidas em Benicia, Vallejo, Lago Berryessa, e San Francisco, mortas entre dezembro de 1968 e outubro de 1969. Ele assinou com o nome que criou para si uma série de cartas ameaçadoras que enviou à imprensa até 1974. Seus crimes são descritos como o caso de assassinatos não resolvido mais famoso dos EUA, devido a falta de precisão no número de vítimas, às cartas criptografadas que ainda não foram decifradas e a falha na busca de suspeitos. O caso é considerado por muitos como um crime perfeito e tornou-se um elemento recorrente na cultura pop, inspirando filmes, episódios de seriados de televisão, romances e videogames. O caso permanece em aberto até hoje. 
 

 
 

 
*4: Emo ou emocore é um gênero de rock surgido no final dos anos 80. Uma variação do hardcore com letras emotivas e confessionais. Seus fãs são  reconhecidos por ter os olhos carregados de lápis preto, cabelo completamente colorido e por suas roupas acompanhadas de spikes, tachinhas e elementos quadriculados. Elementos da cultura pop, como Jack Esqueleto de O Estranho Mundo de Jack (1993) acabaram tornando-se marca registrada do grupo, além de suas roupas pretas acompanhadas de estampas de caveiras ou camisetas de bandas do gênero. que fizeram sucesso no movimento. Muitos deles são conhecidos por serem introvertidos e por isso ter grande dificuldade de fazer amizade.
 
 

 
*5: Clark Bartram, modelo e campeão de fitness, estrelou o fanfilm Batman: Dead End (2003), dirigido por Sandy Collora (diretor, designer e técnico de efeitos especiais). Nele, o herói, ao perseguir o Coringa (Andrew Koenig) que fugira do Asilo Arkhan, se depara com Aliens e Predadores, num duelo fatal. O diretor e Clark  ainda se reuniriam em World´s Finnest (2004), fanfilm feito em formato de um trailer fictício de um filme que reuniria Batman (Bartram) e Superman (Michael O´Hearn) contra Lex Luthor (Kurt Carley) e Duas-Caras (Michael Antonik).
 
 

 
*6: Slasher movies é um subgênero do cinema de horror surgido no início dos anos 1970, protagonizado por criminosos homicidas que saem fatiando jovens e quem passar pelo caminho. Os filmes O Massacre da Serra Elétrica (1974), Halloween (1978), Sexta-Feira 13 (1980) são os maiores expoentes do estilo e Pânico (1996) e Jogos Mortais (2004) figuram como exemplos de atualizações de seus conceitos.
 
 

 
*7: Christine, o Carro Assassino (1984), de John Carpenter (Fuga de Nova York), é um filme baseado num livro de Stephen King que conta a história de um jovem tímido que compra e reforma um velho Plymouth 1955 que é possuído pelo espírito de seu dono original, desenvolvendo uma relação destrutiva com todos à sua volta.
 
 
 

 
 

"- É comigo ???"


terça-feira, 1 de março de 2022

Lembranças da minha infância... - Resenha: O Homem-Morcego & Eu

 




Eu, sob a Sombra do Quiróptero 

 por Alexandre César 

(Originalmente postada em 27 / 05 /2019)



 A vida entre os quadrinhos, cinema, tv e a realidade

#Batman83Anos

 


Em seus primórdios, antes de estrear o seriado de 1966, a Rede Globo chegou a passar o cine-seriado de 1943

 
 
As minhas memórias afetivas em relação ao Batman, remontam à época em que estreou na Rede Globo de Televisão o icônico seriado sessentista Batman, estrelado por Adam West e Burt Ward. Antes da estreia eu vi, no mesmo dia e na Rede Globo, o seriado das matinês de cinema de 1943, The Batman (com 15 episódios de 30 minutos cada, em preto e branco) da Columbia Pictures, com direção de Lambert Hilyer (A Filha de Drácula, de 1936) e tendo Lewis Wilson como Batman/Bruce Wayne, Douglas Croft como Robin/Dick Grayson, Alfred sendo interpretado por Willian Austin e a presença do grande vilão nipônico Dr. Daka, interpretado por J.Carrol Naish (que não era japonês). O vilão adorava criar crocodilos, alimentando-os com frangos, e algum ocasional desafeto. Batman e Robin tinham a grande missão de deter o Dr. Daka e desviar a carga de rádio que ele mantinha sobre Gotham City para robotizar as pessoas, escravizando-as. Shirley Patterson fazia Linda Page, assistente do Dr. Borden na Fundação da Cidade de Gotham e paixão de Bruce Wayne.
 
 

Fosse nas telas ou nos quadrinhos, a galeria de vilões do morcegão não tinha rival (com exceção da do Homem-Aranha)


Mas, voltando ao seriado televisivo da dupla dinâmica, eu lembro o quanto me marcou ainda menino, quando morava no subúrbio de Barros Filho, na cidade do Rio de Janeiro, junto com vários da minha geração. Vivíamos a Era de Ouro da aventura & ficção na TV quando, além do “Cruzado Embuçado”, tínhamos a Jornada nas Estrelas original, Além da Imaginação, Quinta Dimensão, os seriados de Irwin Allen (Perdidos no Espaço, Viagem ao Fundo do Mar, Túnel do Tempo, Terra de Gigantes), Bonanza, Os Invasores, Daniel Boone, as séries do gênero Supermarionation de Gerry Anderson (Supercarro, Fireball - XL5, Thunderbirds, Stingray, Capitão Escarlate, Joe 90), os desenhosdesanimadosda Marvel, entre tantas outras. Mas o Morcegão tinha um apelo ao qual nenhum garoto, tivesse ele oito ou oitenta anos, podia resistir, tornando-se uma febre mundial. Lembro que eu, sempre que era levado ao barbeiro, pedia que me cortassem o cabelo num  “penteado igual ao do Batman (seja lá o que fosse isso...). 


A "bat-corda" e os convidados famosos, eram uma das marcas registradas do seriado

 
 
Na época a transmissão ainda era em preto e branco, mas as aventuras (contraditoriamente diurnas) do paladino de Gothan City exalavam cores vivas mesmo na reprodução em tons de cinza das telinhas. Era algo à frente de seu tempo, transpirando, em meio ao seu apelo escapista e estilizado permeado por um humor “ingênuo”, uma inteligência e sátira social que somente muitos anos depois eu entenderia. Exatamente por isso nunca deixaria de amá-la. E ainda tinha aquela versão do batmóvel, que viria a se tornar o carro mais famoso do mundo.
 
 

Isto sim era um CARRO...


Aqueles eram os Anos de Chumbo, quando o Brasil vivia a Redentora”, o golpe de 1964. Quando os militares - aliados ao empresariado, aos setores conservadores da sociedade e até a CIA - mergulharam o país no estado de exceção sob o pretexto de salvá-lo do comunismo que ameaçava a democracia... Familiar, não? E eu, ainda criança, ouvia os adultos falando que “havia um perigo no ar”, que “se os subversivos viessem, iriam nos fazer prisioneiros, nos obrigar a alimentá-los e obedecer às suas ordens”.  
 
 


Uma realidade preto e branco fazia fundo aos coloridos episódios do herói

 
Lembro que uma vez cheguei a imaginar a minha casa tomada por um bando de soldados mal-encarados (que curiosamente não eram barbudos...), sentados na sala, comendo uma comida que a minha mãe havia sido obrigada a fazer para eles e - afronta maior - estavam vendo a nossa TV e torcendo para que, daquela vez, o Batman não escapasse da armadilha. Que o Coringa ou o Pinguim ou qualquer dos malfeitores de Gotham havia armado uma armadilha para liquidar a ele e ao Robin!!! Torcer para que o Batman morresse!?! O Batman!?! “COMUNISTAS MALDITOS!!! QUE MORRAM TODOS!!!”, pensava eu na minha inocência impúbere...




Para muitos, o "SOC!", "PAFF!", "KAPOW!" "SPLATT! foi real e nada divertido...



Fui crescendo e descobri os quadrinhos do Batman (desenhados por Dick Sprang e George Klein, entre outros artistas da Era de Ouro dos quadrinhos) publicados pela editora EBAL. As revistas eram impressas em preto e branco e eu adorava pintar com lápis de cor, até acertando às vezes no equilíbrio cromático (às vezes como disse...). 



Opps!!! Capuz rosa!?!


E assim, gradativamente, fui tomando conhecimento do conceito raiz do Batman e o quanto a versão televisiva era uma entre as várias interpretações que o personagem permitia. Sempre surpreendendo pelas diferentes abordagens dos seriados, filmes, animações... e nos quadrinhos, que era onde tudo começou. Fui entendendo que épocas diferentes, mídias diferentes, trazem interpretações diferentes de uma mesma ideia. Fosse como fosse, os anos passaram, o mundo mudou, eu mudei... e mudou o Batman, embora continuasse a ser o mesmo, pois, somente abraçando a mudança conseguimos continuar a ser nós mesmos.
 


Mulher-Gato (Julie Newmar): A perdição de toda uma geração de garotos e adolescentes...

Abracei os quadrinhos - além do cinema, TV, animação, arte e literatura no geral -, mas sempre reservei um canto para aquele morcego de Gotham dos anos 60 e o seu batmóvel. Tive como fetiche a Mulher-Gato (e a Jeannie é um Gênio) e curti de montão as piadas que faziam acerca da comentada relação dele com o menino-prodígio. Ri muito com a imortal criação de Jô Soares, o Capitão Gay, quadro que ele atuava com o humorista Eliezer Motta no programa global Viva o Gordo, brincando com o conceito do super-herói em geral e com a chamada Dupla Dinâmica em particular. Era a dupla Capitão Gay (Soares) e o seu parceiro Carlos Sueli (Motta), cujas identidades secretas eram respectivamente “o Comendador Gouveia” e o seu fiel secretário Leopoldo. Parodiaram inclusive a clássica sequência da subida no prédio com a “bat-corda”, tão comum no seriado sessentista.
 
 


Na terceira temporada surgiu a Batgirl (Yvonne Craig) para atrair as meninas, e os adultos babões...

 
Paralelo a isso, fiz a faculdade, conheci os mestres Neal Adams, Ernie Chan, Marshall Rogers, Frank Miller, entre outros, que moldaram o Paladino Noturno dos quadrinhos com várias tintas, num crescendo que, ao atingir um patamar de massa crítica, lançaram novamente o personagem ao topo da Cultura Pop. 
 


Carlos Suely (Eliezer Motta) e Capitão Gay (Jô Soares) a icônica dupla humorística que fêz muito sucessso no programa "Viva o Gordo"



Nos traços limpos e dinâmicos de Marshall Rogers o herói brilhou no final dos anos 1970

 
Foi quando vieram os filmes, de Tim Burton, de resultados e qualidades variáveis, tirando, para a maior parte do público, o personagem do ostracismo, apostando numa estética dark/expressionista, e que fizeram de Michael Keaton (escolha improvável, mas acertada) um astro. Esta fase culmina com o filme de Joel Schumacher, que carnavalizou a franquia com suas luzes de neon e apostaram em Val Kilmer e em George Clooney para o papel do Homem-Morcego, mas, seu tom exagerado perdeu o equilíbrio, levando o personagem a um hiato de oito anos nos cinemas.  
 

Michael Keaton no filme 1989, cuja escolha dividiu os fãs, mas o tempo provou ter sido acertada

Keaton e Pfeifer em "Batman - O Retorno" (1992) onde Tim Burton investiu mais nas tintas, num filme mais autoral
 
 
 
 
Paralelamente aos filmes de Burton, fomos contemplados com a presença marcante do personagem no campo da animação por Batman Animated Series, Liga da Justiça, Liga da Justiça Sem Limites e Batman do Futuro. Também tivemos jogos para Super Nintendo e posteriormente Playstation 1 (embora pessoalmente, eu nunca tenha sido ligado em games). 
 


Em "Batman Begins" (2005) Christopher Nolan e Christian Bale criaram uma encarnação hiper-realista do herói, marcando época e tornando-se referencial

Com isso, a década de 1990 foi quando o o Batman deixou definitivamente de ser um personagem das HQs para se tornar a figura mais icônica e reconhecível da Cultura Pop. Tudo fruto de um exército de talentosos colaboradores, muitos dos quais sem os devidos créditos, como Bill Finger, ao qual Bob Kane (que, por muito tempo, foi considerado o único criador do herói) deve muitíssimo do sucesso do personagem. Mas isso é o outro lado da moeda da indústria do entretenimento corporativo, onde muitas vezes a materialização do sonho implica na destruição da ilusão e no gerenciamento do pesadelo. 

 


Algumas das muitas interpretações do personagem nas inúmeras animações de que participou

 
Vieram depois os filmes de Christopher Nolan, investindo mais no realismo e crítica sócio-política e consagrando o Psicopata Americano Christian Bale como o mais realista Cavaleiro das Trevas. Depois veio a visão de Zack Snyder, com Ben Affleck como um Batman obsessivo e de saco cheio de combater o crime e não ver uma mudança significativa do quadro social. Uma visão que acabou dividindo opiniões. Mas, como sempre, o nosso querido Morcego se viu desafiado a cativar uma nova geração, reinventando-se, ou a retornar a um nicho restrito de admiradores. E como sempre, ele venceu!



Em "Batman X Superman: A Origem da Justiça" (2015) de Zack Snyder, foi a vez de Ben Afleck criar uma nova versão do campeão de Gothan, mais obsessivo e melancólico, calcado em Frank Miller


Batman é ao mesmo tempo a materialização da obsessão e da Síndrome do Sobrevivente, bem como a materialização do desejo de vingança mesclado com aspirações de buscar justiça com as próprias mãos regadas a altas doses de fetichismo, contrabalançado com um rígido código de ética. É a busca do bem maior tribal travestido de vigilantismo criminoso. Mas também é uma alegoria do poder, da superação individual face às adversidades da vida quando enfrentamos nossos medos e os fazemos trabalharem ao nosso favor, transformando o medo e a raiva no fogo e no martelo que forjam o aço da perseverança e da disciplina, que tornam meninos assustados em vencedores destemidos.  
 


Qual fã, seja de qualquer sexo, idade ou nicho social não quis ter pelo menos um boneco, dentre as milhares de versões disponíveis no mercado???
  
 
Mais do que um psicopata rico que sai a noite vestido de morcego para sublimar um desejo de vingança por uma perda que nunca será saciada, Batman representa a força da superação, coisa que percebemos na comparação com a sua contraparte solar: O Superman.



Passados mais de 30 anos, "O Cavaleiro das Trevas" de Frank Miller ainda permanece um dos pilares conceituais do personagem


As grandes histórias do Superman são histórias de dilema moral, pois o grande poder do Homem de Aço é a sua capacidade de distinguir o bem do mal. Já as grandes histórias do Batman são histórias de superação, quando, atingindo os seus limites através do seu preparo diligente, ele consegue galgar um novo patamar, mostrando que, ao contrário do que se pensa, o aço não é mais forte do que a carne que o maneja... Coisa que talvez nem os seus criadores tenham intuído conscientemente  
 
 
Eu, e o meu "cospobre" na crítica em vídeo de "O Batman" (2022)

 
E não percam nossas resenhas no youtube e nos acompanhe no face e instagram  BLOG dos 3 Velhos Nerds
nem sempre na mesma bat-hora mas com muita bat-disposição.
 


"- Amanhã será um outro bat-dia, e se der sol, pode dar praia, e... surf!!!"