Teatralmente sólido
por Alexandre César
Denzel Washington mergulha em Shakespeare

Matriz expressionista: Orson Welles como o protagonista em "Macbeth – Reinado de Sangue" (1948) com Jeanette Nolan como Lady Macbeth
#Oscar 2022
Sendo uma das mais conhecidas tragédias de William Shakespeare, ao lado de Hamlet, Ricardo III, Rei Lear ou Titus Andronicus, Macbeth é uma obra particularmente interessante sobre o como uma semente de ambição pode rapidamente germinar, levando um indivíduo correto a entrar rapidamente numa espiral decadente de traição, crime e morte até um ponto sem volta levando à sua própria destruição.
Sangue e porrada: "Macbeth" (1971) de Roman Polanski com Jon Finch e Francesca Annis como o casal protagonista |
A última versão: Michael Fassbender e Marion Cotillard em "Macbeth: Ambição e Guerra" (2015) de Justin Kurzel |
As mais célebres versões são a expressionista de Orson Welles( Macbeth – Reinado de Sangue – 1948) com Welles como Macbeth e Jeanette Nolan a como sua ambiciosa esposa, Macbeth (1971) a crua e sanguinolenta versão de Roman Polanski, com Jon Finch e Francesca Annis; além de outras abordagens da obra, sendo a melhor Trono manchado de sangue (1957) de Akira Kurosawa (que fêz a transposição da trama para o Japão feudal) ou Homens de Respeito (1990) de William Reily com John Turturro e Peter Boyle que ambientava a trama no contexto da máfia nova-iorquina. A mais recente versão, a de de Justin Kurzel (Macbeth: Ambição e Guerra - 2015) com Michael Fassbender e Marion Cotillard como o casal ambicioso.
Escrito, dirigido e produzido por Joel Coen (Bravura Indômita) baseado na obra de William Shakespeare e produzido pela A24 e a IAC Films e sendo veiculado no streaming pela Apple TV, além dos cinemas, A Tragédia de Macbeth (2021) é um magnífico trabalho de adaptação do clássico que ao mesmo tempo que é dinâmico tecnicamente, é assumidamente teatral, sem pretensões de ser um filme realista (mas não é teatro filmado!), dialogando visualmente com a versão de Welles ,e até com Os Nibelungos – A Morte de Siegfried (1924) de Fritz Lang.
Na charneca, três Feiticeiras (Kathryn Hunter) saúdam Banquo (Bertie
Carvel) e Macbeth (Denzel Washington) e predizem o seu futuro |
Um grande acerto de Joel, em sua primeira grande obra (após terminar a parceria com seu irmão Ethan*1) é a escalação de elenco que evita escalar rostos jovens à todo custo, optando por atores veteranos como Denzel Washington (de Dia de Treinamento) e Frances McDormand (de Nomadland) entregando ao texto a força que só a experiência pode dar, e optando por um viés não-realista, isto facilita a submersão de seus atores nos personagens independente de sua etnia. Enxergamos no contexto do filme os escoceses medievais Macbeth e Macduff, e não, os afro-americanos Denzel Washington e Corey Hawkins (de Em um Bairro de Nova York) interpretando escoceses medievais.
Instigado
por sua esposa Lady Macbeth (Frances McDormand) o novo Barão de Cawdor
decide por um novo e sangrento plano em prática |
Assim, numa charneca, após uma batalha, à serviço de Duncan (Brendan Gleeson de A Balada de Buster Scruggs) Rei da Escócia, o honrado Macbeth, (Denzel Washington, trabalhando as dúvidas, mesquinharias e racionalizações do personagem) Barão de Glamis, e seu capitão, o sensato Banquo (Bertie Carvel de Dalgliesh), ao retornarem, são saudados por três Feiticeiras (Kathryn Hunter de Roma em ótima performance corporal) que preveem que ele será o novo Barão de Cawdor, e que ele será rei; e Banquo, pai de um rei que haverá de o suceder.
Ao retornar ao acampamento Macbeth recebe a notícia de que o rebelde McDonald (e seus aliado noruegueses) Barão de Cawdor foi vencido, e em reconhecimento por seus serviços, Macbeth é agraciado como o novo Barão de Cawdor, ficando próximo da linha de sucessão. Ao tomar conhecimento da profecia, Lady Macbeth (Frances McDormand, soberba nos estratagemas) sua esposa, se contamina pela ambição, instigando-o a matar Duncan, que se hospedará em seu castelo.
O trono vago,, gera um vácuo de poder, que Macbeth e sua Lady logo ocupam |
O estratagema é bem concluído à princípio, mas logo se estabelecem divergências, e os filhos de Duncan, Malcolm (Harry Melling de O Gambito da Rainha) Príncipe de Cumberland e o sucessor legítimo, e Donalbain (Matt Helm de Greyhound: Na Mira do Inimigo) fogem para a Inglaterra e Macbeth os acusa de mandantes do crime, tomando a coroa e se nomeando rei, e as alianças vão se formando, com Ross (Alex Hessell de Cowboy Bebop) ao lado de Macbeth (mas jogando em seu próprio favor), e Macduff (Corey Hawkins) Barão de Fife, no outro extremo. Banquo despacha seu filho Fleance (Lucas Barker de Jimmy Kimmel Live!) para longe, prevendo o pior, e mais sangue vai tendo de ser derramado para manter a posição do casal real, que rapidamente perde a paz de espírito, se consumindo no remorso e na paranoia. Assim a situação se mantém, com Lady Macbeth sonâmbula, lavando as mãos de sangue que só ela vê, e o tirano seguro de que nenhum “homem nascido de mulher” *2 o ameaçará, e de tudo estará estável “enquanto o Bosque de Dirnam não avançar ao seu encontro em Dunsinane”*3 mas, as coisas mudam...
Entre vários outros personagens, ainda temos Lennox (Miles Anderson de Radioflash); Lady Macduff (Moses Ingram de Candace), que ilustra a situação das famílias tragadas na luta pelo poder; Porter (Stephen Root de Perry Mason) o porteiro bêbado e Seyton (Jaes Udom de Judas e o Messias Negro) um capanga leva-e-traz...
...de três conhecidas que o aconselham sobre o que fazer |
Filmado nos imensos estúdios da Warner Bros em Los Angeles, California, o desenho de produção de Stefan Dechant (O Chamado da Floresta) junto com a direção de arte de Jason T.Clark (Capitã Marvel) e a decoração de sets de Nancy Haigh (Era Uma Vez Em... Hollywood!)
criam espaços ao mesmo tempo maciços e brutalistas, mas de aspecto
clean, de poucas texturas, dialogando com um estruturalismo
arquitetônico, apesar de um ou outro elemento mais expressionista, além
do mobiliário espartano.
Lady Mackbeth gradativamente vai cedendo ao peso do remorso por suas ações |
Os figurinos de Mary Zophres (Interestelar)
mescla um realismo funcional com a praticidade. Todos os trajes são
fáceis de seus personagens trocar, de uma cena para outra, como seria
num palco ao vivo, com intervalos de poucos minutos, com adereços
mínimos e delicados, como a coroa de Macbeth.
A belíssima fotografia de Bruno Delbonnel (O Lar das Crianças Peculiares)
trabalha o preto e branco em luminosos tons de cinza, lembrando a fase
inicial dos filmes de Ingmar Bergman, que conjugada com os efeitos
visuais da Framestore supervisionados por Michael Ralla (Sucker Punch: Mundo Surreal)
ampliam os ambientes e cenários, mantendo o aspecto visual de
ilustração de livro de várias cenas, cujo tom é sublinhado pela música
de Carter Burwell (Space Force)
profundamente atmosférica, cujos acordes de cordas, sublinham os
estados mentais de seus protagonistas e dão toques de sobrenatural e
fantástico ao filme.
A edição do próprio Coen, e Lucian Johnston (Midsommar: O Mal Não Espera a Noite)
condensam a trama em 1 hora e 45 minutos dando um bom pique narrativo
que não o deixa cair num tom arrastado, o que sempre periga de acontecer
na adaptação de um texto shakespeariano, cujos diálogos foram adaptados
de forma serem fluidos, embora não neguem sua origem-raiz.
O uso dos efeitos visuais criou imagens que realçam a teatralidade do filme |
Ao final, A Tragédia de Macbeth é um espetáculo belíssimo que mostra o quanto o bardo inglês ainda é atual, à despeito do preconceito de que suas obras seriam “datadas” não falando ao grande público, mas sempre sendo capaz de refletir sobre alguma faceta do ser humano, das mais sublimes aspirações, passando pelo ridículo e chegando
ao seu lado mais mesquinho e patético, refletindo sobre as vãs ambições
do homem, que muitas vezes oprime e esmaga o seu semelhante, mas ao
final, vê tudo pelo que lutou desvanecer-se na poeira do tempo como diz o
próprio Macbeth ao final, preste a ter sua batalha derradeira:
“A
vida é uma sombra que caminha... pobre ator que, em pleno palco, num
breve instante em que se contorce e se pavoneia, para nunca mais se
ouvir... É uma história contada por um tolo... toda ela som e fúria, nas
que nada significa...”
O tom geral das imagens do filme remetem à ilustrações de livro |
A performance corporal da veterana Kathryn Hunter no triplo papel das Feiticeiras surpreende |
Quantos tolos até agora, conduziram nossos destinos, seja no Brasil ou no mundo, e agora estão na derrocada de seus castelos de areia? E quantos tolos ainda estão dando ouvidos às profecias das três Feiticeiras???
Notas:
*1: Joel e Ethan Coen realizaram juntos (inicialmente no cinema independente) um das mais criativas parcerias do cinema americano, como Gosto de Sangue (1984), Arizona Nunca Mais (1987), Fargo (1996), Onde Os Fracos Não Têm Vez (2007) entre vários outros. Agora a parceria se desfez pois Ethan admitiu “não ter mais saco com o cinema e seu pessoal”, se dedicando apenas ao teatro, cabendo a Joel seguir em carreira solo.
*2: “homem nascido de mulher” - Na época de Shakespeare era uma expressão usada para designar os prematuros, que não tiveram o tempo de gestação normal de nove meses.
*3: “enquanto o Bosque de Dirnam não avançar ao seu encontro em Dunsinane” – no texto de Shakespeare, os homens de Malcolm e Macduff escondidos embaixo da árvores do bosque, cortam galhos com folhas e os carregam à frente para se camuflar durante o seu avanço, o que pareceria aos olhos de alguém do alto de uma torre do castelo de Dunsinane, de que a floresta ganhara vida.
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