sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Potência narrativa nos trilhos - Resenha: Filmes Ambientados em Trens


 

Potência narrativa nos trilhos

por Alexandre César
(publicado originalmente em 26 /12/2017)



O trem moderno é um veículo urbano mais ecologicamente limpo e seguro do que os ônibus e carros movidos a álcool ou gasolina. Sua capacidade de transportar grande quantidade de carga e pessoas permitiu o desenvolvimento e a ocupação do interior da maior parte dos países que tem relevância tecnológica e econômica no globo. Para viagens de longa distância, os trens permitem conforto e uma possibilidade maior de interação entre os passageiros do que um ônibus ou avião. 

 

Sean Connery, Lesley-Anne Down e Donald Sutherland: "O Primeiro Assalto de Trem"


Com estas características o trem é um ótimo cenário para a ambientação de tramas cinematográficas em que vemos a interação de personagens num cenário que pode ser aconchegante, mas restringe o poder de ir e vir. Eles podem, por exemplo, servir de locais que funcionam como o estopim que dá o início de narrativas, como Pacto Sinistro (de 1951, dirigido por Alfred Hitchcock) ou Fora de Rumo (de 2005, dirigido por Mikael Hafstron), este último com Clive Owen e Jennifer Aniston. Outros, como O Primeiro Assalto de Trem (de 1979, dirigido por Michael Crichton), que conta com Sean Connery e Donald Sutherland, têm seu clímax num trem. Isto também ocorre em De Volta para o Futuro III (de 1990, dirigido por Robert Zemeckis), onde “Doc” Brown (Christopher Loyd) turbina uma locomotiva para viajar pelo tempo e retornar com Marty McFly (Michael J. Fox) de volta à sua era. Existem ainda aqueles que tem um momento ou outro a bordo de um trem, mas este não é o cenário principal nestes filmes. Neste texto vamos nos prender ao trem como um dos elementos narrativos principais, seja como ambientação ou até como um dos personagens da trama, independente de gênero. Lembramos, porém, que esta é uma lista incompleta - nosso objetivo aqui não é esgotar o tema, mas apenas apresentá-lo, aproveitando o recém lançamento de Assassinato no Expresso do Oriente (de 2017, dirigido por Kenneth Brannagh), que já resenhamos aqui. 
 

Burt Lancaster. "O Trem": Ação garantida

  

O Trem (1964), de John Frankenheimer e Arthur Penn, acompanha as ações de um chefe de estação (Burt Lancaster) que, na França, durante o final da ocupação alemã da Segunda Guerra Mundial, tenta impedir que um coronel alemão (Paul Scofield) parta em um trem levando preciosas obras de arte francesas pilhadas pelos nazistas, enquanto os aliados já estão avançando e libertando o país. A única ordem que é dada pela resistência ao chefe de estação é que, aconteça o que acontecer, a carga não deve ser atingida. Um trabalho e tanto, mas nunca se manda Burt Lancaster para um piquenique, certo?

 

Frank Sinatra e Trevor Howard: Fuga alucinada com a Wermacht atrás



O Expresso de Von Ryan (1965), de Mark Robson, conta com Frank Sinatra e Trevor Howard e também é ambientado na Segunda Guerra Mundial. Aventura das boas, com um final inesperado, o filme mostra uma fuga de um campo de prisioneiros aliados no interior da Itália. Os fugitivos roubam um trem para chegar na Suíça, tendo as forças alemães no seu encalço. Sinatra não canta, mas se mostra um bom protagonista de filmes de ação. Essa sua qualidade acabou sendo reaproveitada em outros filmes, como os dois em que interpreta o detetive Tony Rome (1967 e 1968), ambos dirigidos por Gordon Douglas. 

 

Christopher Lee, Peter Cushing e Telly Savalas: astros em trama rocambolesca


Temos no gênero terror, o cult Expresso do Horror (1972), de Gene Martin. Uma produção hispano-inglesa com Christopher Lee, Peter Cushing e Telly Savalas, numa trama mal remendada que se passa em 1906 num trem, vemos a equipe de uma expedição geológica britânica que carrega de volta ao Reino Unido uma criatura congelada descoberta no gelo da Manchúria, que descongela e se revela um ser extraterrestre que suga a mente de suas vítimas, fortalecendo-se e ficando cada vez mais perigoso. Lee e Cushing são os destemidos cientistas e Savalas um comandante Cossaco. Um clássico trash imbatível!
 

Albert Finney como Hercule Poirot: fiel a obra clássica de Agatha Christie

 

Assassinato no Orient Express (1974), de Sidney Lumet, com Albert Finney como o detetive Hercule Poirot é bastante fiel ao clássico romance original de Agatha Christie, contou com primorosa direção de arte, fotografia, figurinos e um elenco estelar, no qual se destaca Ingrid Bergman, que ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo seu papel, e teve várias outras indicações ao prêmio, tendo sido refilmado por Kenneth Brannagh em 2017, além de várias versões para a TV, vídeo, quadrinhos e até videogames.

 

Charles Bronson se equilibrando nos trilhos em "O Trem do Inferno"
 

O Trem do Inferno (1975), de Tom Gries traz Charles Bronson, Jill Ireland, Ben Johnson e Richard Crenna  numa trama que  gira em torno de vários mistérios e assassinatos que envolvem a passagem de um trem (comboio) do exército por uma região desolada dos Estados Unidos da América, em meados do século XIX. O roteiro foi escrito pelo próprio autor do livro Alistair MacLean, publicado em 1974. Uma boa mistura de ação, mistério e Farwest.


 

"O Expresso de Chicago" (1976) Gene Wilder cai e volta ao trem vezes sem conta


Na linha das comédias de aventuras, com ecos no cinema catástrofe, temos O Expresso de Chicago (1976), de Arthur Hiller. Com Gene Wilder, Richard Pryor e Jill Clayburgh, o filme apresenta um passageiro atrapalhado (Wilder, quem mais?) em um trem onde conhece uma mulher interessante (Clayburgh, no auge de sua beleza) e acidentalmente testemunha um assassinato cometido pelo patrão dela (Patrick McGoohan, o eterno protagonista do seriado inglês O Prisioneiro). Mas, como não consegue provar o que diz ter visto, é preso e se vale da ajuda de um trambiqueiro (Pryor) para voltar ao trem e salvá-la. A trama se resume às várias vezes que ele volta ao trem ou é tirado dele ao longo do seu trajeto. Entre os vilões da história temos o gigante Richard Kiel antes de ficar famoso como Jaws (Dentes de Aço) nos filmes de 007 estrelados por Roger Moore. A música de Henry Mancini embala esta divertida comédia que tem o seu clímax na sequência final, quando o expresso, desgovernado, avança, demolindo a estação. Pegue a sua passagem e embarque nesta viagem.

 

Tensão em "Travessia de Cassandra"

Ainda no cinema-catástrofe tivemos A Travessia de Cassandra (1976), de George Pan Cosmatos. Uma produção anglo-italiana com Richard Harris, Sophia Loren e Burt Lancaster encabeçando um elenco estelar que mescla intriga política, terrorismo e medo epidêmico. Em Genebra, terroristas atacam um prédio americano da Organização Mundial de Saúde (como???), mas tudo dá errado, com o terrorista sobrevivente do atentado se contaminando com uma variante experimental da peste bubônica. Os responsáveis por investigar o caso descobrem que ele fugiu em um trem que está a caminho de Estocolmo. Forças da OTAN param e lacram o trem, que é desviado para o campo de Janov, na Polônia, onde ficará em quarentena

 

A ponte em arco de aço Garabit, que representou a perigosa passagem de "a Travessia de Cassandra".


Mas, para chegar a este novo destino, ele precisa passar por uma ferrovia usada pelos nazistas na 2ª Guerra Mundial e abandonada em 1948. No meio do caminho há uma ponte em arco suspensa (a “Travessia de Cassandra” do título), perigosa e sem manutenção desde o seu abandono. A tensão claustrofóbica entre os passageiros (pontuada pela trilha de Jerry Goldsmith) vai se acumulando até chegar ao ponto de ruptura, podendo levar a uma iminente tragédia. O uso no filme de miniaturas e cenários em tamanho real que são destruídos ao decorrer da história é muito bom, atestando a habilidade de Cosmatos para filmes de ação (ele faria em 1985 Rambo II: A Missão) e, apesar da má recepção da crítica na época, não só se pagou como até deu lucro. Um filme que vale a pena rever, apesar do roteiro cheio de irrealidades já estar um tanto datado.

 

John Voight e Eric Roberts : "O Expresso Para o Inferno"


 John Voight teve sua grande redenção após anos de ostracismo com sua interpretação visceral (ganhadora do Globo de Ouro e indicada ao Oscar) do protagonista em O Expresso para o Inferno (1985), de Andrey Konchalovsk, filme baseado num plot de Akira Kurosawa. Voight encarna Manny, um prisioneiro que foge com um colega (Eric Roberts) de um presídio de segurança máxima no Alasca. Eles embarcam clandestinamente num trem cargueiro, sem saber que o seu maquinista morreu vítima de um infarte. Com isso a composição vai aumentando gradativamente de velocidade e segue desgovernado. O embate entre ele e Ranken (John F. Ryan) o sádico chefe de segurança do presídio do qual escapou e vai em seu encalço, é antológico. Temos neste filme uma Rebecca de Mornay totalmente desglamourizada, com o talento tirando a atenção de sua beleza. Uma produção da dupla Menahem Golan e Yoran Globus, da Cannon Group Inc. especializados em filmes toscos, mas populares nos anos 80. Só que aqui eles fazem filme de gente grande. Filmaço.

 

De Promotor a herói de ação: Anne Archer e Gene Hackman em "De Frente para o Perigo" (1990)


De Frente para o Perigo (1990), de Peter Hyans, traz Gene Hackman como um promotor que vai buscar uma relutante testemunha (Anne Archer) no interior do Canadá para depor contra um chefão mafioso. Mas, sem querer, acaba sendo o responsável por expô-la àqueles que pretendiam eliminá-la. Os dois procuram fugir embarcando em trem para Vancouver. Parecia uma boa ideia, mas assassinos escondidos no trem não farão desta uma viagem monótona, forçando o nosso herói improvável a procurar descobrir quem entre os passageiros quer matá-los para impedir a testemunha de chegar ao julgamento. Este longa-metragem é uma refilmagem de Rumo ao Inferno (1952), clássico noir de Richard Fleischer (responsável pela versão de 20.000 Léguas Submarinas da Disney), foi indicado ao Oscar de melhor roteiro original.

 

Stevem Seagal: o cozinheiro novamente em ação

  

Após o sucesso do primeiro filme da franquia, ambientado em um navio, A Força em Alerta 2 (1995), de Geoff Murphy, apresenta Steven Seagal novamente como o imbatível cozinheiro e exército-de-um-homem-só Casey Ryback, agora em um novo cenário: um trem em que ele, ainda sozinho, munido de sua habilidade e algumas facas ginsú, combate o gênio do mal Travis Dane (Eric Bogosian) e o mercenário Marcus Penn (Everet McGil). Tal como o vilão do primeiro filme, Dane é um dos ex-operativos da CIA que Tom Breaker (Nick Mancuso, ôh sujeitinho desastrado...) não conseguiu manter na linha, e o pobre cozinheiro, que só quer viver tranquilo, é obrigado a novamente exterminar bandidos. Aqui ele conta com a ajuda de sua jovem sobrinha Sara, uma jovem Katherine Heigl muito antes de estourar com Grey´s Anatomy (todos temos um passado a esconder...). Bons valores de produção embalam esta divertida e descerebrada aventura, da época que Seagal tinha poder de fogo nas bilheterias e ainda não tinha descoberto a ser a reencarnação de um lama tibetano.

 

"O Expresso Polar" (2004) As várias faces de Tom Hanks

 
 
Para quem curte animação e temas natalinos, temos O Expresso Polar (2004), de Robert Zemeckis, onde, por via da animação digital e da técnica de captura de movimentos, Tom Hanks interpreta vários personagens nesta colorida viagem rumo ao Polo Norte onde várias crianças vão encontrar Papai Noel. Aqui o trem é um elemento visualmente rico e palco de vários momentos-chave da trama. Deleite-se com o visual e as mensagens edificantes.
 
 
"Moebius": Sci-fi argentino

 
 Moebius (1996) de Gustavo Mosquera é um science fiction argentino estrelado por Guillermo Angelelli, Roberto Carnaghi e Annabella Levy. É baseado no clássico conto "A Subway Named Möbius" de Armin Joseph Deutsch.O filme se passa no metrô de uma distópica e dark Buenos Aires.
 
 

Snowpiercer, o trem onde habitam os últimos seres humanos em "O Expresso do Amanhã"


 
O Expresso do Amanhã (2013), de Bong Joon-Ho, diretor do cult sul-coreano O Hospedeiro (2006), traz em um futuro glacial pós-apocalíptico o eterno Capitão América Chris Evans, junto com os últimos sobreviventes humanos da Terra vivendo uma luta de classes dentro do Snowpiercer, um quilométrico trem autossustentável que roda incessantemente ao longo do planeta. O ambiente claustrofóbico é palco de um sistema de castas em que as camadas mais pobres vivem na miséria enquanto as mais abastadas só usufruem das benesses. Um microcosmo que se alimenta das desigualdades, praticando um darwinismo social cruel. Ficção científica com reflexão social e política das boas, baseada na HQ francesa Le Transperceneige, de Jacques Lob e Jean-Marc Rochette.
 
 

"O Expresso do Amanhã": De filme cult para o streaming


 
  No elenco, Jamie Bell, William Hurt, Tilda Swinton e Ed Harris. Gerou uma série com Jennifer Connely, inicialmente produzida pela  TNT, depois veiculada pela Netflix até agora com duas temporadas e uma terceira à caminho e talvez, mais além, caso a produção  não descarrilhe dos trilhos.
 
 
"O Passageiro" (2018): Liam Neeson e Vera Farmiga entre a tensão sexual e o perigo mortal

 
 O Passageiro (2018) de Jaume Collet-Serra traz Liam Neeson, o "herói de ação da terceira idade" como um ex-policial, agora vendedor de seguros que durante o seu trajeto usual de volta para casa, é forçado por uma estranha misteriosa (Vera Farmiga) a descobrir a identidade de um dos passageiros do trem em que se encontra antes da última parada. Com a rotina quebrada, o homem se encontra no meio de uma conspiração criminosa. Bom thriller de ação e suspense.
 
 
Séries de TV
 
 
Casey Jones (Alan Hale Jr.) era um faroeste sobre trilhos 

 
 Casey Jones era uma série infantil americana de faroeste exibida inicialmente em 1958. O tema é baseado em torno do pioneiro na construção de ferrovias Casey Jones (Alan Hale Jr.). A série também foi ao ar na BBC no Reino Unido e no canal Nine Network na Austrália. Aqui no Brasil foi veiculada na antiga TV Excelsior.

 

"Supertrain": ótimos efeitos visuais em trama frouxa

 

Tivemos ainda na TV duas séries, todas as duas de 1979 e ambas mal-sucedidas, tendo como principal cenário um trem. Uma foi Tivemos ainda na TV duas séries, todas as duas de 1979 e ambas mal-sucedidas, tendo como principal cenário um trem. Uma foi Supertrain, sobre um mega-trem movido à energia atômica que rodava por todo os EUA. Com piscina, academia, discoteca, ele era tal qual um transatlântico sobre trilhos à la O Barco do Amor

 

"Supertrain": As maquetes eram de um tamanho robusto
 

Apesar da inicial boa audiência do piloto, afundou por causa dos roteiros ruins, ocupando o 28˚lugar dos 50 maiores fracassos televisivos da história. Deu um megaprejuízo à rede NBC, que torrou uma grana indecente em miniaturas e efeitos especiais (de muito boa qualidade, diga-se de passagem...). Teve nove episódios, e foi exibido no Brasil pelo SBT com o nome de Super Trem

 

"Time Express": Vincent Price & Coral Browne não seguraram a audiência
 

A CBS teve Time Express, misto de Além da Imaginação e A Ilha da Fantasia, onde o casal Vincent Price e Coral Browne (casados na época) são os anfitriões de um trem fantástico que viaja no tempo, levando os seus convidados a revisitarem momentos cruciais de suas vidas e consertá-los. Feita no formato de antologia, como Galeria do Terror, apresentava duas histórias por episódio. Só foram produzidos quatro. 

 

Doctor Who (Peter Capaldi) em “Múmia no Expresso do Oriente” (2014)

 

Ainda em 2014 tivemos na 8ª Temporada da série atual de Doctor Who o episódio “Múmia no Expresso do Oriente”escrito por Jamie Mathieson e dirigido por Paul Wilmshurst, com o 12º Doutor (Peter Capaldi) numa trama que é um mix de Assassinato no Expresso do Oriente com o Expresso do Horror ambientado num trem espacial, num resultado insólito, como tudo ligado ao Doutor.

 

Alegria sobre trilhos: Thomas e Seus Amigos

Os trens, seus trilhos e suas estações, funcionam muito bem como metáforas para a vida, com suas trajetórias pré-determinadas cruzando múltiplas zonas urbanas e rurais, cada uma com sua característica. Seu ambiente de convívio forçado pode refletir a sociedade, seus conflitos e suas tribos. Não é à toa que, além do cinema, é um elemento inspirador em outras formas de arte, como na música Encontros de Despedidas, de Milton Nascimento e Fernando Brant (“O trem que chega / É o mesmo trem da partida”), seriados infantIs de animação, como Thomas e Seus Amigos, de Britt Allcroft, e em games de sucesso, como a série Railworks, da Dovetail Games. São capazes de inspirar paixões, como os adeptos do ferromodelismo podem comprovar. Por tudo isso, mesmo com os novos transportes do século XXI, esses antigos comboios de metal ainda vão continuar por aí, inspirando novos filmes e outras obras de arte, com seu clima romântico ou de suspense. Fica a critério do freguês. 

 

Ferromodelismo: trens movendo paixões


 


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